Consumo
de drogas pelos brasileiros aumenta nos últimos 11 anos, impulsionado pela
maconha
O
percentual de brasileiros que relatam já ter experimentado alguma substância
psicoativa de uso proibido ao menos uma vez na vida passou de 10,3% para 18,8%
em um intervalo de 11 anos, segundo dados do III Levantamento Nacional de
Álcool e Drogas (Lenad III), realizado por pesquisadores da Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp).
O
estudo, que é uma das principais referências epidemiológicas do país, revela
que o crescimento no consumo de substâncias ilícitas foi impulsionado
majoritariamente pelo consumo de maconha, seguindo uma tendência observada em
outros países ocidentais.
Para a
psicóloga Clarice Madruga, coordenadora do levantamento, esse salto era
esperado devido ao longo intervalo entre as edições da pesquisa (a última foi
realizada em 2012 com a mesma metodologia) e à percepção social sobre os riscos
da droga.
“O
Brasil tinha, em 2012, uma prevalência de consumo de maconha baixa em relação a
outros países. A prevalência mais alta, na verdade, que se destacava naquela
época era o consumo de cocaína e crack. O que parece ter ocorrido nesses 11
anos, embora ainda faltem evidências mais robustas, é que o uso ao longo da
vida aumentou, enquanto o uso recente não. Isso sugere que, em algum momento do
período, pode ter havido crescimento no consumo de cocaína e crack que não foi
captado na época, e que depois se estabilizou. Assim, o aumento de cerca de 80%
é explicado principalmente pela cannabis, que antes estava muito abaixo da
média", explica a pesquisadora.
Segundo
Clarice, esse aumento aconteceu em todos os países ocidentais em que há
registro. “Em alguns países, esse aumento ocorreu antes. No Brasil, isso
aconteceu nos últimos dez anos. Em 2012, tínhamos um consumo de maconha baixo e
agora ele está dentro de uma média”, complementa.
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Os resultados
O
levantamento também detectou mudança no perfil do consumidor. Embora o consumo
entre homens seja maior, entre o público feminino adulto o crescimento também
foi expressivo: o uso de qualquer droga ilícita ao longo da vida quase dobrou,
passando de 7% para 13,9%. Uma das hipóteses da pesquisadora para esse fenômeno
é uma crença equivocada de que a cannabis ajudaria a “acalmar” ou controlar o
estresse.
“Estamos
diante de um mal-entendido: uma percepção social equivocada de que a maconha
ajudaria a reduzir a ansiedade, quando, na realidade, pode aumentar o risco de
desenvolvimento de transtornos ansiosos, sobretudo devido à maior potência da
cannabis que circula atualmente no mercado. Esse fator poderia contribuir para
explicar o cenário observado. Ainda assim, trata-se de uma hipótese, uma
especulação sobre por que o aumento foi tão expressivo entre meninas”, afirma a
coordenadora do levantamento.
Detalhes
de uma flor de cannabis — Foto: Reprodução
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Como foi feito o estudo?
Nesta
edição do Lenad, a equipe aferiu a taxa de experimentação e de consumo recente
de 16 drogas ilícitas no país por meio de entrevistas realizadas com uma
amostra representativa da população brasileira com mais de 14 anos.
O Lenad
III é considerado um estudo de alta confiabilidade por utilizar a metodologia
de autopreenchimento sigiloso. Diferentemente de outras pesquisas, em que o
entrevistado responde abertamente ao pesquisador, o que pode gerar
subnotificação por medo ou vergonha, o participante responde diretamente em um
tablet, garantindo o anonimato. Quando não sabiam ler ou escrever, os
participantes registravam, em áudio anônimo, as respostas às perguntas
previamente gravadas.
A
amostra do estudo foi de 16.608 pessoas, cobrindo todo o território nacional,
incluindo áreas urbanas e rurais. Foram sorteados 900 setores censitários em
diferentes municípios. A seleção levou em conta a renda média dos domicílios:
os setores foram ordenados por renda, e a probabilidade de escolha foi
proporcional ao número de casas em cada setor.
Depois
de listar todos os domicílios desses setores, parte deles foi selecionada
aleatoriamente com a ajuda de um programa de geração de números aleatórios.
Substâncias
mais consumidas. — Foto: Arte g1
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O perigo para o “cérebro em desenvolvimento”
Um dos
pontos destacados no levantamento é a alta proporção de jovens consumindo
drogas. Segundo a pesquisadora, o acesso facilitado e a crença de que a maconha
não causa danos são fatores críticos, especialmente porque qualquer substância
psicotrópica, incluindo álcool, tabaco e vape, pode causar danos significativos
a um cérebro ainda em desenvolvimento.
A
especialista destaca que o consumo de drogas pode trazer diferentes impactos
para a saúde e o desenvolvimento dos jovens. Entre as principais preocupações
estão os prejuízos cognitivos, como problemas de memória e aprendizado, além de
alterações no controle de impulsos, já que a substância afeta áreas do cérebro
responsáveis pela tomada de decisões.
Para a
pesquisadora, estratégias baseadas em “amedrontar” os jovens com informações
exageradas não são eficazes. Segundo ela, a redução do consumo de drogas no
Brasil depende de políticas públicas integradas. Entre as medidas necessárias
estão o investimento em educação, com valorização dos professores e maior
suporte às escolas, e a ampliação de opções de lazer, com oferta de atividades
culturais e esportivas, especialmente voltadas a populações mais vulneráveis.
“Valorizar
a educação é, sem dúvida, uma estratégia de prevenção bastante importante.” —
Clarice Madruga, coordenadora do levantamento.
Fonte:
g1

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