O
que é a Armadilha de Escalada, que explica por que guerra no Irã pode sair de
controle
Uma
potência decide atacar outra com força limitada para atingir um objetivo
determinado. A agredida reage por meio da expansão do campo de batalha. A
agressora escala o conflito a fim de recuperar a iniciativa.
Essa
sequência, descrita em um modelo chamado Armadilha de Escalada, do
norte-americano Robert Pape, tem sido invocada para explicar o que ocorre
na Guerra do Irã.
Depois
de realizar cerca de oito mil voos sobre o território iraniano e atingir cerca
de 7 mil a 7,8 mil alvos no país, matando o líder supremo da república
islâmica, Ali Khamenei, e parcela
considerável da cúpula do regime, os Estados Unidos ainda parecem
longe de atingir os objetivos anunciados no início das hostilidades.
Pressionado,
o presidente Donald Trump emite sinais
contraditórios: afirma que os EUA "já venceram", pede ajuda
internacional para desobstruir o estreito de Ormuz, tenta se dissociar
do bombardeio israelense da maior planta
de gás natural do Irã e ameaça explodir as mesmas
instalações se houver novos ataques iranianos ao Catar.
Adicionalmente,
a guerra provoca a maior disrupção de oferta de petróleo da história, segundo a
Agência Internacional de Energia (AIE), com a cotação do barril atingindo quase
US$ 120 esta semana, além de causar pressão inflacionária global e abalo de cadeias
produtivas.
Desde
que se iniciou o conflito no Oriente Médio, em 28 de fevereiro,
a Armadilha de Escalada passou a ser citada em reportagens e análises no mundo
inteiro e registrou aumento de 20% em buscas no Google.
Pape,
que é professor de Ciência Política na Universidade de Chicago, tornou-se
presença constante em programas de TV, lives e podcasts.
Conselheiro
de assuntos estratégicos de todos os presidentes dos EUA desde 2001, ele
simulou por 20 anos o bombardeio da planta nuclear iraniana de Fordow, atingida
por caças norte-americanos em junho de 2025, e a mudança de regime no Irã.
Com
base nessa experiência, está convencido de que o regime dos aiatolás está,
paradoxalmente, mais forte hoje do que antes do início da Operação Fúria Épica.
"O
Irã no 17º dia [da guerra] é mais perigoso e mais poderoso do que antes de a
primeira bomba cair", afirmou na terça-feira (17/3) ao canal de TV indiano
India Today.
Quatro
dias antes do começo da guerra, Pape lançou na plataforma Substack uma
newsletter com o nome de seu modelo. "O termo 'armadilha da escalada' está
agora se espalhando. Não é um acidente", afirmou.
Em vez
de prestar atenção em alvos, armamento e supremacia aérea — elementos vitais em
qualquer conflito contemporâneo —, o modelo volta-se para aspectos mais difusos
da guerra: transição progressiva de menor para maior engajamento, ilusão de
controle, escalada e desescalada.
"Análises
geralmente explicam eventos. Poucas explicam em que fase um conflito está
entrando — e o que isso significa antes que se converta em engajamento. A
Armadilha da Escalada fornece a você as molduras para reconhecer quando a
pressão passa de crise episódica a envolvimento estrutural", sustentou o
autor.
Os
elementos enfatizados pela Armadilha de Escalada têm uma característica comum:
encontram-se na encruzilhada entre guerra e política, terreno no qual predomina
a incerteza, de acordo com o cientista político.
"A
Armadilha de Escalada não quer dizer simplesmente que as guerras ficam maiores.
Quer dizer que os esforços para controlar um conflito podem torná-lo mais
difícil de controlar", afirmou.
<><>
Modelo serve especialmente para a realidade dos EUA
Professor
do Programa de Pós-graduação em Estudos Estratégicos Internacionais da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Érico Duarte afirma que o modelo da
Armadilha de Escalada é uma síntese da tese desenvolvida por seu autor na
obra Bombing to Win: Air Power and Coercion in War —
("Bombardeando para vencer: poder aéreo e coerção na guerra", em
tradução livre), livro publicado em 1996, sem edição brasileira.
"É
um modelo que serve especialmente para informar o público americano sobre os
custos que o Estado terá ao investir ou abandonar uma guerra", descreve.
Entre
os limites do modelo, Duarte cita o papel irrelevante atribuído à situação
política que antecedeu o conflito e a dificuldade de ser aplicado a outros
países além dos EUA. "A Armadilha de Escalada não contempla, por exemplo,
a situação de Israel diante do Irã", assinala o professor.
A
guerra no Golfo Pérsico, segundo Duarte, tem
várias camadas. Uma delas é o envolvimento norte-americano. Outra é a
participação de Israel. Deve-se considerar
também, ele diz, o papel de países como as monarquias do Golfo Pérsico, a Turquia e até mesmo
nações mais distantes como o Brasil.
"Como
os EUA são a principal potência envolvida na guerra, são obrigados a absorver
todos os custos e pressões de outros países — aliados, nem tão aliados ou
rivais — sobre os custos imediatos ou de longo prazo dessa guerra",
afirma.
Segundo
Duarte, os Estados Unidos já entraram em modo de controle e redução de danos no
Golfo Pérsico e dificilmente evoluirão para um envolvimento em larga escala
como ocorreu no Afeganistão e no Iraque.
"Os
EUA estão partindo para uma política de acomodação. Até podem aumentar as
ameaças midiáticas e discursivas, mas não acho que queiram escalar a guerra do
ponto de vista material."
Professor
de Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba e pesquisador do
Observatório de Capacidades Militares e Políticas de Defesa, Augusto Teixeira
aponta dois pontos fortes do modelo de Pape: a ênfase os limites do poder aéreo
na produção de vitória e a definição das operações terrestres como estágio
seguinte de escalada por parte da potência agressora.
No caso
da Guerra do Irã, diz Teixeira, evitar a escalada implicaria reduzir o alcance
dos objetivos políticos, oferecendo a Trump o que vem sendo chamado de
"off-ramp", ou saída estratégica, algo que permita ao presidente
americano declarar vitória sem a realização de todos os propósitos cogitados no
início da ofensiva.
Teixeira
afirma que o aspecto crítico abordado pela Armadilha de Escalada é a relação
entre os objetivos políticos e os níveis estratégico e tático.
"Eles
têm de ser claros e relativamente delimitados para que o poder militar possa
persegui-los. A mudança de objetivos políticos pode tornar complicado o ajuste
de instrumentos militares para sua consecução", diz Teixeira.
O
pesquisador enfatiza também a disparidade das métricas de sucesso militar em
nível tático (entre as quais inclui as mortes de líderes políticos e chefes
militares) e estratégico, que define como "a ponte entre o uso da força no
campo de batalha e os efeitos para produção das condições políticas
desejáveis".
"Quais
são as condições políticas desejáveis para os Estados Unidos, aquilo que se
chama popularmente de 'endgame' [pontuação ou meta que define a conclusão de
uma partida esportiva]?", questiona Teixeira.
Para o
professor, o presidente dos Estados Unidos e seus auxiliares têm se referido a
múltiplos objetivos políticos, da mudança de regime ao enfraquecimento da
capacidade militar iraniana e ao fim de seu programa nuclear.
"A
Armadilha da Escalada está intimamente ligada à característica do objetivo que
Trump escolher como definitivo. Se for um objetivo minimalista, como a
degradação da capacidade de projeção de força militar do Irã, ele conseguirá
argumentar que, uma vez alcançado esse propósito, é possível retrair [a ação
norte-americana contra o Irã]."
Teixeira
afirma que toda guerra demanda estratégia, ou seja, planejamento militar de
alto nível para atingir um determinado fim. "O problema é que estratégia é
algo jogado por dois atores. O outro também tem direito de fala e vai reagir a
fim de impedir que se realize", argumenta.
No caso
do Irã, acrescenta, travar uma guerra defensiva para manter o regime no poder
tem vantagens evidentes: se a República Islâmica sobreviver ao conflito, seus
partidários poderão declarar vitória estratégica.
<><>
Custos da guerra são mais baixos para o Irã, diz pesquisador
Segundo
Ricardo de Toma, pesquisador pós-doutoral do Instituto Meira Mattos da Escola
de Comando e Estado-maior do Exército (Eceme), o modelo de Armadilha de
Escalada é aplicável à Guerra do Irã, mas apenas parcialmente.
"Os
Estados Unidos e Israel executaram com eficácia uma fase inicial de decapitação
da cadeia de comando e de negação da capacidade de retaliação, concentrando-se
nos lançadores de mísseis, fato inclusive celebrado por Trump. O problema é que
o recrudescimento e a continuidade dessa situação já ameaçam uma evolução para
uma guerra regional", afirma.
A
Armadilha de Escalada manifesta-se, segundo De Toma, no alastramento de ataques
com mísseis e drones pelo Irã contra os países vizinhos. "Esse
desdobramento amplia os custos políticos e estratégicos da operação, que são
consideravelmente mais baixos para o Irã", observa.
De
acordo com De Toma, o modelo de Pape captura a lógica, mas não a geometria
específica do conflito atual, no qual é o Irã que, enfraquecido militarmente,
recorre a retaliações assimétricas "para evitar uma derrota percebida como
total".
Segundo
o pesquisador, o presidente dos Estados Unidos ocupa um papel triplo no
conflito: decisor estratégico, ator comunicacional e fator de
imprevisibilidade.
O fato
de Trump ter oferecido justificativas múltiplas e contraditórias para a guerra
acabou contrariando os próprios objetivos externos de seu movimento Make
America Great Again, mais isolacionista e avesso à participação americana em
guerras externas.
"Essa
ambiguidade narrativa [de Trump] é disfuncional: impede a formação de coalizões
internacionais, fragiliza a legitimidade da operação e incrementa
consideravelmente os custos para os Estados Unidos."
De Toma
observa que nenhum outro país-membro da Organização do Tratado do Atlântico
Norte (Otan) além
dos Estados Unidos atacou diretamente o Irã.
"No
Irã, o papel de Trump é o de um presidente que conduz uma guerra de alta
intensidade sem doutrina estratégica coerente, substituindo a clareza de
objetivos pela intimidação retórica."
¨
Diego Garcia: como é a remota ilha no Índico onde há base
secreta dos EUA que Irã tentou alvejar
O
jornal Wall Street Journal e a rede televisiva CNN noticiaram durante a noite
de sexta-feira (20/3) que o Irã lançou de mísseis balísticos contra a ilha de
Diego Garcia, no Oceano Índico, citando autoridades americanas não
identificadas.
Nenhum
dos disparos teria atingido o alvo. Um dos mísseis lançados teria falhado em
voo, enquanto o outro foi interceptado por um navio de guerra americano. Não
está claro quando eles foram lançados.
A BBC
confirmou as informações. Os militares americanos se recusaram a comentar o
incidente.
Uma
ilha remota no arquipélago de Chagos, no Oceano Índico, Diego Garcia fica a
cerca de 3.780 km do Irã. Até então, acreditava-se que o Irã possuía mísseis
balísticos de alcance intermediário, capazes de viajar até 2.000 km.
No
entanto, alguns analistas militares, incluindo os do Centro de Pesquisa e
Educação Alma, de Israel, o míssil Khorramshahr do Irã pode ter um alcance de
até 2.900 km.
A
tentativa de ataque aéreo ocorreu antes de o Reino Unido concordar em permitir
que os EUA usassem bases militares britânicas para atingir alvos iranianos que
visam navios no Estreito de Ormuz.
Diego
Garcia abriga uma base militar secreta
conjunta do Reino Unido e dos EUA, cujo acesso é altamente restrito. A BBC
esteve na ilha em 2024. Leia a seguir uma história resumida do território e um
relato do que a equipe encontrou durante a visita.
<><>
Território disputado
O Reino
Unido assumiu o controle do arquipélago de Chagos, do qual Diego Garcia faz
parte, em 1965 — ele pertencia às Ilhas Maurício, sua então colônia.
Posteriormente,
desalojou sua população de mais de mil habitantes para instalar a base militar.
Acordos
assinados em 1966 permitiram um período inicial de 50 anos de utilização do
território pelos Estados Unidos, e mais 20 anos de prorrogação. O acordo foi
renovado em 2016, e agora vai expirar em 2036.
Este
território é administrado a partir de Londres, mas é descrito como
"constitucionalmente distinto" do Reino Unido.
As
Ilhas Maurício, que conquistaram sua independência em 1968, reivindicam o atol
como seu, e o mais alto tribunal da Organização das Nações Unidas (ONU)
determinou que a administração britânica é "ilegal" — e deve acabar.
A maior
parte da força de trabalho e dos recursos de Diego Garcia está sob controle dos
Estados Unidos, desde o transporte e as acomodações até restaurantes e lojas.
O
comando militar americano pode negar o acesso a áreas operadas ou controladas
pelos militares por razões de segurança.
O site
da administração britânica no Oceano Índico (Biot) indica que o acesso só é
permitido "a quem tem contato com a instalação militar ou com a
administração do território".
<><>
Importante base de guerra
Diego
Garcia é considerada uma base estratégica para os Estados Unidos.
No
início de 2024, dois bombardeiros B-52 foram enviados para lá para realizar
exercícios de treinamento.
Nas
últimas décadas, aviões americanos partiram desta base para bombardear o
Afeganistão e o Iraque.
O
governo do Reino Unido confirmou que, em 2002, "voos de rendição" —
utilizados para transportar suspeitos de terrorismo para outros países onde
podem ser detidos e interrogados com menos restrições legais — pousaram no
território.
Mike
Hayden, ex-diretor da CIA, a agência de inteligência americana, negou as
acusações de que suspeitos de terrorismo foram abrigados ou interrogados em
Diego Garcia.
Dezenas
de pessoas da etnia tâmil, do Sri Lanka, desembarcaram na ilha em outubro de
2021, tornando-se as primeiras pessoas a apresentar solicitações de asilo neste
território britânico.
Quando
a BBC esteve na ilha, em 2024, cerca de 60 pessoas, incluindo pelo menos 16
crianças, permaneciam lá enquanto complexas batalhas legais eram travadas sobre
seu destino.
Elas
estavam alojadas em tendas dentro de um acampamento cercado e vigiado pela
empresa de segurança privada G4S.
Houve
uma série de tentativas de suicídio na ilha, e relatos de assédio e violência
sexual supostamente cometidos por migrantes dentro do acampamento.
Alguns
migrantes foram transferidos para Ruanda para receber tratamento médico após
tentativas de automutilação e suicídio, enquanto aqueles cujas solicitações
foram aceitas aguardavam que fosse designado um "terceiro país
seguro" para se restabelecerem.
<><>
O acampamento de migrantes
Após
uma visita ao acampamento em 2023, representantes da ONU consideraram que as
condições ali equivaliam a uma detenção arbitrária.
Em
entrevista à BBC, os migrantes descreveram as condições na ilha como infernais.
"Somos
como papagaios, estamos numa gaiola", protestou um deles, fazendo
referência à falta de liberdade.
O
Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido disse anteriormente à BBC que
a ilha não é adequada para essas pessoas viverem, e afirmou que estava
"trabalhando incansavelmente para processar os pedidos de proteção dos
migrantes e encontrar um terceiro país adequado para aqueles cujas solicitações
são aceitas".
"O
bem-estar e a segurança dos imigrantes no Biot têm sido nossa principal
prioridade a todo momento", acrescentou.
A
atmosfera na ilha é relaxada. Soldados se deslocam de bicicleta, e pessoas
jogam tênis e praticam windsurf no sol do final da tarde.
Camisetas
e canecas com a marca Diego Garcia estão à venda na ilha.
Mas
também há lembretes constantes da base sensível que está aqui. Exercícios
militares podem ser ouvidos no início da manhã, e há um prédio cercado
identificado como um arsenal.
O tempo
todo, oficiais militares americanos e britânicos mantêm um olhar atento sobre
os movimentos da base. A ilha tem uma beleza natural impressionante, com
vegetação exuberante e praias de areia branca, e também abriga o maior
artrópode terrestre do mundo - o caranguejo-dos-coqueiros.
Militares
alertam para os perigos dos tubarões nas águas circundantes.
Mas
também existem indícios que apontam para seu passado brutal.
Quando
o Reino Unido assumiu o controle das Ilhas Chagos, procurou expulsar
rapidamente sua população de mais de mil pessoas para dar lugar à base militar.
Pessoas
escravizadas foram trazidas para as Ilhas Chagos de Madagascar e Moçambique
para trabalhar em plantações de coco sob o domínio francês e britânico.
Nos
séculos seguintes, desenvolveram sua própria língua, música e cultura. Em 1967,
começou a expulsão de todos os residentes das Ilhas Chagos. Cães, incluindo
animais de estimação, foram recolhidos e mortos. Chagossianos descreveram terem
sido conduzidos a navios de carga e levados para Maurício ou Seychelles.
O Reino
Unido concedeu cidadania a alguns chagossianos em 2002, e muitos deles foram
morar no Reino Unido.
Em
depoimento prestado ao Tribunal Internacional de Justiça anos depois, a
chagossiana Liseby Elysé disse que as pessoas no arquipélago viviam uma
"vida feliz" que "não lhes faltava nada" antes das
expulsões.
"Um
dia, o administrador nos disse que tínhamos que deixar nossa ilha, deixar
nossas casas e ir embora. Todos ficaram infelizes. Mas não tínhamos escolha.
Eles não nos deram nenhum motivo", disse ela.
"Ninguém
gostaria de ser arrancado da ilha onde nasceu, ser arrancado como
animais." Os chagossianos lutam há anos para retornar à sua terra.
Fonte:
BBC News Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário