terça-feira, 24 de março de 2026

O que é a Armadilha de Escalada, que explica por que guerra no Irã pode sair de controle

Uma potência decide atacar outra com força limitada para atingir um objetivo determinado. A agredida reage por meio da expansão do campo de batalha. A agressora escala o conflito a fim de recuperar a iniciativa.

Essa sequência, descrita em um modelo chamado Armadilha de Escalada, do norte-americano Robert Pape, tem sido invocada para explicar o que ocorre na Guerra do Irã.

Depois de realizar cerca de oito mil voos sobre o território iraniano e atingir cerca de 7 mil a 7,8 mil alvos no país, matando o líder supremo da república islâmicaAli Khamenei, e parcela considerável da cúpula do regime, os Estados Unidos ainda parecem longe de atingir os objetivos anunciados no início das hostilidades.

Pressionado, o presidente Donald Trump emite sinais contraditórios: afirma que os EUA "já venceram", pede ajuda internacional para desobstruir o estreito de Ormuz, tenta se dissociar do bombardeio israelense da maior planta de gás natural do Irã e ameaça explodir as mesmas instalações se houver novos ataques iranianos ao Catar.

Adicionalmente, a guerra provoca a maior disrupção de oferta de petróleo da história, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), com a cotação do barril atingindo quase US$ 120 esta semana, além de causar pressão inflacionária global e abalo de cadeias produtivas.

Desde que se iniciou o conflito no Oriente Médio, em 28 de fevereiro, a Armadilha de Escalada passou a ser citada em reportagens e análises no mundo inteiro e registrou aumento de 20% em buscas no Google.

Pape, que é professor de Ciência Política na Universidade de Chicago, tornou-se presença constante em programas de TV, lives e podcasts.

Conselheiro de assuntos estratégicos de todos os presidentes dos EUA desde 2001, ele simulou por 20 anos o bombardeio da planta nuclear iraniana de Fordow, atingida por caças norte-americanos em junho de 2025, e a mudança de regime no Irã.

Com base nessa experiência, está convencido de que o regime dos aiatolás está, paradoxalmente, mais forte hoje do que antes do início da Operação Fúria Épica.

"O Irã no 17º dia [da guerra] é mais perigoso e mais poderoso do que antes de a primeira bomba cair", afirmou na terça-feira (17/3) ao canal de TV indiano India Today.

Quatro dias antes do começo da guerra, Pape lançou na plataforma Substack uma newsletter com o nome de seu modelo. "O termo 'armadilha da escalada' está agora se espalhando. Não é um acidente", afirmou.

Em vez de prestar atenção em alvos, armamento e supremacia aérea — elementos vitais em qualquer conflito contemporâneo —, o modelo volta-se para aspectos mais difusos da guerra: transição progressiva de menor para maior engajamento, ilusão de controle, escalada e desescalada.

"Análises geralmente explicam eventos. Poucas explicam em que fase um conflito está entrando — e o que isso significa antes que se converta em engajamento. A Armadilha da Escalada fornece a você as molduras para reconhecer quando a pressão passa de crise episódica a envolvimento estrutural", sustentou o autor.

Os elementos enfatizados pela Armadilha de Escalada têm uma característica comum: encontram-se na encruzilhada entre guerra e política, terreno no qual predomina a incerteza, de acordo com o cientista político.

"A Armadilha de Escalada não quer dizer simplesmente que as guerras ficam maiores. Quer dizer que os esforços para controlar um conflito podem torná-lo mais difícil de controlar", afirmou.

<><> Modelo serve especialmente para a realidade dos EUA

Professor do Programa de Pós-graduação em Estudos Estratégicos Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Érico Duarte afirma que o modelo da Armadilha de Escalada é uma síntese da tese desenvolvida por seu autor na obra Bombing to Win: Air Power and Coercion in War — ("Bombardeando para vencer: poder aéreo e coerção na guerra", em tradução livre), livro publicado em 1996, sem edição brasileira.

"É um modelo que serve especialmente para informar o público americano sobre os custos que o Estado terá ao investir ou abandonar uma guerra", descreve.

Entre os limites do modelo, Duarte cita o papel irrelevante atribuído à situação política que antecedeu o conflito e a dificuldade de ser aplicado a outros países além dos EUA. "A Armadilha de Escalada não contempla, por exemplo, a situação de Israel diante do Irã", assinala o professor.

A guerra no Golfo Pérsico, segundo Duarte, tem várias camadas. Uma delas é o envolvimento norte-americano. Outra é a participação de Israel. Deve-se considerar também, ele diz, o papel de países como as monarquias do Golfo Pérsico, a Turquia e até mesmo nações mais distantes como o Brasil.

"Como os EUA são a principal potência envolvida na guerra, são obrigados a absorver todos os custos e pressões de outros países — aliados, nem tão aliados ou rivais — sobre os custos imediatos ou de longo prazo dessa guerra", afirma.

Segundo Duarte, os Estados Unidos já entraram em modo de controle e redução de danos no Golfo Pérsico e dificilmente evoluirão para um envolvimento em larga escala como ocorreu no Afeganistão e no Iraque.

"Os EUA estão partindo para uma política de acomodação. Até podem aumentar as ameaças midiáticas e discursivas, mas não acho que queiram escalar a guerra do ponto de vista material."

Professor de Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba e pesquisador do Observatório de Capacidades Militares e Políticas de Defesa, Augusto Teixeira aponta dois pontos fortes do modelo de Pape: a ênfase os limites do poder aéreo na produção de vitória e a definição das operações terrestres como estágio seguinte de escalada por parte da potência agressora.

No caso da Guerra do Irã, diz Teixeira, evitar a escalada implicaria reduzir o alcance dos objetivos políticos, oferecendo a Trump o que vem sendo chamado de "off-ramp", ou saída estratégica, algo que permita ao presidente americano declarar vitória sem a realização de todos os propósitos cogitados no início da ofensiva.

Teixeira afirma que o aspecto crítico abordado pela Armadilha de Escalada é a relação entre os objetivos políticos e os níveis estratégico e tático.

"Eles têm de ser claros e relativamente delimitados para que o poder militar possa persegui-los. A mudança de objetivos políticos pode tornar complicado o ajuste de instrumentos militares para sua consecução", diz Teixeira.

O pesquisador enfatiza também a disparidade das métricas de sucesso militar em nível tático (entre as quais inclui as mortes de líderes políticos e chefes militares) e estratégico, que define como "a ponte entre o uso da força no campo de batalha e os efeitos para produção das condições políticas desejáveis".

"Quais são as condições políticas desejáveis para os Estados Unidos, aquilo que se chama popularmente de 'endgame' [pontuação ou meta que define a conclusão de uma partida esportiva]?", questiona Teixeira.

Para o professor, o presidente dos Estados Unidos e seus auxiliares têm se referido a múltiplos objetivos políticos, da mudança de regime ao enfraquecimento da capacidade militar iraniana e ao fim de seu programa nuclear.

"A Armadilha da Escalada está intimamente ligada à característica do objetivo que Trump escolher como definitivo. Se for um objetivo minimalista, como a degradação da capacidade de projeção de força militar do Irã, ele conseguirá argumentar que, uma vez alcançado esse propósito, é possível retrair [a ação norte-americana contra o Irã]."

Teixeira afirma que toda guerra demanda estratégia, ou seja, planejamento militar de alto nível para atingir um determinado fim. "O problema é que estratégia é algo jogado por dois atores. O outro também tem direito de fala e vai reagir a fim de impedir que se realize", argumenta.

No caso do Irã, acrescenta, travar uma guerra defensiva para manter o regime no poder tem vantagens evidentes: se a República Islâmica sobreviver ao conflito, seus partidários poderão declarar vitória estratégica.

<><> Custos da guerra são mais baixos para o Irã, diz pesquisador

Segundo Ricardo de Toma, pesquisador pós-doutoral do Instituto Meira Mattos da Escola de Comando e Estado-maior do Exército (Eceme), o modelo de Armadilha de Escalada é aplicável à Guerra do Irã, mas apenas parcialmente.

"Os Estados Unidos e Israel executaram com eficácia uma fase inicial de decapitação da cadeia de comando e de negação da capacidade de retaliação, concentrando-se nos lançadores de mísseis, fato inclusive celebrado por Trump. O problema é que o recrudescimento e a continuidade dessa situação já ameaçam uma evolução para uma guerra regional", afirma.

A Armadilha de Escalada manifesta-se, segundo De Toma, no alastramento de ataques com mísseis e drones pelo Irã contra os países vizinhos. "Esse desdobramento amplia os custos políticos e estratégicos da operação, que são consideravelmente mais baixos para o Irã", observa.

De acordo com De Toma, o modelo de Pape captura a lógica, mas não a geometria específica do conflito atual, no qual é o Irã que, enfraquecido militarmente, recorre a retaliações assimétricas "para evitar uma derrota percebida como total".

Segundo o pesquisador, o presidente dos Estados Unidos ocupa um papel triplo no conflito: decisor estratégico, ator comunicacional e fator de imprevisibilidade.

O fato de Trump ter oferecido justificativas múltiplas e contraditórias para a guerra acabou contrariando os próprios objetivos externos de seu movimento Make America Great Again, mais isolacionista e avesso à participação americana em guerras externas.

"Essa ambiguidade narrativa [de Trump] é disfuncional: impede a formação de coalizões internacionais, fragiliza a legitimidade da operação e incrementa consideravelmente os custos para os Estados Unidos."

De Toma observa que nenhum outro país-membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) além dos Estados Unidos atacou diretamente o Irã.

"No Irã, o papel de Trump é o de um presidente que conduz uma guerra de alta intensidade sem doutrina estratégica coerente, substituindo a clareza de objetivos pela intimidação retórica."

¨      Diego Garcia: como é a remota ilha no Índico onde há base secreta dos EUA que Irã tentou alvejar

O jornal Wall Street Journal e a rede televisiva CNN noticiaram durante a noite de sexta-feira (20/3) que o Irã lançou de mísseis balísticos contra a ilha de Diego Garcia, no Oceano Índico, citando autoridades americanas não identificadas.

Nenhum dos disparos teria atingido o alvo. Um dos mísseis lançados teria falhado em voo, enquanto o outro foi interceptado por um navio de guerra americano. Não está claro quando eles foram lançados.

A BBC confirmou as informações. Os militares americanos se recusaram a comentar o incidente.

Uma ilha remota no arquipélago de Chagos, no Oceano Índico, Diego Garcia fica a cerca de 3.780 km do Irã. Até então, acreditava-se que o Irã possuía mísseis balísticos de alcance intermediário, capazes de viajar até 2.000 km.

No entanto, alguns analistas militares, incluindo os do Centro de Pesquisa e Educação Alma, de Israel, o míssil Khorramshahr do Irã pode ter um alcance de até 2.900 km.

A tentativa de ataque aéreo ocorreu antes de o Reino Unido concordar em permitir que os EUA usassem bases militares britânicas para atingir alvos iranianos que visam navios no Estreito de Ormuz.

Diego Garcia abriga uma base militar secreta conjunta do Reino Unido e dos EUA, cujo acesso é altamente restrito. A BBC esteve na ilha em 2024. Leia a seguir uma história resumida do território e um relato do que a equipe encontrou durante a visita.

<><> Território disputado

O Reino Unido assumiu o controle do arquipélago de Chagos, do qual Diego Garcia faz parte, em 1965 — ele pertencia às Ilhas Maurício, sua então colônia.

Posteriormente, desalojou sua população de mais de mil habitantes para instalar a base militar.

Acordos assinados em 1966 permitiram um período inicial de 50 anos de utilização do território pelos Estados Unidos, e mais 20 anos de prorrogação. O acordo foi renovado em 2016, e agora vai expirar em 2036.

Este território é administrado a partir de Londres, mas é descrito como "constitucionalmente distinto" do Reino Unido.

As Ilhas Maurício, que conquistaram sua independência em 1968, reivindicam o atol como seu, e o mais alto tribunal da Organização das Nações Unidas (ONU) determinou que a administração britânica é "ilegal" — e deve acabar.

A maior parte da força de trabalho e dos recursos de Diego Garcia está sob controle dos Estados Unidos, desde o transporte e as acomodações até restaurantes e lojas.

O comando militar americano pode negar o acesso a áreas operadas ou controladas pelos militares por razões de segurança.

O site da administração britânica no Oceano Índico (Biot) indica que o acesso só é permitido "a quem tem contato com a instalação militar ou com a administração do território".

<><> Importante base de guerra

Diego Garcia é considerada uma base estratégica para os Estados Unidos.

No início de 2024, dois bombardeiros B-52 foram enviados para lá para realizar exercícios de treinamento.

Nas últimas décadas, aviões americanos partiram desta base para bombardear o Afeganistão e o Iraque.

O governo do Reino Unido confirmou que, em 2002, "voos de rendição" — utilizados para transportar suspeitos de terrorismo para outros países onde podem ser detidos e interrogados com menos restrições legais — pousaram no território.

Mike Hayden, ex-diretor da CIA, a agência de inteligência americana, negou as acusações de que suspeitos de terrorismo foram abrigados ou interrogados em Diego Garcia.

Dezenas de pessoas da etnia tâmil, do Sri Lanka, desembarcaram na ilha em outubro de 2021, tornando-se as primeiras pessoas a apresentar solicitações de asilo neste território britânico.

Quando a BBC esteve na ilha, em 2024, cerca de 60 pessoas, incluindo pelo menos 16 crianças, permaneciam lá enquanto complexas batalhas legais eram travadas sobre seu destino.

Elas estavam alojadas em tendas dentro de um acampamento cercado e vigiado pela empresa de segurança privada G4S.

Houve uma série de tentativas de suicídio na ilha, e relatos de assédio e violência sexual supostamente cometidos por migrantes dentro do acampamento.

Alguns migrantes foram transferidos para Ruanda para receber tratamento médico após tentativas de automutilação e suicídio, enquanto aqueles cujas solicitações foram aceitas aguardavam que fosse designado um "terceiro país seguro" para se restabelecerem.

<><> O acampamento de migrantes

Após uma visita ao acampamento em 2023, representantes da ONU consideraram que as condições ali equivaliam a uma detenção arbitrária.

Em entrevista à BBC, os migrantes descreveram as condições na ilha como infernais.

"Somos como papagaios, estamos numa gaiola", protestou um deles, fazendo referência à falta de liberdade.

O Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido disse anteriormente à BBC que a ilha não é adequada para essas pessoas viverem, e afirmou que estava "trabalhando incansavelmente para processar os pedidos de proteção dos migrantes e encontrar um terceiro país adequado para aqueles cujas solicitações são aceitas".

"O bem-estar e a segurança dos imigrantes no Biot têm sido nossa principal prioridade a todo momento", acrescentou.

A atmosfera na ilha é relaxada. Soldados se deslocam de bicicleta, e pessoas jogam tênis e praticam windsurf no sol do final da tarde.

Camisetas e canecas com a marca Diego Garcia estão à venda na ilha.

Mas também há lembretes constantes da base sensível que está aqui. Exercícios militares podem ser ouvidos no início da manhã, e há um prédio cercado identificado como um arsenal.

O tempo todo, oficiais militares americanos e britânicos mantêm um olhar atento sobre os movimentos da base. A ilha tem uma beleza natural impressionante, com vegetação exuberante e praias de areia branca, e também abriga o maior artrópode terrestre do mundo - o caranguejo-dos-coqueiros.

Militares alertam para os perigos dos tubarões nas águas circundantes.

Mas também existem indícios que apontam para seu passado brutal.

Quando o Reino Unido assumiu o controle das Ilhas Chagos, procurou expulsar rapidamente sua população de mais de mil pessoas para dar lugar à base militar.

Pessoas escravizadas foram trazidas para as Ilhas Chagos de Madagascar e Moçambique para trabalhar em plantações de coco sob o domínio francês e britânico.

Nos séculos seguintes, desenvolveram sua própria língua, música e cultura. Em 1967, começou a expulsão de todos os residentes das Ilhas Chagos. Cães, incluindo animais de estimação, foram recolhidos e mortos. Chagossianos descreveram terem sido conduzidos a navios de carga e levados para Maurício ou Seychelles.

O Reino Unido concedeu cidadania a alguns chagossianos em 2002, e muitos deles foram morar no Reino Unido.

Em depoimento prestado ao Tribunal Internacional de Justiça anos depois, a chagossiana Liseby Elysé disse que as pessoas no arquipélago viviam uma "vida feliz" que "não lhes faltava nada" antes das expulsões.

"Um dia, o administrador nos disse que tínhamos que deixar nossa ilha, deixar nossas casas e ir embora. Todos ficaram infelizes. Mas não tínhamos escolha. Eles não nos deram nenhum motivo", disse ela.

"Ninguém gostaria de ser arrancado da ilha onde nasceu, ser arrancado como animais." Os chagossianos lutam há anos para retornar à sua terra.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

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