Ao
menos 40 magistrados punidos com aposentadoria deveriam ter perdido o cargo, conforme
tese de Dino
Levantamento
do g1 identificou ao menos 40 magistrados punidos com aposentadoria compulsória
em processos concluídos pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) a partir de
2019, já sob a vigência da reforma da Previdência. Segundo entendimento do
ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino, esses casos deveriam
ter resultado na perda do cargo.
Em
decisão do último dia 16, Dino afirmou que a punição deixou de ser válida com a
mudança constitucional — e que, desde então, infrações graves deveriam levar à
perda do cargo, e não à aposentadoria compulsória. Esse conjunto de casos se
encaixa na tese defendida pelo ministro.
Os 40
magistrados foram punidos por acusações como venda de sentença, favorecimento
de familiares, negligência, quebra de imparcialidade, corrupção passiva,
assédio sexual, violência doméstica e até rachadinha — prática que consiste na
cobrança de parte do salário de servidores de gabinete.
Especialistas
ouvidos pelo g1 consideram a tese de Dino consistente do ponto de vista
jurídico, mas a Associação Nacional dos Magistrados Estaduais (Anamages) diz
que a proposta é "flagrantemente inconstitucional" e que a matéria
depende de lei complementar aprovada pelo Congresso Nacional.
O
jurista Max Telesca afirma que, embora a reforma previdenciária tenha vedado a
aposentadoria compulsória como punição, isso ainda é previsto na Lei Orgânica
da Magistratura.
Para o
advogado Carlos Augusto Júnior, especialista em direito constitucional, se a
decisão de Dino tivesse saído ainda em 2019, órgãos como corregedorias dos
tribunais e o CNJ poderiam ter seguido seu entendimento e aplicado a perda do
cargo, sem remuneração, em todos esses casos.
Como
isso não aconteceu, os magistrados continuaram recebendo os salários
proporcionais ao tempo de serviço, turbinados por verbas indenizatórias,
gratificações e auxílios, os chamados penduricalhos. Em alguns casos, os
vencimentos mensais chegam a cerca de R$ 300 mil líquidos. Procurado, o CNJ não
se manifestou.
O
conselho informa que 126 magistrados foram aposentados compulsoriamente nos
últimos 20 anos, mas não fornece os nomes. Para identificar os 40 punidos desde
a vigência 2019, o g1 analisou Processos Administrativos Disciplinares (PADs)
concluídos após 18 de novembro daquele ano.
Para
incluir também processos iniciados em tribunais e que migraram para o CNJ,
foram usadas informações publicadas no site do conselho. A lista exclui
magistrados já falecidos ou que conseguiram reverter a punição no STF.
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Regra aplicada a servidores públicos deve valer para magistrados
Na
interpretação de Flávio Dino, a perda de cargo tem que ser aplicada porque a
aposentadoria é um benefício e não há mais base constitucional para usá-la como
sanção disciplinar.
Pela
Constituição, os magistrados seguem as mesmas regras previdenciárias dos
servidores públicos, previstas no artigo 40. Com a reforma da previdência, esse
dispositivo passou a prever aposentadoria compulsória apenas por idade, sem
qualquer menção à sua aplicação como punição.
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Decisão de Dino é para caso isolado e não tem efeito imediato
A tese
defendida pelo ministro Flávio Dino não tem efeito automático para extinguir a
aposentadoria compulsória como punição para todos os magistrados do país,
porque a decisão não foi dada em processos que possuem característica
vinculante.
Apenas
decisões proferidas em ações como Recurso Extraordinário com Repercussão Geral,
Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) ou a Arguição de Descumprimento de
Preceito Fundamental (ADPF) têm potencial de espalharem seus efeitos
imediatamente sobre os demais processos.
Para
Telesca, o entendimento de Dino é "claro, razoável e sob o ponto de vista
constitucional, corretíssimo”, mas os efeitos práticos da decisão ainda são
limitados.
“Somente
caso a caso, após passar pelo próprio STF, em ação movida pela AGU, estas
punições poderão ser revistas”, explica o jurista.
A
decisão de Dino é monocrática e se refere apenas ao juiz Marcelo Borges
Barbosa, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. O magistrado foi punido após
reintegrar dezenas de policiais expulsos da corporação.
Nesse
caso, Dino entendeu que houve tumulto processual na tramitação das revisões
disciplinares movidas pelo magistrado no CNJ. Por isso, determinou que o órgão
reavalie e decida se deve aplicar outra penalidade, exceto a aposentadoria
compulsória. Se a punição máxima for aplicada, ela deve ser a perda de cargo.
O
ministro também sugeriu ao presidente do CNJ e do STF, o ministro Edson Fachin,
que reavalie todo o sistema disciplinar da magistratura, "caso considerar
cabível".
Segundo
o STF, a extensão da tese de Dino para outros processos depende de novos
desdobramentos, que podem ocorrer:
• por decisão do plenário do STF em uma
ADPF ou em um caso em que seja atribuída Repercussão Geral;
• por nova resolução do próprio CNJ, cuja
pauta depende do presidente do órgão;
• por aprovação de nova Proposta de Emenda
à Constituição (PEC) do Congresso Nacional.
Na
quarta-feira (18), a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado adiou
para o dia 8 de abril a análise de uma PEC que acaba com a aposentadoria
compulsória como punição para magistrados, militares e membros do Ministério
Público.
Mesmo
que as mudanças sejam aprovadas, elas não devem atingir casos passados, segundo
o advogado Carlos Júnior.
“Esse é
o princípio da segurança jurídica. Mesmo que venha a prevalecer um novo
entendimento no futuro, ele não retroage automaticamente para atingir decisões
administrativas já concluídas", disse o especialista.
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Impacto no debate público
Embora
a decisão de Flávio Dino não tenha efeito imediato, ela já causou impacto no
debate público. Para Telesca, trata-se de um precedente que pode ser confirmado
coletivamente por outros ministros e se tornar uma jurisprudência do STF.
“Pela
primeira vez, uma alta autoridade do Poder Judiciário se pronuncia em desfavor
de uma aberração, uma anomalia consistente na entrega de um prêmio, em lugar de
uma punição grave”, disse o jurista.
O
advogado Fábio Souto, especialista em tribunais superiores, defende que o
Judiciário se adapte rapidamente, caso a interpretação de Dino avance.
“O que
se espera é que o Poder Judiciário compreenda que a aposentadoria compulsória
se trata de um privilégio, contrário aos princípios da moralidade pública”,
afirma.
Por
outro lado, a Associação Nacional dos Magistrados Estaduais (Anamages) publicou
uma nota de repúdio à decisão e disse que "ninguém — nem mesmo o ministro
Flávio Dino — está autorizado a substituir o Congresso Nacional na criação de
sanções legais".
A
Anamages também argumenta que a tese poderia atingir as contribuições
previdenciárias já realizadas pelos magistrados ao longo da carreira.
“A
Constituição não pode ser reinterpretada ao sabor de agendas pessoais ou
discursos punitivistas", diz a nota.
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Como o g1 fez o levantamento
O g1
solicitou ao CNJ a lista dos 126 magistrados aposentados compulsoriamente nos
últimos 20 anos, mas o órgão informou que só tinha o quantitativo.
Para
descobrir os nomes, a reportagem acessou os processos do CNJ, que são públicos,
e separou apenas aqueles com julgamentos concluídos sob a vigência da reforma
da previdência.
Para
alcançar os processos que iniciaram nos tribunais, mas chegaram ao CNJ depois,
por meio de ações como as revisões disciplinares, o g1 usou informações
publicadas no site do Conselho.
Por
fim, foram desconsiderados no nomes dos magistrados que já morreram ou que
conseguiram reverter a punição em ações do STF.
Como a
aposentadoria compulsória também pode ser aplicada pelos tribunais e o processo
não chegar ao CNJ, é possível que haja mais do que esses 40 casos identificados
pela reportagem.
• Sabatina de Messias pode ficar para
depois das eleições
O
distanciamento entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Davi
Alcolumbre (União-AP) presidente do Senado Federal, pode deixar a votação da
indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao Supremo Tribunal
Federal (STF), para depois das eleições de outubro.
O
Palácio do Planalto que resolver a questão antes desta data. Mas aliados de
Alcolumbre afirmam que uma decisão sobre quando a votação ocorrerá só será
tomada em uma reunião presencial entre os dois, o que no momento é considerado
improvável.
Há uma
avaliação no entorno de Lula de que Alcolumbre está mais recluso em meio as
investigações envolvendo o Banco Master e a pressão pela instalação de uma
Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para apurar o caso do banco de
Daniel Vorcaro.
👉🏽 Para esfriar essa
possibilidade, Alcolumbre esvaziou o Senado, que há duas semanas já trabalha em
modo semipresencial e sem projetos de grande impacto político na pauta.
A
escolha de Lula por Messias, em novembro do ano passado, desagradou Alcolumbre.
Ele pretendia emplacar o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), seu aliado de
primeira hora na vaga aberta no STF pela aposentadoria de Luís Roberto Barroso.
Diante
da resistência que virou campanha pela rejeição de Messias no Senado, o governo
não enviou a mensagem oficializando a indicação. O movimento fez Alcolumbre
desmarcar a sabatina, prevista para o dia 10 de dezembro, e irritou o
presidente do Senado.
A ideia
de Alcolumbre era dar pouco tempo — apenas duas semanas — para Messias
percorrer os gabinetes dos senadores atrás de votos.
A crise
levou Alcolumbre a cortar relações com o líder do governo no Senado, Jaques
Wagner (PT-AP), alegando que o petista fez campanha pela indicação de Messias,
que trabalhou no gabinete do senador.
Em 7 de
dezembro, Lula recebeu para uma conversa na Granja do Torto os senadores Renan
Calheiros (MDB-AL) e Eduardo Braga (MDB-AM), líder do MDB no Senado. Na
presença de Wagner, disseram a Lula que a questão de Messias só seria resolvida
em um encontro pessoal dele com Alcolumbre.
Dois
dias depois, Lula ligou para Alcolumbre, agradeceu a votação do Orçamento de
2026, mas os dois não falaram da indicação de Messias nem marcaram de se
encontrar.
No
início do mês de março, Lula e Alcolumbre voltaram a se falar, mais uma vez sem
marcar o encontro. Dias depois, Alcolumbre disse que espera se reunir com o
presidente, mas que a inciativa deve partir de Lula.
“A
gente espera ser chamado por todas as pessoas que a gente tem respeito e
consideração. Naturalmente, da mesma maneira que quando eu desejei em outras
oportunidades conversar pessoalmente com o presidente da República, eu procurei
ele. E é legítimo, inclusive, que se ele desejar falar comigo, ele deve me
procurar”, disse Alcolumbre.
Messias
pode bater marca de André Mendonça
A
tendência é que Jorge Messias espere mais tempo para ser sabatinado do que
André Mendonça. Após ser indicado para o STF pelo ex-presidente Jair Bolsonaro
(PL), Mendonça aguardou mais de quatro meses para ser votado no Senado.
O
responsável pela demora foi Alcolumbre. O senador, então presidente da Comissão
de Constituição e Justiça (CCJ) — colegiado responsável por sabatinar e aprovar
o indicado pelo presidente antes da votação no plenário — demorou 141 dias, ou
seja, quatro meses e 18 dias, para pautar a indicação de Mendonça.
Nesse
intervalo, Alcolumbre tentou convencer Bolsonaro a indicar Augusto Aras,
procurador-geral da República à época.
Agora,
é o governo que segura o envio da mensagem para evitar que o Senado, liderado
por Alcolumbre, rejeite o indicado de Lula. Desde a oficialização, em 20 de
novembro de 2025, já se passaram 119 dias, ou seja, 3 meses e 27 dias.
• Na novela Master, mídia inverte papéis
de mocinho e bandido: vale a pena ver de novo? Por Chico Xavier
O
maniqueismo é a marca de um dos gêneros mais populares da ficção brasileira: a
telenovela. Apesar da concorrência digital, as eternas tretas entre mocinhos e
vilões na TV continuam a atrair milhões de espectadores. Seja Odete Roitman ou
Arminda de Melo Dantas, a megera da atual novela das nove da Globo, sempre há
um desses seres maléficos a ser abatido pelos heróis nos folhetins televisivos.
O
sucesso de público faz com que o gosto por reduzir enredos complexos ao embate
do bem contra o mal também seja comum em outra área da comunicação: o
jornalismo da grande mídia, especialmente quando os barões da imprensa querem
fazer valer os seus interesses eleitorais. Vemos isso nos editoriais, mas não
só. Em temporadas assim, acontece como nas telenovelas. O que é publicado e
falado resulta da manipulação dos fatos até que tomem a forma novelesca.
Quem
não lembra dos grandes sucessos da ficção jornalística brasileira, como “O
caçador de marajás”, “Os heróis da Lava Jato”, “Pedalada fiscal – o crime que
só valeu para Dilma”, “Uma escolha muito difícil” e muitos outros?
Nessas
tramas noticiosas, mudam os heróis, mas o vilão da imprensa é um só: Lula.
A
surrada fórmula do antipetismo voltou ao cartaz agora, no escândalo do Banco
Master. Sem a menor cerimônia, como sempre, boa parte da imprensa inverte o
roteiro e transforma o “mocinho” da história em malfeitor. E vice-versa.
Assim,
Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central no período em que o Master
fermentou a maior fraude bancária da história do Brasil, é poupado nas matérias
dos veículos dos barões da mídia. Basta que Lula ou alguém de sua equipe lembre
a negligência do indicado de Bolsonaro na fiscalização às tungas bilionárias
praticadas por Vorcaro para que chovam críticas sobre o petista. Ao lembrar das
responsabilidades não cumpridas por Campos Neto — hoje chefão do Nubank, banco
que tem entre os sócios a família Marinho, dona das organizações as Globo –, o
presidente da República estaria querendo apenas evitar “impacto eleitoral”
sobre si, dizem alguns jornalistas.
Lula
fala apenas o óbvio: o neto de Bob Fields tem que responder por que não fez
nada para evitar as malandragens de Vorcaro. O bolsonarista é obrigado a
responder especialmente por que não protegeu milhares de aposentados e
pensionistas cujos recursos previdenciários viraram pó.
O fato
de que foi o sucessor de Campos Neto no BC, indicado por Lula, quem interrompeu
a aventura criminosa do Master sequer é lembrado.
Nessa
corrida para tapar o sol com a peneira midiática, os editoriais sempre têm
papel de destaque. Está aí o texto publicado como opinião da Folha de S.Paulo
neste domingo (15) para servir de prova.
O
editorial louva a Polícia Federal e — pasmem! — a própria imprensa por abalar
“o pacto de silêncio tacitamente firmado nos últimos anos entre altas
autoridades e elite politica” em torno do “alastramento da corrupção”. Sim, a
PF fez um belíssimo trabalho. Os jornalistas, com raras exceções, nada mais
fizeram do que aproveitar os vazamentos repassados com base no trabalho dos
agentes.
Enquanto
diz que abalou o pacto de silêncio dos poderosos, por detalhar as ligações de
Toffoli e Xandão com o Master, a Folha omite os nomes dos verdadeiros parceiros
de Vorcaro:
– Ciro
Nogueira, “o amigo de vida” do banqueiro-presidiário, que tanto esforço fez
para ajudá-lo no Congresso;
– Jair
Bolsonaro e Tarcísio de Freitas, beneficiários de R$ 5 milhões em doações de
campanha por parte de Fabiano Zettel;
–
Ibaneis Rocha e Cláudio Castro, governadores que comprometeram os recursos dos
aposentados e pensionistas de seus estados pela parceria com o Master (o
primeiro comprometeu também o banco público do DF);
– Davi
Alcolumbre, o presidente do Senado, que fez tudo que pôde para evitar a
instalação de uma CPMI para apurar o despejo de R$ 400 milhões do fundo dos
servidores do Amapá, seu estado natal, no ralo do Master;
–
Nikolas Ferreira, o deputado que pegou carona no jatinho do banqueiro
presidiário.
Este,
sim, é um pacto de silêncio em torno da ” elite politica”.
Ou
seja: em torno da direita.
Enquanto
sonega de seus leitores o nome dos verdadeiros “amigos de vida” de Vorcaro, a
Folha faz uma pirueta para jogar o foco mais uma vez sobre Lula, o malvado
favorito do jornal da família Frias. O(s) editorialista(s) jogam no meio do
texto a quebra de sigilo de Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente, pela
CPI do INSS. Obviamente não informam que não encontraram um centavo do tal
“Careca do INSS” na conta de Lulinha.
A
“operação abafa” da Folha também não cita que o belo trabalho da Polícia
Federal, louvado no título do editorial, foi possível porque o presidente da
República deu à corporação total autonomia. “Não poderia ter sido diferente”,
dirão alguns hipócritas. A lembrança da interferência de Bolsonaro nos órgãos
de Estado confirma o quanto um presidente mal intencionado pode aparelhar PF,
Receita Federal e Abin .
Enfim,
o roteiro seguido pela grande imprensa é o mesmo de outras temporadas
eleitorais. Os barões da mídia não aprenderam que na vida política só há uma
espécie de maniqueismo possível, aquele que divide o país entre democratas e
inimigos da democracia.
O
veículos maiores parecem já ter escolhido o pior lado — o que não é nenhuma
surpresa.
Fonte:
g1/ICL Notícias

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