Por
que cada cultura tem um caldo para tratar doenças e buscar conforto
Em
diversas culturas, os caldos têm aliviado doenças, marcado celebrações e
aproveitado ingredientes escassos, muito antes de se tornarem uma tendência de
bem-estar.
O que
você come quando precisa de conforto? A resposta varia dependendo de onde você
é, mas provavelmente é algum tipo de caldo, servido fumegante em uma tigela.
Nos
EUA, pode ser sopa de macarrão com frango, enquanto os italianos podem desejar
a pastina in brodo caseira da nonna (avó), uma massa pequena em um caldo
simples de legumes ou ossos.
Em toda
a Ásia, são o congee e outros mingaus de arroz cozidos lentamente em água ou
caldo, preparados por mães chinesas, vietnamitas, coreanas e indonésias para
seus filhos.
No
Leste Europeu, é o borscht, uma sopa azeda de beterraba, geralmente feita com
caldo de carne e legumes refogados, amplamente associada à culinária ucraniana.
No
Brasil, um desses pratos é a canja de galinha.
Em
todos os continentes, caldos e sopas estão entrelaçados na memória cultural e
familiar. São o que procuramos quando estamos doentes, quando precisamos
aproveitar ao máximo os ingredientes ou quando sentimos saudades de casa e, em
algumas tradições, o que servimos em momentos de celebração.
Raramente
chamam a atenção por si só – no entanto, formam a espinha dorsal de inúmeras
culinárias.
"[O
caldo] conecta os fios entre as minhas primeiras memórias de infância
relacionadas à comida e também o trabalho da minha vida", diz Dara Klein,
chef principal e fundadora da Tiella Trattoria, em Londres. Ela passou seus
primeiros anos na região da Emilia-Romagna, na Itália – o berço do tortellini
in brodo.
"Na
Emilia-Romagna, existe uma longa tradição de preparo de brodo. É algo que os
italianos conhecem desde muito cedo e com o qual se identificam muito",
diz Klein.
Os
termos caldo e fundo são frequentemente usados como sinônimos, mas não são
idênticos. Os caldos são normalmente feitos cozinhando carne, legumes e ervas
aromáticas em fogo baixo por algumas horas, resultando em um líquido mais leve.
O fundo é feito principalmente de ossos, produzindo uma base mais rica e
gelatinosa.
"Eu
tenho brodo no cardápio do restaurante desde que abrimos", diz Klein.
"A receita é semelhante à que minha mãe costumava fazer, utilizando
músculo bovino, coxas e asas de frango. É um caldo claro, então você não começa
assando os ossos, como se vê em outros caldos ao redor do mundo. Seu preparo é
muito lento e em fogo baixo. O nosso cozinha por dois dias e meio e extrai todo
o colágeno dos ossos. Mas, em termos de cor, ainda é muito claro."
Caldos
e bases podem ser preparados de inúmeras maneiras, com a técnica determinada
pela sua finalidade. Os ossos podem ser assados para obter profundidade e cor
ou cozidos crus para maior clareza.
Algumas
preparações dependem exclusivamente da carne, enquanto outras combinam carne e
ossos para alcançar uma camada de sabores. Aromáticos como mirepoix podem ser
incluídos para complexidade ou omitidos para produzir uma base mais neutra.
Historicamente,
a preparação de caldo era um exercício de economia e nutrição.
Ferver
carne e ossos tornava os cortes mais duros comestíveis e extraía o máximo de
sabor e sustento. O cozimento lento do caldo também era um trabalho doméstico;
frequentemente supervisionado por mulheres, cujas contribuições raramente
entraram no cânone culinário escrito.
Em
contraste, o refinamento do caldo em consommé – uma sopa clarificada e
cristalina – foi documentado na alta gastronomia francesa.
O chef
Alexis Soyer descreveu a técnica em 1846, detalhando como as claras de ovo
podiam clarificar o caldo, transformando uma preparação rústica em um prato
transparente e formalizado.
No
entanto, grande parte do conhecimento mundial sobre caldos evoluiu
silenciosamente em cozinhas domésticas, e não em cortes reais.
"Minha
avó sempre fazia esta sopa de galinha com bagas de goji e cogumelos
orelha-de-pau", disse Zoey Xinyi Gong, terapeuta alimentar de Medicina
Tradicional Chinesa que vive entre Xangai e Paris.
"É
a receita que ela sempre usa, e há sempre uma sopa para cada refeição. [Uma
refeição] não está completa sem sopa."
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Sopa como conforto
Tratar
resfriados com tigelas fumegantes de sopa não é uma descoberta moderna. Uma das
primeiras referências escritas a caldos aparece no Huangdi Neijing, uma obra
fundamental da Medicina Tradicional Chinesa (MTC) que data do século 2 a.C.
O texto
defende o consumo de sopas à base de caldo para manter o yin e o yang do corpo
– uma filosofia chinesa fundamental de saúde que depende do equilíbrio dessas
duas energias opostas.
Séculos
depois, muitas famílias chinesas em todo o mundo ainda cozinham ossos com ervas
medicinais, como bagas de goji e ginseng, para produzir sopas ricas em
nutrientes, servidas antes ou depois do jantar para ajudar a manter a saúde
geral.
"A
sopa é um ótimo veículo para ervas, porque [tanto o caldo quanto as ervas
secas] precisam ser fervidos por um longo tempo", explica Gong.
"Portanto,
faz sentido consumir essas ervas de uma forma muito saborosa. No geral, sua
energética é bastante neutra a aquecedora, o que é ideal de acordo com a
medicina chinesa."
A sopa
de galinha, em particular, é associada há muito tempo à recuperação. Na
culinária coreana, o samgye-tang – um frango jovem inteiro recheado com arroz,
tâmaras e ginseng, servido em um caldo saboroso – é consumido durante os dias
mais quentes do verão como uma refeição restauradora.
Não é
mera coincidência que, na Grécia, o avgolemono combine caldo de galinha com
ovo, limão, endro e arroz ou orzo, e seja frequentemente consumido quando se
está indisposto.
No
México, o caldo de pollo apresenta pedaços inteiros de frango cozidos em fogo
brando com legumes grosseiramente cortados, batatas e folhas inteiras de
repolho para criar uma sopa nutritiva para o dia a dia.
A
pesquisa científica sobre os benefícios do caldo está em curso. Alguns estudos
sugerem que sopas à base de caldo podem ajudar a reduzir a inflamação e aliviar
os sintomas de resfriado, enquanto caldos de ossos contêm colágeno e
aminoácidos.
No
entanto, muitas alegações abrangentes sobre os benefícios do caldo de ossos
para a saúde permanecem contestadas, e seus benefícios são frequentemente
exagerados na cultura popular de bem-estar.
Nos
últimos anos, o caldo de ossos foi reposicionado como um produto de saúde
premium. O que antes era um método para aproveitar ao máximo ingredientes
escassos agora aparece em caixas refrigeradas em supermercados sofisticados.
À
medida que a demanda cresceu, os preços também aumentaram, com ossos em alguns
mercados rivalizando com o custo de cortes nobres. A trajetória espelha a de
ostras e lagostas; alimentos antes associados à necessidade que mais tarde se
tornaram símbolos de luxo.
"Eu
estava estudando em Nova York quando o caldo de ossos se tornou realmente
popular", diz Gong.
"Fiquei
um pouco chocada porque era algo com que eu cresci e nunca pensei que se
tornaria uma tendência. Eles estavam vendendo em cafeterias por US$ 10 por
xícaras pequenas. Mas nós bebemos isso há muito tempo [na China]."
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Na saúde e na doença
Embora
caldos e sopas sejam frequentemente associados a doenças, eles também são a
base de momentos de celebração.
Na
Emilia-Romagna (Itália), preparar e comer tortellini in brodo é uma tradição
natalina. As famílias se reúnem para moldar a massa à mão, enquanto o brodo,
tradicionalmente feito de capão, é um ingrediente luxuoso reservado para a
refeição festiva.
A
Polônia compartilha um espírito festivo semelhante. Na véspera de Natal, as
famílias se reúnem para o principal evento da temporada: Wigilia, um jantar
vegetariano de vigília com 12 pratos.
Um dos
pratos principais, barszcz wigiljny, é um caldo de beterraba fermentada servido
com pequenos bolinhos de cogumelo.
Preparar
o prato é um trabalho de amor, pois as beterrabas devem ser preparadas com
vários dias de antecedência para fermentar. O resultado é um caldo
vermelho-rubi, picante, terroso e vibrante.
Em Hong
Kong e em partes da China, as sopas cozidas em banho-maria são um dos pratos
mais opulentos em um banquete.
Os
ingredientes são colocados primeiro em um recipiente de cerâmica selado e
depois submersos em uma panela maior com água fervente, de forma semelhante ao
sous vide ou a um banho-maria fechado.
Essa
técnica evita a evaporação e preserva os sabores delicados de ingredientes
preciosos, como ninho de andorinha e bexiga natatória de peixe.
No
Japão, o ano novo não está completo sem o-zōni, uma sopa feita com bolinhos de
arroz mochi e caldo dashi – um caldo japonês fundamental criado pela fervura de
kombu seco e flocos de bonito.
As
variedades regionais de o-zōni diferem bastante, desde caldos temperados com
molho de soja, missô vermelho ou missô branco até mochi grelhado antes de ser
adicionado ao caldo.
Existem
inúmeras variações de sopas à base de caldo em todo o mundo, cada uma moldada
pelo clima, cultura e história. Mas, seja para sobrevivência, bem-estar ou
celebração, há uma coisa em que a maioria dos cozinheiros e cozinheiros
domésticos concordaria: em todas as cozinhas, alguém ainda está cuidando da
panela.
Fonte:
BBC Travel

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