Tebas
e a captura da história negra pelo mercado
Um
retrofit polêmico no centro histórico de São Paulo. Com recursos municipais do
programa Requalifica Centro, um edifício de 1977 está sendo reformado e
convertido para uso misto — moradia e comércio [leia nossa reportagem:
Retrofit, novíssima bandeira da especulação?]. “São 43 unidades para morar ou
hospedar, além de restaurante, café, espaço cultural e terraço abertos ao
público. Cada ambiente traz como pano de fundo marcos arquitetônicos, como o
Palacete Tereza Toledo de Lara, construído em estilo renascentista francês, e o
Edifício Triângulo, assinado por Oscar Niemeyer”, descreve a incorporadora
Somauma em seu site.
O
empreendimento parece ser de médio a alto padrão e contará com apenas uma
unidade destinada à habitação de interesse social, segundo apurou a
CartaCapital. Mas a polêmica não gira em torno da possível gentrificação do
Triângulo Histórico da cidade com dinheiro público — e sim do nome escolhido:
Edifício Tebas.
O
prédio retrofitado fica próximo ao Largo da Misericórdia, onde em 1791 foi
inaugurado o Chafariz da Misericórdia — o primeiro sistema público de
abastecimento de água da cidade, construído por Joaquim Pinto de Oliveira, o
Tebas. Escravizado até os 58 anos, Tebas dominou a arte de entalhar pedra,
sendo frequentemente citado como o primeiro arquiteto negro do Brasil. À época,
o chafariz ficou conhecido como Chafariz do Thebas, e seu entorno era ponto de
encontro de afro-brasileiros, escravizados e libertos. Tebas também ornamentou
igrejas como a da Ordem Terceira do Carmo e conduziu a reforma da antiga
Catedral da Sé, demolida em 1911 para dar lugar à atual.
Que mal
poderia haver nesta homenagem do mercado imobiliário num espaço inevitavelmente
associado ao arquiteto negro? O jornalista e escritor Abílio Ferreira, fundador
do Instituto Tebas que pesquisa a vida e obra desta figura emblemática, aponta
haver uma apropriação simbólica, embora “bem intencionada”. Após criticar
publicamente a escolha do nome para o empreendimento, Abílio foi convidado pela
incorporadora para um diálogo. Durante a conversa, a empresa justificou que a
intenção seria recuperar a memória de segmentos marginalizados da sociedade,
historicamente esquecidos. A incorporadora chegou a promover contrapartidas,
como ceder espaço para ocupação do piso térreo por coletivos periféricos e de
artistas negros. Mas o projeto provavelmente não previu no orçamento uma
contrapartida à altura do que o Instituto Tebas considera essencial: ações
estruturantes como levar o Tebas às escolas e massificar o conhecimento sobre
sua história e sua relação com a cidade.
“Se
você utiliza uma marca como Tebas — cuja história é, por si só, um traço
distintivo de valorização — isso agrega valor ao negócio”, aponta o fundador do
Instituto. “É difícil mensurar exatamente quanto, mas o fato é que a campanha
da incorporadora ressalta justamente esse diferencial: a história do Tebas. A
mensagem é clara: você não está apenas comprando um imóvel, mas adquirindo uma
unidade num projeto que resgata a história da cidade. É um valor distintivo”.
Abílio
ressalta que, claro, Tebas é patrimônio coletivo: sua memória foi construída e
preservada por dezenas, talvez centenas de pessoas e iniciativas ao longo do
tempo. Um indício poderoso desse processo é o intervalo entre sua morte, em
1811, e o primeiro registro escrito conhecido sobre ele, publicado apenas em
1911. Durante esses 90 anos, sua trajetória sobreviveu exclusivamente pela
tradição oral, explica ele — o que significa que sua história foi compartilhada
por gerações. [Leia mais: Um arquiteto negro na São Paulo escravocrata].
A
partir do século XX, a memória de Tebas começa a ganhar forma escrita e
projeção pública. Em 1921, surgem os primeiros textos; em 1935, Eurico Santana
publica um artigo na Revista do Arquivo Municipal; quatro anos depois, lança o
romance Tebas, o escravo. Em 1974, o sambista Geraldo Filme compôs um
samba-enredo em homenagem a Tebas para a Escola de Samba Paulistano da Glória,
ampliando ainda mais sua visibilidade.
Algo
que pode explicar a escolha do nome pela incorporadora é este fato: um
personagem histórico antes desconhecido no mainstream ganhou, nas duas últimas
décadas, visibilidade pública. Em 2018, o Sindicato dos Arquitetos de São Paulo
reconheceu oficialmente Tebas como arquiteto. No ano seguinte, foi publicada a
primeira obra de não-ficção dedicada a ele: Tebas: um negro arquiteto na São
Paulo escravocrata, organizada pelo próprio Abílio Ferreira — e, em 2020, foi
fundado o Instituto Tebas. Uma estátua em sua homenagem foi também erguida na
Praça Clóvis Beviláqua, neste mesmo ano.
Mais do
que um resgate recente, o que se vê é uma retomada contemporânea de um
personagem que já gozava de prestígio em vida, ressalta Abílio — um prestígio
tão sólido que garantiu sua sobrevivência simbólica por mais de dois séculos.
Por isso, aponta uma consequência grave das capturas simbólicas pelo mercado:
“Existe uma dívida histórica do Brasil para com as vítimas da escravidão, os
povos indígenas e a população afrodiaspórica. Todo empreendimento comercial que
obtém vantagem financeira a partir do patrimônio desses grupos torna-se
signatário dessa dívida”.
Fonte:
Por Rôney Rodrigues, em Outras Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário