quarta-feira, 25 de março de 2026

Trump tenta vender Copa a conservadores avessos ao futebol

Já se foi o tempo em que o futebol era alvo favorito dos conservadores nos Estados Unidos, sob a acusação de ser um esporte "socialista" ou "sinal da decadência moral da nação". Pelo menos em parte.

O esporte se tornou um para-raios das guerras culturais no país ao longo dos últimos anos. Nas redes sociais, a direita regularmente brada que os "EUA não ligam para futebol" ou que a modalidade é "injusta e antiamericana". Com suas jogadoras abertamente progressistas, a seleção feminina, em particular, se viu sob repetidos ataques do presidente Donald Trumpe de seu movimento Maga (Make America Great Again).

A Copa do Mundo masculina se aproximado, desta vez tendo Estados Unidos, Canadá e México como sedes, Trump passou a promover o torneio e aprofundar a relação com a Fifa). Mas ainda precisa driblar a antipatia ao futebol de parte dos próprios eleitores.

<><> A Copa do Mundo de Trump?

Porém, grande parte do apoio de Trump ao futebol não está diretamente relacionada ao esporte em si. "Embora, em comparação a outros países ao redor do mundo, o futebol seja menos político nos EUA, esta próxima Copa do Mundo assumiu, de muitas maneiras, um tom político," afirma Jeffrey Kraus, cientista político do Wagner College, em Nova York. "Há uma percepção de que a Fifa abraçou Trump, o que certamente associa o torneio ao presidente."

A relação cada vez mais intensa de Trump com o presidente da Fifa, Gianni Infantino, e a parceria da federação com o novo Conselho da Paz do presidente americano ajudaram a transformar Trump no rosto de uma Copa do Mundo que abrange um continente inteiro.

Para alguns conservadores, o entusiasmo de Trump pelo futebol não parece fora de lugar, por causa da sua proximidade com outros esportes populares.

"Ele sempre foi um cara do esporte, basta olhar sua conexão com o UFC e a luta profissional", opina Chris Vance, presidente dos Jovens Republicanos da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). "Ele sempre esteve ligado ao entretenimento, esteve nesse ramo por muito tempo, então faz sentido."

<><> Cultura do futebol em expansão

A base de torcedores do futebol nos EUA, relativamente jovem e composta em grande medida por imigrantes, tende a ser progressista. Protestos contra as operações da Serviço de Imigração e Alfândega americano (ICE) de caça a imigrantes ao redor do país têm sido um ponto de conflito entre torcedores e dirigentes da liga profissional desde a reeleição de Trump.

Ryan Shirah, membro do grupo de torcedores American Outlaws, já assistiu a mais de 120 jogos das seleções masculina e feminina dos EUA. Ele argumenta que, embora a maioria dos torcedores evite política nas arquibancadas, eles tendem a pender para o mesmo lado.

"Existe um elemento humanista ali. Acho que a maioria dos torcedores de futebol nos EUA tende a se inclinar para o lado mais progressista, focado em direitos humanos", disse Shirah.

Mas o contínuo crescimento do futebol nos EUA significa que a composição política dos torcedores poderá mudar, se Trump for bem-sucedido em vender a ideia para o seu eleitorado.

"Desde que os EUA sediaram a Copa do Mundo de 1994, o futebol se tornou uma parte maior da vida americana", disse o cientista político Kraus. "Grande parte do crescimento populacional desde os anos 1990 se deu por meio da imigração, e muitos que vieram para cá trouxeram seu amor pelo futebol."

O aumento do apoio republicano entre latinos na eleição de 2024 demonstra que as visões políticas de imigrantes –  muitos dos quais estão impulsionando o crescimento do esporte nos EUA – podem evoluir e, potencialmente, transformar a cultura do futebol no país.

E embora a chegada de Lionel Messi a Miami tenha trazido mais visibilidade ao esporte, os organizadores esperam que a Copa neste ano possa impulsionar ainda mais o futebol para o mainstream americano, atraindo mais conservadores.

"Eu moro em Staten Island, um dos bairros mais suburbanos e conservadores da cidade de Nova York. Quando eu era mais jovem, aos sábados você dirigia pela região e os campos esportivos estavam cheios de crianças jogando beisebol. Agora é futebol", contou Kraus.

<><> Oportunidade geracional

O vice-presidente dos EUA, JD Vance, reconhece ser um pouco fora da curva entre seus colegas, devido ao interesse pelo futebol. Segundo ele, o futebol é "um esporte conservador porque é baseado na comunidade, ou pelo menos não é realmente um esporte politicamente tendencioso."

Torcedores organizados como Shirah tendem a não se deter muito nas possíveis diferenças políticas entre torcedores, desde que consigam manter um ambiente acolhedor no estádio."Não tivemos um grande torneio desde a eleição, mas por que levar ofensas para dentro do estádio se não precisamos?", disse ele. "Se você é apaixonado pelo time e não usa insultos ou algo assim, tudo bem."

Mas, primeiro, os EUA precisarão fazer uma boa campanha na Copa do Mundo, para aproveitar ao máximo uma oportunidade geracional. Se conseguirem, os torcedores atuais talvez precisem se preocupar com a política do influxo de novos fãs.

•        EUA e Fifa enxergam possíveis ataques extremistas na Copa do Mundo

Informações de inteligência vistas pela Reuters alertaram sobre a possibilidade de extremistas e criminosos atacarem a Copa do Mundo em um momento em que centenas de milhões de dólares de fundos de segurança aprovados foram atrasados, fazendo com que os preparativos dos EUA ficassem para trás.

Os briefings não relatados anteriormente de autoridades federais e estaduais dos EUA e da Fifa, delinearam o risco de ataques extremistas, incluindo ataques à infraestrutura de transporte e agitação civil relacionada à repressão à imigração do presidente Donald Trump.

A Copa do Mundo de futebol, um dos maiores eventos esportivos do mundo, será realizada em junho e julho deste ano em três países: Estados Unidos, Canadá e México.

Embora a segurança em tais eventos seja sempre intensa, as autoridades policiais dos EUA têm estado em alerta especialmente elevado desde o início da guerra contra o Irã e levantaram preocupações sobre ameaças de retaliação.

Nas últimas semanas, as autoridades que trabalham na preparação para a Copa do Mundo nos Estados Unidos têm dado cada vez mais sinais de alerta sobre a retenção de US$625 milhões em subsídios federais de segurança para o evento, que faziam parte de uma lei de gastos apoiada pelos republicanos e aprovada em julho de 2025.

A Agência Federal de Gerenciamento de Emergências (Fema), encarregada de distribuir o dinheiro, disse em novembro que esperava alocar os recursos até 30 de janeiro.

Após questionamentos da Reuters neste mês, depois que autoridades e organizadores reclamaram que ainda não haviam recebido nada, a Fema anunciou na quarta-feira que havia concedido os subsídios, dizendo que o dinheiro "reforçaria os preparativos de segurança".

Com o início da Copa no México em 11 de junho e, em seguida, nos EUA e no Canadá no dia seguinte, os Estados e as cidades que sediarão os eventos estão em fase de planejamento, incluindo como se proteger de possíveis ataques. O atraso no financiamento e os avisos de ameaça agravaram um processo já complexo, disseram à Reuters várias autoridades envolvidas.

O processo de distribuição de verbas normalmente leva meses, e os esforços para comprar tecnologia e equipamentos podem levar ainda mais tempo, de acordo com Mike Sena, presidente da Associação Nacional de Centros de Fusão, que representa uma rede de 80 centros de informação nos EUA que facilitam o compartilhamento de inteligência federal, estadual e local.

"Será extremamente apertado", disse ele.

Um relatório de inteligência de dezembro de 2025 de Nova Jersey, analisando as possíveis ameaças aos jogos no Estado — que incluirá a final —, apontou ataques domésticos recentes, conspirações terroristas interrompidas e uma proliferação de propaganda extremista. O relatório também observou a possibilidade de reuniões espontâneas relacionadas a tensões entre países.

Outro relatório de inteligência, datado de setembro de 2025, descreveu uma postagem online que parecia incentivar ataques à infraestrutura ferroviária durante a Copa do Mundo, que dizia que havia "muitas oportunidades para derrubá-la dos trilhos" e destacava jogos na costa oeste dos EUA e no Canadá. Os documentos foram obtidos por meio de solicitações de registros abertos pela organização sem fins lucrativos de transparência Property of the People.

 

Fonte: DW Brasil/UOL

 

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