Eugênio
Bucci: Quando uma nação se perde da justiça
Não é
uma instituição, não é um poder, não é uma autoridade. Antes de assumir essas
formas, além de muitas outras – uma sentença, um trânsito em julgado, um
resultado eleitoral, a lista seria extensa –, a justiça é uma ideia
compartilhada por pessoas que se reconhecem partes de uma identidade comum, uma
história comum, um futuro comum.
Mas
dizer isso é dizer pouco, já me apresso em alertar. É necessário que a ideia
compartilhada de justiça tenha vínculo direto com aquilo que, num único ser
humano, é intuitivo: o sentimento de justiça. Em resumo, é necessário que a
ideia compartilhada de justiça, que é uma elaboração cultural coletiva,
represente e traduza, com as devidas mediações, o sentimento intuitivo de cada
pessoa. Sem isso, nada feito.
(Sei
que o parágrafo anterior soou abstrato em demasia. Por isso, peço licença para
aprofundar o ponto. Vai ficar mais abstrato ainda, mas talvez fique mais
límpido também.)
Os
gregos antigos acreditavam que o sentimento de justiça morava na alma: seria
uma sabedoria natural, espontânea, capaz de distinguir quase que por reflexo
entre o iníquo e o magnânimo, entre o arbitrário e o parcimonioso, entre o bem
comum e a vaidade chula. Viriam daí, desse saber intuitivo, tanto a indignação
moral (o impulso que se ergue contra um ato de injustiça) quanto uma certa paz
de espírito (aquela que se instala quando se tem segurança de que os direitos
de cada um encontram atendidos, em harmonia com os direitos da coletividade).
Pois
bem. Quando existe conciliação possível entre o sentimento de cada sujeito e o
entendimento racional, socialmente construído, do que é o ideal de justiça e de
como ele pode se realizar, podemos falar, enfim, de uma ideia compartilhada
legítima. Se a ideia compartilhada existe, se está viva e presente, tudo vai
bem.
No
entanto, quando a possibilidade de conciliação se desfaz, ou começa a se
desfazer, o que começa a morrer é a possibilidade de que as pessoas se
reconheçam como partes de uma identidade comum, uma história comum, um futuro
comum. Aqui estamos nós.
Parece
exagero, eu sei, mas não é. No bojo da agonia de credibilidade do Poder
Judiciário no Brasil, o que está em jogo é muito mais do que encontrar uma
fórmula para limitar os penduricalhos de desembargadores, muito mais do que
redigir um código de ética que discipline os conflitos de interesse dos
ministros das altas cortes, muito mais do que julgar e punir magistrados
criminosos.
O
problema de fundo é mais aflitivo e mais clamoroso, embora invisível para a
imensa maioria dos comentadores: o problema é que a nação está se perdendo do
que poderia ser uma ideia compartilhada de justiça. Se as coisas prosseguirem
assim, seremos um país perdido de si mesmo.
Não
minimizemos o que se passa. Deveríamos parar com essa mania cômoda (e suicida)
de reduzir os assuntos judicantes a um mero detalhe administrativo da
República, um escaninho de repartição pública. A ideia compartilhada de justiça
é mais do que isso: ela é o coração de toda atividade pública.
Com
isso, volto com os gregos antigos. Não por acaso, a diretriz que orienta o
pensamento contido na Politeia (A República) de Platão é o esforço de
compreender o que poderia definir a justiça. Em seus diálogos, o discípulo de
Sócrates investiga, entre outros temas, o equilíbrio devido entre as pretensões
dos cidadãos, a necessidade de dar a cada um o que lhe é de direito, a
observância da lei e o dever de desapego daquele que exerce o poder. A política
transparece como o método da pólis para a produzir um ambiente justo.
Aristóteles
escreveu A política para refutar algumas das “quimeras” que detectava na
Politeia de seu mestre, mas não refutou o elo entre a ação política e a
realização da justiça. Quando refletiu sobre a mais elevada finalidade (o bem)
da política, que concebia como “a mais suprema de todas as ciências”, o
filósofo foi categórico: “O bem, em política, é a justiça que consiste no
interesse comum”.
Hoje,
ao ler Aristóteles e Platão, somos convidados a aprender que, se a política não
se destinar a tornar mais justa a sociedade, terá perdido sua razão de ser.
Sim, todo mundo sabe que a visão que cada tempo histórico tem do que seja a
justiça pode variar, mas segue fora de dúvida lógica ou ética que, numa ordem
democrática, o propósito da vida política é caminhar na direção do que seja
justo aos olhos dos cidadãos.
Para
onde isso nos leva? Muito simples. Quando uma sociedade não sabe mais apontar a
direção justa para os seus conflitos internos, sua vida política se perde da
própria finalidade. Então, o que vem é o fanatismo instrumentalizado por
gangues que se digladiam para se apropriar de nacos da riqueza social, mais ou
menos como salteadores divididos em bandos se engalfinham para ver quem é que
fica com o butim.
Se você
olhar com alguma objetividade à sua volta, verá que não estamos longe da
instrumentalização do fanatismo pelas gangues. Quando o sentido mesmo da
justiça é disputado pelas facções como se fosse parte do butim, um sentimento
de alma escorre pelo ralo.
• Risco sistêmico x fraude. Por Luiz
Gonzaga Belluzzo e Manfred Back
Os
escribas deste artigo tiveram a oportunidade de conhecer e entrevistar Karl
Marx, colunista do New York Daily Tribune, Marx denunciou o escândalo
financeiro que abalou os súditos de sua majestade britânica em 1856. O Banco
Master? Não, o Royal British Bank.
Aqui
vamos transcrever partes da conversa com o colunista Karl Marx:
Nós: o
senhor considera como um fato novo a fraude ocorrida no Royal British Bank?
Marx: O
que distingue o período atual de especulação na Europa é a universalidade da
febre. Já houve manias de jogos de azar antes das manias do milho, das
ferrovias, da mineração, dos bancos, da fiação de algodão… embora todos os
ramos da atividade industrial e comercial tenham sido afetados, uma mania
principal conferiu a cada época seu tom e caráter distintos. Com todos os
setores invadidos pelo espírito da especulação, cada especulador ainda se
limitava ao seu próprio setor.
Nós: no
seu entendimento, houve algo de novo no sistema?
Marx:
ao contrário, o princípio fundamental no Crédit Mobilier, representante da
atual mania, não é especular em uma linha específica, mas sim especular na
especulação, e universalizar a fraude na mesma medida em que a centraliza.
Nós:
vamos insistir para que nosso leitor entenda, por que os experts não conseguem
explicar a crise do Crédit Mobilier?
Marx:
Para que um grupo de diretores consuma o capital de uma empresa, enquanto anima
os acionistas com altos dividendos e seduz depositantes e novos acionistas com
demonstrações financeiras fraudulentas, não é necessário muito requinte. Basta
a lei inglesa… Todos os anos, desde que o banco iniciou suas operações,
acumulava um prejuízo de £50.000 e, mesmo assim, os diretores vinham anualmente
parabenizar os acionistas pela prosperidade.
Dividendos
de seis por cento eram pagos trimestralmente, embora, segundo declaração do
contador oficial Sr. Coleman, os acionistas jamais tenham sido pagos
trimestralmente…
Quando
o banco estava completamente insolvente, novas ações foram emitidas, em meio a
relatórios otimistas sobre seu progresso e voto de confiança aos diretores.
Essa emissão de novas ações não foi, de forma alguma, concebida como uma medida
desesperada para aliviar a situação do banco, mas, simplesmente, para fornecer
material para fraudes da diretoria. Embora uma das regras do estatuto social
proibisse o banco de negociar suas próprias ações, parece ter sido prática
constante onerá-lo, a título de garantia, com suas próprias ações sempre que
estas se desvalorizavam nas mãos dos diretores.
Nós: o
senhor tem conhecimento de envolvimento de altos funcionários do banco e o uso
do que chamamos hoje de “laranjas”?
Marx:
Havia dois grupos de diretores: um que se contentava em embolsar seu salário de
£10.000 por ano sem saber nada sobre os negócios do banco e, assim, manter a
consciência tranquila; e outro que se preocupava com a verdadeira direção do
banco, mas que se tornava seu primeiro cliente, ou melhor, seu saqueador. Este
último grupo, dependendo do gerente, começava por deixar o gerente se acomodar
sozinho.
Além do
gerente, eles também tinham que manter em segredo o auditor e o advogado da
empresa, que, consequentemente, recebiam subornos em adiantamentos. Além dos
adiantamentos feitos a si mesmos e a seus familiares em seus próprios nomes, os
diretores e o gerente passaram a nomear vários laranjas, em nome dos quais
embolsaram novos adiantamentos. O capital integralizado totaliza agora
£150.000, dos quais £121.840 foram absorvidos direta e indiretamente pelos
diretores.
O
fundador da empresa, Sr. McGregor, membro do Parlamento por Glasgow e renomado
escritor de estatísticas, deixou um empréstimo de £7.362 para a empresa; outro
diretor e membro do Parlamento, Sr. Humphrey Brown, de Tewkesbury, que utilizou
o banco para pagar suas despesas de campanha eleitoral, chegou a ter um débito
de £70.000 com a instituição e parece ainda estar devendo £50.000. O Sr.
Cameron, o gerente, recebeu adiantamentos no valor de £30.000. Não deveriam ter
recebido dividendos. No verão passado, demonstrações contábeis fraudulentas no
valor de mais de £370.000
Todos
os anos, desde que o banco iniciou suas operações, acumulava um prejuízo de
£50.000, e mesmo assim os diretores vinham anualmente parabenizar os acionistas
pela prosperidade”.
Nós:
houve algum tipo de triangulação com setores da indústria inglesa? Há indícios
claros de que se trata de “lavagem de dinheiro”?
Marx:
“Uma das transações mais extraordinárias e características do Royal British
Bank foi sua ligação com uma siderúrgica galesa. Na época em que o capital
integralizado da Companhia era de apenas £50.000, os adiantamentos feitos
somente a essa siderúrgica totalizaram £70.000 a £80.000. Quando a Companhia
tomou posse dessa siderúrgica, ela estava inviável.
Após se
tornar viável com um investimento de cerca de £50.000, a propriedade ficou nas
mãos de um Sr. Clarke, que, depois de explorá-la “por algum tempo”, a devolveu
ao banco, “expressando sua convicção de que estava desperdiçando uma grande
fortuna”, deixando, no entanto, o banco com uma dívida adicional de £20.000
referente à “propriedade”.
Assim,
essa empresa saía das mãos do banco sempre que havia perspectivas de lucro e
retornava ao banco quando novos adiantamentos eram necessários. Essa
brincadeira de mau gosto que os diretores tentavam levar adiante até o último
momento de sua confissão, ainda exaltando a capacidade lucrativa das
instalações, que, segundo eles, poderiam render £16.000 por ano, esquecendo-se
de que custaram aos acionistas £17.742 durante cada ano de existência da
empresa.
Os
negócios da empresa serão agora liquidados no Tribunal da Chancelaria. Muito
antes que isso possa ser feito, porém, todas as aventuras do Royal British Bank
terão sido afogadas no dilúvio da crise europeia generalizada”.
Nunca é
um caso isolado, como a economia das expectativas racionais brada aos sete
ventos. “Racional” na economia monetária-financeira capitalista é a ganância.
Há quase uma correlação perfeita entre dinheiro e ganância: são estes os
“fundamentos” que sustentam a relação entre especulação e alavancagem. A fraude
é só uma extensão.
Nossos
experts da ciência triste, a economia, insistem que o mercado financeiro e a
especulação seriam uma espécie de tumor do sistema, um planeta distante na
galáxia. Não teria importância nem qualquer efeito no dia a dia do mundo
produtivo real da dita “economia racional”.
Outros Masters virão, previsão mais do que certa!
Fonte:
A Terra é Redonda

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