quarta-feira, 25 de março de 2026


 

Marcelo Zero: Sanções como armas de destruição em massa

Com seus "tarifaços" politicamente motivados, uma forma de sanção comercial indiscriminada e irracional, e com várias ações destinadas a incrementar sanções econômicas e financeiras contra diversos países, como Irã e Cuba, por exemplo, o governo Trump está aumentando as "punições" geopolíticas contra uma parte significativa do planeta.

Embora as sanções unilaterais dos EUA e aliados não sejam nenhuma novidade, essa nova onda de punições pode ter consequências nefastas.

É preciso considerar, como escrevi alhures, que sanções econômicas, comerciais e financeiras se constituem em letais armas de destruição em massa. Com efeito, sem alarde e barulho, frequentemente provocam tantas ou mais mortes que as próprias guerras.

É o que comprova estudo científico publicado na prestigiadíssima revista de medicina Lancet, em outubro de 2025. Intitulado "Effects of international sanctions on age-specific mortality: a cross-national panel data analysis", o estudo, assinado por Francisco Rodríguez, Silvio Rendón e Mark Weisbrot, mostra uma realidade lúgubre e assustadora relativa aos efeitos das sanções sobre a mortalidade das populações que a elas são submetidas.

Os pesquisadores usaram os indicadores de sanções do Global Sanctions Database (GSDB), o conjunto de dados mundiais mais abrangente e atualizado sobre sanções compiladas até o momento.

Eles se concentraram nas sanções impostas por três países ou organizações, as quais podem ter efeitos significativos: os EUA, a UE e a ONU.

A escolha pelas sanções europeias e americanas, frequentemente combinadas, foi motivada pelo tamanho das economias dos EUA e da UE e pelo fato de que a maioria das transações comerciais e financeiras mundiais são realizadas em dólares americanos ou euros.

Nesta análise de dados em painel transnacional, os cientistas avaliaram o efeito das sanções na saúde correlacionando um conjunto de dados de taxas de mortalidade específicas por idade e episódios de sanções em 152 países, entre 1971 e 2021.

Os autores aplicaram uma série de métodos projetados para abordar relações causais, usando dados observacionais, incluindo balanceamento de entropia, causalidade de Granger, representações de estudo de eventos e variáveis instrumentais.

Segundo os autores do estudo, os resultados do extenso cruzamento de dados mostraram uma associação causal significativa entre sanções e aumento da mortalidade.

Conforme a análise empírica, os efeitos foram mais fortes em sanções unilaterais e econômicas implementadas pelos EUA. Em contrapartida, não foram encontradas evidências estatísticas de um efeito na mortalidade em sanções promovidas pela ONU.

Os efeitos na mortalidade variaram de 8,4 pontos logarítmicos (IC 95% 3,9–13,0) para crianças menores de 5 anos a 2,4 pontos logarítmicos (0,9–4,0) para indivíduos com idade entre 60 e 80 anos. Assim, crianças e idosos (estes em menor proporção) foram os grupos demográficos mais afetados pela mortalidade decorrente das sanções.

O estudo estimou que as sanções unilaterais estiveram associadas a um número anual de 564.258 mortes (IC 95% 367.838–760.677), semelhante ao montante global da mortalidade associada a conflitos armados. Ou seja, no período considerado, as sanções, especialmente as sanções econômicas unilaterais implantadas pelos EUA e aliados, mataram, direta ou indiretamente, tanto quanto as guerras propriamente ditas e outros conflitos armados.

Por conseguinte, conforme esses cientistas, as sanções têm claros efeitos adversos e substanciais na saúde pública, com um número de mortes, repetimos, semelhante ao das guerras.

Muito embora o estudo não trabalhe com cortes socioeconômicos, é óbvio que as populações mais pobres são mais afetadas pelas sanções, além desses grupos etários específicos.

Ainda segundo os autores do extenso estudo, nossos resultados reforçam a necessidade de repensar as sanções como instrumento de política externa, destacando a importância de exercer moderação em seu uso e de considerar seriamente os esforços para reformar sua concepção.

Esse importante estudo, que não mereceu nenhum destaque em nossa mídia, enfatiza, ainda, que o uso de sanções econômicas cresceu substancialmente nas últimas décadas. De acordo com cálculos feitos usando o Banco de Dados Global de Sanções (GSDB), 25% de todos os países foram sujeitos a algum tipo de sanção imposta pelos EUA, pela UE ou pela ONU no período de 2010 a 2022, em contraste com uma média de apenas 8% na década de 1960. Esse aumento é impulsionado pelo crescimento de sanções que têm como objetivo declarado acabar com guerras, proteger os direitos humanos ou promover a democracia.

Mas os resultados, como vemos, são exatamente o contrário do pretendido como justificativa.

Mortos não exercem direitos e não desfrutam de liberdades democráticas.

¨      César Fonseca: Objetivo da guerra trumpista é destruir/dissipar capital para garantir reprodução do próprio capital

A guerra EUA-ISRAEL X IRÃ está demonstrando, didaticamente, a sua função essencial, na atual fase de decadência do capitalismo americano de guerra: dissipar capital de forma absoluta.

Não importa ganhar ou perder a guerra, como diz o professor José Luís Fiori, em “História, Estratégia e Desenvolvimento”(Boitempo), mas continuar a economia de guerra, indefinidamente, para prosseguir a destruição de capital como forma de reprodução do próprio capital.

Ele deixa de produzir mercadorias destinadas ao consumo humano, como destaca Lauro Campos, em “A Crise da Ideologia Keynesiana”(Boitempo), para priorizar o seu oposto: a produção de não-mercadorias( produtos bélicos e espaciais, nucleares etc) destinadas à pura destruição/dissipação.

Eis a forma corrente de reprodução capitalista de guerra, que não visa o consumidor de mercadoria, o ser humano, mas ao único consumidor de não-mercadorias que tem condições de adquiri-las: o Estado.

Para alcançar esse objetivo, o Estado, diz Lauro, cria sua própria moeda inconversível, somente possível graças à expansão da dívida pública, geradora permanente de capital primitivo, por meio da qual continua reproduzindo capital, incapaz de se reproduzir por meio da produção de bens e serviços.

A dívida pública, como relata Colbert, o mago das finanças de Luís 14, é o nervo vital da guerra.

ECONOMIA DA ESCASSEZ

No entanto, para sustentar a continuidade da economia de bens e serviços – a economia real não-fictícia, necessária à sobrevivência humana –, só é possível no capitalismo de guerra, visto que o capitalista, na economia real, onde o capital não mais se reproduz, satisfatoriamente, não investe para perder.

Ele precisa da escassez da oferta, no reino da abundância de capital que a eleva, exponencialmente, em relação à demanda, para ter lucro por meio da inflação, garantindo lucros constantes.

A oferta, como ressalta Keynes, em “Teoria Geral do Juro e da Moeda”, sempre tem que continuar escassa em relação à demanda.

Caso contrário, o capitalista não investe para perder dinheiro, acumulando estoques; quem o salva é a economia de guerra, que gera abundância de capital, por meio da dívida pública, que exige juro alto para enxugar a liquidez, como alternativa para evitar hiperinflação.

A oferta, permanentemente, insuficiente é necessária, indispensável, para levar o capitalista ao investimento.

Se ela fosse infinita, os preços despencariam, tornando-se negativos.

Quem empata capital em situação econômica cujos preços despencam, sem inflação?

INFLAÇÃO, UNIDADE DA SOLUÇÃO

A inflação, confessa Keynes, é indispensável, no ambiente dominado pela autoridade monetária – Banco Central Independente(BCI) –, para levar o capitalista ao investimento na economia real.

Sendo a unidade das soluções, como apregoa o autor de Teoria geral, a inflação é fundamental porque: 1 – reduz salários, 2 – aumenta os preços, 3 – perdoa dívida do empresário contratada a prazo e 4 – aumenta a eficiência marginal do capital, ou seja, o lucro.

Como a inflação precisa ser controlada rigidamente sob risco de desorganizar o tecido produtivo, o BCI maneja a taxa de juro como única variável econômica verdadeiramente independente no capitalismo, como destaca Lauro Campos em “A Crise da Ideologia Keynesiana”.

DÍVIDA PÚBLICA, A ARMA DA GUERRA

A dívida pública, portanto, tem que escalar, exponencialmente, por meio do juro alto, de modo a impedir que a oferta de dinheiro em circulação, bombeada pela moeda estatal inconversível, na economia de guerra, eleve a oferta em relação à demanda, na economia real, a fim de sustentar a escassez, que produz inflação, redução de salários, aumento de preços e eficiência marginal do capital.

Sem a acumulação primitiva permanente, proporcionada pela dívida pública, bombeada pelo juro alto, que enxuga a oferta de dinheiro em circulação, haveria equilíbrio entre oferta e demanda de bens, jogando os preços para baixo e os salários para cima.

Mas, como diz Marx, esse não é o objetivo do capital, isto é, proporcionar concorrência perfeita, e sim, o contrário, a acumulação capitalista, o que nega a teoria de Jean Baptiste Say de que toda oferta gera demanda correspondente.

DESEQUILÍBRIO, A LÓGICA DO CAPITAL

Como ocorre o oposto, isto é, o objetivo do capital é o lucro, não o equilíbrio entre oferta e demanda, para que o investimento lucrativo se realize, torna-se necessário o desequilíbrio; este, por sua vez, é imposto pelo arrocho salarial, pela extração de mais valia pelo capital(renda variável) sobre o trabalho(renda fixa).

Tal lógica, no limite, materializa-se no salário zero ou negativo, na sua máxima expressão do termo, como destaca o autor de O Capital.

Por isso, os neoliberais bolsonaristas pregam reformas trabalhistas que destroem garantias para sustentar aumentos reais de salários, como fizeram os governos neoliberais Temer e Bolsonaro.

MODELO CONTRADITÓRIO

A contradição do sistema, no entanto, evidencia-se, claramente, sob salário zero ou negativo, visto que oferta se acumula em relação à demanda e os preços despencam, barrando os investimentos.

Eis porque a economia de guerra, diante do colapso da economia real de bens e serviços, é necessária para, através da dívida pública, produzindo riqueza primitiva, continuar extraindo mais valia dos salários, forma que sustenta a escassez da oferta frente à demanda, para garantir a continuidade dos lucros do capitalista.

ECONOMIA DE GUERRA, DÍVIDA E HIPERINFLAÇÃO

Os juros, na economia de guerra, como mostra a atualidade do capitalismo em crise, precisam enxugar a liquidez para manter escassa a oferta à custa do aumento da dívida pública, que faz crescer, na sua barriga, a hiperinflação.

A hiperinflação escondida pela gravidez da dívida pública proporciona dois objetivos fundamentais:

1 - render juros aos rentistas que fogem da economia real, onde o capital não mais se reproduz satisfatoriamente e

2 - financiar produção de não-mercadorias, cujo único comprador é o governo, com a moeda estatal inconversível que emite para sustentar economia de guerra.

Como a mercadoria que o governo consome, com a moeda que emite, são produtos bélicos, espaciais, nucleares etc., isto é, não-mercadorias destinadas à imediata dissipação destrutiva, como forma de reprodução do capital, a dívida pública aumenta exponencialmente.

É a forma de enxugar a liquidez que o Estado coloca em circulação por meio da dívida, no bojo da qual cresce a hiperinflação, como geradora incansável de capital primitivo.

TRUMP, SENHOR DA ECONOMIA DE GUERRA

O presidente Donald Trump, portanto, é prisioneiro da guerra, ao mesmo tempo que é o senhor dela, comprometido com sua continuidade, como estratégia de reprodução de capital, na lógica do capitalismo de guerra americano, sem se preocupar se vai ganhar ou perder a guerra.

Esse detalhe não importa, não é essencial.

O essencial é continuar a guerra para justificar objetivamente a produção armamentista de não-mercadorias, para ser dissipada continuamente.

MERCADORIA E NÃO-MERCADORIA

O capitalismo, como disse Marx, desenvolve ao máximo as forças produtivas, gerando mercadorias, entra em crise de realização de lucros, que sinaliza deflação, e passa a desenvolver as forças destrutivas, na guerra, fabricando não-mercadorias – produtos bélicos, espaciais e nucleares –, para serem continuamente dissipadas, irracionalmente.

Desse ponto de vista, Trump já perdeu a guerra no Irã, mas isso não importa para justificar o seu encerramento.

Encerrá-la significa parar produção de não-mercadorias e levar ao colapso a economia de guerra, acelerando o funeral do capitalismo americano.

Até que o sistema continue com fôlego para sustentar a guerra por meio da dívida pública, como forma de geração de capital primitivo para continuar a superacumulação de capital, ele não terá fim.

NOVA ETAPA DO CAPITALISMO À VISTA

A guerra, como objetivo em si mesmo, é o fim último do capital.

A nova etapa do capitalismo é mais guerra, agora, com a construção do escudo espacial para proteger o território americano a partir de bases siderais, como destaca Fiori, em seu último artigo, “Em busca da dominância estratégica”.

Depois da derrota no Irã, o capitalismo de guerra americano, sob comando de Trump, migra para o espaço sideral.

¨      Duas lógicas, um mundo. Por Maria Luiza Falcão

O mundo contemporâneo vive sob o peso simultâneo de múltiplas crises que se entrelaçam e se reforçam mutuamente. Conflitos armados se multiplicam, tensões geopolíticas se intensificam e crises humanitárias se aprofundam em diferentes regiões do planeta.

No Oriente Médio, a escalada militar recente recoloca a guerra no centro da dinâmica internacional, tendo na tragédia palestina sua expressão mais aguda e prolongada. A destruição de Gaza, o sofrimento contínuo da população civil e a incapacidade da comunidade internacional de impor limites efetivos revelam, de forma contundente, o esgotamento dos mecanismos tradicionais de mediação e governança global.

Na Europa, o conflito prolongado na Ucrânia segue drenando recursos, ampliando divisões e reconfigurando alianças estratégicas. Na África, uma sucessão de crises — do Sahel ao Sudão — revela Estados fragilizados, disputas por recursos e a presença crescente de atores externos.

Ao mesmo tempo, situações humanitárias dramáticas persistem, muitas vezes fora do foco das grandes manchetes. Cuba, com seus 11 milhões de habitantes, enfrenta uma crise profunda marcada por escassez de energia, alimentos e medicamentos, agravada por décadas de embargo e por choques recentes no cenário internacional. Trata-se de um sofrimento concreto, cotidiano, que expõe as limitações de uma ordem global incapaz de oferecer respostas solidárias consistentes.

Esse cenário fragmentado e instável não é apenas a soma de crises isoladas. Ele revela algo mais profundo: a erosão dos mecanismos tradicionais de governança global e a incapacidade crescente da ordem internacional herdada do pós-Guerra Fria de lidar com os desafios do presente.

É nesse contexto que ganha relevância a atuação da China.

Mais do que uma potência em ascensão, a China tem buscado se apresentar como portadora de uma visão alternativa de organização das relações internacionais. Essa visão se estrutura menos na ideia de dominação e mais na noção de interdependência. Menos na imposição e mais na coordenação. Menos no conflito e mais na construção de interesses compartilhados.

Essa não é apenas uma narrativa diplomática. Ela se materializa em iniciativas concretas que vêm redesenhando, ainda que de forma gradual, os mecanismos de cooperação internacional.

 

Fonte: Brasil 247

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