Marcelo
Zero: Sanções como armas de destruição em massa
Com
seus "tarifaços" politicamente motivados, uma forma de sanção
comercial indiscriminada e irracional, e com várias ações destinadas a
incrementar sanções econômicas e financeiras contra diversos países, como Irã e
Cuba, por exemplo, o governo Trump está aumentando as "punições"
geopolíticas contra uma parte significativa do planeta.
Embora
as sanções unilaterais dos EUA e aliados não sejam nenhuma novidade, essa nova
onda de punições pode ter consequências nefastas.
É
preciso considerar, como escrevi alhures, que sanções econômicas, comerciais e
financeiras se constituem em letais armas de destruição em massa. Com efeito,
sem alarde e barulho, frequentemente provocam tantas ou mais mortes que as
próprias guerras.
É o que
comprova estudo científico publicado na prestigiadíssima revista de medicina
Lancet, em outubro de 2025. Intitulado "Effects of international sanctions
on age-specific mortality: a cross-national panel data analysis", o
estudo, assinado por Francisco Rodríguez, Silvio Rendón e Mark Weisbrot, mostra
uma realidade lúgubre e assustadora relativa aos efeitos das sanções sobre a
mortalidade das populações que a elas são submetidas.
Os
pesquisadores usaram os indicadores de sanções do Global Sanctions Database
(GSDB), o conjunto de dados mundiais mais abrangente e atualizado sobre sanções
compiladas até o momento.
Eles se
concentraram nas sanções impostas por três países ou organizações, as quais
podem ter efeitos significativos: os EUA, a UE e a ONU.
A
escolha pelas sanções europeias e americanas, frequentemente combinadas, foi
motivada pelo tamanho das economias dos EUA e da UE e pelo fato de que a
maioria das transações comerciais e financeiras mundiais são realizadas em
dólares americanos ou euros.
Nesta
análise de dados em painel transnacional, os cientistas avaliaram o efeito das
sanções na saúde correlacionando um conjunto de dados de taxas de mortalidade
específicas por idade e episódios de sanções em 152 países, entre 1971 e 2021.
Os
autores aplicaram uma série de métodos projetados para abordar relações
causais, usando dados observacionais, incluindo balanceamento de entropia,
causalidade de Granger, representações de estudo de eventos e variáveis
instrumentais.
Segundo
os autores do estudo, os resultados do extenso cruzamento de dados mostraram
uma associação causal significativa entre sanções e aumento da mortalidade.
Conforme
a análise empírica, os efeitos foram mais fortes em sanções unilaterais e
econômicas implementadas pelos EUA. Em contrapartida, não foram encontradas
evidências estatísticas de um efeito na mortalidade em sanções promovidas pela
ONU.
Os
efeitos na mortalidade variaram de 8,4 pontos logarítmicos (IC 95% 3,9–13,0)
para crianças menores de 5 anos a 2,4 pontos logarítmicos (0,9–4,0) para
indivíduos com idade entre 60 e 80 anos. Assim, crianças e idosos (estes em
menor proporção) foram os grupos demográficos mais afetados pela mortalidade
decorrente das sanções.
O
estudo estimou que as sanções unilaterais estiveram associadas a um número
anual de 564.258 mortes (IC 95% 367.838–760.677), semelhante ao montante global
da mortalidade associada a conflitos armados. Ou seja, no período considerado,
as sanções, especialmente as sanções econômicas unilaterais implantadas pelos
EUA e aliados, mataram, direta ou indiretamente, tanto quanto as guerras
propriamente ditas e outros conflitos armados.
Por
conseguinte, conforme esses cientistas, as sanções têm claros efeitos adversos
e substanciais na saúde pública, com um número de mortes, repetimos, semelhante
ao das guerras.
Muito
embora o estudo não trabalhe com cortes socioeconômicos, é óbvio que as
populações mais pobres são mais afetadas pelas sanções, além desses grupos
etários específicos.
Ainda
segundo os autores do extenso estudo, nossos resultados reforçam a necessidade
de repensar as sanções como instrumento de política externa, destacando a
importância de exercer moderação em seu uso e de considerar seriamente os
esforços para reformar sua concepção.
Esse
importante estudo, que não mereceu nenhum destaque em nossa mídia, enfatiza,
ainda, que o uso de sanções econômicas cresceu substancialmente nas últimas
décadas. De acordo com cálculos feitos usando o Banco de Dados Global de
Sanções (GSDB), 25% de todos os países foram sujeitos a algum tipo de sanção
imposta pelos EUA, pela UE ou pela ONU no período de 2010 a 2022, em contraste
com uma média de apenas 8% na década de 1960. Esse aumento é impulsionado pelo
crescimento de sanções que têm como objetivo declarado acabar com guerras,
proteger os direitos humanos ou promover a democracia.
Mas os
resultados, como vemos, são exatamente o contrário do pretendido como
justificativa.
Mortos
não exercem direitos e não desfrutam de liberdades democráticas.
¨ César Fonseca:
Objetivo da guerra trumpista é destruir/dissipar capital para garantir
reprodução do próprio capital
A
guerra EUA-ISRAEL X IRÃ está demonstrando, didaticamente, a sua função
essencial, na atual fase de decadência do capitalismo americano de guerra:
dissipar capital de forma absoluta.
Não
importa ganhar ou perder a guerra, como diz o professor José Luís Fiori, em
“História, Estratégia e Desenvolvimento”(Boitempo), mas continuar a economia de
guerra, indefinidamente, para prosseguir a destruição de capital como forma de
reprodução do próprio capital.
Ele
deixa de produzir mercadorias destinadas ao consumo humano, como destaca Lauro
Campos, em “A Crise da Ideologia Keynesiana”(Boitempo), para priorizar o seu
oposto: a produção de não-mercadorias( produtos bélicos e espaciais, nucleares
etc) destinadas à pura destruição/dissipação.
Eis a
forma corrente de reprodução capitalista de guerra, que não visa o consumidor
de mercadoria, o ser humano, mas ao único consumidor de não-mercadorias que tem
condições de adquiri-las: o Estado.
Para
alcançar esse objetivo, o Estado, diz Lauro, cria sua própria moeda
inconversível, somente possível graças à expansão da dívida pública, geradora
permanente de capital primitivo, por meio da qual continua reproduzindo
capital, incapaz de se reproduzir por meio da produção de bens e serviços.
A
dívida pública, como relata Colbert, o mago das finanças de Luís 14, é o nervo
vital da guerra.
ECONOMIA
DA ESCASSEZ
No
entanto, para sustentar a continuidade da economia de bens e serviços – a
economia real não-fictícia, necessária à sobrevivência humana –, só é possível
no capitalismo de guerra, visto que o capitalista, na economia real, onde o
capital não mais se reproduz, satisfatoriamente, não investe para perder.
Ele
precisa da escassez da oferta, no reino da abundância de capital que a eleva,
exponencialmente, em relação à demanda, para ter lucro por meio da inflação,
garantindo lucros constantes.
A
oferta, como ressalta Keynes, em “Teoria Geral do Juro e da Moeda”, sempre tem
que continuar escassa em relação à demanda.
Caso
contrário, o capitalista não investe para perder dinheiro, acumulando estoques;
quem o salva é a economia de guerra, que gera abundância de capital, por meio
da dívida pública, que exige juro alto para enxugar a liquidez, como
alternativa para evitar hiperinflação.
A
oferta, permanentemente, insuficiente é necessária, indispensável, para levar o
capitalista ao investimento.
Se ela
fosse infinita, os preços despencariam, tornando-se negativos.
Quem
empata capital em situação econômica cujos preços despencam, sem inflação?
INFLAÇÃO,
UNIDADE DA SOLUÇÃO
A
inflação, confessa Keynes, é indispensável, no ambiente dominado pela
autoridade monetária – Banco Central Independente(BCI) –, para levar o
capitalista ao investimento na economia real.
Sendo a
unidade das soluções, como apregoa o autor de Teoria geral, a inflação é
fundamental porque: 1 – reduz salários, 2 – aumenta os preços, 3 – perdoa
dívida do empresário contratada a prazo e 4 – aumenta a eficiência marginal do
capital, ou seja, o lucro.
Como a
inflação precisa ser controlada rigidamente sob risco de desorganizar o tecido
produtivo, o BCI maneja a taxa de juro como única variável econômica
verdadeiramente independente no capitalismo, como destaca Lauro Campos em “A
Crise da Ideologia Keynesiana”.
DÍVIDA
PÚBLICA, A ARMA DA GUERRA
A
dívida pública, portanto, tem que escalar, exponencialmente, por meio do juro
alto, de modo a impedir que a oferta de dinheiro em circulação, bombeada pela
moeda estatal inconversível, na economia de guerra, eleve a oferta em relação à
demanda, na economia real, a fim de sustentar a escassez, que produz inflação,
redução de salários, aumento de preços e eficiência marginal do capital.
Sem a
acumulação primitiva permanente, proporcionada pela dívida pública, bombeada
pelo juro alto, que enxuga a oferta de dinheiro em circulação, haveria
equilíbrio entre oferta e demanda de bens, jogando os preços para baixo e os
salários para cima.
Mas,
como diz Marx, esse não é o objetivo do capital, isto é, proporcionar
concorrência perfeita, e sim, o contrário, a acumulação capitalista, o que nega
a teoria de Jean Baptiste Say de que toda oferta gera demanda correspondente.
DESEQUILÍBRIO,
A LÓGICA DO CAPITAL
Como
ocorre o oposto, isto é, o objetivo do capital é o lucro, não o equilíbrio
entre oferta e demanda, para que o investimento lucrativo se realize, torna-se
necessário o desequilíbrio; este, por sua vez, é imposto pelo arrocho salarial,
pela extração de mais valia pelo capital(renda variável) sobre o trabalho(renda
fixa).
Tal
lógica, no limite, materializa-se no salário zero ou negativo, na sua máxima
expressão do termo, como destaca o autor de O Capital.
Por
isso, os neoliberais bolsonaristas pregam reformas trabalhistas que destroem
garantias para sustentar aumentos reais de salários, como fizeram os governos
neoliberais Temer e Bolsonaro.
MODELO
CONTRADITÓRIO
A
contradição do sistema, no entanto, evidencia-se, claramente, sob salário zero
ou negativo, visto que oferta se acumula em relação à demanda e os preços
despencam, barrando os investimentos.
Eis
porque a economia de guerra, diante do colapso da economia real de bens e
serviços, é necessária para, através da dívida pública, produzindo riqueza
primitiva, continuar extraindo mais valia dos salários, forma que sustenta a
escassez da oferta frente à demanda, para garantir a continuidade dos lucros do
capitalista.
ECONOMIA
DE GUERRA, DÍVIDA E HIPERINFLAÇÃO
Os
juros, na economia de guerra, como mostra a atualidade do capitalismo em crise,
precisam enxugar a liquidez para manter escassa a oferta à custa do aumento da
dívida pública, que faz crescer, na sua barriga, a hiperinflação.
A
hiperinflação escondida pela gravidez da dívida pública proporciona dois
objetivos fundamentais:
1 -
render juros aos rentistas que fogem da economia real, onde o capital não mais
se reproduz satisfatoriamente e
2 -
financiar produção de não-mercadorias, cujo único comprador é o governo, com a
moeda estatal inconversível que emite para sustentar economia de guerra.
Como a
mercadoria que o governo consome, com a moeda que emite, são produtos bélicos,
espaciais, nucleares etc., isto é, não-mercadorias destinadas à imediata
dissipação destrutiva, como forma de reprodução do capital, a dívida pública
aumenta exponencialmente.
É a
forma de enxugar a liquidez que o Estado coloca em circulação por meio da
dívida, no bojo da qual cresce a hiperinflação, como geradora incansável de
capital primitivo.
TRUMP,
SENHOR DA ECONOMIA DE GUERRA
O
presidente Donald Trump, portanto, é prisioneiro da guerra, ao mesmo tempo que
é o senhor dela, comprometido com sua continuidade, como estratégia de
reprodução de capital, na lógica do capitalismo de guerra americano, sem se
preocupar se vai ganhar ou perder a guerra.
Esse
detalhe não importa, não é essencial.
O
essencial é continuar a guerra para justificar objetivamente a produção
armamentista de não-mercadorias, para ser dissipada continuamente.
MERCADORIA
E NÃO-MERCADORIA
O
capitalismo, como disse Marx, desenvolve ao máximo as forças produtivas,
gerando mercadorias, entra em crise de realização de lucros, que sinaliza
deflação, e passa a desenvolver as forças destrutivas, na guerra, fabricando
não-mercadorias – produtos bélicos, espaciais e nucleares –, para serem
continuamente dissipadas, irracionalmente.
Desse
ponto de vista, Trump já perdeu a guerra no Irã, mas isso não importa para
justificar o seu encerramento.
Encerrá-la
significa parar produção de não-mercadorias e levar ao colapso a economia de
guerra, acelerando o funeral do capitalismo americano.
Até que
o sistema continue com fôlego para sustentar a guerra por meio da dívida
pública, como forma de geração de capital primitivo para continuar a
superacumulação de capital, ele não terá fim.
NOVA
ETAPA DO CAPITALISMO À VISTA
A
guerra, como objetivo em si mesmo, é o fim último do capital.
A nova
etapa do capitalismo é mais guerra, agora, com a construção do escudo espacial
para proteger o território americano a partir de bases siderais, como destaca
Fiori, em seu último artigo, “Em busca da dominância estratégica”.
Depois
da derrota no Irã, o capitalismo de guerra americano, sob comando de Trump,
migra para o espaço sideral.
¨
Duas lógicas, um mundo. Por Maria Luiza Falcão
O mundo
contemporâneo vive sob o peso simultâneo de múltiplas crises que se entrelaçam
e se reforçam mutuamente. Conflitos armados se multiplicam, tensões
geopolíticas se intensificam e crises humanitárias se aprofundam em diferentes
regiões do planeta.
No
Oriente Médio, a escalada militar recente recoloca a guerra no centro da
dinâmica internacional, tendo na tragédia palestina sua expressão mais aguda e
prolongada. A destruição de Gaza, o sofrimento contínuo da população civil e a
incapacidade da comunidade internacional de impor limites efetivos revelam, de
forma contundente, o esgotamento dos mecanismos tradicionais de mediação e
governança global.
Na
Europa, o conflito prolongado na Ucrânia segue drenando recursos, ampliando
divisões e reconfigurando alianças estratégicas. Na África, uma sucessão de
crises — do Sahel ao Sudão — revela Estados fragilizados, disputas por recursos
e a presença crescente de atores externos.
Ao
mesmo tempo, situações humanitárias dramáticas persistem, muitas vezes fora do
foco das grandes manchetes. Cuba, com seus 11 milhões de habitantes, enfrenta
uma crise profunda marcada por escassez de energia, alimentos e medicamentos,
agravada por décadas de embargo e por choques recentes no cenário
internacional. Trata-se de um sofrimento concreto, cotidiano, que expõe as
limitações de uma ordem global incapaz de oferecer respostas solidárias
consistentes.
Esse
cenário fragmentado e instável não é apenas a soma de crises isoladas. Ele
revela algo mais profundo: a erosão dos mecanismos tradicionais de governança
global e a incapacidade crescente da ordem internacional herdada do pós-Guerra
Fria de lidar com os desafios do presente.
É nesse
contexto que ganha relevância a atuação da China.
Mais do
que uma potência em ascensão, a China tem buscado se apresentar como portadora
de uma visão alternativa de organização das relações internacionais. Essa visão
se estrutura menos na ideia de dominação e mais na noção de interdependência.
Menos na imposição e mais na coordenação. Menos no conflito e mais na
construção de interesses compartilhados.
Essa
não é apenas uma narrativa diplomática. Ela se materializa em iniciativas
concretas que vêm redesenhando, ainda que de forma gradual, os mecanismos de
cooperação internacional.
Fonte:
Brasil 247

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