quarta-feira, 25 de março de 2026

Glauco Faria: Globo - A história de manipulações eleitorais da família Marinho

Após a emissora de notícias das Organizações Globo, a Globo News, ter levado ao ar na tarde desta sexta-feira (20) uma ilustração sobre o escândalo do Banco Master distorcendo fatos e omitindo e minimizando o papel de personagens que seriam centrais no caso, diversas críticas têm sido feitas ao grupo de comunicação.

O formato utilizado pela emissora remete ainda ao PowerPoint utilizado pelo ex-procurador da Operação Lava Jato Deltan Dallagnol, que apontava o então ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como centro da suposta organização criminosa investigada pela força-tarefa.   Pela apresentação, Dallagnol foi condenado pela Justiça a pagar R$ 146 mil em indenização por danos morais a Lula.

Embora o escândalo do Banco Master tenha implicado até agora praticamente só nomes da direita e figuras ligadas ao bolsonarismo, a peça feita pela emissora mostrava próximos ao banqueiro Daniel Vorcaro, no centro da imagem, fotos do presidente Lula, do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, do “PT da Bahia” e do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, ainda que tenha sido na gestão de Roberto Campos Neto, nomeado por Bolsonaro, que Vorcaro tenha conseguido autorização para assumir o controle do Banco Máxima, que posteriormente se tornou o Banco Master.

O ex-diretor de Fiscalização do BC, Paulo Sergio Neves de Souza, também da gestão de Campos Neto, e o ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária (Desup), Belline Santana, foram apontados pela Polícia Federal (PF) como “funcionários” ou “consultores informais” de Vorcaro. E o Master firmou convênio com o INSS para operar o crédito consignado em 2020, também no governo Bolsonaro.

Nada disso pareceu fazer com que a Globo fizesse a equivalência correta na sua ilustração. O deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) classificou como “muito grave” o episódio. “É muito grave o que a Rede Globo fez, o novo PowerPoint. Sinceramente, eu achei que depois do PowerPoint do Dallagnol, a gente não teria tão cedo outra tentativa tão grotesca de manipulação da opinião pública através da criação de uma narrativa através de um PowerPoint”, declarou, em vídeo publicado nas redes sociais.

“As duas campanhas do Brasil que receberam mais dinheiro nas últimas eleições foram as campanhas do Bolsonaro e do Tarcísio de Freitas. E eles não aparecem, não aparecem no PowerPoint da Rede Globo”, acrescentou, mencionando alguns nomes omitidos pela emissora.

<><> O histórico da Globo e o caso Proconsult

Não é a primeira vez em que as Organizações Globo são acusadas de interferirem em processos eleitorais ou pré-eleitorais. A extrema direita costuma tecer teorias conspiratórias, mas os fatos apontam que é a esquerda quem foi alvo de coberturas enviesadas, falsificações e distorções.

Um dos casos emblemáticos envolve as primeiras eleições diretas para governador durante o processo de abertura política, no fim da ditadura iniciada com o golpe de 1964. No Rio de Janeiro, a empresa Proconsult, que contava com militares em sua direção, venceu a licitação do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) para totalizar os votos no estado, mesmo sem contar com nenhuma experiência no setor.

O professor do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio, Mauro José de Souza Silveira, analisava no trabalho O caso Proconsult: embates na apuração das eleições para o governo fluminense em 1982 a diferença entre a cobertura do Jornal do Brasil e do grupo Globo. “Depois de uma dificuldade inicial em seu sistema de computação, o Jornal do Brasil rendeu-se aos dados apurados pelo esquema paralelo montado por sua emissora de rádio e passou a projetar os números relativos aos votos obtidos pelos candidatos a governador. Ao mesmo tempo, o Globo divulgava um número muito inferior de urnas apuradas”, conta.

“Enquanto o JB já projetava a vitória de Brizola, o concorrente reproduzia a lenta apuração oficial, sempre com Moreira na frente, e divulgava projeções indicando uma indefinição quanto ao resultado final das eleições. À medida que avançava na apuração, o JB comemorava sua atuação, com anúncios institucionais em suas páginas. Quando já era flagrante o fracasso da Proconsult, O Globo passou a criticar a empresa, a quem atribuiu os problemas de sua própria apuração”, destaca.

Silveira aponta que “a pesquisa realizada me permitiu comprovar o empenho do grupo Globo, declaradamente na campanha e de uma forma não assumida na cobertura da apuração para derrotar Leonel Brizola e eleger Moreira Franco”.

Em artigo, o jornalista Altamiro Borges lembra que, mesmo depois das eleições, a Globo seguiu em campanha contra Brizola. “Passadas as eleições, mesmo desmoralizada, a Globo continuou a fazer campanha feroz contra o governador Leonel Brizola, democraticamente eleito pelo povo. Ela procurou vender a imagem de que ele era culpado pelo aumento da criminalidade e, sem provas, tentou associá-lo ao mundo do crime. Numa entrevista ao jornal The New York Times, em 1987, o próprio Roberto Marinho confessou essa ilegal manipulação. ‘Em determinado momento, me convenci de que o Sr. Leonel Brizola era um mau governador. Ele transformou a cidade maravilhosa que é o Rio de Janeiro numa cidade de mendigos e vendedores ambulantes. Passei a considerar o Sr. Brizola daninho e perigoso e lutei contra ele. Realmente, usei todas as possibilidades para derrotá-lo'”.

<><> Edição do debate de 1989

Outro episódio marcante foi a edição distorcida feita do último debate do segundo turno das eleições presidenciais entre os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor de Mello, em 1989.

No dia seguinte do encontro ao vivo organizado por um pool de emissoras, a Globo exibiu uma matéria com o que seriam os melhores momentos do debate no Jornal Nacional, à época o principal meio de informação da maioria dos brasileiros. Contudo, os “melhores momentos”pareciam reservados apenas a Collor.

À época, o PT chegou a mover uma ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) solicitando que novos trechos do debate fossem apresentados no Jornal Nacional ainda antes das eleições, mas seu pedido foi negado.

Em entrevista ao livro Jornal Nacional, a notícia faz história, do projeto Memória Globo, o jornalista Armando Nogueira, então diretor da Central Globo de Jornalismo, acusou Alberico de Souza Cruz, um de seus diretores, e o editor de política, Ronald de Carvalho, de terem deformado a edição do debate que foi apresentada no Jornal Hoje e que deveria ser repetida sem qualquer alteração.

“Alberico, à minha revelia, mandou fazer alterações, das quais eu só tomei conhecimento no ar. Então eu estava diante de um caso típico de deslealdade, de traição profissional, traição funcional (…). Foi um caso típico de deslealdade profissional desse rapaz que era uma pessoa de minha confiança e que segue até hoje e vai continuar negando até o Juízo Final. Mas, no Juízo Final, continuarei a responsabilizá-lo por isso”, disse.

Anos depois do malfeito, a própria Globo admitiria o erro, de forma quase envergonhada. “A partir deste episódio, a Globo decidiu não editar debates políticos, limitando-se a apresentá-los na íntegra e ao vivo. Concluiu-se que, ao condensar um debate, bons e maus momentos dos candidatos ficarão de fora, segundo a escolha de um editor ou de um grupo de editores, e sempre haverá a possibilidade de um dos candidatos se sentir prejudicado”, diz a emissora no site do Memória Globo.

<><> A Globo na cobertura das Diretas Já

Não se tratava de um processo eleitoral, mas uma votação na Câmara dos Deputados que seria decisiva para a história brasileira e definia, justamente, o direito de votar.

A Emenda Dante de Oliveira, proposta em 1983 pelo deputado homônimo, visava restabelecer eleições diretas para presidente no Brasil, resultando no movimento “Diretas Já”, que uniu boa parte da sociedade que lutava pela redemocratização.

Parafraseando Garrincha, faltou combinar com a Globo. Em 25 de janeiro de 1984, ocorreu um comício histórico na Praça da Sé, em São Paulo, com mais de 300 mil pessoas reunidas para exigir “Diretas Já”, com a presença de grandes líderes políticos, como os governadores Franco Montoro e Leonel Brizola, Ulysses Guimarães, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Mário Covas.

O Jornal Nacional daquela noite exibiu imagens da multidão monumental, mas omitiu em sua chamada o caráter político e reivindicatório do evento. “Festa em São Paulo. A cidade comemorou seus 430 anos com mais de 500 solenidades. A maior foi um comício na Praça da Sé”, dizia o locutor do programa.

Mais uma vez, a própria Globo admitiu, nas palavras do então vice-presidente de operações da Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, que atribuiu o jornalismo feito àquela época como resultado das pressões dos militares, que teriam ameaçado cassar a concessão da emissora. “Naquele momento, a pressão sobre Roberto Marinho foi intensa. Foi uma frustração para mim e para toda a equipe de jornalismo, uma tristeza para o Armando Nogueira e a Alice-Maria, não poder fazer a cobertura de maneira adequada. Nós ficamos limitados pelo poder de audiência que a TV Globo tinha. Isso foi uma tristeza muito grande, mas naquele momento o Dr. Roberto não podia resistir”, disse, ao Memória Globo.

•        PowerPoint da GloboNews: Neide Duarte, que trabalhou 42 anos na Globo, destrói “cartolina”

Jornalista premiada, que trabalhou por 42 anos na Rede Globo, Neide Duarte não se conteve com a decisão editorial da GloboNews, que veiculou em sua programação, nesta sexta-feira (20), um PowerPoint vergonhoso sobre o escândalo do Banco Master.

A ilustração “explicativa” ataca o governo Lula, o PT e omite descaradamente nomes como Jair Bolsonaro, Campos Neto, Tarcísio de Freitas, Cláudio Castro e Ibaneis Rocha, apenas para citar alguns exemplos. Neide foi às redes sociais para demonstrar sua indignação.

“Quando passei pela sala e vi rapidamente a tela da TV me pareceu um programa de algum culto pentecostal que resolveu fazer o seu jornalzinho rápido para atacar o Lula. Mandaram alguém pegar uma cartolina cor da pele, colar algumas fotos e fazer linhas associando alhos com bugalhos, pão de queijo com fuzil, brincadeira de criança com tornozeleira eletrônica”, começou a jornalista.

“No meio a foto com cara de rico de Vorcaro, bem debaixo dele a estrela do PT, como se ele fosse um petista, acima deles Lula, como se fosse o chefe de tudo. Numa órbita bem distante do centro estavam Ciro Nogueira, Nikolas Ferreira, Antonio Rueda, João Doria, Hugo Motta, Davi Alcolumbre”, destacou.

“Acredito que a editoria que mandou fazer essa cartolina esqueceu vários nomes principais dessa história, por exemplo, Roberto Campos Neto, o ex-presidente do Banco Central, foi na época dele que tudo começou, Tarcísio de Freitas que recebeu 2 milhões de reais de Vorcaro, Jair Bolsonaro que recebeu 3 milhões de reais de Vorcaro, Ibaneis Rocha, governador de Brasília que quis comprar o Banco Master através do Banco de Brasília, para salvar Vocaro, Cláudio Castro, governador do Rio que investiu bilhões do Fundo de previdência dos funcionários públicos do Rio em papéis podres do Master”, enfatizou Neide.

<><> “Falta de respeito”

“Talvez se isso tivesse sido exibido por uma TV Rodoviária de alguma cidade pequena do interior, seria uma grande mentira, mas não um grande problema. Ser exibido pela emissora que um dia teve orgulho de dizer que tinha um padrão de qualidade é jogar na nossa cara, telespectadores, a falta de respeito que tem por nós. Esse episódio aceita vários nomes, menos o de jornalismo”, desabafou.

E, para finalizar, Neide fechou com chave de ouro: “Dia da vergonha na Gnews. Os tios dos churrascos e as tias do zap também sabem fazer jornalismo desse jeito”.

•        Após Neide Duarte, outro ex-Globo se revolta: “Uma lástima”

Após o desabafo de Neide Duarte, que trabalhou na Globo por 42 anos, protestando nas redes sociais contra a veiculação, pela GloboNews, de um PowerPoint infame sobre o escândalo do Banco Master, outro jornalista, que atou mais de três décadas na emissora, resolveu se manifestar.

A ilustração “explicativa” mostrada pela GloboNews atacou o governo Lula, o PT e omitiu descaradamente nomes como Jair Bolsonaro, Campos Neto, Tarcísio de Freitas, Cláudio Castro e Ibaneis Rocha, apenas para citar alguns exemplos.

Ari Peixoto, que trabalhou na Globo por 34 anos, com passagens por “Jornal Nacional” e “Fantástico”, além de coberturas internacionais, se juntou a Neide no protesto, ao comentar a publicação da colega.

“Trabalhei nesta emissora por 34 anos e posso dizer, sem medo de errar que alguns destes anos foram os melhores para mim, para ela e para o jornalismo… mas aos poucos tudo isso foi ficando pra trás, os melhores repórteres, repcines (repórter cinematográfico), editores e produtores foram saindo (ou foram saídos)”, iniciou Ari.

<><> “Arma política”

“E o que era pra ser uma emissora de televisão se tornou uma arma política, quase um partido autônomo, dirigido por gente ressentida pelas derrotas sucessivas para os candidatos da esquerda… me lembro bem do selo do túnel de esgoto por onde passava dinheiro, exposto todas as noites no JN. Uma lástima”, acrescentou o jornalista.

Ari encerrou seu comentário fazendo um alerta: “Mas preparem-se. Cenas como esta, aliadas à IA, serão muito comuns até outubro. O powerpoint da lava a jato vai parecer desenho de criança do jardim de infância…”.

•        GloboNews é acusada por blogueiro bolsonarista de plagiar PowerPoint

A infeliz ideia da GloboNews de veicular, em sua programação de sexta-feira (20), um PowerPoint mentiroso, tentando associar o escândalo do Banco Master ao governo Lula e ao PT, continua repercutindo nas redes sociais.

Depois de ser detonado por jornalistas respeitados, que trabalharam na Globo por mais de três décadas, coube a um blogueiro bolsonarista, David Ágape, protestar e acusar a GloboNews de plagiar o PowerPoint.

Em publicação no X, Ágape mostrou as imagens do PowerPoint veiculado pela emissora e o outro que alegou ser seu. As semelhanças são indiscutíveis.

Junto às fotos, o seguinte comentário: “Bom dia, GloboNews! Pode usar o conteúdo de @a_investigacao_ à vontade. Só não esquece de dar os créditos, tá bom?”.

Seja lá de quem tenha sido a ideia, fato é que o tal PowerPoint foi criado para atacar o governo Lula e omitir personagens com, digamos, uma relação mais direta com o escândalo do Banco Master, como Jair Bolsonato, Campos Neto, Tarcísio de Freitas, Cláudio Castro e Ibaneis Rocha, apenas para citar alguns.

 

Fonte: Fórum

 

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