Deputado
que tenta barrar uso de satélite em fiscalização ambiental recebeu doações de
fazendeiro punido pelo Ibama
A
Câmara dos Deputados aprovou, na terça-feira (17/3), um pedido de tramitação em
regime de urgência de projeto de lei que proíbe órgãos ambientais de aplicarem
embargos cautelares com base, exclusivamente, em imagens de satélite que
monitoram biomas como o Cerrado e a Amazônia.
O
governo federal e ambientalistas afirmam que esse mecanismo, conhecido como
"embargo remoto", é um dos principais responsáveis pela queda nas
taxas de desmatamento no Brasil nos últimos três anos. A bancada ruralista, no
entanto, defende o projeto afirmando que ele garantiria segurança jurídica e
amplo direito de defesa a produtores rurais.
Um
cruzamento de dados e documentos obtidos pela BBC News Brasil apontam, no
entanto, que o autor do projeto, o deputado federal Lúcio Mosquini (MDB-RO),
teve como seu maior doador individual de campanha, em 2022, um empresário e
fazendeiro que foi multado por infração ambiental.
Sérgio
Botelho Teixeira é sócio-diretor de uma empresa de laticínios responsável pela
marca Italac. Desde 2018, ele doou R$ 250 mil para campanhas de Mosquini,
tornando-se um dos principais doadores individuais do parlamentar. Nas últimas
eleições, ele doou R$ 150 mil para a campanha do deputado, quando se reelegeu
pela segunda vez. Foi a única doação feita pelo empresário na eleição.
No
Brasil, doações para campanhas políticas são legais e só podem ser feitas por
pessoas físicas. Em 2015, o Supremo Tribunal Federal (STF) proibiu as doações
feitas por pessoas jurídicas em meio a discussões sobre a influência que elas
poderiam ter sobre a atuação dos parlamentares. Sob a nova regra, as doações,
em geral, são feitas por empresários, familiares e apoiadores, sempre como
pessoa física. Infratores ambientais ou pessoas que ainda respondem a processos
por infração ambiental não estão impedidos legalmente de doar.
Um
processo judicial ao qual a BBC News Brasil teve acesso mostra que, em dezembro
de 2025, o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis
(Ibama), multou em R$ 5,5 milhões uma fazenda no Estado do Tocantins da qual
Teixeira é um dos donos, junto com familiares. Segundo o órgão, os donos da
fazenda impediram a regeneração da vegetação natural da reserva legal da
propriedade ao plantar pasto no local.
Procurado,
Mosquini diz à BBC News Brasil que seu projeto foi apresentado para defender
produtores rurais — categoria da qual ele faz parte como dono de fazendas em
Rondônia — e que não tinha conhecimento da multa aplicada à fazenda do
empresário.
"Você
não pode atropelar o devido processo legal às custas de ter um maior controle
sobre o desmatamento", diz Mosquini à BBC News Brasil.
"Com
relação ao Sérgio, eu não sabia (da multa), mas eu defendo, mesmo. Pode ser ele
ou qualquer um que seja injustiçado sem o direito de defesa."
A
defesa de Teixeira diz que a multa aplicada pelo Ibama ocorreu devido a um
engano em registros cadastrais da fazenda e que o assunto está sendo analisado
pela Justiça Federal. Ressaltou ainda que a sanção não ocorreu com base na
fiscalização via satélite — alvo do projeto de Mosquini.
Os
advogados do empresário também negaram que ele tenha exercido influência sobre
o deputado e que só teria tomado conhecimento do projeto apresentado por
Mosquini pela mídia.
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O que pode mudar se projeto for aprovado
O
projeto de Lúcio Mosquini altera a Lei de Crimes Ambientais, em vigor desde
1998, e proíbe a aplicação de embargos por órgãos de fiscalização ambiental com
base, exclusivamente, em dados de satélite, o chamado "embargo
remoto".
A
justificativa de Mosquini é que "muitas áreas têm sido embargadas a partir
da apuração remota de infração sem que o autuado tenha a oportunidade de se
defender previamente".
O
"embargo remoto" é feito a partir de imagens de satélite captadas em
tempo real para detectar atividades ilegais, como desmatamento ou garimpos. O
Ibama cruza os dados com o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e identifica os
responsáveis pela propriedade em questão.
O órgão
declara o embargo em caráter cautelar (ou preventivo) da área. Esse embargo
veda, temporariamente, atividades econômicas na propriedade.
Bancos
e instituições financeiras devem negar, por exemplo, financiamentos para
fazendas sob embargo. Fazendas embargadas também podem ser impedidas de vender
gado para frigoríficos.
Em
seguida, é aberto um processo administrativo no qual os donos da área podem
recorrer do embargo. Se o produtor comprovar que há erro nos dados da autuação
ou que tinha autorização para o desmate, o embargo é revogado.
Do
contrário, é aberto um processo administrativo que pode resultar na aplicação
de multas e outras sanções. Nesta fase, o fazendeiro tem direito a contestar os
termos da autuação.
Os
"embargos remotos" foram usados entre 2016 e 2018, durante o governo
do então presidente Michel Temer (MDB), e suspensos durante os quatro anos do
governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Em 2023, no primeiro ano do
governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o Ibama voltou a usar
esse mecanismo.
Especialistas
apontam que isso ajudou o governo federal a reduzir o desmatamento no país ao
permitir identificar atividades ilegais mesmo em áreas isoladas.
Entre
julho de 2024 e agosto de 2025, o desmatamento na Amazônia caiu 11% em relação
ao mesmo período entre 2023 e 2024. Na comparação com os dados de 2021 e 2022,
a queda foi de 50%.
Dados
oficiais mostram ainda que isso foi acompanhado de um aumento no número de
embargos, muitos deles feitos de forma remota. Uma estimativa do Ibama aponta
que se o projeto for aprovado, ele terá impacto sobre 70% das ações de
fiscalização realizadas pelo órgão na Amazônia. Entre 2023 e 2025, o número de
embargos cresceu 51% em comparação com o período de 2020 a 2022.
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Os argumentos de ruralistas e ambientalistas
O
projeto em tramitação no Congresso colocou, novamente, ambientalistas e os
órgãos de fiscalização de um lado e ruralistas de outro. Com a aprovação do
regime de urgência, o projeto pode ser votado mais rapidamente na Câmara, indo
direto para o Plenário, sem passar pela avaliação de outras comissões. Caso
seja aprovado, o projeto deverá ser votado pelo Senado. Se não houver mudanças
no texto, ele seguirá para sanção presidencial.
Na
semana passada, porém, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta
(Republicanos-PB), disse que ainda não há previsão para que o projeto seja
colocado em votação.
"Caso
o projeto seja aprovado, ele poderá afetar cerca de dois terços das autuações
realizadas anualmente pelo Ibama, comprometendo a efetividade da fiscalização
ambiental", diz à BBC News Brasil o diretor de Proteção Ambiental do
Ibama, Jair Schmitt. Segundo ele, o projeto teria impactos além do combate ao
desmatamento.
"Seus
efeitos não se restringem ao âmbito federal, e alcança todos os órgãos
integrantes do Sistema Nacional do Meio Ambiente. Isso tende a dificultar o
combate a ilícitos como o desmatamento, garimpo e tráficos de animais
silvestres, entre outros ilícitos", afirma.
À BBC
News Brasil, Mosquini defendeu sua proposta. Segundo ele, o uso dos embargos
remotos prejudicaria produtores rurais por vetar qualquer atividade na área
alvo da autuação até que o processo administrativo seja finalizado.
"Hoje,
o que temos é a falta de direito de defesa, falta de notificação. O embargo é
direto. Não há oportunidade do produtor se defender", afirma o deputado.
A
Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), que defende os interesses dos
ruralistas no Congresso e é uma das bancadas parlamentares mais influentes
atualmente, apoia a mudança. Mosquini é um dos seus integrantes.
"O
projeto corrige uma distorção do modelo atual, em que embargos podem ser
aplicados apenas com base em imagens de satélite ou monitoramento remoto, sem
verificação presencial, atingindo inclusive produtores regulares", diz a
bancada em nota à BBC News Brasil.
"Isso
gera bloqueio indevido de atividades e dificulta o acesso ao crédito rural,
impondo custos e prejuízos a quem está dentro da lei."
O
projeto está na lista de prioridades da Confederação Nacional da Agricultura
(CNA) deste ano, divulgada no início de março em um evento no Congresso.
Suely
Araújo, que já presidiu o Ibama e hoje atua como especialista sênior da
organização não governamental Observatório do Clima, contesta o argumento dos
ruralistas.
"O
embargo remoto é uma medida cautelar. Os fiscais cruzam dados que vão além das
imagens antes de emitir os embargos. A defesa acontece depois. Se o autuado
mostrar que tem autorização para desmatar, por exemplo, o embargo cai. Se ele
não mostrar que tem autorização, ele vira réu em um processo no qual ele terá
direito a ampla defesa", explica Araújo.
O
projeto também foi alvo de críticas do Ministério Público Federal (MPF). Uma
nota técnica elaborada pela 4ª Câmara de Coordenação e Revisão do órgão à qual
a BBC News Brasil teve acesso diz que sua aprovação colocaria em risco a
fiscalização ambiental na Amazônia.
"A
vedação proposta, ao restringir o uso do sensoriamento remoto nas atividades
fiscalizatórias, comprometerá a ação preventiva e repressiva de órgãos e
entidades ambientais (...) limitando o uso desse importante e eficaz
instrumento de combate ao desmatamento ilegal", diz um trecho da nota.
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Proximidade e homenagens
Além de
deputado, Mosquini é um empresário e produtor rural do interior de Rondônia. Em
sua declaração de bens nas eleições de 2022, ele disse ser proprietário de
quatro áreas rurais que somadas totalizam R$ 4,2 milhões.
O
deputado está em seu terceiro mandato consecutivo. Sua relação com o empresário
Sérgio Botelho Teixeira remonta, pelo menos, a 2018, quando o empresário doou
R$ 100 mil para Mosquini, se tornando o segundo maior doador individual da
campanha da primeira reeleição do parlamentar. Em 2022, doou R$ 150 mil.
Nas
duas ocasiões, Teixeira não doou para nenhum outro candidato.
Em
2024, Teixeira recebeu a Medalha do Mérito Legislativo, em uma cerimônia
realizada no Congresso Nacional, por recomendação de Mosquini.
À BBC
News Brasil, Mosquini diz que apesar da proximidade com o empresário, nunca
debateu projetos de lei como o apresentado por ele em relação aos embargos via
satélite.
"Nunca
discuti projetos com ele na minha vida. É só olhar minhas redes sociais para
ver que eu falo sobre esse tema há muito tempo", afirma o parlamentar.
A
defesa do empresário, por sua vez, também nega que ele tenha debatido projetos
de lei com o parlamentar.
"Quanto
a relação com o deputado, ressalto que se trata de relacionamento comum pois
moram na mesma cidade, não trazendo qualquer debate legislativo, bem como, ao
projeto de lei mencionado, tendo tomado conhecimento deste tema apenas pelas
mídias e reportagens publicadas", diz, em nota, o advogado de Teixeira,
João Paulo Brzezinski da Cunha.
A
possível relação entre doações de pessoas com histórico de multas por infrações
ou crimes ambientais e a atuação dos parlamentares que foram eleitos é alvo de
preocupação por parte de ambientalistas.
Um
levantamento feito pelo jornal O Globo em 2022, por exemplo, apontou que
infratores ambientais doaram R$ 10,4 milhões a diferentes candidatos às
eleições daquele ano.
À BBC
News Brasil, o secretário-executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini,
classificou a situação como "imoral": "É dessas grandes
coincidências que só acontecem em Brasília: o deputado que escreveu um projeto
que enfraquece a fiscalização ambiental tem, como seu principal doador de
campanha, uma pessoa multada pelo Ibama. É no mínimo imoral".
Fonte:
BBC News Brasil

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