quarta-feira, 25 de março de 2026


 

João dos Reis Silva Júnior: Formas nacionais da dependência na América Latina

A dependência na América Latina não pode mais ser compreendida apenas como uma relação externa entre economias nacionais e centros dinâmicos do capitalismo. Essa formulação, embora ainda válida em seu núcleo explicativo, torna-se insuficiente diante das transformações estruturais que se intensificam sobretudo a partir da crise de 2008, quando o capital fictício assume centralidade e reorganiza não apenas os processos produtivos, mas o próprio tempo histórico (HARVEY, 2010; STREECK, 2016).

A dependência deixa, assim, de se manifestar predominantemente como subordinação produtiva ou comercial e passa a operar como forma de controle da temporalidade social, instaurando uma experiência generalizada de compressão, aceleração e bloqueio do futuro. Não se trata de abandono das formulações clássicas, mas de sua reconfiguração em um contexto no qual o tempo se converte em dimensão diretamente subordinada à lógica da valorização financeira (MARINI, 1973; DOS SANTOS, 1978).

Essa inflexão desloca o problema da dependência. Já não basta perguntar como ela organiza a produção ou a inserção internacional das economias latino-americanas. É necessário compreender como ela reorganiza a experiência do tempo vivido, isto é, como redefine a relação entre presente e futuro, continuidade e ruptura, estabilidade e crise. A dependência passa a operar como forma de organização da vida social, atravessando instituições, práticas e expectativas.

É nesse ponto que se justifica o uso de metáforas literárias ao longo deste texto. Longe de constituírem mero recurso estilístico, as metáforas são mobilizadas aqui como forma de apreensão de uma realidade que não se deixa capturar plenamente por categorias abstratas.

Como sugeria Nicolau Sevcenko, a literatura não é apenas expressão sensível de um tempo histórico, mas também um de seus modos privilegiados de inteligibilidade. Em contextos marcados por rupturas, compressões e descontinuidades – como aqueles produzidos pela dependência – a linguagem conceitual tende a encontrar seus limites. A metáfora, nesse sentido, não substitui o conceito, mas o tensiona e o amplia, permitindo dar forma a experiências que escapam à linearidade analítica.

Ao recorrer a autores nacionais – Octavio Paz, Roberto Bolaño, João Guimarães Rosa, Jorge Luis Borges e Juan Carlos Onetti – busca-se não apenas ilustrar diferenças nacionais, mas apreender a forma pela qual cada sociedade experimenta e elabora sua própria temporalidade. A literatura, nesse caso, funciona como registro condensado da experiência histórica, permitindo acessar dimensões da dependência que não se expressam diretamente nos indicadores econômicos ou nas estruturas institucionais. As metáforas, portanto, operam como mediações entre estrutura e experiência, entre conceito e vida vivida.

Nesse quadro, México, Chile, Brasil, Argentina e Uruguai, apesar de suas diferenças, compartilham uma condição comum: vivem sob regimes temporais heterônomos. A reprodução social deixa de se organizar a partir de necessidades internas e passa a ser condicionada por dinâmicas financeiras e produtivas externas. A dependência deixa de ser apenas uma relação entre economias e passa a constituir uma forma de organização da própria vida.

<><> México – o labirinto

No México, a dependência assume forma particularmente aguda em função de sua integração estrutural com os Estados Unidos. A economia opera por cadeias produtivas transnacionais, com decisões estratégicas externalizadas (PUYANA, 1980). O tempo da economia é definido fora do território nacional.

A imagem que melhor condensa essa experiência é a do labirinto, evocada por Octavio Paz. Não se trata de um espaço fechado, mas de um espaço no qual os caminhos existem sem garantir saída. Caminha-se, mas a direção não pertence ao sujeito. Decide-se, mas sob condições já determinadas. A dependência mexicana é esse labirinto temporal: uma vida que se move sem controlar seu próprio ritmo. A universidade, nesse contexto, tenta pensar o labirinto enquanto permanece dentro dele, sob exigências que comprimem o tempo da reflexão.

<><> Chile – a dívida como tempo

No Chile, a dependência se internaliza sob a forma da financeirização. O modelo instaurado durante a ditadura consolidou a centralidade do sistema financeiro e a mercantilização dos direitos sociais (VALENZUELA FEIJÓO, 1983). A dependência organiza a sociedade sob a lógica da dívida.

A imagem que emerge é a de uma cidade como as narradas por Roberto Bolaño: uma cidade onde todos caminham sob um peso invisível. A dívida não é apenas econômica, mas temporal. Trabalha-se hoje sob o comando do amanhã já comprometido. O futuro não é promessa – é cobrança. A universidade reproduz esse regime: estudar, pesquisar e produzir tornam-se formas de antecipar obrigações. A explosão social de 2019 foi, nesse sentido, uma ruptura temporal: uma recusa coletiva em continuar vivendo sob um tempo capturado.

<><> Brasil – o tempo dobrado

O Brasil apresenta uma forma complexa de dependência, marcada pela sobreposição de temporalidades (OLIVEIRA, 2003; PAULANI, 2008). O arcaico, o moderno e o financeirizado coexistem.

A imagem que melhor expressa essa condição é a do tempo dobrado, como nos textos de João Guimarães Rosa. O tempo não corre em linha reta; ele se curva, retorna, interrompe-se. Em um mesmo espaço convivem aceleração extrema e paralisia. A dependência brasileira não é apenas subordinação externa, mas incapacidade de unificar o tempo social. A universidade surge como espaço de tentativa de duração, mas constantemente invadido por prazos e métricas que fragmentam o pensamento.

<>< Argentina – o tempo interrompido

Na Argentina, a dependência se manifesta como ruptura (CAPUTO; VUSKOVIC, 1981). O tempo não apenas acelera – ele se interrompe.

A imagem mais adequada é a de Jorge Luis Borges: um tempo que se bifurca, que se reinicia, que nunca se completa. Cada crise rompe a continuidade, tornando o passado recente instável e o futuro incerto. No entanto, é nesse cenário que emerge uma das formas mais intensas de pensamento crítico. Pensar, na Argentina, é também tentar reconstruir o tempo perdido.

<><> Uruguai – a estabilidade limitada

O Uruguai apresenta uma forma mais estável de dependência. A economia é sensível às dinâmicas externas, e a estabilidade institucional apenas modula seus efeitos.

A imagem evocada é a de Juan Carlos Onetti: uma cidade onde aparentemente nada acontece, mas onde tudo está suspenso. Um tempo lento, mas condicionado. A dependência uruguaia é essa continuidade limitada: não há rupturas abruptas, mas há fronteiras estruturais que delimitam o possível. A universidade mantém relativa autonomia, mas também é atravessada por pressões globais.

<><> Dependência como forma do tempo

A análise conjunta revela que a dependência contemporânea deve ser compreendida como forma de organização do tempo histórico. O capital fictício impõe uma lógica baseada na antecipação (HARVEY, 2010). O futuro deixa de ser horizonte aberto e passa a ser capturado.

Essa captura reorganiza a vida cotidiana. O tempo torna-se escasso, fragmentado e administrado. A continuidade torna-se difícil, e a elaboração, rara. A universidade evidencia essa tensão: o tempo da reflexão entra em conflito com o tempo da avaliação (SAVIANI, 2008).

Nesse contexto, a categoria do “golpe final” designa o momento em que vida e teoria se atravessam. Quando a experiência já não cabe nas categorias disponíveis. Esse momento não resolve a contradição, mas eleva o nível de consciência.

México, Chile, Brasil, Argentina e Uruguai constituem expressões distintas de uma mesma condição histórica. A dependência não é homogênea, mas compartilha um núcleo comum: a subordinação a uma lógica de valorização que se impõe externamente e se internaliza de formas diversas.

A conclusão não é de fechamento, mas de abertura. Ao tornar visível a captura do tempo, a dependência revela também a possibilidade de sua crítica.

A tarefa não é apenas compreender, mas reconstruir as condições de duração, continuidade e elaboração coletiva. É nesse horizonte que permanece a possibilidade do pensamento crítico na América Latina.

        Os limites da nova escalada militar dos EUA. Por Daniel de Pinho Barreiro

A arquitetura de segurança nacional dos Estados Unidos atravessou uma transformação fundamental com a promulgação da Ordem Executiva de 27 de janeiro de 2025, que formalizou o projeto Golden Dome for America. Originalmente concebido como uma versão doméstica e escalonada do sistema israelense Iron Dome, o projeto evoluiu rapidamente para uma estratégia de defesa continental, visando neutralizar não apenas ameaças regionais, mas também tornar obsoletas as estratégias nucleares das grandes potências, como Rússia e China.

Esta mudança de paradigma aponta para o abandono definitivo da doutrina de Destruição Mútua Assegurada (MAD) em favor de uma postura de dominância estratégica, onde se busca a invulnerabilidade total do território norte-americano através de uma infraestrutura de múltiplas camadas que integra o espaço sideral, o domínio ciber-físico e o controle de recursos críticos no Ártico. A viabilidade técnica do Golden Dome repousa sobre a transição de uma defesa centrada em interceptadores terrestres para uma arquitetura baseada em ativos posicionados na Órbita Terrestre Baixa (LEO).

Formando a chamada Proliferated Warfighter Space Architecture (PWSA), esses ativos são projetados para manter uma “custódia persistente” sobre qualquer ameaça balística ou hipersônica inimiga desde o momento do seu lançamento. Ao contrário dos sistemas de defesa de meio curso, no qual um míssil inimigo é interceptado antes de seu mergulho em direção ao alvo, a estratégia do Golden Dome prioriza uma interceptação precoce, na fase de impulso: durante os seus primeiros três a cinco minutos de voo, um míssil é um alvo muito vulnerável, porque emite uma assinatura infravermelha massiva, detectável pelos sensores.

Já em meio curso, uma ogiva inimiga é protegida pelo chamado “problema da discriminação”: é difícil distingui-la de outros objetos lançados propositalmente pelo oponente (iscas), com objetivo de confundir as defesas. A natureza dupla do Golden Dome é um dos seus aspectos mais estratégicos e, simultaneamente, desestabilizadores. Embora apresentado como um sistema defensivo, ele confere aos Estados Unidos uma capacidade nitidamente ofensiva, pois visa inutilizar o poder de ataque do adversário antes que seus projéteis ganhem alguma altitude, utilizando para isso plataformas de precisão como o veículo de planeio Common-Hypersonic Glide Body (C-HGB).

Com um custo de aquisição de US$ 41 milhões por unidade, o C-HGB é capaz de atingir alvos com uma precisão de 14 polegadas, podendo ser lançado a partir de plataformas orbitais que eliminariam as fronteiras geopolíticas tradicionais e reduziriam drasticamente o tempo disponível para a reação do adversário. Assim, a capacidade de neutralizar uma ofensiva nuclear inimiga daria aos Estados Unidos um poder de first strike assimétrico.

Entretanto, a eficácia total desta estratégia é diretamente proporcional à densidade da constelação de satélites que fornece dados para que os interceptadores encontrem sua presa. E esta densidade introduz um problema logístico conhecido como a “razão de ausência”: como os satélites na órbita terrestre baixa se movem a altas velocidades em relação à Terra, apenas uma pequena fração da frota total está posicionada sobre um ponto de lançamento específico em um dado momento.

Para garantir a neutralização de uma salva massiva de mísseis inimigos, lançados de um mesmo ponto, seriam necessárias centenas de milhares de interceptadores espaciais, o que elevaria os custos e a complexidade do sistema a patamares sem precedentes na história militar. Então, nada no projeto é simples.

O financiamento e a sustentabilidade do Golden Dome, por exemplo, exigiriam uma mudança radical nos modelos de aquisição militar do Pentágono. O modelo “Anything-as-a-Service” (XaaS), visado como base de sustentação do Golden Dome, é uma abordagem de aquisição em que o governo paga pelo acesso a uma funcionalidade ou ao resultado final, em vez de comprar, possuir e operar o hardware ou software subjacente.

Ele difere do modelo tradicional, em que o governo compra um produto e assume a responsabilidade por sua manutenção e atualização. Como os satélites pretendidos na órbita baixa são considerados “munições perecíveis” devido à rápida decomposição orbital (não permanecem em uma órbita plenamente estável), devem ser repostos em um ciclo contínuo, exigindo contratos flexíveis com os provedores privados.

Então, o aspecto de “assinatura de serviços” do XaaS, se por um lado agiliza a aquisição militar, por outro, torna o Departamento de Defesa politicamente vulnerável à ação dos gigantes do setor de tecnologia, como a SpaceX, a Anduril Industries e a Palantir. Além disso, a viabilidade operacional do Golden Dome não é apenas uma questão de algoritmos e lasers, mas também de geografia física e controle de recursos naturais.

O Ártico, e especificamente a Groenlândia, tornou-se o epicentro terrestre do projeto. A Base Espacial norte-americana de Pituffik funciona como o único nó capaz de centralizar as comunicações com todos os planos orbitais empregados na órbita baixa pelas planejadas constelações de satélites do Golden Dome, aproveitando uma janela atmosférica única de baixa umidade que permite o uso de lasers (links ópticos) para a transmissão massiva de dados necessários para interceptações hipersônicas em tempo real.

Isso sem falar da busca de total controle sobre o depósito de Tanbreez, que fornece tântalo, nióbio e zircônio, necessários para a produção de cerâmicas de temperatura ultra-alta (ZrB2). Sem esses materiais, as armas e interceptadores americanos não sobreviveriam às tensões térmicas de reentrada atmosférica em velocidades hipersônicas.

A busca americana por invulnerabilidade vem ainda provocando uma reação proporcional de seus rivais, através de estratégias que visam evitar o arco de vigilância do Golden Dome, caso seja posto em operação.

A Rússia vem priorizando o desenvolvimento do drone subaquático de propulsão nuclear “Poseidon”, que opera em profundidades oceânicas não rastreáveis pelos satélites, enquanto a China opera seu próprio sistema de bombardeio orbital fracionado (FOBS) com habilidade de atacar por rotas inesperadas, como o Polo Sul, contornando os sensores americanos tradicionalmente orientados para o Polo Norte.

Além disso, vem sendo buscada persistentemente a redução do tempo de queima de combustível durante o lançamento de mísseis, de modo a diminuir a janela de detecção infravermelha por sensores orbitais. Por fim, a vulnerabilidade física dos ativos espaciais continua sendo um ponto fraco explorável. Mísseis antissatélite (ASAT) de baixo custo poderiam destruir constelações de ativos orbitais que custaram milhões, criando lacunas no escudo protetor do Golden Dome capazes de ser exploradas por salvas de mísseis subsequentes.

O custo-benefício desta troca favorece o atacante: é financeiramente mais barato saturar e destruir partes da rede orbital do que mantê-la e repô-la continuamente. O projeto Golden Dome, assim, representa o maior esforço tecnológico da história militar americana para alcançar a segurança absoluta, mas sua viabilidade é questionada por limitações físicas persistentes.

Além disso, os riscos geopolíticos gerados por sua implementação são imensos. A integração de Inteligência Artificial para a tomada autônoma de decisões em órbita, eliminando a latência de confirmação humana no solo (onde entra o projeto para a construção de datacenters no espaço, anunciado recentemente por Elon Musk), cria um ambiente onde uma falha de software ou um falso positivo de sensor pode desencadear um conflito de escala global.

A manutenção deste sistema, estimada em trilhões de dólares ao longo das próximas décadas, colocaria os Estados Unidos em uma posição delicada. A necessidade de lançamentos espaciais frequentes para substituir ativos orbitais rapidamente depreciados exigiria uma economia de guerra contínua sem nunca garantir a segurança total que o projeto se propõe a entregar. No final, o Golden Dome pode se provar menos como um escudo impenetrável e mais como um acelerador de uma nova e perigosa corrida armamentista que desafia os limites da física e da diplomacia.

 

Fonte: A Terra é Redonda


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