quinta-feira, 26 de março de 2026

César Fonseca: Trump joga a toalha e petrodólar se afunda no Estreito de Ormuz

A guerra acabou?

Não é possível, ainda, falar nisso.

Apenas há a palavra do ditador fascista de que está conversando, positivamente, com autoridades do Irã, para dar um tempo na guerra, como destaca a mídia americana nesta segunda-feira.

Nem mesmo se sabe se isso é verdade, porque não há comunicado oficial do governo iraniano nesse sentido, embora o seu silêncio, claro, signifique sua vitória.

Ou seja, Trump pode estar blefando, o que, indiretamente, nesse caso, significa admitir que perdeu a guerra, o que representa um bem que está fazendo à humanidade a contragosto.

Mas cuidado!

Não dá para confiar no caboclo.

Ele pode, muito bem, estar dando uma de escorpião, querendo usar o Irã para atravessar o Estreito de Ormuz, nas costas do povo iraniano, e, em seguida, picá-lo.

<><> Prova de derrota trumpista

O fato, porém, é que o deus mercado amanheceu, nesta segunda-feira, feliz da vida, com as ações se recuperando e preanunciando queda do preço do petróleo, se a guerra acabar.

O ditador de Washington sentiu o peso e o bafo da opinião pública americana no cangote, sinalizando que ele vai se lascar nas eleições de novembro, se continuar com a aventura, subordinando-se às vontades do sionismo.

Covarde, como todo violento é, Trump também pode, como prisioneiro de Benjamin Netanyahu, estar armando mais uma artimanha: tira os Estados Unidos da briga e deixa Israel sozinho, mas com o apoio contínuo do abastecimento de armas.

Netanyahu não deu o sinal de Trump de que encerra a guerra, mesmo sabendo que, se ficar sozinho no embate, se enfraquece psicologicamente, já que se torna evidente que o império o vê como carga pesada demais sobre os ombros para ser carregada por mais tempo.

Continuar a guerra é prejuízo para Trump, mas vantagem para Benjamin genocida, pois, para continuar no poder, precisa ir atirando sem parar.

<><> Novas correlações de forças

As bombas iranianas, que caem com violência sobre Israel, como retaliação pelos ataques que se iniciaram com os genocidas Trump e Netanyahu, criam nova correlação de forças.

O alívio que a retirada de Trump provoca nos mercados é derrota anunciada que atinge também Israel, visto que, se continuar atirando contra o Irã, perde apoio dos que movimentam a economia global por meio da financeirização especulativa.

A máquina de guerra americana depende da continuidade da especulação com a dívida pública, como fator de geração de riqueza primitiva permanente, para sustentá-la.

No entanto, como a guerra comprova, o Pentágono/governo, que compra os armamentos das indústrias, não pode entrar diretamente no conflito, como fez Trump.

Tem que terceirizá-lo para Israel, o melhor cliente consumidor.

A guerra mostrou que o governo americano não pode pagar para as indústrias fabricarem armas e ele mesmo sair atirando, como fez Trump no Irã, atendendo interesse israelense.

Trump, amargamente, entendeu que tem que chamar alguém para apertar o gatilho, ou seja, Israel, que consome o que os Estados Unidos produzem.

Caso contrário, o chefe da Casa Branca se desgasta politicamente, como se vê no momento, quando ele não consegue mais arregimentar aliados para ajudá-lo a fechar o Estreito de Ormuz.

A reação do mercado ao anúncio de Trump por paralisar a guerra é a derrota moral explícita dele e de Netanyahu e, em contrapartida, a vitória moral de Teerã, cuja resistência aos bombardeios é o aval do seu triunfo, pelo menos por enquanto.

<><> Fim do petrodólar: nova divisão internacional do trabalho

Ao jogar a toalha, Trump primeiro sinaliza ao mundo que a permanência dos Estados Unidos no Oriente Médio, nas condições em que se deram até agora, depende de outros fatores sobre os quais não mais controlam imperialmente.

Salvo se jogar bomba atômica sobre o Irã, não conseguirá ter acesso ao Estreito de Ormuz, algo que, se acontecer, destrói seu maior aliado: Israel.

Segundo a geopolítica regional, com o destroçamento dos aliados dos Estados Unidos na região – as oligarquias monárquicas corruptas do Golfo Pérsico –, passa a ser dominada por quem vence a guerra: o tripé Irã, Rússia e China.

Os russos e os chineses, que estão em aliança eterna desde o início da guerra na Ucrânia, em que a Rússia derrotou a Otan/EUA, são os novos senhores do Oriente Médio.

O fracasso dos Estados Unidos nessa aventura recente desarmou, monetariamente, seu poder ancorado no petrodólar.

O fechamento do Estreito de Ormuz decretou o fim desse poder monetário imperialista.

Já antes de iniciar a guerra, o maior aliado dos americanos no Golfo, a Arábia Saudita, já tinha encerrado o acordo do petrodólar, iniciado em 1974, quando Nixon mandou Kissinger chancelá-lo.

Com duração de 50 anos, o contrato/acordo encerrou em 2024.

De lá para cá, a Arábia Saudita já vem negociando petróleo com a China em moeda chinesa, o yuan, e não mais via petrodólar.

Agora, com o fechamento de Ormuz, materializa-se o que Washington sempre temeu: o fim do petrodólar, que representava aval indispensável ao dólar em sua hegemonia global.

Os foguetes que o mercado está soltando de satisfação significam o funeral do petrodólar, mas implicam, concomitantemente, fragilidade americana para continuar expandindo dívida pública como riqueza primitiva para continuar abastecendo a indústria de guerra.

A contradição está no ar: a indústria de guerra, que depende do petrodólar para continuar, especulativamente, sustentando a economia americana, afoga-se no Estreito de Ormuz.

¨      Pedro Augusto Pinho: Guerra é guerra? Petróleo, poder, ambição? Ou cabe negociação?

As guerras de hoje não são as de ontem, certamente não serão as de amanhã. Mas há motivos que, por incrível que pareçam, permanecem; demonstrando que os estágios civilizatórios em que se encontram os países em conflito são bem distintos.

Porém estes diferentes estágios civilizatórios estão muito mais voltados para as governanças internas do que para as relações internacionais.

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É uma situação complexa, que ultrapassa as melhores análises dos comentaristas das mídias, o que acaba por levar a torcidas, como se fosse um jogo em disputa, muito diferente das reações à fria análise dos fatos.

A mais contundente demonstração está nos bolsonaristas desfilando com bandeiras de Israel. Será que algum, um só, um único dos participantes da passeata, saberia nos explicar a razão de portar a bandeira do Estado de Israel numa manifestação política partidária brasileira na Avenida Paulista, na capital do Estado de São Paulo?

O Estado de Israel é um estado belicoso. Desde sua criação, em 14 de maio de 1948, está em guerra contra os vizinhos. É claro que ele trouxe um desconforto ou desalento para os habitantes da Palestina, que certamente almejavam sua independência do Reino Unido, que lá exercia o governo como mandatário da Liga das Nações. Em 1949, Israel ocupava o território de 20.770 km²; em 2025 havia atingido 22.072 km², e mantinha adicionalmente cerca de 300 km² em ocupação militar, ou seja, havia incorporado por agressão aos palestinos perto de 8% do que lhe atribuíra a Organização das Nações Unidas (ONU).

A Liga das Nações teve sua duração entre 1919 e 1946, sendo substituída pela ONU que foi constituída em 24 de outubro de 1945, com estrutura mais robusta e maior adesão de países para mais eficazmente manter a segurança internacional. A descontinuidade das datas refletem os processos exigindo concordâncias internacionais de países. Anteriormente toda aquela região, a Palestina, pertencera ao Império Otomano.

A grande maioria dos habitantes da Palestina era constituída de árabes de credo islâmico sunita, também havia árabes cristãos. A presença inglesa fez crescer o nacionalismo e o desejo de constituir um estado dirigido pelos árabes, então habitantes amplamente majoritários.

Esta, porém, não era a ideia do Reino Unido que via se esvair seu domínio no Oriente Médio onde se descobriram as maiores reservas de petróleo, até então sob o controle de empresas inglesas e anglo-holandesas. Criar a cizânia naquela região deve ter sido o modo da aristocracia britânica continuar decidindo o destino do petróleo no mundo árabe.

Os judeus tinham obtido residência na Inglaterra no século XVII para auxiliar na criação do Banco da Inglaterra (1694), como fizera antes a Holanda, levando judeus da Itália para criar o Banco de Amsterdã (1609). Esta expertise financeira fez com que os judeus fossem aceitos, no alvorecer do capitalismo, pelos principais reinos europeus. Já no final do século XIX, Theodor Herzl cria o sionismo e edita seu livro “O Estado Judeu” (1896), onde prega a criação de um estado que ia da margem oriental do rio Nilo até o Golfo Pérsico e do paralelo 20 ao 37 para abrigar o povo judeu. Surge o termo aliá (aliyot) para designar a imigração dos judeus para a Terra Santa.

Distinguimos alguns períodos nesta imigração judaica. O primeiro, ainda quando sob domínio do Império Otomano, fugindo dos pogroms da Rússia Czarista, entre 1882 e 1914, devido a I Grande Guerra, computando-se cerca de 45 mil. Mesmo assim, uma migração marginal, se considerarmos que dos 2.367 mil que deixaram a Europa, 2.022 mil se destinaram aos Estados Unidos da América (EUA), onde reside, hoje, a metade dos judeus, mais do que no Estado de Israel (31%).

Ao final da Primeira Guerra Mundial, com o Império Otomano desmantelado, a Palestina passou para o mandato britânico. A Grã-Bretanha era favorável ao estabelecimento de uma pátria nacional judaica na Palestina. Em carta de 1917, Lorde Arthur James Balfour, Primeiro-ministro (1902–1905) e Ministro das Relações Exteriores (1916–1919), expressou essa concordância, com a ressalva de que “… nada deverá ser feito que possa prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não judaicas existentes na Palestina...”. A Declaração Balfour forneceu a base legal para a imigração judaica, e a incentivou.

Às vésperas da criação do Estado de Israel, entre 1939 e 1948, chegaram 118.228 judeus à Palestina. Após a criação do Estado foi promulgada a Lei do Retorno pela qual todo judeu tinha direito de residir em Israel. Ao final do século XX havia aumentado a população de judeus em Israel em 3.100 mil pessoas, comprovando o sucesso do empreendimento. Estes imigrantes foram tomando por diversos meios, entre os quais os violentos, pela força, as terras até então residência dos árabes.

Os conflitos com os vizinhos começaram imediatamente após a criação do Estado de Israel contra o Egito, a Jordânia, a Síria, o Líbano e o Iraque, ocupando 78% da Palestina Britânica. Seguiram-se a Guerra do Sinai, quando Israel contou com o apoio do Reino Unido e da França, e a Guerra dos Seis Dias (1967), com a ocupação da Península do Sinai, da Cisjordânia, e das Colinas de Golã. Estas duas últimas vivem permanente escala de violência tendo Israel anexado 1.200 km² das Colinas de Golã em ação unilateral. As guerras prosseguiram com a de Yom Kippur (1973) e duas contra o Líbano, 1982 e 2006, além da permanente contra os habitantes de Gaza.

Iniciativas agressivas de Israel tiveram o pretexto de se opor ao movimento palestino do Hamas. No entanto, as lideranças fundadoras do Hamas foram quase todas assassinadas, restaram poucas lideranças atuantes do Gabinete Político, e se acredita que muitos dos atuais dirigentes estão a serviço de Israel, fornecendo pretexto para agressões e ocupações territoriais. Entre 2023 e 2024, cerca de um milhão e novecentas mil pessoas, das pouco mais de dois milhões, foram deslocadas da Faixa de Gaza.

Os bolsonaristas, participantes da manifestação da Avenida Paulista, se têm alguma informação sobre as ocorrências no Oriente Médio, estariam propugnando por um estado belicoso e agressivo para o pacífico Brasil? Permanentemente em guerra, e ameaçando a todos?

PETRÓLEO, PODER E AMBIÇÃO

Mente quem não vê no petróleo um dos motivos para guerra, principalmente se empreendida pelos países do Atlântico Norte: EUA e Europa Ocidental.

O petróleo foi descoberto em 1847-1848, na região Bibi-Heybat (Baku), no Azerbaijão, pelos suecos irmãos Nobel, Ludwig e Robert, que criaram a Branobel (Companhia de Produção de Petróleo Nobel Brothers). Também célebre foi o outro irmão, Alfred, inventor da dinamite e criador do Prêmio que leva o nome da família.

Onze anos depois, em 1859, na Pensilvânia (EUA), Edwin Laurentine Drake, que ganhava a vida com perfurações de minas de sal, encontra petróleo. Esta descoberta é considerada o início da indústria do petróleo. Neste século e meio, o petróleo revolucionou a indústria e a economia da energia.

Em 2025, o consumo de energia por fontes primárias, no mundo, teve no petróleo (óleo e gás natural) 55% dos recursos (181 milhões de barris por dia – mb/d), ficando as energias solar e eólica com 4% (15 mb/d), pouco abaixo da energia nuclear (16 mb/d).

Por todo período que vai das descobertas iniciais até a década de 1960, foram as empresas (Standard Oil, Royal Dutch Shell, British Petroleum, Texaco, Gulf) e os grandes gestores (John Rockefeller, Henri Deterding, John Cadman, Calouste Gulbenkian, Walter Teagle), quem comandaram os preços e os volumes negociados do petróleo. Com a criação, no Iraque, da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), em setembro de 1960, pela Arábia Saudita, Irã, Iraque, Kuwait e Venezuela, teve início a substituição dos compradores pelos vendedores nas transações com o petróleo e seus derivados.

Os preços congelados do petróleo, desde o Acordo de Achnacarry (17 de setembro de 1928), bases para a formação do cartel das "Sete Irmãs", manteve, por toda a II Grande Guerra e o reerguimento da Europa no pós-guerra, nos mesmos US$ 1,61/barril de Achnacarry, que equivalem hoje, março/2026, US$ 22,72. A Guerra de Israel contra os países do Oriente Médio já o colocou a US$ 106,77.

Os defensores de uma “transição energética” ficam sem argumento diante da realidade do petróleo num mundo em guerra. Houve tamanho aumento nos preços das energias eólicas ou dos painéis solares?

Petróleo, poder e ambições cabem numa negociação? Claro que não. Ao menos no estágio civilizatório em que se encontram Israel, voltado para uma ilusão de 4000 anos; ou os EUA que ainda não acordaram da Guerra Fria, e igualmente de uma Europa que perdeu o poder diante das novas tecnologias das teorias matemáticas da informação, no que diz respeito a máquinas e sistemas digitais, e dos usos da lógica gödeliana, alterando, sem consciência dos atores, os comportamentos sociais.

Neste momento devemos nos voltar para a China. Não apenas por ser o único país a obter, por alguns minutos, um Sol em laboratório, graças aos avanços na fusão nuclear. Mas, principalmente, como se expressou Xi Jinping, pela construção de um país bom para os chineses viverem. A jornada de trabalho padrão na China é de 8 horas por dia, com média de até 44 horas semanais. E há trabalho para todos, como há atendimento a qualquer problema de saúde, habitação grátis ou a preço ínfimo e o melhor sistema de mobilidade urbana e interurbana do mundo.

E, ainda mais, porque a China não se arma para guerra, embora tenha o mais eficiente sistema militar do mundo, destinado a dissuadir qualquer Israel ou EUA que tentar atacá-la.

 

Fonte: Brasil 247

 

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