quinta-feira, 26 de março de 2026

Fernando Capotondo: Paris não foi uma festa - China colocou os EUA sob escrutínio

Para além da versão oficial sobre as recentes conversas comerciais, Pequim considerou que houve apenas um “consenso preliminar sobre certos assuntos”, apresentou “sérias queixas” a Washington e expôs sua posição sobre o adiamento da cúpula Xi-Trump.

Quando as delegações da China e dos Estados Unidos se sentaram à mesa em Paris, os comunicados oficiais falaram em diálogos “francos, profundos e construtivos”. As qualificações, um clássico do jargão diplomático, sugeriam que tudo esteve sob controle durante o encontro de dois velhos parceiros de negócios. Mas, nas entrelinhas, nos corredores e sobretudo nas declarações posteriores, surgiu outro enredo: o de um parceiro comercial que já não se contenta em ser mero espectador.

Porque, se algo ficou claro nas reuniões de 15 e 16 de março na capital francesa — a sexta rodada de consultas econômicas e comerciais bilaterais desde maio do ano passado — é que Pequim decidiu levar sua própria calculadora e deixar de confiar nos números desenhados em Washington.

O vice-primeiro-ministro chinês He Lifeng chegou a Paris com um roteiro que seus interlocutores americanos — o secretário do Tesouro, Scott Bessent, e o representante comercial, Jamieson Greer — certamente conheciam de memória. A China valoriza o diálogo e respeita a “orientação estratégica” acordada nas reuniões anteriores entre Xi Jinping e Donald Trump. Mas também tem memória, tão vasta quanto seu território.

E a memória, neste caso, registra que a Suprema Corte dos EUA declarou ilegais as tarifas que Donald Trump impôs invocando a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional. Registra que, apesar disso, Washington aplicou uma sobretaxa adicional de 10% às importações de todos os seus parceiros comerciais sob a Seção 122 da Lei de Comércio de 1974. E registra, sobretudo, que os Estados Unidos lançaram investigações com base na Seção 301 contra 60 economias — incluindo a China — acusando-as de ter “excesso de capacidade” e permitir “trabalho forçado”.

Nesse último ponto, Pequim não se limitou a responder: apresentou “sérias queixas” e expressou sua “grave preocupação” com esse tipo de investigação unilateral. Não foi uma fórmula retórica, mas uma forma de elevar o tom sem romper a mesa de diálogo. “A China tomará as medidas necessárias para salvaguardar firmemente seus direitos e interesses legítimos”, afirmou He Lifeng. A frase, destacada pela agência chinesa Xinhua, não foi um adorno, mas o núcleo da mensagem.

Horas depois, outro funcionário do Ministério do Comércio chinês, Li Chenggang, elogiou as consultas realizadas entre as equipes técnicas e destacou que haviam alcançado “um consenso preliminar sobre certos assuntos”. A expressão, aparentemente inofensiva, continha uma chave que os comunicados oficiais não dissiparam totalmente. Falar apenas em consenso preliminar sobre certos assuntos não é o mesmo que destacar um acordo geral. Aí reside o abismo.

Curiosamente, enquanto a atenção se concentrava na mesa de negociações em Paris, o Ministério do Comércio chinês divulgava em Pequim um comunicado de dureza incomum para o contexto. “Instamos os Estados Unidos a corrigirem imediatamente seus erros”, dizia o texto, após destacar que a investigação sob a Seção 301 é “unilateral, arbitrária e discriminatória” e constitui “um erro sobre outro erro” que mina as cadeias globais de suprimento.

Na mesma linha, Pequim lembrou que a República Popular da China é um dos membros fundadores da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ratificou 28 convenções internacionais e possui um sistema abrangente de leis trabalhistas para prevenir o trabalho forçado e outras práticas ilegais.

Também argumentou que os Estados Unidos não ratificaram a Convenção sobre o Trabalho Forçado de 1930 e, ainda assim, utilizam o tema como ferramenta política. Sob essa lógica, a investigação da Seção 301 não seria apenas uma medida comercial, mas uma tentativa de erguer novas barreiras, “extremamente unilateral, arbitrária e discriminatória”, segundo destacou o jornal oficial chinês Global Times.

Para entender Paris, convém olhar o tabuleiro completo. China e Estados Unidos conversam há quase um ano. Desde a primeira rodada em Genebra, em maio de 2025, passando por Londres, Estocolmo, Madri e Kuala Lumpur, alcançaram acordos pontuais: a suspensão de tarifas adicionais de 24%, um consenso-quadro sobre o TikTok, a ampliação do comércio agrícola e avanços na cooperação contra o fentanil.

Mas alguns acordos, afirma Zhou Mi, pesquisador sênior da Academia Chinesa de Comércio Internacional e Cooperação Econômica, “ainda não se transformaram em resultados formais”. Em outras palavras: há consensos verbais que nem sempre se traduzem em fatos concretos.

“A China conta com um ambiente estável e previsível para o investimento”, aponta Daryl Guppy, ex-membro do Conselho Empresarial Austrália-China. “Mas isso deve se estender às áreas comuns de cooperação. E isso requer uma decisão política por parte dos Estados Unidos”, acrescenta.

Talvez por isso o ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, tenha escolhido cuidadosamente suas palavras em uma coletiva dias antes da cúpula de Paris. “Nenhuma das partes pode mudar a outra, mas podemos escolher como queremos nos relacionar”, disse. Tradução: não vamos pedir permissão, mas podemos conversar.

O encontro de Paris terminou com um comunicado conjunto que fala em “novos consensos”, avanços “significativos” e o compromisso de “seguir consultando”. Também menciona a possibilidade de estabelecer um mecanismo de cooperação para fomentar o comércio e o investimento bilaterais. Nos Estados Unidos, falou-se em “um passo modesto, mas significativo”, segundo informou o correspondente em Washington do China Daily. Tudo soa como um plano. Outra coisa é funcionar.

No final, outro sinal de alerta surgiu com o adiamento da cúpula entre Xi Jinping e Donald Trump, prevista para o fim de março. Inicialmente, Financial Times e The New York Times relacionaram o fracasso do encontro à negativa chinesa de aderir à estratégia americana no estreito de Ormuz. Diante disso, a reação inicial de Pequim foi um sugestivo silêncio, até que o porta-voz do governo, Lin Jian, afirmou que os rumores jornalísticos eram “completamente falsos”, desmentido posteriormente compartilhado em Washington pelo próprio Scott Bessent.

Mas o ruído persiste.

Enquanto isso, o país asiático continua tomando nota — das investigações unilaterais, das tarifas, das sanções e também das promessas. “A China se reserva o direito de tomar todas as medidas necessárias para salvaguardar firmemente seus direitos e interesses legítimos”, repetiu o Ministério do Comércio. A frase apareceu duas vezes.

Na nova geopolítica comercial, as conversas deixaram de ser apenas um espaço de entendimento para se tornarem um mecanismo de registro. O que se diz importa. Mas o que se anota, mais ainda. China e Estados Unidos falaram em Paris. Disseram que foi construtivo. Pode ser. Embora, a esta altura, o termo “construtivo” pareça significar apenas que ninguém se levantou da mesa.

A diferença é que Pequim já não interpreta a cena. Ela a documenta. E, quando necessário, a transforma em queixa. Não para encerrar a negociação, mas para redefini-la. Porque, nesta etapa — e na melhor tradição chinesa — negociar também é decidir quem define o sentido do que está sendo dito.

¨      Mísseis iranianos podem alcançar capitais europeias como Londres ou Paris?

Mísseis iranianos tentaram atingir a base militar conjunta dos Estados Unidos e do Reino Unido na ilha de Diego Garcia, no oceano Índico.

Dois mísseis foram lançados na última sexta-feira (20/3), sendo que um falhou e o outro foi interceptado, afirmou o secretário de Defesa do Reino Unido, John Healey.

A base de Diego Garcia fica a quase 4.000 km do Irã e é administrada a partir de Londres, mas é descrita como "constitucionalmente distinta" do Reino Unido, e considerada uma base estratégica para os EUA. A tentativa de ataque do Irã levantou preocupações sobre o alcance dos mísseis do Reino Unido e aumentou temores de que o país possa agora atingir grande parte da Europa, inclusive Londres, capital da Inglaterra.

Ainda há dúvidas sobre a capacidade dos mísseis iranianos de alcançar alvos tão distantes. Mas o míssil que falhou na última sexta-feira conseguiu percorrer cerca de 3.000 km a partir de sua base de lançamento.

Então, quão séria é essa ameaça iraniana?

<><> O Ocidente monitora as rotas dos mísseis

Os EUA e o Reino Unido certamente tiveram indicações claras de que o Irã tentava atingir Diego Garcia e provavelmente monitoraram os mísseis em voo.

A Força Espacial dos EUA é capaz de detectar cada míssil lançado do Irã a partir da Base da Força Espacial de Buckley, no Colorado, nos EUA. No ano passado, a BBC teve acesso exclusivo para filmar dentro do centro de controle, onde é possível acompanhar a trajetória de qualquer míssil lançado em qualquer parte do mundo.

Eles utilizam uma constelação de satélites no espaço e radares potentes em terra, incluindo na base da Força Aérea Real (RAF, na sigla em inglês) em Fylingdales, no Reino Unido, capazes de rastrear o míssil desde o lançamento até o alvo.

<><> O Irã tem capacidade para mísseis de maior alcance?

O lançamento, embora malsucedido, sugere que o Irã não tem sido transparente sobre o seu programa de mísseis.

O Irã já tinha declarado ter limitado unilateralmente o alcance de seus mísseis a 2.000 km. Mas Israel afirma agora que os mísseis iranianos têm o dobro desse alcance, até 4.000 km. Isso colocaria não apenas Diego Garcia ao alcance, mas também grande parte da Europa continental.

Apesar dessas declarações, há muito se sabe que o Irã possui mísseis balísticos de curto alcance, com um alcance máximo de cerca de 3.000 km. São esses mísseis que vêm sendo lançados com frequência contra Israel e países vizinhos do Golfo nas últimas três semanas.

Antes da guerra, acreditava-se que o Irã tinha estoques de mais de 2.000 mísseis balísticos de curto alcance. Apesar de EUA e Israel terem como alvo essas munições, elas continuam sendo lançadas.

Menos claro é o programa iraniano de mísseis balísticos de alcance intermediário, com alcance entre 3.000 km e 5.500 km.

Sidharth Kaushal, pesquisador sênior do think tank (centro de pesquisa e debates) Royal United Services Institute (Rusi), com sede em Londres, afirma que "há muito se entendia que os iranianos tinham um programa de mísseis balísticos de alcance intermediário antes do início desta guerra".

Ele explicou essa avaliação com base em dois motivos possíveis. Primeiro, mísseis de maior alcance seriam necessários caso o Irã quisesse desenvolver uma arma nuclear — algo que o país nega de forma reiterada, apesar das acusações do Ocidente. O segundo é que o Irã precisou desenvolver foguetes de maior alcance para o seu próprio programa espacial.

<><> Quais mísseis o Irã disparou contra Diego Garcia?

Ainda não está claro que tipo de mísseis foram disparados contra a base dos EUA e do Reino Unido no oceano Índico.

Kaushal, do Rusi, afirma que pode ter sido uma versão do míssil Khorramshahr, do Irã, que é baseado em um modelo norte-coreano de estágio único. Esse míssil teria um alcance superior a 2.000 km, com uma ogiva de 1,5 tonelada.

No entanto, Kaushal diz que "você pode facilmente dobrar esse alcance usando uma ogiva muito mais leve", embora isso provavelmente causasse danos limitados à base em Diego Garcia.

Kaushal, do Rusi, também afirmou que é possível que o Irã esteja adaptando foguetes de seu programa espacial. Afinal, o Irã já colocou satélites em órbita com sucesso, e foguetes como o Qaem 100 "sempre foram considerados de dupla utilização".

No entanto, é pouco provável que o Irã tenha grandes quantidades de mísseis balísticos de alcance intermediário ou de longo alcance.

Os EUA e Israel já haviam atingido o programa de mísseis balísticos do Irã no ano passado, quando tentaram destruir seu programa nuclear. O que resta agora está sendo localizado e alvo de ataques.

O fato de o Irã ter lançado apenas dois mísseis em direção a Diego Garcia sugere que sua capacidade de mísseis de longo alcance é limitada.

<><> Londres está ao alcance?

Se o Irã decidisse atingir a Europa, já existem algumas medidas em vigor para lidar com essa ameaça.

Os EUA há muito demonstram preocupação com o risco de mísseis balísticos lançados a partir do Oriente Médio.

Sob o governo do presidente Barack Obama (2009-2017), os EUA instalaram sistemas de defesa contra mísseis balísticos na Polônia e na Romênia, todos parte do sistema de defesa aérea da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Esses sistemas Aegis Ashore utilizam os mesmos mísseis interceptadores empregados atualmente pela Marinha dos EUA para derrubar mísseis balísticos iranianos.

O Reino Unido, por sua vez, dispõe de poucos recursos de defesa contra mísseis balísticos, uma lacuna significativa reconhecida na recente Revisão Estratégica de Defesa do governo.

Por ora, porém, a ameaça parece remota.

Kaushal, do Rusi, afirma que "é concebível" que um foguete iraniano "possa alcançar Londres".

"O alcance de um míssil é algo elástico, no sentido de que, se você colocar uma ogiva mais leve em um míssil, pode estender seu alcance", disse à BBC.

Isso significa que não é "muito surpreendente" que o Irã possa, em teoria, alcançar o Reino Unido com seus mísseis, mas "e daí?"

Seria "um número pequeno de mísseis balísticos convencionais sobre um espaço aéreo bem defendido… e eles são bastante imprecisos em longas distâncias".

O analista de pesquisa Decker Eveleth, da CNA Corporation, organização sem fins lucrativos de pesquisa e análise com sede em Washington D.C., nos EUA, concorda.

Há "muitas incógnitas no projeto", disse à BBC.

"Quando se aumenta o alcance, o míssil sobe muito mais no espaço, mas isso significa que também retorna de uma altura maior… portanto, sua velocidade aumenta, e é necessário desenvolver escudos térmicos cada vez mais eficientes para proteger a carga", afirmou.

Ele acrescentou que "à medida que o tempo de voo aumenta, os erros no sistema de orientação tendem a se acumular… a imprecisão do míssil aumenta".

"É verdade que um míssil pode alcançar Londres", concluiu, mas acrescentou: "Não será particularmente preciso".

"Eu diria que o nível de risco para Londres é bastante baixo", concluiu Eveleth, da CNA Corporation,.

Justin Crump, da empresa de inteligência Sibylline, disse que a principal lição da tentativa de ataque a Diego Garcia pode não ser a capacidade dos mísseis, mas das forças que os lançam.

"O Irã ainda é capaz de surpreender os EUA e Israel após três semanas de bombardeios. Suas forças podem estar enfraquecidas, mas não estão derrotadas", disse Crump à BBC.

 

Fonte: Brasil 247/BBC News Mundo

 

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