A
curiosa história do bispo católico casado e pai de sete filhos
O
brasileiro Salomão Barbosa Ferraz (1880-1969) transitou por diversas
denominações religiosas e, por fim, se converteu ao catolicismo. Nomeado bispo,
integrou a comitiva brasileira que participou do Concílio Vaticano 2º, série de
encontros realizados no Vaticano entre 1962 e 1965 que ergueram os pilares da
Igreja Católica contemporânea.
Mas o
que faz dele um caso único não tem a ver com sua trajetória ecumênica nem com
sua fé pessoal. Ferraz era casado e pai de sete filhos — mesmo assim foi aceito
por uma instituição cuja doutrina determina o celibato para seus sacerdotes.
"A
visão de um bispo, trajado com sua batina, caminhando com sua esposa e seus
filhos chocava a sociedade da época, de modo que vários jornais publicaram
matérias acerca do religioso casado que foi recebido pelo Vaticano. E as fotos
exibiam dom Salomão ao lado de sua família", comenta o teólogo, jurista e
cientista da religião Rafael Vilaça Epifani Costa, reverendo anglicano e
pesquisador.
A
biografia sui generis de Ferraz permitiu que ele fosse uma exceção em um meio
em que sacerdotes não contraem o matrimônio. Mas, mais que isso, a sua sagração
como bispo — um posto hierárquico acima e de mais prestígio em comparação a um
padre comum — e o fato de ele ter participado do mais importante evento do
catolicismo no século 20, o Concílio, revelam que o religioso gozava de
especial reputação no meio católico.
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Berço presbiteriano
Ele
nasceu em Jaú, no interior paulista, em 18 de fevereiro de 1880, e era filho de
um agricultor e pregador presbiteriano leigo chamado Belarmino Barbosa Ferraz
(1858-1943), que mais tarde se tornaria pastor.
Salomão
Ferraz começou sua carreira religiosa seguindo os passos do pai — em 1902 se
tornou pastor na Igreja Presbiteriana do Brasil.
Conforme
conta o teólogo, filósofo e cientista da religião Leonildo Silveira Campos,
professor aposentado da Universidade Metodista de São Paulo e da Universidade
Presbiteriana Mackenzie e professor emérito da Faculdade de Teologia da Igreja
Presbiteriana Independente de São Paulo, em 1903 Ferraz se casou com uma
imigrante italiana, com quem teve cinco filhas e dois filhos, nascidos entre
1904 e 1916.
Segundo
Campos, os 15 anos do religioso como pastor presbiteriano foram marcados por
tensões e conflitos. "Salomão questionava a exigência feita pelos
concílios presbiterianos de batizar novamente os convertidos oriundos da Igreja
Católica Apostólica Romana", exemplifica.
Em
1917, ele mudou de denominação. Foi ordenado clérigo da Igreja Episcopal
Anglicana no Brasil. Foi nessa instituição que ele desenvolveu a maior parte de
sua teologia e também promoveu algumas adaptações litúrgicas que aproximavam
muito a prática anglicana da espiritualidade católica.
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Ideias ecumênicas
Ferraz
chegou a publicar algumas obras sobre práticas litúrgicas, como Ofício de
Decisão, Manual de Oração e A Liturgia do Sagrado Coração de Jesus. Também
demonstrou especial apreço por ideias ecumênicas — em um tempo em que o diálogo
interreligioso não era tão comum como se tornou justamente após o Concílio
Vaticano 2º. Graças aos seus livros Princípios e Métodos e A Fé Nacional,
Ferraz é hoje reconhecido como uma das primeiras vozes no Brasil a defender uma
postura ecumênica.
"Desde
o início ele buscou na prática o diálogo com outros cristãos, ou seja, aquilo
que unia as igrejas em vez do que as separava", pontua Costa. "Ele
defendia a validade do batismo realizado pela Igreja Católica para aqueles que
se convertessem à Igreja Presbiteriana. Acreditava que o batismo deveria ser
administrado apenas uma vez."
Na
Igreja Episcopal, ligada à comunhão anglicana, ele se tornou diácono e, depois
presbítero — ordenado pelas mãos do bispo Lucien Lee Kinsolving (1862-1929),
missionário americano baseado no Brasil. "Nesse período, ele aprofundou as
suas visões litúrgicas e sacramentais da Igreja, aderindo à corrente do
anglo-catolicismo", explica Costa. É uma corrente muito mais parecida com
o viés católico do que o protestante, com ênfase ao cerimonial litúrgico,
incentivando o uso de incenso, água benta e ornamentos no altar. "Uma
contraposição à simplicidade do culto evangélico", compara Costa.
Em sua
paróquia anglicana, Ferraz implantou determinadas reformas pessoais,
enfatizando elementos rituais. Talvez com certo exagero. Como pontua Costa,
eram práticas em geral mal-vistas pelas lideranças anglicanas e, gradualmente,
o religioso passou a ganhar opositores dentro da denominação.
Ferraz
apresentou algumas de suas ideias em um encontro protestante realizado no Rio
de Janeiro em 1922. "Defendeu a união de todos os cristãos, inclusive com
a Igreja Católica", diz Campos "Naqueles tempos Salomão já tornava
público a sua posição ecumênica, que somente dezenas de anos depois voltaria a
se disseminar no Brasil. Publicava suas ideias em livros, revistas e
jornais."
"Por
promover práticas destoantes do Livro de Oração Comum, o padrão litúrgico da
Igreja, o então reverendo Salomão Ferraz acabou decidindo caminhar fora das
fileiras episcopais, aderindo a uma forma de catolicismo independente",
afirma Costa.
Em
1928, ele fundou uma organização ecumênica, chamada de a Ordem de Santo André.
Por meio dessa entidade, ele promoveu um evento, em 1936, chamado de Congresso
Católico Livre — foi um evento com a adesão de outros cristãos insatisfeitos
com suas igrejas, especialmente católicos.
Ferraz
vinha propondo mudanças litúrgicas no anglicanismo brasileiro, que eram
rejeitadas pelas autoridades da denominação. "Gradativamente, seus
conflitos com a hierarquia novamente tornaram sua carreira incompatível com o
cristianismo institucionalizado", contextualiza Campos.
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Guinada ao catolicismo
O
desligamento foi questão de pouco tempo. Segundo Campos, ele foi deposto em
1937. Ferraz, então, estabeleceu os pilares de uma nova denominação cristã, a
Igreja Católica Livre. Naturalmente, tornou-se ele o primeiro bispo dessa nova
instituição.
O
religioso estreitou laços com dissidentes católicos europeus e pleiteava um
reconhecimento formal do grupo conhecido como veterocatólicos, em uma cerimônia
de consagração episcopal. A Segunda Guerra Mundial, contudo, obrigou-o a rever
essa ideia.
Sua
sagração como bispo foi, enfim, realizada por um outro brasileiro, o carioca
Carlos Duarte Costa (1888-1961) que, depois de ter sido bispo católico romano
havia sido excomungado e fundou uma igreja independente do Vaticano, a Igreja
Católica Apostólica Brasileira.
Esse
esforço todo faz sentido à luz do cristianismo. Como se acredita que os bispos
são os herdeiros da tradição dos apóstolos, os primeiros seguidores de Jesus,
entende-se que é preciso que um bispo sempre seja nomeado por outro. Assim, não
bastava que ele, ao criar uma denominação nova, simplesmente se autointitulasse
bispo — ele buscava um reconhecimento de um religioso graduado anteriormente.
"Inicialmente,
ambos os bispos trabalharam juntos em suas respectivas denominações. Na
liderança da Igreja Católica Livre, dom Salomão, agora como bispo, realizava as
atividades em torno da Ordem de Santo André e ordenou alguns sacerdotes para
compor o quadro de sua Igreja", conta o teólogo Costa.
"Porém,
algumas divergências começaram a aparecer entre os dois bispos. Dom Salomão
Ferraz, ao contrário de dom Carlos Duarte Costa, reconhecia o primado do papa e
a sua jurisdição universal sobre a Igreja no mundo inteiro", pontua o
reverendo anglicano.
Outro
ponto destoante era que Ferraz defendia a prática da confissão, ao modo
católico romano, em que um padre ouve os pecados do fiel e dá a ele absolvição.
Essa era uma prática banida na igreja de Duarte Costa.
O
teólogo Campos resume os desentendimentos entre Duarte Costa e Ferraz: o
primeiro o acusava de "ser mais católico romano do que católico
brasileiro".
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Um bispo com família
De
fato, Ferraz cada vez mais ele se aproximava da doutrina católica romana. Por
fim, acabou solicitando o ingresso formal na instituição, tendo o pedido
referendado pelo papa João 23 (1881-1963). "No final de sua vida, após ser
pastor presbiteriano, reverendo anglicano, e bispo católico independente, ele
passou a reconhecer a autoridade do papa sobre a Igreja, entendendo que não
poderia ser católico fora da jurisdição de Roma", resume o teólogo Costa.
Foi
acolhido pelo então arcebispo de São Paulo, Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta
(1890-1982), atuando como seu auxiliar. Nessa época ele escreveu o livro O
Arrebol da Aurora, no qual explica suas crenças e sua adesão aos dogmas
católicos.
Motta
simpatizou-se com a causa de Ferraz e foi o responsável por costurar sua
aceitação junto ao Vaticano. O arcebispo paulistano já era, a essa altura,
cardeal — o que facilitava os trâmites na alta cúpula católica.
"Sua
aceitação gerou estranheza em muitos católicos conservadores, pois se tratava
de um ancião com passagem por denominações protestantes, fundou uma igreja
dissidente e casado, pai de sete filhos, avô e bisavô, sendo a sua esposa ainda
viva, e o filho caçula tinha 43 anos", pondera Campos.
De
acordo com o teólogo Costa, embora a Igreja Católica Apostólica Romana não
permita o casamento de padres que já foram ordenados, em condições especiais é
possível a ordenação de homens casados, o que ocorre, lembra ele, naquelas de
rito oriental ou ainda nos ordinariatos criados pelo papa Bento 16 (1927-2022)
para acolher ex-anglicanos.
"Nessas
condições, os sacerdotes não são obrigados a guardar a disciplina do
celibato", explica o teólogo. "Todavia, na tradição católica, não
existem bispos casados."
Casado
e pai de sete filhos, evidentemente que havia resistência. Em um tempo de
comunicação mais precária, contudo, há quem acredite que a cúpula da Igreja
chegou a pensar que ele fosse viúvo, facilitando a aceitação. A explicação mais
corrente é a de que ele praticasse o celibato, argumento corroborado pela idade
já avançada.
"No
processo de incorporação à Igreja Romana, as ordenações anteriores de Ferraz
como diácono, presbítero e bispo, feitas por dom Carlos Duarte Costa [em sua
igreja independente] foram reconhecidas por Roma", esclarece o teólogo.
"O fato de Salomão ser casado seria um empecilho canônico. Porém, devido à
idade avançada, considerou-se que o casal naturalmente guardava o celibato,
sendo um caso sui generis na história de toda a Igreja, pois Salomão Ferraz foi
recebido diretamente na Igreja Católica como um bispo, casado e com sete
filhos."
Na tese
de doutorado Padres Conciliares Brasileiros no Concílio Vaticano 2º, defendida
na Universidade de São Paulo em 2001, o padre e historiador José Oscar Beozzo,
ex-presidente da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina,
registra que a profissão de fé católica romana de Ferraz foi feita publicamente
em 8 de dezembro de 1959 e recebida pelo papa em 25 de março do ano seguinte —
quando Ferraz completou 80 anos. Ele também afirma que Ferraz vivia
"separado consensualmente da esposa desde 1945".
Como
bispo auxiliar de São Paulo, Ferraz participou da comitiva brasileira dos
bispos que estiveram no Concílio Vaticano 2º. De acordo com levantamento do
teólogo Campos, no evento, Ferraz realizou 11 intervenções. Ele foi um dos
defensores da celebração litúrgica na língua local, em vez do latim —
determinação que seria aprovada pelo Vaticano. E também puxou a sardinha para
seu caso. "Foi um dos poucos que defenderam a ordenação de homens
casados", lembra Costa. "Tema em discussão até os dias de hoje, sem perspectiva
de aprovação", completa Campos.
Ao
histórico encontro no Vaticano, o Brasil enviou 221 religiosos, entre bispos e
prelados, além de nove peritos e um leigo. Nenhum deles está vivo.
Em
1964, foi recebido em audiência pelo papa Paulo 6º (1897-1978). Entregou ao
sumo pontífice um memorando, solicitando reforma disciplinar do celibato e
pontuando o que ele entendia serem as vantagens da vocação de homens casados
para a igreja. Ferraz sugeriu que o papa analisasse individualmente os casos
para a admissão ao sacerdócio.
Costa
lembra que o caso de Ferraz "foi um único na história da Igreja",
sendo ele "talvez o único bispo casado e com filhos", na
contemporaneidade. Outro ponto ressaltado pelo teólogo é que o religioso
publicou um missal — o livro litúrgico com as orações, ritos e instruções para
a celebração da missa — em 1949 que, possivelmente, é o primeiro em língua
portuguesa, já que foi feito em uma época em que as celebrações eram em latim.
Chamava-se Missal Brasiliense.
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Legado
O
teólogo Campos conta que Ferraz "era muito vaidoso, daí sua atração pelo
lado performático da religião", com ritos e símbolos.
"Nos
tempos da Igreja Católica Livre […] quando um padre de sua Igreja ia visitá-lo
ele exigia que o visitante se ajoelhasse na porta de entrada e fosse de joelhos
até a sua mesa e após beijar a mão do bispo recebia a autorização para se
sentar", conta ele.
Campos
diz que ouviu de um genro de Ferraz que, em seu processo de aceitação ao
catolicismo, houve a exigência de "uma declaração de sua esposa ainda viva
que ambos não mais coabitavam desde há muitos anos" — terminologia esta
com sentido de convivência íntima ou amorosa.
Para o
teólogo Costa, "o que mais aprendemos" com ele é que "a busca
sincera por Deus nos conduz a caminhos que não conseguimos imaginar".
"Nessa caminhada podemos mudar totalmente a nossa vida, mas sem
esquecermos das nossas raízes", acredita.
Na
opinião de Campos, esta foi a grande contribuição de Ferraz: "a defesa que
ele fez da possibilidade de uma união entre os cristãos, de forma ampla".
"Podemos
dizer que os motivos da progressiva transição religiosa de dom Salomão Ferraz,
do presbiterianismo, passando pelo anglicanismo, até o catolicismo romano, são
a busca por uma maior unidade cristã, divergências teológicas, litúrgicas e
disciplinares com as autoridades religiosas das igrejas anteriores, e o
reconhecimento da autoridade e da figura de unidade que o papa exerce em um
momento em que a própria Igreja Católica Romana estava passando por profundas
transformações", acredita Costa.
Salomão
Ferraz morreu em 9 de maio de 1969 como católico romano e foi sepultado no
Cemitério do Santíssimo Sacramento, em São Paulo. No brasão de seu jazigo está
grafado o lema, em latim, que sintetiza sua trajetória ecumênica: Unum sumus in
Christo, ou seja, "em Cristo somos um".
Fonte:
BBC News Brasil

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