quinta-feira, 26 de março de 2026

Por que as opções dos EUA e do Irã para encerrarem a guerra diminuem conforme o tempo passa

Durante semanas, os Estados Unidos e Israel insistiram que a capacidade militar do Irã foi severamente prejudicada. O presidente americano, Donald Trump, e seu secretário de Defesa, Pete Hegseth, afirmaram repetidamente que os ataques paralisaram a estrutura de comando iraniana e enfraqueceram sua capacidade de resposta.

Segundo eles, o conflito já deveria estar caminhando para o fim. No entanto, o oposto parece estar acontecendo. A escalada continua mais rápida, mais acentuada e com menos pontos de saída claros.

No sábado (21/3), veio à tona que o Irã lançou dois mísseis em direção à base conjunta dos Estados Unidos e do Reino Unido em Diego Garcia, no Oceano Índico, a uma distância de cerca de 3.800 km.

Embora os mísseis não tenham atingido a ilha, o incidente levantou novas preocupações sobre as capacidades do Irã. Até então, acreditava-se que o alcance de seus mísseis fosse de cerca de 2.000 km.

Seja isso reflexo de uma capacidade anteriormente não divulgada ou de uma desenvolvida sob bombardeio, a implicação é a mesma: a pressão militar não deteve o avanço do Irã.

<><> Quem está no comando, afinal?

Se uma parte significativa da liderança iraniana foi eliminada — incluindo o líder supremo Ali Khamenei, além de figuras importantes como Ali Larijani, comandantes da Guarda Revolucionária Islâmica e o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas —, surge uma questão central: quem está conduzindo essa campanha e como o Irã conseguiu manter suas capacidades mesmo sob tamanha pressão?

A incerteza começa no topo. Mojtaba Khamenei, que teria sobrevivido ao ataque que matou seu pai e vários familiares próximos, foi nomeado o novo líder. No entanto, ele não apareceu em público. Além de duas mensagens escritas, nada se viu ou ouviu dele.

Seu estado de saúde permanece incerto, assim como sua capacidade de liderar. Em um sistema construído sobre a autoridade central, esse silêncio cria incerteza no próprio centro do poder.

No entanto, as ações iranianas sugerem tudo, menos um colapso.

No sábado, o Irã também atacou a cidade de Dimona, no deserto do Negev, em Israel, uma área ligada ao programa nuclear não declarado de Israel.

Isso ocorreu após ataques israelenses à infraestrutura energética iraniana perto de Bushehr, onde também fica uma usina nuclear do Irã. A mensagem era simples: a escalada seria correspondida e locais estratégicos não estavam mais fora de alcance.

Essas ações sugerem coordenação, e não confusão. A premissa por trás da estratégia dos EUA e de Israel, de que a remoção dos principais líderes levaria à paralisia, agora parece incerta. A ideia de "choque e pavor" depende do colapso rápido das estruturas de tomada de decisão. Mas e se essas estruturas forem mais resilientes do que o esperado?

Se for esse o caso, surge um problema mais imediato: quem restará para negociar?

O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, tem mantido um perfil discreto. No início do conflito, ele pediu desculpas aos países vizinhos afetados pelos ataques iranianos, uma atitude que, segundo relatos, irritou elementos dentro da Guarda Revolucionária Islâmica.

Desde a ascensão de Mojtaba Khamenei, ele tem se pronunciado pouco, restringindo ainda mais as opções diplomáticas.

<><> Desconfiança nas negociações

Do ponto de vista de Teerã, os eventos recentes oferecem poucos motivos para confiar em quaisquer negociações. Nos 14 meses desde que Trump retornou à Casa Branca, sinais de progresso em direção a um acordo nuclear em duas rodadas de negociações distintas foram seguidos por ações militares.

Autoridades iranianas afirmam que, durante a segunda rodada de negociações em Genebra, em 27 de fevereiro, abordaram a maioria das preocupações dos Estados Unidos. Os preparativos para discussões técnicas em Viena estavam em andamento. Mas Trump disse que "não estava satisfeito" com o andamento das negociações e os ataques começaram no dia seguinte.

Para os tomadores de decisão iranianos, a mensagem é clara: negociar não impede ataques; pode até mesmo incentivá-los.

<><> O que acontece agora

Mas não é apenas o Irã que pode intensificar o conflito. Trump também elevou a aposta na noite de sábado.

Ele emitiu um ultimato de 48 horas exigindo que o Irã reabrisse o estreito de Ormuz, uma das rotas petrolíferas mais movimentadas do mundo, alertando que o não cumprimento levaria os Estados Unidos a "obliterar" as usinas de energia iranianas.

O Irã rejeitou a exigência e respondeu com uma ameaça semelhante: qualquer ataque à sua infraestrutura energética seria respondido com ataques em toda a região. O Conselho Supremo de Defesa do Irã também levantou a possibilidade de minar partes do Golfo Pérsico.

Com canais de negociação limitados, as opções de Trump estão se restringindo. Uma escalada ainda maior corre o risco de se tornar um ciclo de destruição com pouco ganho estratégico, deixando apenas as opções mais extremas sobre a mesa.

Para o Irã, a situação também é difícil. O país entrou no conflito já sob pressão econômica e enfrentando agitação generalizada. A guerra, por ora, reduziu essa pressão, dando às autoridades espaço para reforçar o controle interno.

Isso cria um equilíbrio delicado. A escalada serve para o Irã tanto como uma forma de responder a ameaças externas quanto de controlar a agitação interna. Mas também aumenta os riscos de um erro custoso.

Ambos os lados agora têm opções limitadas. O Irã não pode recuar facilmente sem parecer fraco, enquanto os EUA e Israel não podem alcançar um resultado decisivo apenas com poder aéreo.

¨     Por que o Irã não vê motivos para negociar a paz

Fumaça negra sobre o Golfo Pérsico. Em vários países da região, instalações de energia, infraestrutura civil e instalações militares estão sob ataque. Ao mesmo tempo, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declara que o Irã está militarmente derrotado. A realidade no terreno, porém, mostra outra coisa.

Também politicamente cresce a pressão sobre Washington. A alta nos preços da energia impulsiona a inflação e aumenta a insegurança em todo o mundo – inclusive nos próprios EUA.

Ainda assim, o governo americano continua apostando na pressão militar. Conversas com Teerã não estão previstas no momento. E mesmo que Washington estivesse disposto a negociar, dificilmente haveria interesse no Irã.

"Nos próximos dias, o Irã não demonstrará oficialmente qualquer interesse em negociações", afirma Stefan Lukas, especialista em Oriente Médio e diretor do think tank Middle East Minds, com sede em Berlim.

O dano que os EUA teriam causado, da perspectiva de Teerã, seria grande demais. Além disso, a liderança iraniana já experimentou ataques mesmo durante negociações em andamento.

Há três semanas, EUA e Israel começaram a atacar alvos no Irã enquanto as conversas ainda aconteciam. Mesmo assim, Lukas não descarta contatos nos bastidores, por exemplo por meio de Omã ou canais iraquianos. "Mas mudanças significativas no nível diplomático não acontecerão por enquanto", diz Lukas.

Marcus Schneider, diretor do projeto regional para paz e segurança no Oriente Médio da Fundação Friedrich Ebert em Beirute, também vê poucas chances de diálogo neste momento. "Estou bastante cético agora", afirma Schneider.

Com o assassinato direcionado de figuras centrais, interlocutores importantes foram eliminados, ressalta o especialista, acrescentando que, além disso, os possíveis sucessores também estariam sendo ameaçados. "Os que assumem tendem a ser bem mais intransigentes."

<><> Resiliência subestimada do regime

Do ponto de vista iraniano, está claro que justamente aqueles que tentam negociar são os mais ameaçados. "Essa estratégia de ataques de decapitação agora cobra seu preço", afirma Schneider. Ele avalia que a suposição de que se poderia provocar uma rápida mudança de regime eliminando lideranças-chave revelou-se equivocada.

"Para o regime iraniano, apenas sobreviver a um conflito armado com os EUA já constitui uma vitória", diz uma análise do think tank americano Middle East Institute. Essa avaliação coincide com a impressão de que Teerã, no momento, busca menos avanços militares e mais efeitos políticos e estratégicos.

Lukas aponta ainda para a estabilidade estrutural do sistema iraniano. "O regime sempre foi uma caixa‑preta", diz ele, ressaltando que agora ficou claro que sua resiliência foi subestimada.

Apesar dos ataques, o governo parece, segundo o analista, mais sólido do que enfraquecido. "Ao mesmo tempo, ganhou legitimidade internacional e vem obtendo sucesso com sua estratégia de exercer pressão econômica sobre os mercados de energia."

<><> Escalada econômica

Schneider também destaca que Teerã se vê atualmente em uma posição estratégica relativamente favorável. O bloqueio do Estreito de Ormuz e os ataques a infraestruturas energéticas na região afetam diretamente os mercados globais.

"Por que o Irã pararia agora?", pergunta. "Guerras não se decidem apenas militarmente, mas também politicamente. Teerã aparentemente aposta em ter maior capacidade de resistência que seu adversário."

"O Irã talvez não possa vencer militarmente, mas pode escalar o conflito economicamente”, afirma uma análise da agência de notícias Reuters. Isso desloca pelo menos parte do equilíbrio de poder para um campo onde a superioridade militar tem menos peso.

Lukas vê nesse ponto um elemento-chave. Ele afirma que ataques à infraestrutura de energia e as restrições às rotas marítimas eram previsíveis.

Mas Washington aparentemente subestimou seus impactos. "Aqui está um dos maiores erros do governo dos EUA", diz ele. "Isso dá ao Irã uma posição relativamente forte – apesar das tensões internas e da ameaça contínua representada pelos EUA e Israel."

<><> "Sobre o que se deveria conversar?"

"Sobre o que se deveria conversar?", questiona Schneider, frisando que os EUA declararam que seu objetivo é uma mudança de regime e a eliminação completa de programas militares centrais do Irã. Ao mesmo tempo, o governo americano já retrata a guerra como vencida. "O que ainda poderia servir como moeda de negociação?", pergunta o especialista.

Embora os EUA estejam militarmente em vantagem, como analisa o Washington Institute, "correm o risco de fracassar estrategicamente sem apoio interno e sem abandonar objetivos maximalistas". Isso reforçaria a ideia de que pressão militar por si só dificilmente será suficiente para forçar uma solução diplomática.

Lukas também considera impossível um novo acordo no momento. Enquanto Washington e Jerusalém deixarem claro que buscam uma mudança de regime, até concessões limitadas terão pouco efeito. "Pequenos passos, como alívio de sanções, não mudariam nada", afirma.

<><> Dois cenários

Há ainda um dilema estratégico para os EUA. Segundo Schneider, Washington subestimou os custos futuros da guerra. O aumento dos preços da energia, a possível ampliação do conflito e o risco de envolvimento militar prolongado podem limitar severamente sua capacidade de ação. "A guerra rápida e barata que se esperava não aconteceu."

Lukas vê dois cenários possíveis: uma escalada maior com ampliação regional, ou uma retirada abrupta, em que Washington declara "vitória" e segue para outros temas. Ambas as opções são politicamente arriscadas, especialmente considerando os aliados dos EUA na região.

Apesar disso, ambos os especialistas consideram improvável que ocorram negociações no curto prazo. A desconfiança é grande demais, as possíveis concessões são incertas e os objetivos estratégicos divergem profundamente. Enquanto nada disso mudar, a guerra provavelmente continuará sendo decidida no campo de batalha – e não na mesa de negociações.

¨      EUA dizem que situação de negociação com Irã é 'fluida' e preço do petróleo volta a subir

preço do petróleo voltou a subir no mundo nesta terça-feira (24/3), após surgirem incertezas sobre as perspectivas de negociações entre os Estados Unidos e o Irã para encerrar o conflito no Oriente Médio.

O presidente americano, Donald Trump, disse na segunda-feira que o Irã quer "muito fazer um acordo" e que se reuniria "provavelmente por telefone" com representantes iranianos.

Alguns veículos de imprensa publicaram que o enviado especial de Donald Trump, Steve Witkoff, e Jared Kushner — conhecido como "conselheiro de Trump" — estariam negociando com o presidente do parlamento iraniano, Mohammad-Bagher Ghalibaf.

Mas uma conta do X atribuída a Mohammad-Bagher Ghalibaf publicou que nenhuma negociação ocorreu com os EUA, chamando tudo de "fake news" (notícias falsas) para "manipular" os mercados de petróleo.

Um funcionário de alto escalão do Ministério das Relações Exteriores iraniano disse à rede americana CBS News que o país recebeu "pontos [para um acordo] dos EUA por meio de mediadores e eles estão sendo analisados". A CBS noticiou que isso seria um passo anterior a negociações — e que não há nenhuma negociação confirmada em andamento.

Na manhã desta terça-feira (24/3) na Ásia, o preço do petróleo Brent voltou a ficar acima de US$ 100 por barril, após ter despencado mais de 10% na segunda-feira — depois que Trump havia anunciado que estava adiando sua ameaça de atacar usinas de energia do Irã após "conversas boas" com Teerã, sugerindo que poderia haver em breve um fim para o conflito.

O petróleo subiu 3,75%, atingindo US$ 103,69 nesta terça-feira, refletindo a desconfiança de investidores de que existem mesmo negociações em andamento entre EUA e Irã.

Contatada pela BBC, a Casa Branca disse que a situação é "fluida", e não deu mais detalhes sobre as supostas negociações.

"Estas são discussões diplomáticas delicadas e os EUA não negociam através da imprensa", disse a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, em um comunicado à BBC.

"Esta é uma situação fluida, e especulações sobre encontros não devem ser dadas como definitivas até que sejam formalmente anunciadas pela Casa Branca."

<><> Ameaça de ataque adiado

Trump disse na segunda-feira que o Irã quer "muito fazer um acordo" com os EUA.

"Nós também gostaríamos de fazer um acordo", disse, a repórteres, antes de embarcar em seu avião presidencial, o Air Force One, em Palm Beach, na Flórida. "Temos uma chance muito séria de um acordo", disse Trump, acrescentando que "isso não garante nada; não estou garantindo nada".

O presidente dos EUA também afirmou que os dois países estão discutindo 15 pontos para encerrar a guerra, com o Irã renunciando às armas nucleares como os pontos "número um, dois e três".

Trump sugeriu que o Irã poderia concordar em abandonar os planos para um programa de armas nucleares em troca da paz.

"Amanhã de manhã, em algum horário deles, esperávamos explodir suas maiores usinas de geração de energia elétrica, que custaram mais de US$ 10 bilhões (R$ 52 bilhões) para construir", afirmou Trump na segunda. "Era uma usina muito boa, não havia falta de dinheiro. Um tiro e ela se vai. Desaba. Por que eles iriam querer isso?".

Na noite de sábado (21/3), o presidente americano havia dito que, se o Estreito de Ormuz não fosse aberto "sem ameaças" em 48 horas, os EUA "aniquilariam" as usinas de energia iranianas. O Irã havia prometido reagir a qualquer eventual ataque americano com escalada de violência.

Segundo Trump, após a ameaça, autoridades do Irã teriam ligado para ele querendo fazer um acordo. Por isso, ele recuou, suspendendo por cinco dias qualquer ataque a usinas iranianas.

<><> Novos ataques de Irã e Israel

Na madrugada de segunda para terça, o Irã lançou diversas ondas de mísseis contra Israel, provocando danos em prédios em Tel Aviv e na região central do país.

No Líbano, a imprensa estatal noticiou ataques de Israel a Beirute. Pela manhã, as forças israelenses emitiram um alerta para que residentes evacuassem a área, em preparação para um novo ataque conta alvos ligados ao grupo xiita militante Hezbollah.

Israel também disse que suas forças realizaram uma "grande onde de ataques aéreos" contra "infraestrutura do regime" em Teerã.

O premiê israelense, Benjamin Netanyahu, disse na noite de segunda-feira — após conversa por telefone com Trump — que Israel continuará atacando o Irã e o Líbano.

"Nós estamos destruindo o programa de mísseis e o programa nuclear. Vamos garantir nossos interesses vitais em qualquer cenário", publicou Netanyahu no X.

Há relatos de novos ataques aéreos no leste de Teerã nesta terça-feira.

O Comando Central dos EUA disse que vai continuar "atacando agressivamente alvos militares iranianos com munições de precisão".

 

Fonte: DW Brasil/Brasil 247/BBC News Mundo

 

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