quinta-feira, 26 de março de 2026

Oliveiros Marques: BolsoMaster e a expansão dos tentáculos – Ciro Nogueira, Filipe Barros e Nikolas

Se a primeira lâmina da biópsia revelou o metabolismo do organismo, a segunda expôs seu sistema nervoso. Este novo corte permite observar outra dimensão da patologia: a sua capacidade de expansão. Nenhum tumor cresce isoladamente. Ele precisa de vasos, conexões e suporte externo para avançar sobre novos territórios.

É aqui que entram outros aliados políticos.

O Banco Master não operou apenas como agente econômico. Sua expansão encontra indícios de sustentação em iniciativas legislativas e articulações políticas que, se aprovadas, teriam ampliado de forma significativa sua capacidade de captação e circulação de recursos.

Projetos apresentados no Congresso Nacional, como aqueles associados aos nomes do senador Ciro Nogueira e do deputado paranaense Filipe Barros – ambos bolsonaristas de carteirinha –, buscavam alterar regras relacionadas ao Fundo Garantidor de Créditos. A ampliação dessa cobertura não é um detalhe técnico: trata-se de um mecanismo que, na prática, aumenta a confiança do mercado e potencializa a entrada de recursos em determinadas instituições financeiras.

Se tais mudanças tivessem avançado, o efeito seria direto: maior volume de recursos sob proteção formal e, consequentemente, maior capacidade de alavancagem. Em termos clínicos, seria como oferecer novos vasos sanguíneos a um organismo cancerígeno já em expansão acelerada.

Esse movimento não ocorre no vazio. Ele se insere em uma rede mais ampla de relações políticas, simbólicas e sociais.

No plano da comunicação e da disputa de narrativa, figuras como Nikolas Ferreira cumprem outro papel dentro desse organismo. Não como formuladores diretos de políticas, mas como agentes de dispersão – capazes de deslocar o foco do debate público. Em momentos de tensão, a produção de ruído e de espetáculos comunicacionais atua como cortina de fumaça, reorganizando a atenção coletiva e reduzindo a pressão sobre temas mais sensíveis.

A biópsia também revela conexões periféricas que merecem ser observadas com atenção. Relações pessoais, vínculos institucionais e interações no período eleitoral apontam para uma proximidade entre diferentes atores desse sistema. Elementos que, isoladamente, podem parecer circunstanciais, mas que, em conjunto, desenham um padrão de interdependência.

O que emerge desse novo corte é um organismo que não apenas funciona internamente, mas que se projeta para fora – buscando sustentação política, ampliando sua cobertura e protegendo suas operações.

Diferentemente do que parte da narrativa do PIG tenta sugerir, não se trata de um fenômeno espontâneo ou isolado. À medida que a biópsia avança e mais órgãos são analisados, o que se observa é a consistência de vínculos entre estruturas financeiras e determinados setores do sistema político. As conexões tornam-se mais nítidas. As relações, mais densas.

E o diagnóstico, cada vez mais difícil de ignorar, apesar dos desejos e movimentos das Organizações Globo, é evidente: os indícios levam, indubitavelmente, à conclusão de que o esquema BolsoMaster é um organismo que foi gestado e cresceu alimentado por um ambiente político específico – um ambiente que não apenas permitiu, mas também facilitou a sua expansão: o governo Bolsonaro e o bolsonarismo.

•        Governo Tarcísio vai se enrolando no escândalo do Banco Master. Por Mário Murici

Ainda é difícil mensurar o alcance das negociatas envolvendo o Banco Master. A cada nova revelação, contudo, os contornos do caso deixam de ser difusos e passam a apontar com mais nitidez para conexões preocupantes com o governo de Tarcísio de Freitas. O que causa ainda mais estranheza é o silêncio do governador diante de um cenário que exigiria transparência, explicações públicas e disposição para o esclarecimento imediato dos fatos. Em vez disso, o que se vê é uma ausência incômoda de respostas enquanto as peças desse quebra-cabeça vão se encaixando.

O maior doador da campanha de Tarcísio ao Governo de São Paulo foi Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Zettel contribuiu com R$ 2 milhões do próprio bolso. Em política, especialmente quando se trata de grandes cifras, é difícil sustentar a ideia de que aportes dessa magnitude não carreguem expectativas ou interesses associados. A máxima de que “não existe almoço grátis” parece, aqui, especialmente pertinente.

Eleito, Tarcísio fez da Emae a sua primeira grande privatização. O leilão da Empresa Metropolitana de Águas e Energia foi vencido pelo Fundo Phoenix, controlado por Nelson Tanure. A antiga estatal é responsável, entre outras coisas, por quatro usinas de energia do Estado, entre elas a Henry Borden, considerada a jóia da coroa e há décadas subutilizada, produzindo um volume de energia muito abaixo de sua capacidade.

O problema é que Tanure não aparece como um agente isolado nessa história. Segundo investigações da Polícia Federal, ele seria um “sócio oculto” do Banco Master, “exercendo influência por meio de fundos e estruturas societárias complexas”. A conexão ganha contornos ainda mais sensíveis quando se observa o destino de parte dos recursos da própria Emae após a privatização: a empresa aplicou R$ 160 milhões em CDBs do Letsbank, instituição que pertencia ao Master e foi liquidada pelo Banco Central.

Esta é uma cadeia de eventos que, quando analisada em conjunto, merecerá investigação aprofundada. Mas vamos adiante.

Outro ponto crítico é a forma como o Fundo Phoenix se capitalizou para viabilizar a compra da Emae. Um relatório técnico da CVM, a Comissão de Valores Mobiliários, concluiu que “houve uma sequência de operações e aportes que demonstraram clara convergência de interesses e estratégias entre esses agentes, com resultados que impactaram significativamente a estrutura acionária e a cotação da Ambipar no mercado”.

Em março de 2024, o Fundo Phoenix recebeu aporte de R$ 400 milhões e, um mês depois, venceu o leilão de privatização da Emae. Em maio de 2024, o fundo ganhou um novo investimento, desta vez, de R$ 1,25 bilhão, na mesma época em que houve um programa de recompra de ações da Ambipar. Em paralelo, o fundador da Ambipar e os fundos geridos pela Trustee, entre eles o Phoenix, compraram de “forma agressiva” as ações da empresa, cujos papéis saltaram de R$ 13 para R$ 97,35 em menos de 30 dias.

É nesse contexto que aparece outro personagem importante desta trama: Carlos Piani, então presidente do Conselho da Ambipar. Meses depois, o governo Tarcísio fez a maior privatização de sua gestão ao vender a Sabesp. E sabe quem aparece como um dos personagens-chave dessa negociação? Novamente Piani, agora presidente do Conselho da Equatorial Energia, que venceu a disputa pela estatal. Mais tarde, Piani tornou-se CEO da Sabesp privatizada.

Com esse conjunto de fatos, é inevitável questionar se estamos apenas diante de uma sucessão de coincidências ou de algo mais estruturado. A proximidade entre financiadores de campanha, instituições financeiras, fundos de investimento e vencedores de grandes privatizações públicas sugere, no mínimo, a necessidade de uma apuração rigorosa e independente.

Em democracias maduras, situações como essa demandam respostas rápidas, investigações transparentes e prestação de contas à sociedade. O silêncio não é apenas desconfortável. Ele pode ser interpretado como conivência ou, no mínimo, descaso com o interesse público.

Se há algo que a história recente brasileira ensina é que grandes escândalos raramente se revelam por completo de uma só vez. Eles começam com fios aparentemente soltos que, quando puxados, expõem tramas complexas e profundas. O caso envolvendo o Banco Master e suas conexões com figuras próximas ao atual governo paulista parece ser um desses fios. E tudo indica que ainda há muito por vir.

•        Caso Master e Operação Satiagraha: Andrei Rodrigues pode se tornar o novo Paulo Lacerda. Por Paulo Henrique Arantes

Tornou-se rotineira a comparação entre a Operação Lava Jato e o atual inquérito que investiga as estripulias de Daniel Vorcaro à frente do Banco Master. O temor é de que o processo repita as ilegalidades protagonizadas pelo juiz Sérgio Moro, abraçado ao procurador Deltan Dallagnol. A prática de vazamentos seletivos e a orquestração da mídia mainstream para envolver Lula já estão bastante claras. Mas as divisões internas da Polícia Federal, com aparente perda de força do diretor-geral Andrei Rodrigues, remetem a outra operação, mais antiga e hoje esquecida: a Satiagraha.

Vale lembrar como o então diretor-geral da PF, Paulo Lacerda, foi enredado numa teia de grampos nunca tornados públicos, em especial aquele sobre o então presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes. À frente da Satiagraha estava o delegado Protógenes Queiroz, que entrou na política. Os principais vilões da época eram o banqueiro Daniel Dantas, o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta e o especulador Naji Nahas.

Em síntese, o desfecho da Satiagraha foi o encerramento da maioria das ações penais devido à anulação de provas pelo uso indevido de grampos e participação irregular de agentes da Agência Brasileira de Inteligência, a Abin. Paulo Lacerda foi afastado do cargo e “premiado” com o posto de adido policial em Lisboa – uma forma de o governo mostrar reação contra a ilegalidade dos grampos que teriam atingido o STF. Nunca se provou que Lacerda ordenara ou autorizara o grampeamento de membros do tribunal.

Delegado que chefiava a operação, Protógenes também não foi formalmente responsabilizado pelos grampos, mas acabou condenado por violação de sigilo funcional – vazamentos, enfim.

A semelhança mais nítida entre os dois momentos da Polícia Federal – a Operação Satiagraha e o caso Master – é sua disputa interna de forças. O legalismo presente nos pronunciamentos de Andrei Rodrigues mostra mais um compromisso pessoal dele do que um princípio cumprido pelos demais diretores da instituição, pelos delegados e pelos agentes de campo. Tanto à época de Paulo Lacerda quanto agora, o diretor-geral da PF não controla cada ato operacional da instituição, mas responde pela cadeia de comando, daí posicionado como para-raios.

Hoje como ontem, há tensões internas reais na PF que influenciam a condução da operação Master-Vorcaro, ainda que não se possa falar em ruptura. Crises externas potencializam essas tensões, e a responsabilidade institucional recai fatalmente sobre o diretor-geral. Andrei Rodrigues pode se tornar o novo Paulo Lacerda se naufragar diante das disputas de métodos, das diferentes visões sobre limites legais e dos conflitos por protagonismo.

 

Fonte: Brasil 247

 

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