Oliveiros
Marques: BolsoMaster e a expansão dos tentáculos – Ciro Nogueira, Filipe Barros
e Nikolas
Se a
primeira lâmina da biópsia revelou o metabolismo do organismo, a segunda expôs
seu sistema nervoso. Este novo corte permite observar outra dimensão da
patologia: a sua capacidade de expansão. Nenhum tumor cresce isoladamente. Ele
precisa de vasos, conexões e suporte externo para avançar sobre novos
territórios.
É aqui
que entram outros aliados políticos.
O Banco
Master não operou apenas como agente econômico. Sua expansão encontra indícios
de sustentação em iniciativas legislativas e articulações políticas que, se
aprovadas, teriam ampliado de forma significativa sua capacidade de captação e
circulação de recursos.
Projetos
apresentados no Congresso Nacional, como aqueles associados aos nomes do
senador Ciro Nogueira e do deputado paranaense Filipe Barros – ambos
bolsonaristas de carteirinha –, buscavam alterar regras relacionadas ao Fundo
Garantidor de Créditos. A ampliação dessa cobertura não é um detalhe técnico:
trata-se de um mecanismo que, na prática, aumenta a confiança do mercado e
potencializa a entrada de recursos em determinadas instituições financeiras.
Se tais
mudanças tivessem avançado, o efeito seria direto: maior volume de recursos sob
proteção formal e, consequentemente, maior capacidade de alavancagem. Em termos
clínicos, seria como oferecer novos vasos sanguíneos a um organismo cancerígeno
já em expansão acelerada.
Esse
movimento não ocorre no vazio. Ele se insere em uma rede mais ampla de relações
políticas, simbólicas e sociais.
No
plano da comunicação e da disputa de narrativa, figuras como Nikolas Ferreira
cumprem outro papel dentro desse organismo. Não como formuladores diretos de
políticas, mas como agentes de dispersão – capazes de deslocar o foco do debate
público. Em momentos de tensão, a produção de ruído e de espetáculos
comunicacionais atua como cortina de fumaça, reorganizando a atenção coletiva e
reduzindo a pressão sobre temas mais sensíveis.
A
biópsia também revela conexões periféricas que merecem ser observadas com
atenção. Relações pessoais, vínculos institucionais e interações no período
eleitoral apontam para uma proximidade entre diferentes atores desse sistema.
Elementos que, isoladamente, podem parecer circunstanciais, mas que, em
conjunto, desenham um padrão de interdependência.
O que
emerge desse novo corte é um organismo que não apenas funciona internamente,
mas que se projeta para fora – buscando sustentação política, ampliando sua
cobertura e protegendo suas operações.
Diferentemente
do que parte da narrativa do PIG tenta sugerir, não se trata de um fenômeno
espontâneo ou isolado. À medida que a biópsia avança e mais órgãos são
analisados, o que se observa é a consistência de vínculos entre estruturas
financeiras e determinados setores do sistema político. As conexões tornam-se
mais nítidas. As relações, mais densas.
E o
diagnóstico, cada vez mais difícil de ignorar, apesar dos desejos e movimentos
das Organizações Globo, é evidente: os indícios levam, indubitavelmente, à
conclusão de que o esquema BolsoMaster é um organismo que foi gestado e cresceu
alimentado por um ambiente político específico – um ambiente que não apenas
permitiu, mas também facilitou a sua expansão: o governo Bolsonaro e o
bolsonarismo.
• Governo Tarcísio vai se enrolando no
escândalo do Banco Master. Por Mário Murici
Ainda é
difícil mensurar o alcance das negociatas envolvendo o Banco Master. A cada
nova revelação, contudo, os contornos do caso deixam de ser difusos e passam a
apontar com mais nitidez para conexões preocupantes com o governo de Tarcísio
de Freitas. O que causa ainda mais estranheza é o silêncio do governador diante
de um cenário que exigiria transparência, explicações públicas e disposição
para o esclarecimento imediato dos fatos. Em vez disso, o que se vê é uma
ausência incômoda de respostas enquanto as peças desse quebra-cabeça vão se
encaixando.
O maior
doador da campanha de Tarcísio ao Governo de São Paulo foi Fabiano Zettel,
cunhado de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Zettel contribuiu com
R$ 2 milhões do próprio bolso. Em política, especialmente quando se trata de
grandes cifras, é difícil sustentar a ideia de que aportes dessa magnitude não
carreguem expectativas ou interesses associados. A máxima de que “não existe
almoço grátis” parece, aqui, especialmente pertinente.
Eleito,
Tarcísio fez da Emae a sua primeira grande privatização. O leilão da Empresa
Metropolitana de Águas e Energia foi vencido pelo Fundo Phoenix, controlado por
Nelson Tanure. A antiga estatal é responsável, entre outras coisas, por quatro
usinas de energia do Estado, entre elas a Henry Borden, considerada a jóia da
coroa e há décadas subutilizada, produzindo um volume de energia muito abaixo
de sua capacidade.
O
problema é que Tanure não aparece como um agente isolado nessa história.
Segundo investigações da Polícia Federal, ele seria um “sócio oculto” do Banco
Master, “exercendo influência por meio de fundos e estruturas societárias
complexas”. A conexão ganha contornos ainda mais sensíveis quando se observa o
destino de parte dos recursos da própria Emae após a privatização: a empresa
aplicou R$ 160 milhões em CDBs do Letsbank, instituição que pertencia ao Master
e foi liquidada pelo Banco Central.
Esta é
uma cadeia de eventos que, quando analisada em conjunto, merecerá investigação
aprofundada. Mas vamos adiante.
Outro
ponto crítico é a forma como o Fundo Phoenix se capitalizou para viabilizar a
compra da Emae. Um relatório técnico da CVM, a Comissão de Valores Mobiliários,
concluiu que “houve uma sequência de operações e aportes que demonstraram clara
convergência de interesses e estratégias entre esses agentes, com resultados
que impactaram significativamente a estrutura acionária e a cotação da Ambipar
no mercado”.
Em
março de 2024, o Fundo Phoenix recebeu aporte de R$ 400 milhões e, um mês
depois, venceu o leilão de privatização da Emae. Em maio de 2024, o fundo
ganhou um novo investimento, desta vez, de R$ 1,25 bilhão, na mesma época em
que houve um programa de recompra de ações da Ambipar. Em paralelo, o fundador
da Ambipar e os fundos geridos pela Trustee, entre eles o Phoenix, compraram de
“forma agressiva” as ações da empresa, cujos papéis saltaram de R$ 13 para R$
97,35 em menos de 30 dias.
É nesse
contexto que aparece outro personagem importante desta trama: Carlos Piani,
então presidente do Conselho da Ambipar. Meses depois, o governo Tarcísio fez a
maior privatização de sua gestão ao vender a Sabesp. E sabe quem aparece como
um dos personagens-chave dessa negociação? Novamente Piani, agora presidente do
Conselho da Equatorial Energia, que venceu a disputa pela estatal. Mais tarde,
Piani tornou-se CEO da Sabesp privatizada.
Com
esse conjunto de fatos, é inevitável questionar se estamos apenas diante de uma
sucessão de coincidências ou de algo mais estruturado. A proximidade entre
financiadores de campanha, instituições financeiras, fundos de investimento e
vencedores de grandes privatizações públicas sugere, no mínimo, a necessidade
de uma apuração rigorosa e independente.
Em
democracias maduras, situações como essa demandam respostas rápidas,
investigações transparentes e prestação de contas à sociedade. O silêncio não é
apenas desconfortável. Ele pode ser interpretado como conivência ou, no mínimo,
descaso com o interesse público.
Se há
algo que a história recente brasileira ensina é que grandes escândalos
raramente se revelam por completo de uma só vez. Eles começam com fios
aparentemente soltos que, quando puxados, expõem tramas complexas e profundas.
O caso envolvendo o Banco Master e suas conexões com figuras próximas ao atual
governo paulista parece ser um desses fios. E tudo indica que ainda há muito
por vir.
• Caso Master e Operação Satiagraha:
Andrei Rodrigues pode se tornar o novo Paulo Lacerda. Por Paulo Henrique
Arantes
Tornou-se
rotineira a comparação entre a Operação Lava Jato e o atual inquérito que
investiga as estripulias de Daniel Vorcaro à frente do Banco Master. O temor é
de que o processo repita as ilegalidades protagonizadas pelo juiz Sérgio Moro,
abraçado ao procurador Deltan Dallagnol. A prática de vazamentos seletivos e a
orquestração da mídia mainstream para envolver Lula já estão bastante claras.
Mas as divisões internas da Polícia Federal, com aparente perda de força do
diretor-geral Andrei Rodrigues, remetem a outra operação, mais antiga e hoje
esquecida: a Satiagraha.
Vale
lembrar como o então diretor-geral da PF, Paulo Lacerda, foi enredado numa teia
de grampos nunca tornados públicos, em especial aquele sobre o então presidente
do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes. À frente da Satiagraha estava o
delegado Protógenes Queiroz, que entrou na política. Os principais vilões da
época eram o banqueiro Daniel Dantas, o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta e
o especulador Naji Nahas.
Em
síntese, o desfecho da Satiagraha foi o encerramento da maioria das ações
penais devido à anulação de provas pelo uso indevido de grampos e participação
irregular de agentes da Agência Brasileira de Inteligência, a Abin. Paulo
Lacerda foi afastado do cargo e “premiado” com o posto de adido policial em
Lisboa – uma forma de o governo mostrar reação contra a ilegalidade dos grampos
que teriam atingido o STF. Nunca se provou que Lacerda ordenara ou autorizara o
grampeamento de membros do tribunal.
Delegado
que chefiava a operação, Protógenes também não foi formalmente responsabilizado
pelos grampos, mas acabou condenado por violação de sigilo funcional –
vazamentos, enfim.
A
semelhança mais nítida entre os dois momentos da Polícia Federal – a Operação
Satiagraha e o caso Master – é sua disputa interna de forças. O legalismo
presente nos pronunciamentos de Andrei Rodrigues mostra mais um compromisso
pessoal dele do que um princípio cumprido pelos demais diretores da
instituição, pelos delegados e pelos agentes de campo. Tanto à época de Paulo
Lacerda quanto agora, o diretor-geral da PF não controla cada ato operacional
da instituição, mas responde pela cadeia de comando, daí posicionado como
para-raios.
Hoje
como ontem, há tensões internas reais na PF que influenciam a condução da
operação Master-Vorcaro, ainda que não se possa falar em ruptura. Crises
externas potencializam essas tensões, e a responsabilidade institucional recai
fatalmente sobre o diretor-geral. Andrei Rodrigues pode se tornar o novo Paulo
Lacerda se naufragar diante das disputas de métodos, das diferentes visões
sobre limites legais e dos conflitos por protagonismo.
Fonte:
Brasil 247

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