Oliveiros
Marques: Quando há método, há alcance - o mito da superioridade da direita nas
redes
A
rápida retratação da GloboNews, feita pela jornalista Andréia Sadi no programa
Estúdio I, após a repercussão negativa de uma arte exibida dias antes, oferece
mais do que um episódio isolado de correção editorial. Ela revela uma lição
importante sobre o funcionamento das disputas políticas no ambiente digital -
e, especialmente, desmonta um mito que há anos se tenta consolidar: o de que a
direita seria naturalmente mais forte que a esquerda nas redes sociais.
A peça
que motivou a reação omitia conexões relevantes entre figuras do bolsonarismo e
o esquema envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, ao mesmo tempo em que
insinuava, de forma distorcida, vínculos com o governo Lula no caso do Banco
Master. A resposta foi imediata, coordenada e, sobretudo, concentrada.
Ao
longo do fim de semana, milhares de usuários passaram a criticar o conteúdo,
utilizando referências comuns, comparações diretas e uma narrativa unificada. A
analogia com o “powerpoint” da Operação Lava Jato não surgiu de forma dispersa:
ela foi replicada, reforçada e amplificada como eixo central da crítica. O
resultado foi uma pressão consistente, difícil de ignorar. Mensagem que,
importante negritar, devidamente trabalhada veículos de comunicação
progressistas.
Esse
ponto é fundamental. O que garantiu alcance e impacto não foi apenas o conteúdo
da crítica - legítima, consistente e baseada em fatos -, mas o método de
distribuição. Houve centralidade na mensagem, repetição estratégica e
convergência discursiva. Elementos que, historicamente, foram mais associados à
atuação digital da direita, mas que, neste caso, foram plenamente mobilizados
por setores progressistas.
Durante
anos, consolidou-se a ideia de que a direita teria maior domínio das redes
sociais por uma suposta superioridade comunicacional. No entanto, episódios
como este demonstram que essa vantagem não está necessariamente no conteúdo,
mas na forma como ele é organizado, disseminado e reforçado.
Quando
há dispersão, a mensagem se dilui. Quando há centralidade, ela ganha corpo,
escala e força política.
A
reação ao caso também ultrapassou o ambiente digital. Jornalistas experientes,
com décadas de atuação, vieram a público para criticar a condução editorial. Ou
seja, a mobilização online conseguiu transbordar para outros espaços de
legitimidade, ampliando ainda mais seu impacto. Isso nos leva a uma conclusão
clara: o fortalecimento da presença progressista nas redes não depende de
reinventar o conteúdo, mas de aprimorar o método. Coordenação, foco narrativo,
repetição e timing são fatores decisivos.
O
episódio da GloboNews não deve ser visto apenas como uma vitória pontual, mas
como um sinal. Um indicativo de que, quando há estratégia e alinhamento, a
militância digital de esquerda é plenamente capaz de disputar - e vencer -
batalhas de narrativa no ambiente online.
Que
essa experiência sirva de aprendizado. Porque, no fim das contas, a diferença
não está em quem fala melhor - mas em como, quando e de que forma essa fala se
organiza para ser ouvida.
• O caso Master recontado pelo PowerPoint
global. Por Tereza Cruvinel
O
PowerPoint da GloboNews foi o arremate de uma sequência de ações destinadas a
converter o escândalo financeiro do Banco Master em um furacão político capaz
de produzir, pela desinformação e manipulação, os resultados eleitorais
desejados pela plutocracia que reúne a casta financeira e empresarial, os
grandes grupos de mídia e os partidos de direita e extrema-direita. Tal como no
tempo da Lava Jato, eles querem apear o PT do governo e evitar a reeleição do
presidente Lula.
A peça
gráfica que subverte as conexões de Daniel Vorcaro, trocando seus verdadeiros
comparsas por Lula e outras figuras do campo progressista, é obra da casa e,
por isso, deve ser chamada de PowerPoint do sistema Globo. Ela não foi criada
pela apresentadora Andrea Sadi e pelos comentaristas Valdo Cruz, Arthur Dapieve
e Thomas Traumann, embora eles tenham cumprido o papel deplorável de
comentá-la, como se estivessem diante de um fato real, demonstrado por alguma
prova ou evidência. Eu já estive lá, como colunista do jornal e comentarista do
mesmo canal. Sei como as coisas funcionam e como deixam de funcionar.
Paternidade
à parte, antes do PowerPoint global, o escândalo já vinha sofrendo alterações
semióticas, digamos assim, ajustes narrativos destinados a alterar seu
significado, sua localização temporal e institucional e sua própria percepção
pela população. E, com isso, o que era um escândalo financeiro, de fato
importante e grande, foi se transfigurando em escândalo político. O PowerPoint
foi um esforço para “fechar a história”, colocando Lula como peça importante na
teia de conexões de Daniel Vorcaro, ao lado de outras figuras da esquerda: o PT
da Bahia, os ex-ministros Lewandowski e Guido Mantega, e o próprio Gabriel
Galípolo, o presidente do BC que fechou o Master. Já Campos Neto, que autorizou
seu funcionamento em 2019, não aparece.
Todos
nos lembramos de que, na Lava Jato, o vergonhoso PowerPoint de Deltan
Dallagnol, que tinha Lula no centro de uma teia de relações com supostos
operadores da corrupção na Petrobras, abriu caminho para sua condenação e
prisão por Sergio Moro. Daí para a eleição de Bolsonaro, em 2018, foi um passo.
Não
houvesse eleição este ano, o caso Master seria um megaescândalo financeiro,
permeado por crimes como gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro, extorsão e
formação de organização criminosa, entre outras. Teria ficado na primeira
instância, pelo menos até agora, pois não surgiram ainda envolvidos que tenham,
de fato, foro especial no STF. Vorcaro poderá trazê-los em sua delação.
A
partir da descoberta da utilidade político-eleitoral do caso, ele foi sendo
retocado, ganhando cores, formas e narrativas adequadas à nova finalidade, com
o uso de algumas técnicas de transfiguração. Até aqui já tivemos, entre elas:
1. Troca de personagens na trama – Bem antes
do PowerPoint global, a mídia já havia praticamente suprimido da crônica do
escândalo figuras como o governador Cláudio Castro (que aplicou no Master
fundos bilionários de aposentadorias complementares dos servidores), prefeitos
que fizeram a mesma coisa, o governador do DF, Ibaneis Rocha (o maior
responsável pelas operações que arrombaram e ameaçam a sobrevivência do BRB), o
senador Ciro Nogueira, presidente do PP, chamado de “amigo de vida” por
Vorcaro, o deputado Nikolas Ferreira, passageiro do avião do ex-banqueiro,
entre outros tantos.
2. Alteração dos marcos temporais – A
gestação do Banco Master e as estripulias de Vorcaro começaram no governo
Bolsonaro, mas, na crônica que vem sendo divulgada, o caso todo parece ter
começado no governo Lula 3, em que o BC desautorizou a venda da instituição ao
BRB e terminou por liquidar e fechar o Master. Mas foi em agosto de 2019,
primeiro ano do governo Bolsonaro, que o BC, presidido por Roberto Campos Neto,
autorizou o funcionamento do Master. Em 2022, Bolsonaro recebeu do cunhado de
Vorcaro uma doação eleitoral de R$ 5 milhões; A estripulia financeira começou
em 2019, com o banco de Vorcaro captando CDBs com taxas bem superiores às
praticadas no mercado, que chegavam a 140% do CDI. O investidor ouvia que não
havia perigo, seu dinheiro estava protegido pelo FGC — o Fundo Garantidor de
Créditos, que cobre perdas eventuais de até R$ 250 mil por pessoa física. Mais
tarde, o senador Ciro Nogueira tentaria aprovar uma PEC elevando esse limite
para R$ 1 milhão. Na crônica da mídia, entretanto, tudo parece ter começado no
atual governo.
3. A pimenta sexual para capturar a atenção
do público – Um escândalo que se preze não pode falar apenas de CDBs, taxa de
juros, FGC, compra de títulos podres e outras expressões enfadonhas. Um bom
escândalo precisa de condimentos que mexam com a imaginação popular: sexo,
traições, luxúria, brigas que vão às vias de fato, falsificações de documentos
e até assassinatos. Uma vez fisgado pelas baixarias mundanas da história, o
ouvido do público está aberto também para ouvir a narrativa política associada.
No caso
presente, o molho de pimenta vem nas informações sobre as festas e orgias
promovidas por Vorcaro, com a participação de gente do poder político e
econômico. Por ora, vazaram as conversas íntimas entre Vorcaro e sua
ex-namorada Marta Graeff, mas as imaginações estão incendiadas à espera de
vídeos e áudios escandalosos.
Todas
essas transmutações ocorreram nos últimos dias, e sobre elas foi elaborado o
PowerPoint global, baseado unicamente na “voz narrativa” da emissora, com
dispensa de provas e evidências.
Por que
Lula está lá como sendo comparsa de Vorcaro? Porque o recebeu uma vez, com
testemunhas, tendo lhe dito que não seria perseguido, mas também não seria
poupado?
Por que
Galípolo, que fechou o Master, e não Campos Neto, que autorizou seu
funcionamento?
Por que
o ex-ministro Lewandowski, que prestou uma consultoria ao Master após deixar o
STF e antes de assumir a Justiça, e não o ministro Nunes Marques, cujo filho
recebeu R$ 18 milhões do Master e da JBS?
Muitas
perguntas permite o power point, mas a que importa é: por que Lula está lá, no
alto e com destaque?
Eles
sabem e nós sabemos a razão do power point.
Lula e
o PT sabem que o próximo passo será a repetição da mentira até que pareça
verdade.
A
disputa de versões com os meios eletrônicos e com a internet não é fácil, mas
Lula e o PT sabem que precisam enfrentá-la. Que precisam partir para a guerra
argumentativa, antes que seja tarde.
• Esqueçam tudo: quem vai contar a
história do caso Master? Por Maurício Carvalho
O caso
Master pode se tornar a nova Lava Jato. Desta vez, contudo, sem uma construção
baseada em recortes seletivos, apresentações de PowerPoint ou narrativas
previamente orientadas. Trata-se de um episódio que emerge com base concreta
nos fatos e atinge setores que, por anos, se apresentam como guardiões da
moralidade pública.
O
escândalo tem potencial para se tornar um marco na política brasileira recente.
Não apenas pelo que revela, mas pelo que pode significar na disputa de
narrativa que, no Brasil, quase sempre antecede — e muitas vezes substitui — o
julgamento dos fatos.
Ao
atingir setores da direita e da extrema-direita, o caso expõe a seletividade
que sempre marcou a narrativa anticorrupção no Brasil. Mas essa possibilidade
não se realiza automaticamente e, por si só, não quer dizer muito.
A
história recente mostra que, em política, não vence quem tem razão, mas quem
organiza melhor o significado dos acontecimentos. A Lava Jato é o exemplo mais
evidente: sua força esteve na construção de uma narrativa simples, repetida e
amplificada, associando corrupção a determinados atores. Houve método, foco e
ausência de ruído, numa coordenação quase militarizada.
Sem
isso, a força da mensagem pretendida se perde.
Sem uma
leitura clara e reiterada, o caso Master corre o risco de ser diluído,
relativizado ou reapropriado por quem historicamente demonstrou maior
capacidade de organizar narrativa. E, nesse processo, reforça-se a ideia de que
“todos são iguais” — conclusão que, na prática, penaliza sempre os mesmos.
Mais do
que os fatos, o que está em disputa é o seu significado público. Talvez seja
uma raríssima janela de oportunidade para reequilibrar esse quadro. Mas isso
exige coerência, continuidade, capacidade de comunicação e coordenação mais
verticalizada. Não se trata de criar versões, e sim de impedir que os fatos se
percam no ruído.
O
desafio é político e, sobretudo, comunicacional.
A
ausência de coordenação, a fragmentação de discursos e a dificuldade de
traduzir acontecimentos complexos em mensagens claras têm custos altos. Muitas
vezes, irreversíveis.
O caso
Master pode ser apenas mais um episódio. Ou pode se tornar um ponto de
inflexão.
A
diferença não está apenas nos fatos.
Está em
quem vai conseguir organizá-los — e dar a eles significado.
• Campos Neto nega responsabilidade no
caso Master e isenta presidência do BC de "falhas cometidas por
terceiros"
O
ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou nesta
segunda-feira (23) que a cúpula da instituição não atua diretamente sobre
operações de bancos de médio porte e, por isso, não pode ser responsabilizada
por eventuais falhas cometidas por terceiros. A manifestação ocorre no contexto
de investigações envolvendo o Banco Master.
As
apurações tratam de possíveis irregularidades ocorridas entre 2019 e 2023,
período em que Campos Neto esteve à frente da autoridade monetária. A
Controladoria-Geral da União (CGU) instaurou processos administrativos
disciplinares contra ex-integrantes do Banco Central, incluindo o ex-diretor de
Fiscalização Paulo Sérgio Neves de Souza e o ex-chefe do Departamento de
Supervisão Bancária, Belline Santana.
Na nota
divulgada por sua assessoria, Campos Neto ressaltou que ambos são servidores de
carreira e já integravam a instituição antes de sua gestão, permanecendo nos
quadros do Banco Central após sua saída, no fim de 2024.
O
ex-presidente também destacou a estrutura de supervisão do sistema financeiro,
que organiza as instituições de acordo com o porte. Bancos classificados como
S1 e S2 — com maior relevância sistêmica — são acompanhados diretamente pela
diretoria executiva. Já instituições do segmento S3, como o Banco Master, ficam
sob responsabilidade de áreas técnicas específicas.
Controlado
por Daniel Vorcaro, o Banco Master representava cerca de 0,57% dos ativos
totais do sistema financeiro nacional, sendo considerado de médio porte dentro
da classificação do Banco Central.
Na
manifestação, a assessoria afirmou: “São funcionários de carreira, que já
estavam lá antes da gestão de Roberto Campos e assim seguiram até ano passado.
O Diretor Paulo deixou a diretoria e assumiu como chefe adjunto do Desup
Departamento de Supervisão Bancária, que monitorava bancos pequenos e médios, e
permaneceu lá até a liquidação.”
O texto
prossegue: “Os dois funcionários em questão contavam com o apoio dos quadros
internos do próprio banco. A presidência do Banco Central não trata das
operações específicas de bancos do segmento S3 e não pode ser responsabilizada
por falhas de terceiros. A área de fiscalização e supervisão tem uma tradição
histórica de ter funcionários de carreira do BC e foi o que ocorreu na gestão
de Roberto Campos Neto.”
Fonte:
Brasil 247

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