quinta-feira, 26 de março de 2026


 

Oliveiros Marques: Quando há método, há alcance - o mito da superioridade da direita nas redes

A rápida retratação da GloboNews, feita pela jornalista Andréia Sadi no programa Estúdio I, após a repercussão negativa de uma arte exibida dias antes, oferece mais do que um episódio isolado de correção editorial. Ela revela uma lição importante sobre o funcionamento das disputas políticas no ambiente digital - e, especialmente, desmonta um mito que há anos se tenta consolidar: o de que a direita seria naturalmente mais forte que a esquerda nas redes sociais.

A peça que motivou a reação omitia conexões relevantes entre figuras do bolsonarismo e o esquema envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, ao mesmo tempo em que insinuava, de forma distorcida, vínculos com o governo Lula no caso do Banco Master. A resposta foi imediata, coordenada e, sobretudo, concentrada.

Ao longo do fim de semana, milhares de usuários passaram a criticar o conteúdo, utilizando referências comuns, comparações diretas e uma narrativa unificada. A analogia com o “powerpoint” da Operação Lava Jato não surgiu de forma dispersa: ela foi replicada, reforçada e amplificada como eixo central da crítica. O resultado foi uma pressão consistente, difícil de ignorar. Mensagem que, importante negritar, devidamente trabalhada veículos de comunicação progressistas.

Esse ponto é fundamental. O que garantiu alcance e impacto não foi apenas o conteúdo da crítica - legítima, consistente e baseada em fatos -, mas o método de distribuição. Houve centralidade na mensagem, repetição estratégica e convergência discursiva. Elementos que, historicamente, foram mais associados à atuação digital da direita, mas que, neste caso, foram plenamente mobilizados por setores progressistas.

Durante anos, consolidou-se a ideia de que a direita teria maior domínio das redes sociais por uma suposta superioridade comunicacional. No entanto, episódios como este demonstram que essa vantagem não está necessariamente no conteúdo, mas na forma como ele é organizado, disseminado e reforçado.

Quando há dispersão, a mensagem se dilui. Quando há centralidade, ela ganha corpo, escala e força política.

A reação ao caso também ultrapassou o ambiente digital. Jornalistas experientes, com décadas de atuação, vieram a público para criticar a condução editorial. Ou seja, a mobilização online conseguiu transbordar para outros espaços de legitimidade, ampliando ainda mais seu impacto. Isso nos leva a uma conclusão clara: o fortalecimento da presença progressista nas redes não depende de reinventar o conteúdo, mas de aprimorar o método. Coordenação, foco narrativo, repetição e timing são fatores decisivos.

O episódio da GloboNews não deve ser visto apenas como uma vitória pontual, mas como um sinal. Um indicativo de que, quando há estratégia e alinhamento, a militância digital de esquerda é plenamente capaz de disputar - e vencer - batalhas de narrativa no ambiente online.

Que essa experiência sirva de aprendizado. Porque, no fim das contas, a diferença não está em quem fala melhor - mas em como, quando e de que forma essa fala se organiza para ser ouvida.

        O caso Master recontado pelo PowerPoint global. Por Tereza Cruvinel

O PowerPoint da GloboNews foi o arremate de uma sequência de ações destinadas a converter o escândalo financeiro do Banco Master em um furacão político capaz de produzir, pela desinformação e manipulação, os resultados eleitorais desejados pela plutocracia que reúne a casta financeira e empresarial, os grandes grupos de mídia e os partidos de direita e extrema-direita. Tal como no tempo da Lava Jato, eles querem apear o PT do governo e evitar a reeleição do presidente Lula.

A peça gráfica que subverte as conexões de Daniel Vorcaro, trocando seus verdadeiros comparsas por Lula e outras figuras do campo progressista, é obra da casa e, por isso, deve ser chamada de PowerPoint do sistema Globo. Ela não foi criada pela apresentadora Andrea Sadi e pelos comentaristas Valdo Cruz, Arthur Dapieve e Thomas Traumann, embora eles tenham cumprido o papel deplorável de comentá-la, como se estivessem diante de um fato real, demonstrado por alguma prova ou evidência. Eu já estive lá, como colunista do jornal e comentarista do mesmo canal. Sei como as coisas funcionam e como deixam de funcionar.

Paternidade à parte, antes do PowerPoint global, o escândalo já vinha sofrendo alterações semióticas, digamos assim, ajustes narrativos destinados a alterar seu significado, sua localização temporal e institucional e sua própria percepção pela população. E, com isso, o que era um escândalo financeiro, de fato importante e grande, foi se transfigurando em escândalo político. O PowerPoint foi um esforço para “fechar a história”, colocando Lula como peça importante na teia de conexões de Daniel Vorcaro, ao lado de outras figuras da esquerda: o PT da Bahia, os ex-ministros Lewandowski e Guido Mantega, e o próprio Gabriel Galípolo, o presidente do BC que fechou o Master. Já Campos Neto, que autorizou seu funcionamento em 2019, não aparece.

Todos nos lembramos de que, na Lava Jato, o vergonhoso PowerPoint de Deltan Dallagnol, que tinha Lula no centro de uma teia de relações com supostos operadores da corrupção na Petrobras, abriu caminho para sua condenação e prisão por Sergio Moro. Daí para a eleição de Bolsonaro, em 2018, foi um passo.

Não houvesse eleição este ano, o caso Master seria um megaescândalo financeiro, permeado por crimes como gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro, extorsão e formação de organização criminosa, entre outras. Teria ficado na primeira instância, pelo menos até agora, pois não surgiram ainda envolvidos que tenham, de fato, foro especial no STF. Vorcaro poderá trazê-los em sua delação.

A partir da descoberta da utilidade político-eleitoral do caso, ele foi sendo retocado, ganhando cores, formas e narrativas adequadas à nova finalidade, com o uso de algumas técnicas de transfiguração. Até aqui já tivemos, entre elas:

1.       Troca de personagens na trama – Bem antes do PowerPoint global, a mídia já havia praticamente suprimido da crônica do escândalo figuras como o governador Cláudio Castro (que aplicou no Master fundos bilionários de aposentadorias complementares dos servidores), prefeitos que fizeram a mesma coisa, o governador do DF, Ibaneis Rocha (o maior responsável pelas operações que arrombaram e ameaçam a sobrevivência do BRB), o senador Ciro Nogueira, presidente do PP, chamado de “amigo de vida” por Vorcaro, o deputado Nikolas Ferreira, passageiro do avião do ex-banqueiro, entre outros tantos.

2.       Alteração dos marcos temporais – A gestação do Banco Master e as estripulias de Vorcaro começaram no governo Bolsonaro, mas, na crônica que vem sendo divulgada, o caso todo parece ter começado no governo Lula 3, em que o BC desautorizou a venda da instituição ao BRB e terminou por liquidar e fechar o Master. Mas foi em agosto de 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro, que o BC, presidido por Roberto Campos Neto, autorizou o funcionamento do Master. Em 2022, Bolsonaro recebeu do cunhado de Vorcaro uma doação eleitoral de R$ 5 milhões; A estripulia financeira começou em 2019, com o banco de Vorcaro captando CDBs com taxas bem superiores às praticadas no mercado, que chegavam a 140% do CDI. O investidor ouvia que não havia perigo, seu dinheiro estava protegido pelo FGC — o Fundo Garantidor de Créditos, que cobre perdas eventuais de até R$ 250 mil por pessoa física. Mais tarde, o senador Ciro Nogueira tentaria aprovar uma PEC elevando esse limite para R$ 1 milhão. Na crônica da mídia, entretanto, tudo parece ter começado no atual governo.

3.       A pimenta sexual para capturar a atenção do público – Um escândalo que se preze não pode falar apenas de CDBs, taxa de juros, FGC, compra de títulos podres e outras expressões enfadonhas. Um bom escândalo precisa de condimentos que mexam com a imaginação popular: sexo, traições, luxúria, brigas que vão às vias de fato, falsificações de documentos e até assassinatos. Uma vez fisgado pelas baixarias mundanas da história, o ouvido do público está aberto também para ouvir a narrativa política associada.

No caso presente, o molho de pimenta vem nas informações sobre as festas e orgias promovidas por Vorcaro, com a participação de gente do poder político e econômico. Por ora, vazaram as conversas íntimas entre Vorcaro e sua ex-namorada Marta Graeff, mas as imaginações estão incendiadas à espera de vídeos e áudios escandalosos.

Todas essas transmutações ocorreram nos últimos dias, e sobre elas foi elaborado o PowerPoint global, baseado unicamente na “voz narrativa” da emissora, com dispensa de provas e evidências.

Por que Lula está lá como sendo comparsa de Vorcaro? Porque o recebeu uma vez, com testemunhas, tendo lhe dito que não seria perseguido, mas também não seria poupado?

Por que Galípolo, que fechou o Master, e não Campos Neto, que autorizou seu funcionamento?

Por que o ex-ministro Lewandowski, que prestou uma consultoria ao Master após deixar o STF e antes de assumir a Justiça, e não o ministro Nunes Marques, cujo filho recebeu R$ 18 milhões do Master e da JBS?

Muitas perguntas permite o power point, mas a que importa é: por que Lula está lá, no alto e com destaque?

Eles sabem e nós sabemos a razão do power point.

Lula e o PT sabem que o próximo passo será a repetição da mentira até que pareça verdade.

A disputa de versões com os meios eletrônicos e com a internet não é fácil, mas Lula e o PT sabem que precisam enfrentá-la. Que precisam partir para a guerra argumentativa, antes que seja tarde.

        Esqueçam tudo: quem vai contar a história do caso Master? Por Maurício Carvalho

O caso Master pode se tornar a nova Lava Jato. Desta vez, contudo, sem uma construção baseada em recortes seletivos, apresentações de PowerPoint ou narrativas previamente orientadas. Trata-se de um episódio que emerge com base concreta nos fatos e atinge setores que, por anos, se apresentam como guardiões da moralidade pública.

O escândalo tem potencial para se tornar um marco na política brasileira recente. Não apenas pelo que revela, mas pelo que pode significar na disputa de narrativa que, no Brasil, quase sempre antecede — e muitas vezes substitui — o julgamento dos fatos.

Ao atingir setores da direita e da extrema-direita, o caso expõe a seletividade que sempre marcou a narrativa anticorrupção no Brasil. Mas essa possibilidade não se realiza automaticamente e, por si só, não quer dizer muito.

A história recente mostra que, em política, não vence quem tem razão, mas quem organiza melhor o significado dos acontecimentos. A Lava Jato é o exemplo mais evidente: sua força esteve na construção de uma narrativa simples, repetida e amplificada, associando corrupção a determinados atores. Houve método, foco e ausência de ruído, numa coordenação quase militarizada.

Sem isso, a força da mensagem pretendida se perde.

Sem uma leitura clara e reiterada, o caso Master corre o risco de ser diluído, relativizado ou reapropriado por quem historicamente demonstrou maior capacidade de organizar narrativa. E, nesse processo, reforça-se a ideia de que “todos são iguais” — conclusão que, na prática, penaliza sempre os mesmos.

Mais do que os fatos, o que está em disputa é o seu significado público. Talvez seja uma raríssima janela de oportunidade para reequilibrar esse quadro. Mas isso exige coerência, continuidade, capacidade de comunicação e coordenação mais verticalizada. Não se trata de criar versões, e sim de impedir que os fatos se percam no ruído.

O desafio é político e, sobretudo, comunicacional.

A ausência de coordenação, a fragmentação de discursos e a dificuldade de traduzir acontecimentos complexos em mensagens claras têm custos altos. Muitas vezes, irreversíveis.

O caso Master pode ser apenas mais um episódio. Ou pode se tornar um ponto de inflexão.

A diferença não está apenas nos fatos.

Está em quem vai conseguir organizá-los — e dar a eles significado.

        Campos Neto nega responsabilidade no caso Master e isenta presidência do BC de "falhas cometidas por terceiros"

O ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou nesta segunda-feira (23) que a cúpula da instituição não atua diretamente sobre operações de bancos de médio porte e, por isso, não pode ser responsabilizada por eventuais falhas cometidas por terceiros. A manifestação ocorre no contexto de investigações envolvendo o Banco Master.

As apurações tratam de possíveis irregularidades ocorridas entre 2019 e 2023, período em que Campos Neto esteve à frente da autoridade monetária. A Controladoria-Geral da União (CGU) instaurou processos administrativos disciplinares contra ex-integrantes do Banco Central, incluindo o ex-diretor de Fiscalização Paulo Sérgio Neves de Souza e o ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária, Belline Santana.

Na nota divulgada por sua assessoria, Campos Neto ressaltou que ambos são servidores de carreira e já integravam a instituição antes de sua gestão, permanecendo nos quadros do Banco Central após sua saída, no fim de 2024.

O ex-presidente também destacou a estrutura de supervisão do sistema financeiro, que organiza as instituições de acordo com o porte. Bancos classificados como S1 e S2 — com maior relevância sistêmica — são acompanhados diretamente pela diretoria executiva. Já instituições do segmento S3, como o Banco Master, ficam sob responsabilidade de áreas técnicas específicas.

Controlado por Daniel Vorcaro, o Banco Master representava cerca de 0,57% dos ativos totais do sistema financeiro nacional, sendo considerado de médio porte dentro da classificação do Banco Central.

Na manifestação, a assessoria afirmou: “São funcionários de carreira, que já estavam lá antes da gestão de Roberto Campos e assim seguiram até ano passado. O Diretor Paulo deixou a diretoria e assumiu como chefe adjunto do Desup Departamento de Supervisão Bancária, que monitorava bancos pequenos e médios, e permaneceu lá até a liquidação.”

O texto prossegue: “Os dois funcionários em questão contavam com o apoio dos quadros internos do próprio banco. A presidência do Banco Central não trata das operações específicas de bancos do segmento S3 e não pode ser responsabilizada por falhas de terceiros. A área de fiscalização e supervisão tem uma tradição histórica de ter funcionários de carreira do BC e foi o que ocorreu na gestão de Roberto Campos Neto.”

 

Fonte: Brasil 247


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