Big
techs e eleições: a chance que o Brasil está perdendo
Desde o
8 de janeiro de 2023, o dia da mais recente tentativa de golpe vivida pelo
Brasil, as forças políticas deveriam ter uma preocupação muito clara e
prioritária em mente. Qual seja, combater os fatores que levaram milhares de
cidadãos a saírem de suas casas, viajarem por vezes milhares de quilômetros,
acamparem por dias e participarem ativamente de atos de depredação do
patrimônio público visando à (re)instauração de um regime não democrático no
país. Nesse sentido, há uma vasta literatura sociológica apontando as redes
sociais digitais, alimentadas com o que se convencionou chamar de
desinformação, como o meio mais importante de arregimentação da massa golpista.
Mesmo que se considerem importantes as manifestações de rua, durante e antes do
período eleitoral de 2022, estas só aconteceram porque foram articuladas online
– e muitas vezes alimentadas por mentiras.
Porém,
além das punições levadas adiante pelo Supremo Tribunal Federal, direcionadas
sobretudo à penalização dos autores diretos da tentativa de golpe, pouquíssimo
ou quase nenhum esforço foi feito para melhorar o ambiente informacional do
país. Não há sequer um esforço coordenado e integrado de pesquisa que permita
compreender o problema em profundidade e ofereça soluções práticas em termos de
políticas públicas. Existem iniciativas de grupos acadêmicos — muitas delas de
alta qualidade — e algumas ações de órgãos governamentais em colaboração
pontual com a sociedade civil. Ainda assim, não há um programa estruturado de
médio prazo para enfrentar um problema tão urgente. No máximo, houve um ensaio
de apoio à tentativa de implementar medidas de transparência e moderação de
conteúdo, encarnadas no PL 2630/2020, a “lei das fake news”. Mas, além da dura
oposição de um Congresso hoje amplamente influenciado pela extrema-direita, nem
mesmo os parlamentares da base governista demonstraram apoio firme e unificado
à proposta. Mesmo tratando-se de uma iniciativa bastante tímida de domesticação
das big techs, ela ainda assim fracassou.
E esse
é um ponto importante, pois a domesticação das big techs é algo contraditório
mesmo antes da atual conjuntura política, dado que implica numa
institucionalização ainda mais profunda dessas plataformas como intermediárias
gerenciadoras das relações sociais. No contexto atual, em que o governo Trump
destrói a antiga ordem internacional, controlar democraticamente as big techs
estreitamente alinhadas a ele, parece um sonho distante.
Ainda
mais: as transformações geopolíticas do último ano encontram paralelo apenas em
raros momentos da história. O ambiente de cooperação internacional, negociações
e regramentos multilaterais, desenhado no pós-Segunda Guerra e aprofundado com
o fim da Guerra Fria, vai se desintegrando rapidamente. Não se trata de
sustentar ilusões sobre um passado perfeito, nem tão distante assim, mas quando
nem a principal potência global se preocupa em manter uma civilidade aparente,
pode fazer sentido repensar estratégias que sejam altamente dependentes do
direito internacional. As leis de regulação de internet são assim, escoradas em
arranjos multissetoriais, se inspiram e precisam dialogar com leis de outros
países e fazem parte de pressões e acordos comerciais internacionais.
Mas
regular não é a única ação possível. Pelo contrário, quando se fala em
desenvolvimento tecnológico — e há uma íntima relação aí entre regulação e
desenvolvimento —, as leis são apenas uma parte de um conjunto de medidas para
se produzir o ambiente sociotécnico desejado. No nosso caso, um ecossistema
informacional soberano, no sentido de ser algo que as instituições e
autoridades democráticas do país possam incidir de maneira que informações
falsas e conteúdo nocivo não sejam propulsores de movimentos que coloquem a
própria sociedade em jogo.
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As lições do movimento software livre
Nesse
sentido, há exemplos recentes na própria história brasileira. Os primeiros dois
mandatos do governo Lula ficaram marcados pelo apoio ao software livre, sendo
um dos maiores sucesso do governo não só na área tecnológica, mas em seu
aspecto cultural. Foram políticas públicas que levaram a programas como o PC
Conectado, o qual vendeu milhões de computadores de baixo custo com sistema
operacional GNU/Linux, enquanto órgãos federais passaram a migrar suas
infraestruturas digitais para soluções livres. Ao mesmo tempo, o Ministério da
Cultura deu origem aos Pontos de Cultura, claramente inspirado na filosofia do
software livre.
Mas o
apoio ao software livre não foi uma decisão de cima para baixo, gestada em
gabinetes de ministros. Foi o resultado de uma pressão de tipo especial do
movimento, que aliou a evangelização sobre o caráter ético das soluções livres
e os argumentos sobre as vantagens econômicas e em termos de desenvolvimento
científico das licenças abertas, com uma ação de caráter prático por parte dos
seus defensores.
O
movimento software livre nasce no final dos anos 1970, da revolta de um
desenvolvedor, Richard Stallman, que via a cultura hacker de compartilhamento
de códigos de computadores ser atacada pelo avanço de empresas de software como
a Microsoft. Estas buscavam impedir o que ele entendia como compartilhamento de
conhecimento ao tornarem as instruções dadas às máquinas (o software)
mercadoria de propriedade exclusiva. Stallman não só questionou a ética dessa
prática, mas iniciou um esforço coletivo de produção de novos softwares que
fossem licenciados como bens comuns.
Os
softwares livres recebem esse nome porque seus códigos são de livre
compartilhamento, estudo, uso e modificação. O movimento software livre pratica
o que pesquisadores como Christopher M. Kelty (2008) chama de recursive
politics (algo como política recursiva, que incide sobre si mesmo). O termo
descreve um tipo particular de ação política em que o próprio meio técnico e
organizacional que permite a ação política torna-se também objeto dessa ação.
Ou seja, o movimento software livre não só fala sobre a liberdade que deseja
mas constrói materialmente as estruturas que permitem essa liberdade.
No
Brasil, os defensores do software livre repetiram e incrementaram essa lógica.
Falaram sobre a liberdade de criar e compartilhar, mas também a associaram com
demandas locais de desenvolvimento tecnológico, típicas do que hoje chamamos de
Sul Global. Software livre virou meio para a superação de desigualdades e
ganhou o slogan: “Socialmente justo, economicamente viável, tecnologicamente
sustentável”. Por meio de um conjunto de empresas, projetos de software e de
inclusão digital, o software livre brasileiro transformou em realidade, dentro
de suas limitações, o que professava como um mundo ideal. Com isso, ganharam
terreno nas políticas governamentais e ocuparam espaços assim que a
oportunidade surgiu. Em meus trabalhos de mestrado e doutorado (Evangelista,
2005 e 2010) analisei a ideologia do software livre e seu maior evento no país,
o Fórum Internacional de Software Livre.
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O Fediverso como apropriação tecnológica e recurso soberano
Usei os
verbos no tempo passado no parágrafo anterior para me referir ao movimento
software livre, mas essas ideias estão longe de estarem mortas. O contexto
tecnológico mudou, os celulares ganharam dos desktops que permitem a instalação
de sistemas livres, o conteúdo na nuvem é preponderante e os e-mails e fóruns
de discussão na web perderam para as redes sociais que algoritmizam o ódio e a
atenção. Contudo, a vontade de se apropriar das tecnologias, de controlá-las em
vez de ser controlado por elas, de socialmente compartilhar o que elas tem,
sim, de bom, permanece. E ainda está viva nas iniciativas em torno das redes
federadas e descentralizadas, o chamado Fediverso.
A web,
essa camada da internet onde ficam as aplicações com as quais temos contato
direto, antes de ser matéria-prima para treinamento de inteligências
artificiais, é a grande plataforma livre e aberta por onde o conhecimento pode
ser compartilhado. Os protocolos livre e abertos, aqueles que permitem a
conexão de (web)sites diversos, são a verdadeira plataforma por meio da qual
nos comunicamos. As redes sociais proprietárias, o Instagram, o X, o Facebook,
se apropriaram dessas estruturas e as canibalizaram. Trancaram nossas
comunicações, nossos relacionamentos, num curral para melhor sugarem os dados,
sequestrando nossa produção.
O
movimento em torno do Fediverso busca quebrar essas amarras. A ideia é
estimular plataformas, incluindo redes sociais, que usem protocolos abertos
(que permitem federação), ao mesmo tempo que devolvem o controle dos conteúdos
para as comunidades. No Fediverso, onde não existem algoritmos de recomendação
que buscam capturar a atenção dos usuários a qualquer custo, cabem às
comunidades definir o que é apropriado ou não. É apropriação tecnológica na
prática, não só no discurso.
Vou dar
um exemplo prático ao mesmo tempo em que critico a oportunidade perdida. O
X/Twitter, plataforma de Elon Musk, concentra todas as mensagens de seus
usuários em seus servidores. Quando foi bloqueado no Brasil, a rede toda
“caiu”. Ainda que as mensagens continuassem nos servidores do Musk, se tornaram
inacessíveis no território brasileiro. Parte da comunidade do X não esperou a
volta da plataforma e, num misto de crise de ansiedade e revolta contra o
fabricante de foguetes e carros elétricos, migrou para a então nova plataforma
do antigo dono do Twitter, Jack Dorsey, o Bluesky. O Bluesky é uma plataforma
de rede social que até usa um protocolo aberto, mas, na prática, é centralizado
em uma única instância, a bsky.social.
Essa
foi uma oportunidade perdida por quê? Porque o governo brasileiro, se
preocupado de fato com sua soberania informacional, deveria ter aproveitado
para construir uma instância própria no Fediverso, adotando o Mastodon (a rede
social do fediverso semelhante ao Twitter dos bons tempos). Com isso, não seria
apenas mais um usuário de outra rede comandada pelo Vale do Silício, com
mensagens hospedadas em território dos EUA como a bsky.social. Poderia ter
estabelecido a instância @gov.br, que hospedaria localmente as mensagens ao
mesmo tempo em que permitiria a comunicação com todos os usuários do Mastodon.
Os pronunciamentos oficiais do presidente e de seus ministros poderiam estar em
servidores localizados no país e controlados, de fato, por servidores federais.
Para falar com o presidente, por exemplo, bastaria escrever para
@PresidenteLula@gov.br. Ele poderia ler minha mensagem, mas não controlá-la ou
apagá-la, pois ela vai estar no servidor/instância da minha comunidade.
Mais do
que isso. Além da presença oficial no Fediverso, o governo poderia ter
estabelecido uma política pública para ajudar as comunidades (sindicatos,
escolas, associações de bairro, clubes) a terem suas próprias instâncias, a se
apropriarem sociotecnicamente do Fediverso. A moderação de conteúdo não seria
feita de cima pra baixo, vinda de uma entidade governamental ou de uma big tech
“domesticada” — por uma lei que até agora não veio. Caberia a essas comunidades
definir o que é conteúdo impróprio, inaceitável ou inverídico. Cada instância
com suas regras, definindo coletivamente o que entra e sai delas e com quais
outras instâncias quer se comunicar.
O
desafio para o Fediverso hoje é muito menos técnico do que político. Os
softwares estão aí e permitem fazer muito para combaterem o caráter anti-social
das redes sociais das big techs. Porém, diferente dos militantes do software
livre, que buscavam falar e fazer, muitos dos críticos das big techs, incluindo
aqueles que lutam contra a desinformação, hoje parecem acreditar que é possível
domar o leão, vencer a natureza do escorpião, criticar as grandes plataformas
ao mesmo tempo que são impulsionados por seus algoritmos. O argumento aqui não
é que não devemos conversar com quem está nas big techs, mas que é preciso
também ocupar o Fediverso, as alternativas livres. Como escapar das grandes
plataformas se os criadores de conteúdo relevante, crítico e de qualidade só
publicam por lá? Ninguém acessa o Facebook ou o Instagram porque o software é
bom, porque gosta do novo logo do X. O grande serviço que essas plataformas
entregam é o conteúdo que produzimos por lá, na maioria das vezes de graça.
Enquanto
escrevo este texto, olho para o meu armário, onde está uma camisa desbotada da
velha banda punk canadense D.O.A. Nela está escrito, nas costas, “Talk Minus
Action = 0”, slogan clássico da banda. É o que temos visto até aqui: o discurso
contra as plataformas sem ação concreta, sem a criação de alternativas, tem
resultado em zero avanço. Teremos uma eleição importante no fim do ano e não há
nenhum sinal de que os cenários tenebrosos de 2018 e 2022 não vão se repetir.
Recuperar as práticas “faça você mesmo” dos punks clássicos e as políticas
recursivas do software livre pode ser uma alternativa.
Fonte:
Por Por Rafael Evangelista, em ComCiência

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