Prejuízo
de R$33 milhões some da prestação de contas da Loterj no governo Cláudio Castro
Documentos
inéditos revelam um caso suspeito na relação entre a loteria do Estado do Rio
de Janeiro, a Loterj, e a empresa que gerencia seu meio oficial de pagamento de
prêmios desde 2023, a RioPag S/A. Terceirizado pelo governo Cláudio Castro
(PL), o serviço movimenta centenas de milhões de reais por mês em apostas e
prêmios de produtos como bilhetes de ‘raspadinha’ e de casas de apostas
esportivas (bets) registradas pela Loterj, uma autarquia vinculada à Secretaria
de Estado da Casa Civil do RJ.
A
renúncia de Cláudio Castro ao cargo de governador, nesta segunda-feira (23),
acontece em meio a investigações sobre abuso de poder político e econômico em
um escândalo relacionado à Fundação Ceperj (Centro Estadual de Estatísticas e
Formação de Servidores Públicos do Rio). A retomada do julgamento do caso pelo
Tribunal Superior Eleitoral (TSE) está marcada para esta terça (24).
A
Agência Pública apurou que a Loterj identificou uma “inadimplência” milionária
do “operador contratado”, a RioPag, em fevereiro de 2025 e comunicou
oficialmente o problema para a empresa no mesmo mês. Mas o prejuízo informado
pela Loterj, de ao menos R$33,7 milhões, não aparece no relatório anual de
fiscalização do serviço quase um ano depois, em janeiro deste ano.
Obtido
com exclusividade pela Pública, o relatório feito pela própria Loterj ameniza o
rombo milionário ao falar apenas em “riscos de inadimplência”, informando que a
RioPag custodiou R$19,5 milhões em valores devidos – uma cifra inferior ao
prejuízo identificado em 2025. Ainda assim, a loteria do governo Cláudio Castro
(PL) considerou-se “plenamente atendida”.
Outro
relatório assinado na mesma data, 9 de janeiro de 2026, mostra que os R$19,5
milhões retidos pela RioPag referem-se aos repasses mensais estipulados no
contrato com a Loterj. Ou seja, a soma milionária refere-se ao que a empresa já
teria de repassar, por obrigação de contrato, à loteria do RJ por operar o seu
meio de pagamento de prêmios – sem ter uma relação aparente com o “prejuízo” de
R$33,7 milhões identificado e comunicado pela Loterj em fevereiro de 2025.
Atas de
reuniões, ofícios internos e prestações de contas mostram mais estranhezas no
caso. Há, inclusive, sinais de favorecimento da Loterj para a casa de apostas
Pixbet, que à época operava por meio da loteria oficial do RJ enquanto
patrocinava o futebol masculino profissional do Clube de Regatas do Flamengo,
um dos maiores times do país, com valores que chegavam a R$85 milhões por ano.
A
reportagem buscou avaliação profissional sobre os elementos do caso, a partir
dos documentos oficiais que revelam o prejuízo de R$33,7 milhões. À Pública, o
advogado e consultor jurídico aposentado do Tribunal de Contas do Estado do
Paraná (TCE-PR) Edgar Guimarães destacou que autarquias como a Loterj têm
autonomia para gerir seu próprio orçamento, mas “têm o dever de fiscalizar
adequadamente a execução de contratos de concessão”.
“O
Estado do Rio de Janeiro transfere para um particular a prestação de um serviço
público sob certas condições. Se, no decorrer desse contrato, a prestação do
serviço público não está sendo executada corretamente – como neste caso,
reconhecido até pela própria empresa nos autos –, no mínimo a Loterj teria de
instaurar um processo administrativo punitivo e aplicar uma multa, exigindo da
empresa a reparação do dano causado ao erário. Para mim, isso é algo
absolutamente incontestável”, afirmou à Pública o advogado, que também é
vice-presidente do Instituto Brasileiro de Direito Administrativo.
Guimarães
também destacou o papel de órgãos de controle, como Tribunais de Contas e
Ministério Público.
“Em
tese, uma análise do Tribunal de Contas do Estado identificaria que houve o
prejuízo citado nos autos da concessão do serviço e que esse prejuízo não
consta em lugar nenhum; seria capaz de identificar se esse prejuízo foi reposto
aos cofres do Estado ou não; se a empresa foi multada ou não. Mas,
infelizmente, em alguns casos, tribunais de contas, ao julgarem determinada
prestação de contas, são induzidos a erros, resultando em decisões equivocadas
e contrárias à realidade dos fatos”, disse o consultor aposentado do TCE-PR.
A
Pública procurou Loterj e RioPag S/A, para obter detalhes sobre como o prejuízo
de R$33,7 milhões teria sido resolvido entre as partes, além de saber se a
loteria apresentou documentos idôneos e probatórios a órgãos de controle do
estado para justificar sua decisão, mas não houve resposta até o fechamento
deste texto.
A
reportagem também procurou o Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) e o
Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), para perguntar se eles sabiam do
prejuízo de R$33,7 milhões e se receberam documentos da Loterj que justifiquem
suas decisões relativas ao caso, mas também não houve resposta. Caso qualquer
um deles se manifeste, haverá atualização da reportagem.
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Números e cifras que não batem
No
material obtido pela Pública, a primeira menção à “inadimplência” da RioPag
aparece em 7 de fevereiro de 2025, quando a empresa já operava o serviço de
pagamento de prêmios da Loterj havia mais de um ano e meio.
Na
ocasião, a diretora administrativa na Loterj Anna Wanessa Nóbrega dos Santos
enviou um ofício a um dos diretores da RioPag para tratar sobre o
“aprimoramento da gestão de recursos” e sobre um suposto “risco de
inadimplência”. Mas, logo no segundo parágrafo do ofício, a Loterj relata mais
do que somente um “risco”, afirmando – sem especificar datas – que a loteria
“sofreu inadimplência do operador contratado” durante a implementação do novo
meio de pagamento.
Na
prática, a RioPag assumiu o meio de pagamento da Loterj em maio de 2023, quando
ainda se chamava PIXS Cobrança e Serviços e era controlada por um grupo de
empresários do Paraná ligados a outra empresa que opera o mesmo tipo de
serviço, mas para a loteria estadual paranaense (Lottopar) do governo Ratinho
Jr. (PSD), alvos de antiga denúncia da Pública ainda em 2023.
No
ofício de fevereiro de 2025, a Loterj alega não ter recebido uma “importância
exorbitante de R$32.864.950,00, na exploração de jogos de prognóstico numérico,
e R$900.000,00, na exploração de jogos instantâneos”. Assim, o rombo nas
“operações lotéricas das modalidades ‘físicas’ (Rio de Prêmios e Raspa Rio)”
somava R$33,7 milhões, segundo os dados apresentados pela loteria.
Para a
autarquia do governo do RJ, o prejuízo se deu pela “falta de controle sobre as
receitas provenientes da concessão”.
Como
exemplo da alegada falta de controle nas contas do contrato, a Loterj relata
que em 22 de janeiro de 2025 a “credenciada Pixbet realizou a solicitação de
retirada de todo o saldo das contas sob a custódia da RioPag S/A, antes de
efetivamente dar cumprimento às suas obrigações” com a loteria oficial do RJ.
À
época, a Pixbet já era a patrocinadora do futebol masculino do Flamengo, posto
que ocupou até agosto daquele mesmo ano.
O
documento da Loterj relata que tais problemas fizeram com que a autarquia
promovesse “discussões internas” para “reavaliar os riscos do negócio”. Ficou
decidido, então, que a RioPag teria de colocar em prática mecanismos para
garantir a “custódia dos recursos devidos”, com a “retenção” de valores de
“pagamentos devidos pelos operadores credenciados” – o que incluía bets
esportivas registradas na Loterj à época, como a Pixbet.
Três
dias depois, em 10 de fevereiro, o diretor da RioPag Luiz Allan Sérgio Medeiros
respondeu ao ofício da loteria do RJ, afirmando que a empresa tinha tomado
medidas para “custodiar de imediato os recursos devidos a [sic] Loterj”.
Mas o
ofício da RioPag não confirma o valor custodiado, nem a inadimplência de R$33,7
milhões apontada pela loteria. O único valor no documento refere-se ao
pagamento mensal da operação devido à Loterj, que em janeiro de 2025 ficou em
R$ 7,3 milhões. No ofício, a RioPag afirma apenas ter aberto uma “subconta”
para “o cumprimento de custodiar de imediato os recursos devidos”.
O
detalhe importa porque o rombo de R$33,7 milhões não aparece mais nas
comunicações entre a RioPag e a Loterj sobre o tema. Segundo o material obtido
pela Pública, a última menção direta ao caso no período data de 25 de fevereiro
de 2025, quando a RioPag pediu um adiamento dos prazos exigidos pela Loterj
para colocar em prática mudanças no controle das contas da operação.
O
episódio só ressurge quase um ano depois, no relatório de fiscalização do
serviço em 2025, elaborado pela própria Loterj e concluído no último dia 9 de
janeiro. O caso é citado como um mero “risco de inadimplência” no relatório,
assinado pela servidora Ana Doval Rojas – designada pelo governo Cláudio Castro
como gestora oficial do contrato com a RioPag.
O
relatório informa apenas que, por “solicitação” da Loterj, a RioPag reservou
R$19,5 milhões via “retenção e custódia”, para arcar com “pagamentos devidos”
graças à “exploração” do meio de pagamento de prêmios. Como dito anteriormente,
a Loterj avaliou como “plenamente atendida” sua demanda sobre o “prejuízo”.
Obtida
pela Pública, a versão detalhada do relatório de fiscalização de 2025 mostra
que os R$19,5 milhões custodiados pela RioPag são compatíveis apenas com os
valores mensais que a empresa se comprometeu a repassar para a loteria do RJ –
o equivalente a 26,455% do lucro bruto da operação como um todo, de acordo com
o contrato de concessão do serviço.
Ou
seja, a cifra milionária se referia a uma obrigação contratual, sem ter uma
relação aparente com o “prejuízo” de R$33,7 milhões.
Na
versão detalhada do relatório, a Loterj cita um email da RioPag para afirmar
que a empresa “reconheceu a determinação administrativa” e “informou a
implementação do mecanismo de custódia dos valores devidos à Autarquia, em 07
de fevereiro de 2025, com a alocação dos recursos em subconta específica,
devidamente segregada, rastreável e acessível à fiscalização”.
Mas o
email citado pela Loterj, também obtido pela Pública, não confirma as
informações apresentadas pela autarquia no relatório de prestação de contas. No
email, a gerência financeira da RioPag informa apenas: “efetuamos nesta data o
devido pagamento do repasse mensal da RioPag para a Loterj”. Não há citação aos
mais de R$33 milhões devidos de acordo com a própria loteria.
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Readequação de contrato pela “baixa adesão de bets”
O
material obtido pela Pública também revela indícios de favorecimento às
atividades da Pixbet por parte da Loterj. Para tal, a loteria do governo
Cláudio Castro envolveu a RioPag que, meses depois, seria ligada à
inadimplência milionária pela autarquia.
Em
outubro de 2024, Loterj e RioPag assinaram um termo aditivo ao contrato de
concessão do meio de pagamento de prêmios, como mostra o Diário Oficial do
Estado. Com base em documentos enviados entre as partes, a Pública apurou que
“a baixa adesão de bets” ao sistema da Loterj foi a justificativa oficial da
loteria do governo Cláudio Castro para readequar o contrato.
Em uma
reunião com a RioPag em 23 de setembro de 2024, o presidente da Loterj,
Hazenclever Lopes Cançado, destacou a importância da casa de apostas Pixbet
para as receitas da loteria.
Segundo
a ata do encontro, o presidente da Loterj disse que a Pixbet representava
“83,7% do faturamento” mensal e que “sua saída ou migração pode inviabilizar a
operação”. Para se ter ideia, só no mês de setembro de 2024 a loteria recebeu
R$494 mil pela concessão à RioPag, que ficou com outros R$2,8 milhões pela
operação no mesmo período.
Ainda
na reunião com a RioPag em setembro de 2024, o presidente da Loterj relatou uma
“recente manifestação” da então patrocinadora do Flamengo, “que estaria
migrando parte de sua operação para a esfera federal” por causa dos “custos
decorrentes das tarifas de Meio de Pagamento” – em referência às taxas cobradas
pela RioPag para processar as transações.
No
mesmo encontro, um dos assessores jurídicos da Loterj, Diego Delduque, teria
dito que “o tempo imprime uma outra velocidade na tomada de decisões”, exigindo
uma “postura mais combativa da Loterj”. À época, ao menos seis casas de apostas
operavam graças ao registro junto à Loterj, incluindo a Pixbet.
Nos
dias seguintes ao encontro, a Loterj elaborou análises técnicas e jurídicas
para a readequação do contrato, comparando as taxas cobradas das bets pela
Loterj e pelo governo federal. Mas, o material não menciona ou explica o valor
determinado para o aditivo de contrato, de R$32 milhões, segundo o Diário
Oficial.
A
RioPag S/A e a Pixbet foram procuradas pela Pública, mas não enviaram suas
respostas até a publicação. O espaço segue aberto.
Fonte:
Por Caio de Freitas, da Agencia Pública

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