Quem
são os grandes exportadores de armas?
Quando
os líderes mundiais se reunirem na Conferência de Segurança de Munique de 2026,
que começa nesta sexta-feira (13/02), os temas interligados da política de
segurança transatlântica e da defesa da União Europeia (UE) estarão no topo da
agenda.
Ao
longo do último ano, a UE avançou em direção ao objetivo de estabelecer uma
estratégia de defesa mais autossuficiente e criar uma indústria de defesa
própria, mais forte e independente. A conduta do governo do presidente
americano Donald Trump em assuntos geopolíticos – desde as negociações de
cessar-fogo entre a Rússia e a Ucrânia até as tensões em torno da Groenlândia –
reforçou o senso de urgência do bloco.
Os
líderes europeus não chegaram a afirmar isso oficialmente, mas uma UE mais
independente implica uma UE menos dependente dos Estados Unidos.
A DW
analisou dados sobre o comércio global de armas coletados pelo Instituto
Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (Sipri), que desde 1950 monitora
os gastos militares e o comércio daquilo que define como "armas
convencionais principais", como aeronaves, sistemas de defesa aérea,
veículos blindados, artilharia, navios, satélites e sensores.
A
análise revela até que ponto os Estados Unidos dominam o mercado de defesa – na
Europa e em todo o mundo.
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Cinco países respondem pela maioria das exportações
Os
Estados Unidos são o maior exportador de armas do mundo há mais de duas
décadas, respondendo por 35% das vendas globais de armas, seguidos por Rússia
(21%), França (8%), Alemanha (7%) e China (5%). Juntos, esses cinco países
forneceram 74% de todas as armas comercializadas entre 2000 e 2024.
Ao
mudar o foco para os importadores de armas, é possível notar o domínio dos
cinco maiores fornecedores em cada região, embora os dados de importação
capturem apenas uma parte da dependência de um país em relação aos fornecedores
de equipamentos de defesa.
Por
exemplo, os dados de importação não revelam quanto um país gasta em sistemas de
defesa no geral, e quanto desse total é destinado à importação de armas do
exterior. Isso permitiria entender o quanto um país é realmente dependente do
fornecimento de armas estrangeiras. No entanto, não existem atualmente dados
suficientemente confiáveis e precisos para fazer essa análise em nível
internacional.
Analistas
do think tank Bruegel e do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais
(CSIS) também apontam que os produtos de defesa fabricados na Europa por meio
de joint ventures com fabricantes americanos não estariam representados nos
dados de exportação e importação.
A
indústria de defesa abrange mais do que bens físicos, como armas, incluindo
inteligência compartilhada, vigilância e pessoal para estruturas de controle e
comando em organizações multilaterais. Além do hardware, os produtos de defesa
incluem software e atualizações que tornam os governos dependentes dos
fabricantes por anos após a compra inicial.
Os
dados sobre o comércio de armas provavelmente subestimam o quão profundamente
interdependentes são os setores de defesa de diferentes países. Ainda assim, os
dados sobre o comércio de armas podem oferecer informações sobre a relação
entre importadores e exportadores.
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Além da Europa, quem importa mais armas dos EUA?
Embora
os países da Oceania sejam os que proporcionalmente mais compram armas
americanas, o volume total de importação é comparativamente baixo. Os países
europeus e asiáticos, por outro lado, têm volumes de importação bastante
elevados e uma grande parte das armas que importam vem dos Estados Unidos.
De 2000
a 2024, 46% das armas importadas para a Europa vieram dos EUA. No mesmo
período, os países asiáticos adquiriram 35% de suas armas dos Estados Unidos.
Essas porcentagens foram ainda maiores entre 2020 e 2024, o que demonstra como
os americanos se tornaram um parceiro comercial de armas ainda mais importante
para esses países.
"Não
há como mudar a dependência dos EUA no curto prazo", dz Aylin Matle,
cientista política e pesquisadora sênior do Centro de Segurança e Defesa do
Conselho Alemão de Relações Exteriores. "Um exemplo é a decisão de muitos
países europeus de comprar caças F-35 dos EUA. Isso significa que eles
permanecem vinculados a esses sistemas por pelo menos uma década e dependem do
fornecimento de peças de reposição do país fabricante."
Os
padrões de comércio variam amplamente dentro de cada região. Entre os países
europeus, as participações dos Estados Unidos nas importações vão de até 96% na
Holanda a apenas 17% na Hungria.
Dos 50
países responsáveis pela maior parte das importações de armas de 2020 a 2024,
em 19 deles mais da metade do que foi comprado veio dos Estados Unidos. Essas
relações comerciais têm raízes profundas. Para quase todas essas nações,
trata-se de uma continuação de uma forte relação de importação de armas com os
EUA, ou mesmo de um aumento em 2020-2024 em comparação com outros períodos de
cinco anos desde 2000.
Matle
indicou o Japão, a Coreia do Sul e as Filipinas como países asiáticos com
dependências especialmente altas dos Estados Unidos. "Esses países
observam com muita atenção a atual postura americana em relação à Europa, com
sua exigência por maior compartilhamento de encargos", diz. "O
primeiro governo Trump, assim como o governo Biden, também pediu aos países da
região do Indo-Pacífico que gastassem mais em defesa, mas não tão drasticamente
quanto na Europa."
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Diminuir dependência dos EUA forjando novas alianças
Matle
afirma que o retorno de Trump à Casa Branca gerou apreensão nesses países,
"não apenas por causa da dependência da indústria de defesa, mas também
pela promessa de proteção caso surja um confronto com a China".
Sua
pesquisa se concentra em como países selecionados da Europa e do Indo-Pacífico
veem suas respectivas situações de ameaça, quais conexões e semelhanças existem
e se isso pode levar à cooperação. Ela descobriu que, desde o retorno de Trump,
os governos forjaram novas alianças, incluindo o recente estabelecimento de
mais acordos de cooperação com países europeus.
"Tenho
fortes suspeitas de que isso continuará a aumentar em função dos atuais
desenvolvimentos das políticas de segurança", diz Matle, "mesmo que
no futuro haja uma administração americana mais simpática aos europeus".
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Hora de diversificar os parceiros comerciais?
Há
também países que mostram um padrão contrário à forte dependência de um único
fornecedor, como os Estados Unidos, diversificando as importações. Grécia,
Catar e Índia compram os mesmos sistemas de vários fornecedores, o que resulta
no que Pieter Wezeman, pesquisador sênior do Programa de Transferências de
Armas do SIPRI, chamou de logística "de pesadelo" em campo ao operar
os sistemas em conjunto.
"Esses
são exemplos clássicos em que existem razões políticas para diversificar, mas
também é muito claro que isso pode levantar grandes questionamentos sobre a
eficiência logística", diz Wezeman.
O
Brasil, por outro lado, importa de diferentes países, mas adquire diferentes
tipos de armas de cada um. Ele cita o exemplo dos submarinos, que o país só
compra dos franceses.
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Como seria uma estratégia de defesa resiliente?
Matle,
Wezeman e outros analistas afirmam que a autossuficiência é fundamental para a
resiliência.
"Em
um cenário que envolva um conflito no Indo-Pacífico, é lógico que a indústria
de defesa dos EUA priorize o fornecimento de armamentos para suas Forças
Armadas, em vez de cumprir contratos com os europeus. Se, nesse cenário, houver
simultaneamente um confronto com a Rússia no flanco leste da Otan, a indústria
europeia também deverá estar em condições de fornecer armamentos para suas
Forças Armadas", explica Matle.
A União
Europeia parece ter adotado essa estratégia com seu plano Readiness 2030
("Prontidão 2030"), que visa fortalecer a base industrial da EU por
meio de planos de financiamento para incentivar os Estados-membros a investir
em produtos de defesa fabricados dentro do bloco.
Wezeman
afirma que a indústria de defesa da UE já estaria em condições de armar
rapidamente as Forças Armadas europeias; seria apenas uma questão de
prioridades. Por um lado, "há uma capacidade significativa na Europa, que
não é necessariamente usada para a própria Europa", explica o analista.
"Há exportações muito significativas para outras partes do mundo."
Ele, porém, acrescenta que, "dentro da Europa, houve um forte esforço para
manter exportações significativas de armas, e acho que também podemos esperar
isso de uma futura indústria de armamentos na Europa".
Se a
indústria de defesa da UE quiser aumentar a escala para abastecer suas Forças
Armadas e, ao mesmo tempo, manter ou mesmo expandir suas exportações,
inevitavelmente terá de enfrentar outro desafio. Os minerais de terras raras
são cruciais para a fabricação de produtos de defesa, e atualmente existe
apenas um fornecedor principal: a China.
"A
curto prazo, não há alternativas reais", observa Matle. "Não há
outros países onde as terras raras possam ser produzidas tão rapidamente e
nessa escala."
Portanto,
ao se tornar mais independente da indústria de defesa dos EUA, a UE pode acabar
se tornando mais dependente de outro grande ator – que também já demonstrou não
hesitar em usar seu poder a seu favor.
Fonte:
DW Brasil

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