Como
o general que dá nome a Rondônia desbravou o Brasil abrindo linhas de telégrafo
e protegeu os indígenas
Poucos
Estados brasileiros carregam, no próprio nome, a história de uma pessoa.
Rondônia, no norte do país, é um deles.
E não é
por uma vitória militar ou disputa territorial, mas pelo legado de um general
que, ainda no início do século 20, defendeu o contato pacífico com povos
originários em meio à expansão do Estado brasileiro pela Amazônia.
O
sobrenome que batiza o Estado remete a Cândido Rondon, figura importante da
integração territorial e da política indigenista no país.
Nascido
em 1865, no interior do Mato Grosso, Rondon construiu uma trajetória marcada
pela formação intelectual e pelo serviço público.
Órfão
ainda criança, foi criado em Cuiabá por um tio materno, de quem herdou o
sobrenome que entraria para a história.
Formou-se
professor no Liceu Cuiabano e, mais tarde, engenheiro militar e bacharel em
Ciências Físicas e Naturais pela Academia Militar da Praia Vermelha, no Rio de
Janeiro.
A
passagem pela Academia Militar da Praia Vermelha, na capital fluminense, foi
decisiva para sua formação política e intelectual, segundo os especialistas
ouvidos pela reportagem.
Entre
1883 e 1890, Rondon integrou a chamada Mocidade Militar da Praia Vermelha. De
acordo com o historiador Carlos Martins Junior, mestre e doutor em História
Social pela USP, o grupo tinha no positivismo de Auguste Comte seu principal
referencial teórico e esteve diretamente envolvido nos movimentos abolicionista
e republicano do final do século 19.
A
partir de 1894, essa base teórica se traduziu em atuação prática no interior do
país.
Rondon
passou a chefiar comissões responsáveis pela construção de linhas telegráficas
em regiões até então pouco conhecidas pelo Estado brasileiro. Foram mais de
1.700 quilômetros de linhas implantadas em diferentes frentes, ligando Cuiabá a
áreas estratégicas do Mato Grosso e da Amazônia, incluindo o território que
mais tarde daria origem ao Estado de Rondônia.
É nesse
ponto que sua trajetória militar se aproxima da defesa dos povos indígenas.
Para
Martins Junior, embora a ascendência indígena possa ter influenciado sua visão
(sua mãe era Bororo, povo indígena da etnia Boe, habitantes tradicionais do
estado de Mato Grosso), o fator decisivo foi a formação positivista e o
aprendizado técnico adquirido nas expedições pelo sertão.
"Como
positivista e engenheiro militar, ele propunha uma abordagem pacífica das
populações indígenas, acompanhada de rigorosa preparação estratégica e
planejamento técnico das ações", afirma o historiador.
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A relação com os indígenas
A
atuação de Rondon junto aos povos indígenas precisa ser entendida no contexto
de expansão econômica e disputa territorial que marcava o Oeste e o Noroeste do
país no início do século 20.
Segundo
o historiador Martins Junior, a região era atravessada por interesses ligados à
exploração da borracha, da erva-mate e da pecuária — cenário que estimulava o
avanço das frentes pioneiras, a concentração fundiária e a expropriação de
territórios indígenas.
Até a
chegada das comissões telegráficas, os conflitos eram, em geral, solucionados
pela violência.
Nesse
ambiente, a presença das comissões chefiadas por Rondon passou a representar a
atuação direta do Estado nacional em áreas de fronteira ainda pouco definidas.
Para
Martins Junior, a proposta do militar era substituir o confronto armado por uma
estratégia de incorporação das populações locais à estrutura do Estado
brasileiro.
A ideia
era transformar indígenas em trabalhadores nacionais, o que, na visão da época,
contribuiria para a defesa do território e para a estabilidade das fronteiras.
Essa
abordagem estava alinhada à formação positivista de Rondon e ao papel atribuído
aos militares no período republicano.
Conforme
explica historiador, caberia às comissões atuar como agentes do Estado,
promovendo a integração territorial sob uma lógica técnica e administrativa,
sem recorrer à violência como instrumento de mediação com os povos indígenas.
Na
prática, essa política envolvia uma ampla articulação institucional.
Rondon
conectava suas expedições a diferentes órgãos do Estado, como o Ministério da
Guerra, o Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio — ao qual estavam
vinculados o Serviço de Proteção ao Índio e Localização de Trabalhadores
Nacionais e o Museu Nacional —, além do Ministério da Viação e Obras Públicas,
responsável pela Repartição Geral dos Telégrafos.
"Essas
instâncias definiam as instruções que orientavam as comissões, o que mostra o
caráter estratégico e estatal da atuação de Rondon", afirma o historiador.
Em maio
de 1955, quando fez 90 anos, Rondon recebeu do Congresso Nacional o título
honorífico de marechal.
Para
Maurício Meneses, membro do Conselho Deliberativo do Instituto Presbiteriano
Mackenzie e autor do livro Rondon, o Marechal da Paz, a relação de Rondon com
os indígenas ultrapassou o campo administrativo.
"Com
os índios foi uma paixão especial", afirma.
Meneses
destaca que o militar nunca foi acusado de irregularidades na condução das
obras que comandou e que sua postura no contato com povos indígenas lhe rendeu
reconhecimento internacional, incluindo três indicações ao Prêmio Nobel da Paz
ao longo da vida.
Uma
dessas indicações partiu de Albert Einstein, em 1925, após o físico assistir a
um filme que mostrava a abertura de linhas telegráficas sem o uso de violência
contra indígenas.
"Einstein
se impressionou com o fato de Rondon não ter matado nenhum índio em suas
expedições", afirma Meneses.
A carta
só viria a público décadas depois, quando o acervo do cientista foi doado a um
museu na cidade de Tel Aviv, em Israel.
Rondon
também esteve à frente da criação do órgão que deu origem à atual Fundação
Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e participou indiretamente de debates
internacionais sobre políticas indigenistas.
Em
1911, enviou o médico e antropólogo Roquette-Pinto a um encontro de povos
indígenas na Europa.
Segundo
Meneses, o regimento elaborado por Rondon para a proteção indígena serviu de
base para documentos adotados por outros países, reforçando a projeção
internacional de sua atuação.
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Expedições e linhas de telégrafo
As
expedições lideradas por Rondon marcaram uma inflexão na forma como o Estado
brasileiro avançou sobre o território do Centro-Oeste e da Amazônia, segundo
especialistas ouvidos pela BBC Brasil.
Até
então, esse processo era conduzido majoritariamente pela força, herança de
práticas que vinham desde as bandeiras, as expedições que se embrenhavam pelo
interior do Brasil e ocupavam novos territórios durante o período colonial,
entre os séculos 16 e 18..
"As
expedições militares recorriam à violência direta, com expulsão, escravização e
até o extermínio de populações indígenas", afirma Carlos Trubiliano,
professor da Universidade Federal de Rondônia.
Segundo
ele, Rondon rompeu com essa lógica ao propor que a incorporação territorial
ocorresse sem o uso da força letal contra os povos originários.
Esse
movimento ganhou peso estratégico após a Guerra do Paraguai, quando a
incorporação da fronteira Oeste passou a ser vista como uma questão de
soberania nacional.
A
presença do Estado se dava por meio da infraestrutura — primeiro com as linhas
telegráficas, depois com ferrovias e rodovias — e, nesse processo, os povos
indígenas eram enquadrados na lógica da cidadania brasileira.
"Era
preciso ter brasileiros nos chamados 'espaços vazios'", explica
Trubiliano, ao resumir a mentalidade predominante naquele período.
As
comissões telegráficas chefiadas por Rondon tiveram papel direto nessa
integração.
Além de
instalar milhares de quilômetros de linhas, os grupos reuniam engenheiros,
médicos e cientistas responsáveis por mapear regiões até então pouco conhecidas
pelo poder público.
"Não
se tratava apenas de comunicação, mas de um levantamento cartográfico,
econômico e humano do território", diz Trubiliano.
Carlos
Martins Junior destaca que esse trabalho só foi possível porque as expedições
estavam articuladas a uma ampla estrutura estatal.
"Essas
instâncias definiam as instruções que orientavam as comissões, o que evidencia
o papel estratégico e a supervisão direta do Estado", afirma.
"As
comissões telegráficas comandadas por Rondon, em especial a Comissão de Linhas
Telegráficas Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas, em atividade de 1997 a
1915, eram verdadeiros laboratórios a céu aberto, ou melhor 'laboratórios
itinerantes'", complementa o historiador.
Entre
as expedições, a chamada linha norte, que estendeu o telégrafo de Cuiabá a
Santo Antônio do Madeira, teve impacto decisivo.
Segundo
Martins Junior, ela integrou ao território brasileiro uma vasta área até então
tratada como desconhecida nos mapas oficiais.
A
região, definida por Rondon como "verdadeiro sertão", passou a ter
suas fronteiras demarcadas, processo que resultaria na publicação da Carta de
Mato Grosso, em 1942.
Esse
avanço territorial veio acompanhado de um esforço sistemático de registro
científico. Houve inventário das riquezas naturais, das potencialidades
econômicas e das populações locais, o que permitiu a incorporação
administrativa de uma área extensa ao restante do país.
Para
Martins Junior, esse processo expressa as contradições do projeto de Rondon. Ao
mesmo tempo em que evitava a violência direta e estruturava políticas de
proteção indígena, subordinava essas ações a uma lógica tutelar e unificadora,
integrada ao projeto de ocupação do território nacional.
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Batismo de um Estado
O nome
Rondônia não surgiu como uma homenagem neutra.
Ele foi
adotado em 1956, quando o então Território Federal do Guaporé passou a carregar
o sobrenome de Rondon, em meio a um projeto mais amplo de interiorização do
país e ocupação da Amazônia.
Para
Martins Junior, a escolha teve um sentido político claro, ao associar a
expansão territorial a uma imagem de integração pacífica e presença estatal
organizada.
Segundo
o historiador, ao longo do tempo, o legado de Rondon foi apropriado de forma
seletiva pelo Estado brasileiro, acompanhando diferentes projetos nacionais.
"Menos
que um elemento histórico, Rondon se tornou um símbolo em permanente
disputa", afirma.
Nesse
processo, sua imagem passou a funcionar como um elemento legitimador da
produção do território, conferindo um "verniz humanitário" à expansão
estatal e, ao mesmo tempo, apagando conflitos e contradições, especialmente
aqueles relacionados às populações indígenas.
A
decisão de batizar um território com o nome de Rondon também chama atenção por
sua singularidade.
O
historiador observa que, assim como Tiradentes é o único personagem da história
brasileira a dar nome a um feriado nacional, Rondon é o único a nomear um
Estado da federação.
Para o
historiador, essa escolha não teve caráter apenas comemorativo, mas simbólico,
ao reforçar uma determinada narrativa sobre a ocupação da Amazônia.
Trubiliano
lembra que o território passou a existir formalmente em 1943, reunindo áreas
antes vinculadas ao Mato Grosso e ao Amazonas.
"Em
1956, pouco antes da morte de Rondon, o governo Juscelino Kubitschek altera o
nome para Território Federal de Rondônia, já sinalizando um projeto político de
ocupação mais efetiva daquela região", explica.
Esse
projeto se intensificaria a partir do fim da década de 1950 e, sobretudo, nos
anos 1960, com a construção da BR-364 e a atuação do Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária (Incra).
Segundo
Trubiliano, Rondônia se tornou um dos maiores experimentos de assentamento
populacional do país, recebendo migrantes do Sul e do Sudeste.
"Até
os anos 1960, o território tinha apenas dois municípios. Hoje são 52, sendo que
a maioria foi criada diretamente a partir da ação do Incra", diz.
Nesse
contexto, o nome Rondônia passou a sintetizar um projeto de ocupação baseado em
infraestrutura, controle territorial e integração nacional.
Para
Martins Junior, o simbolismo associado a Rondon ainda opera como referência de
autoridade do Estado sobre a fronteira amazônica, dando sustentação a políticas
de desenvolvimento e infraestrutura, ao mesmo tempo em que silencia outras
histórias e geografias que também marcaram a formação do Estado.
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Legado
A
trajetória de Rondon deixou marcas que ultrapassam a política indigenista e a
ocupação territorial, mas também carrega limites próprios do tempo em que
atuou, reforçam os especialistas.
Para
Martins Junior, embora ele possa ser visto como um precursor de práticas não
violentas no contato com povos indígenas, suas ações estavam inseridas em um
modelo estatal que não reconhecia direitos, como a autodeterminação e a
autonomia territorial e cultural nos termos atuais.
Ainda
assim, seu trabalho teve impacto duradouro na produção de conhecimento sobre o
interior do país. Sob seu comando, as comissões reuniram cientistas de
diferentes áreas.
"Entre
1907 e 1915, foram mapeados cerca de 50 mil quilômetros de território nacional
até então tratados como desconhecidos", afirma Martins Junior.
Esse
esforço resultou em um amplo acervo científico. De acordo com o historiador, a
Comissão Rondon enviou ao Museu Nacional aproximadamente 5,6 mil exemplares de
animais e 8,8 mil espécies de plantas, além de registros sistemáticos de
vocabulários, costumes, músicas, rituais e vestimentas de diferentes povos
indígenas.
Rondon
também recorreu aos recursos tecnológicos mais avançados da época, como
fotografia, filmagem e gravação sonora, para divulgar ao restante do país o que
era realizado nos chamados sertões.
Do
ponto de vista territorial, o historiador avalia que Rondon atuou como agente
da consolidação das fronteiras internas e da incorporação de áreas vistas como
"vazios demográficos" ao Estado nacional.
Militar
discreto, deixou poucos textos sobre si mesmo, limitando-se a relatórios de
campo. A maior parte da divulgação de seus feitos ficou a cargo do coronel
Amílcar Botelho de Magalhães, responsável pelo escritório central da Comissão
Rondon.
O
reconhecimento público, no entanto, cresceu ao longo das décadas.
Segundo
Meneses, Rondon tornou-se o único brasileiro a dar nome a um Estado da
federação. Além de Rondônia, seu nome batiza cidades, escolas, rodovias e
aeroportos em diferentes regiões do país.
"Ele
entendia isso como parte da missão e não gostava de homenagens", afirma.
Para o
especialista, Rondon ocupa um lugar singular na memória nacional, reconhecido
oficialmente como herói da pátria e associado ao desenvolvimento da ciência no
Brasil.
"Darcy
Ribeiro dizia que ele era o maior herói brasileiro", lembra.
Fonte:
BBC News Brasil

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