Pesquisadores
descobrem maneira de retardar perda de memória no Alzheimer
Uma
nova pesquisa do Laboratório Cold Spring Harbor, em Nova York, nos Estados
Unidos, identificou um caminho para reduzir a perda de memória e melhorar o
aprendizado em quadros de Alzheimer.
O
estudo aponta que o bloqueio de uma proteína chamada PTP1B permite que as
células de defesa do cérebro voltem a funcionar corretamente, removendo
acúmulos de placas que prejudicam os neurônios.
Essas
placas, formadas pela proteína beta-amiloide, são uma das características
centrais do Alzheimer.
De
acordo com os cientistas, as células responsáveis pela limpeza desses detritos
orgânicos no cérebro acabam ficando exaustas com o tempo. A nova estratégia
restaura a capacidade dessas células de "limpar" o órgão, combatendo
a progressão do distúrbio.
A
descoberta também reforça a relação do Alzheimer com condições como obesidade e
diabetes tipo 2.
Como a
proteína PTP1B já é monitorada em tratamentos dessas doenças metabólicas, os
pesquisadores acreditam que focar nesse alvo pode oferecer uma proteção extra
para a saúde cerebral de pacientes em grupos de risco.
Nicholas
Tonks, professor responsável pelo estudo, afirma que o objetivo agora é criar
terapias que combinem medicamentos já conhecidos com novos inibidores dessa
proteína. "A meta é diminuir a velocidade da doença e melhorar a qualidade
de vida."
As
terapias atuais focam majoritariamente na remoção das placas, mas os cientistas
envolvidos no projeto defendem que atacar múltiplas frentes da doença ao mesmo
tempo pode trazer melhores resultados para quem vive com a condição.
• Veneno de vespa abre nova frente na
busca por terapias contra o Alzheimer
Um
projeto interdisciplinar desenvolvido na UnB (Universidade de Brasília) dá
fôlego à busca por tratamentos capazes de desacelerar o avanço da doença de
Alzheimer. Os pesquisadores têm investigado uma terapia a partir do uso de duas
moléculas inspiradas no veneno do marimbondo-estrela (Polybia occidentalis), um
tipo de vespa brasileira.
Em
estudo publicado no início de 2025 na revista Proteins, as substâncias
octovespin e fraternina-10 demonstraram capacidade de interferir na formação
das placas de proteína beta-amiloide no cérebro. Quando em excesso, elas se
acumulam entre os neurônios, causando inflamação e interrompendo a comunicação
dessas células. Em longo prazo, isso leva à morte neural e ao declínio
cognitivo, o Alzheimer.
Desfazer
essas formações tóxicas, por meio das chamadas terapias antiamiloides, poderia
ser um caminho promissor. E é justamente para onde cientistas de vários países
têm olhado. “As terapias antiamiloides são o que temos de mais novo
atualmente”, explica o neurologista Ivan Okamoto, do Einstein Hospital
Israelita. “No Brasil, elas só foram aprovadas pela Agência Nacional de
Vigilância Sanitária em abril deste ano [2025], e o tratamento continua
restrito ao medicamento donanemabe, comercializado como Kisunla.”
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Décadas de trabalho
A
investigação com peptídeos derivados de marimbondos já dura 25 anos, e começou
com a neurocientista Márcia Mortari, do Instituto de Biologia da UnB. Mortari
observou que a picada desses insetos era capaz de paralisar pequenas presas,
indicando que o veneno continha substâncias ativas no sistema nervoso.
Mortari
iniciou um longo processo de isolamento e caracterização dos diferentes
compostos presentes no veneno, o que permitiu identificar moléculas de grande
interesse farmacológico. O primeiro peptídeo isolado, a occidentalina-1202,
mostrou-se capaz de prevenir convulsões, e um de seus derivados, a
neurovespina, apresentou efeitos anticonvulsivantes e potencial de prevenir
doenças neurodegenerativas, como Parkinson.
A
partir dessas descobertas, versões modificadas da occidentalina-1202 foram
desenvolvidas, originando a octovespina. Estudos experimentais conduzidos pela
professora Luana Camargo, do Instituto de Psicologia da UnB, sugerem que a
molécula poderia prevenir as primeiras alterações fisiológicas associadas à
doença de Alzheimer: as placas beta-amiloides. Sabe-se que essas estruturas
começam a se formar no cérebro cerca de 10 a 15 anos antes dos primeiros
sintomas clássicos do Alzheimer, como confusão mental e esquecimento. Portanto,
se confirmada sua eficácia em novos estudos, a octovespina poderia ser
utilizada em uma fase muito inicial da doença, diminuindo os riscos de
complicações severas.
Outra
molécula desenvolvida foi a alzpeptidina, que combina características da
octovespina e da fraternina-10, um peptídeo também derivado de veneno de vespa.
Esse híbrido foi concebido para potencializar as propriedades terapêuticas
observadas nos peptídeos naturais. “A abordagem possibilitou explorar, de forma
rápida e controlada, diferentes modificações estruturais, identificando quais
delas podem tornar os compostos mais estáveis, mais seletivos e mais eficazes”,
afirmam os autores, em nota à Agência Einstein.
A
partir de simulações computacionais, os professores Ricardo Gargano e Yuri
Alves de Oliveira Só, do Instituto de Física da universidade, verificaram que
os peptídeos provocam alterações estruturais importantes nas placas proteicas,
indicando forte potencial de desagregação. “Testes envolvendo a octovespina
mostraram que, quando administrada diretamente no cérebro de camundongos, ela
não apenas diminui a aglomeração da beta-amiloide, mas também reduz sintomas da
doença, como o esquecimento. Esta é a principal diferença entre os derivados do
veneno do marimbondo e os medicamentos disponíveis hoje”, destacam os
cientistas.
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Limitações a serem superadas
Tanto a
octovespina quanto a fraternina-10 conseguiram postergar ou reduzir a formação
de aglomerados proteicos nas simulações computacionais e in vitro. Nos testes
com animais, entretanto, os resultados foram menos expressivos. A
fraternina-10, por exemplo, não conseguiu repetir o feito de reverter déficits
cognitivos em camundongos com alterações neurais semelhantes àquelas causadas
pelo Alzheimer nos seres humanos.
Isso se
deu porque as simulações simplificaram o processo de desagregação das placas
beta-amiloides. Da mesma forma, como os testes in vitro são feitos em condições
extremamente controladas, eles não refletem a complexidade do ambiente
biológico em um organismo vivo. Por isso, é esperado que surjam diferenças
quantitativas entre os resultados obtidos em simulações, experimentos de
bancada e estudos in vivo.
Apesar
dessas limitações, as simulações mostraram forte concordância com os
experimentos. “Isso garante previsibilidade, orienta a interpretação dos
resultados biológicos e, sobretudo, fornece bases sólidas para o planejamento
racional de novos fármacos, guiando o desenho de peptídeos mais eficientes para
as próximas fases da pesquisa”, avaliam os autores.
Mesmo
com os avanços alcançados até agora, ainda serão necessários alguns anos para
que as substâncias derivadas do veneno de marimbondo possam avançar para etapas
pré-clínicas ampliadas ou ensaios clínicos em humanos. O próximo passo envolve
novos estudos em modelos animais, especialmente para determinar qual é a via de
administração mais adequada, já que a aplicação direta no cérebro não é uma
opção viável em termos clínicos.
Também
serão necessários estudos aprofundados de dose, toxicidade, segurança e
farmacocinética para assegurar que esses compostos possam ser administrados sem
riscos. Somente após a consolidação dessas informações será possível considerar
a transição para testes em humanos.
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Envelhecimento da população
Em um
cenário de inversão da pirâmide demográfica brasileira — ou seja, de
crescimento do número de idosos e diminuição da quantidade de crianças —, o
Alzheimer aparece como uma crise de saúde coletiva iminente.
Com o
avançar da idade, é comum que ocorram lapsos de memória pontuais, como esquecer
de pagar uma conta ou confundir a data de um evento. Isso é esperado, e não
deve ser motivo de preocupação. “Porém, quando essas ocorrências tornam-se
frequentes e começam a prejudicar a segurança do indivíduo e de seus
familiares, como se perder no caminho para casa ou deixar a panela no fogo
desatendida, é recomendado buscar ajuda profissional para uma investigação do
caso”, pontua Okamoto.
Além de
conversas com o paciente e seus familiares, o médico pode iniciar as buscas por
biomarcadores da demência, como os depósitos da proteína amiloide no cérebro,
por meio de um exame de imagem PET-CT amiloide.
Em
2019, havia 1,8 milhão de pessoas com doenças neurodegenerativas no Brasil,
segundo o Relatório Nacional sobre a Demência, publicado em 2024 pelo
Ministério da Saúde. A estimativa é de que esse número salte para 5,7 milhões
de casos em 2050. Para além da saúde, isso se reflete em questões sociais,
políticas e econômicas. “Como nem todo mundo tem condições de pagar por um
serviço de cuidado especializado, algumas pessoas terão que sair do mercado de
trabalho formal para poder cuidar de seus avós, pais e tios”, ilustra o médico
do Einstein.
Na
prática, isso pode gerar sobrecarga física, emocional e financeira para amigos
e familiares da pessoa diagnosticada com Alzheimer. Daí a importância dos
investimentos direcionados ao tratamento da doença. “A terapia antiamiloide
pode não ser uma cura para o Alzheimer, mas é um tratamento que ajuda a frear o
avanço da doença, estabilizando o cenário de degeneração cognitiva e mantendo
as capacidades do indivíduo de aprender habilidades novas, socializar e ter
certa autonomia”, avalia Ivan Okamoto. “Mesmo sem melhora do quadro, se após um
ano de tratamento o indivíduo não apresentar piora nos sintomas, isso já é uma
resposta positiva.”
• Estudo aponta que composto de chá
popular pode proteger contra Alzheimer
Um novo
estudo identificou dois compostos naturais que ajudam a proteger o cérebro
contra a doença de Alzheimer, melhorando a capacidade das células cerebrais de
combater as proteínas prejudiciais associadas à condição.
A
combinação de nicotinamida (uma forma de vitamina B3) e galato de
epigalocatequina (um antioxidante presente no chá-verde) pode estabelecer os
níveis de trifosfato de guanosina, uma molécula energética essencial nas
células cerebrais. Em testes, os neurônios dispostos em uma placa conseguiram
reverter danos causados pelo envelhecimento e aumentar a capacidade de eliminar
agregados de proteína amiloide que são prejudiciais, uma característica do
Alzheimer.
O
estudo, feito por pesquisadores da Universidade da Califórnia, foi publicado
neste mês na revista GeroScience.
“À
medida que as pessoas envelhecem, seus cérebros apresentam um declínio nos
níveis de energia neuronal, o que limita a capacidade de remover proteínas
indesejadas e componentes danificados”, disse o autor principal, Gregory
Brewer, em declaração à Universidade. “Descobrimos que restaurar os níveis de
energia ajuda os neurônios a recuperar essa função crítica de limpeza.”
Segundo
Brewer, essa descoberta abre a possibilidade para novos tratamentos com bases
naturais contra o Alzheimer.
“Ao
suplementar os sistemas energéticos do cérebro com compostos já disponíveis
como suplementos alimentares, podemos abrir um novo caminho para o tratamento
do declínio cognitivo relacionado à idade e da doença de Alzheimer”, disse ele.
Brewer
ainda destacou que mais estudos são necessários para descobrir a viabilidade
destes tratamentos na prática. Como os testes foram feitos apenas nos neurônios
em placa, e não em pessoas, ainda não é possível afirmar que a ingestão oral
desses compostos teria efeito benéfico contra o Alzheimer.
Fonte:
CNN Brasil

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