Brasil
e a financeirização da guerra
A
guerra do século XXI já não se organiza apenas por tanques, mísseis ou tropas.
Ela opera por códigos, sistemas de pagamento, critérios algorítmicos de risco e
infraestruturas financeiras globais. À medida que o dólar deixa de ser apenas
moeda e passa a funcionar como mecanismo de coerção, crises aparentemente
locais revelam disputas de poder muito mais amplas. O Brasil não está à margem
dessa transformação. Ele se tornou um dos territórios onde a financeirização da
guerra se manifesta de forma mais nítida.
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A guerra mudou de forma
A
guerra do século XXI já não se organiza prioritariamente por tanques, mísseis
ou ocupações territoriais. Ela se estrutura por infraestruturas, por fluxos,
por critérios técnicos que decidem quem pode circular e quem será bloqueado. O
conflito deixou de ser apenas um evento excepcional e passou a operar como
condição permanente, inscrita no funcionamento cotidiano da economia global.
Nesse
novo cenário, o poder não se exerce apenas pela destruição física, mas pela
interrupção seletiva de sistemas vitais: pagamentos, crédito, liquidez, acesso
a mercados, cadeias de suprimento e circuitos financeiros. A coerção não
precisa mais se anunciar como violência explícita. Ela se manifesta como regra
técnica, como parâmetro de risco, como decisão automatizada.
Essa
transformação não significa o fim da guerra, mas sua metamorfose histórica. A
força continua presente, porém deslocada para um plano menos visível e mais
eficiente: o da governança financeira, jurídica e algorítmica. É nesse terreno
que se define, hoje, quem possui margem de manobra política e quem opera sob
constrangimento estrutural.
Compreender
essa mudança é o primeiro passo para entender o mundo contemporâneo — e o lugar
que o Brasil ocupa dentro dele.
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Do dólar como moeda ao dólar como infraestrutura de poder
Durante
décadas, o dólar foi apresentado como um fato quase natural da economia
internacional: moeda de reserva, unidade de conta, meio de troca predominante.
Essa descrição, embora correta em aparência, tornou-se insuficiente para
explicar seu papel no mundo contemporâneo. O dólar deixou de ser apenas moeda.
Ele passou a operar como infraestrutura central de poder, articulando dimensões
financeiras, jurídicas, tecnológicas e políticas.
Hoje, o
que confere força ao dólar não é apenas sua aceitação global, mas sua
integração profunda a sistemas de pagamento, redes de liquidação, mecanismos de
compliance e regimes de sanção. O poder monetário se deslocou para o controle
dos canais por onde o dinheiro circula. Quem controla esses canais controla, de
forma indireta, a capacidade de ação de Estados, empresas e sociedades
inteiras.
É nesse
contexto que a chamada “desdolarização” costuma ser mal compreendida. Tratada
como simples substituição de moedas ou como gesto simbólico de soberania, ela
raramente é analisada em seu nível decisivo: o da arquitetura financeira.
Trocar a moeda de denominação não altera, por si só, a dependência estrutural
de sistemas ancorados no dólar, nem neutraliza os dispositivos de coerção
embutidos nessas infraestruturas.
O
dólar, portanto, não domina apenas porque é usado, mas porque está inscrito nos
protocolos do sistema financeiro internacional. Ele organiza hierarquias,
define acessos e condiciona decisões. Nesse sentido, a moeda se transforma em
meio técnico de poder, capaz de produzir efeitos políticos sem necessidade de
confrontação direta.
Quando
o poder monetário assume essa forma infraestrutural, o conflito deixa de ser
episódico e passa a operar como gestão permanente da dependência. É nesse
terreno que a guerra contemporânea se financeiriza — e é a partir dele que se
compreende por que as disputas globais já não se resolvem apenas no plano
militar ou diplomático, mas no coração dos sistemas que regulam o dinheiro.
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Algoritmos, compliance e a financeirização da coerção
Se o
dólar se converteu em infraestrutura de poder, o mecanismo que o torna operável
no cotidiano da política internacional é menos visível: algoritmos, regras de
compliance e padrões técnicos de risco. É nesse plano que a coerção
contemporânea se realiza de forma mais eficiente, precisamente porque se
apresenta como decisão neutra, automática e impessoal.
Critérios
algorítmicos de risco não apenas avaliam operações financeiras; eles
hierarquizam atores, definem quem é confiável, quem é suspeito e quem deve ser
excluído. Essa triagem não é política apenas no discurso. Ela produz efeitos
materiais imediatos: bloqueio de contas, interrupção de pagamentos,
encarecimento do crédito, isolamento financeiro. O conflito se dá sem
declaração de guerra, mas com consequências comparáveis às de um cerco
econômico.
O
compliance, por sua vez, funciona como tradução jurídica da coerção financeira.
Normas formuladas em centros de poder são incorporadas a sistemas
automatizados, transformando decisões políticas em rotinas técnicas
obrigatórias. Uma vez integradas aos fluxos financeiros globais, essas regras
deixam de depender de vontade explícita. Elas operam sozinhas, impondo limites
e constrangimentos de forma contínua.
Esse é
o ponto decisivo da financeirização da guerra: a capacidade de converter poder
político em procedimento técnico. Não se trata apenas de punir adversários, mas
de moldar comportamentos, induzir conformidade e antecipar desvios. O objetivo
não é a destruição imediata, mas a gestão preventiva do risco político.
Quando
a coerção assume essa forma algorítmica, o campo de batalha se desloca
definitivamente. A guerra passa a ser travada na camada invisível dos sistemas
financeiros, onde decisões são tomadas em milissegundos e seus efeitos se
espalham por sociedades inteiras. É nesse ambiente que a soberania se torna
frágil e onde a dependência deixa de ser exceção para se tornar regra
estrutural.
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Fintechs e plataformas: a interface civil da guerra financeira
A
financeirização da guerra não se impõe apenas por sanções explícitas ou
decisões estatais visíveis. Ela se infiltra no cotidiano por meio de fintechs,
plataformas de pagamento e arranjos financeiros privados, que operam como a
interface civil de uma arquitetura global de coerção. Apresentadas como
inovação, eficiência e inclusão, essas estruturas ocultam sua função
estratégica mais profunda: operacionalizar o poder financeiro de forma difusa e
descentralizada.
Fintechs
não são apenas empresas de tecnologia aplicadas às finanças. Elas são pontos de
acesso a sistemas de liquidação, redes de pagamento e critérios de risco
definidos fora do controle nacional. Ao intermediar a relação entre usuários e
infraestruturas globais, essas plataformas internalizam regras que não formulam
e executam decisões que não controlam. A inovação, nesse contexto, funciona
como vetor de dependência.
O
elemento central aqui é a confiança. Em sistemas financeiros mediados por
plataformas, a confiança não se baseia mais apenas na solidez institucional ou
na regulação estatal, mas na permanência do acesso à infraestrutura. Quando
esse acesso é suspenso, limitado ou condicionado, o colapso pode ser imediato.
Não é necessário quebrar um banco; basta interromper seus fluxos.
Essa
lógica explica por que crises financeiras contemporâneas tendem a se propagar
com rapidez e intensidade. A plataformização do dinheiro reduz margens de
manobra, acelera reações em cadeia e desloca o centro de decisão para fora do
território nacional. O que se apresenta como neutralidade técnica é, na
prática, poder concentrado em camadas invisíveis do sistema.
Nesse
cenário, a guerra financeira não precisa mais ser declarada. Ela se manifesta
como falha sistêmica, como suspensão operacional, como descontinuidade súbita.
E quanto mais o sistema financeiro se organiza em torno de plataformas privadas
globais, mais o conflito se normaliza sob a aparência de funcionamento regular.
É nesse
ponto que a abstração se rompe. Quando a interface falha, o impacto deixa de
ser teórico e se torna concreto. E é justamente aí que países como o Brasil
entram no centro da cena.
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O Brasil como território de materialização da guerra financeira
A
financeirização da guerra não se distribui de forma homogênea pelo sistema
internacional. Ela se manifesta com maior intensidade nos territórios onde a
dependência estrutural é mais profunda e as margens de manobra são mais
estreitas. O Brasil ocupa exatamente esse lugar: não como exceção, mas como
zona de materialização de tensões globais que se originam fora de suas
fronteiras.
Países
do Sul Global funcionam como amortecedores da instabilidade produzida no centro
do sistema. Quando a arquitetura financeira internacional se reconfigura, são
essas economias que absorvem primeiro os choques: volatilidade cambial,
retração do crédito, encarecimento do financiamento e fragilização
institucional. O conflito aparece como crise econômica, mas sua origem é
estrutural e geopolítica.
No caso
brasileiro, essa vulnerabilidade não decorre apenas de escolhas internas ou
falhas pontuais de gestão. Ela resulta da integração subordinada a sistemas
financeiros globais que operam segundo lógicas alheias às necessidades
nacionais. A soberania formal convive com uma dependência prática de
infraestruturas externas, capazes de amplificar qualquer descontinuidade.
É nesse
contexto que o Brasil se torna terreno privilegiado para observar a
financeirização da guerra em funcionamento. Aqui, a abstração da coerção
algorítmica ganha corpo institucional, político e social. Decisões tomadas em
circuitos técnicos distantes se traduzem em impactos locais imediatos, afetando
bancos, empresas, governos e, sobretudo, a vida cotidiana da população.
A
guerra financeira, portanto, não chega ao Brasil como narrativa importada. Ela
se impõe como realidade concreta, reorganizando prioridades, limitando
alternativas e naturalizando a gestão permanente da instabilidade. Entender o
Brasil nesse processo é compreender que a disputa global pelo poder financeiro
não se trava apenas entre grandes potências, mas se resolve, em última
instância, na periferia do sistema.
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Crises bancárias não são acidentes: o caso brasileiro
Quando
crises bancárias emergem, a explicação dominante costuma recorrer a falhas
individuais, má gestão ou desvios específicos. Essa leitura, embora
confortável, obscurece o essencial. Em contextos de financeirização da guerra,
crises não são acidentes: são eventos-sintoma de uma arquitetura que opera no
limite, especialmente em economias estruturalmente dependentes.
O
recente episódio envolvendo instituições financeiras no Brasil expõe essa
lógica com nitidez. A sequência de intervenções, liquidações e tensões
regulatórias não pode ser compreendida como um conjunto de casos isolados. Ela
revela o encontro entre plataformização do dinheiro, fragilidade da confiança e
pressão sistêmica externa. O que entra em colapso não é apenas uma instituição,
mas a expectativa de continuidade dos fluxos que a sustentavam.
Nesse
tipo de crise, o fator decisivo não é apenas a solvência contábil, mas a
percepção de risco em tempo real, mediada por infraestruturas privadas de
pagamento, critérios algorítmicos e decisões regulatórias tomadas sob forte
constrangimento. Quando a confiança se rompe, a reação é instantânea. A
retirada de acesso, a suspensão de operações e a reprecificação do risco
produzem efeitos em cadeia que nenhum agente isolado consegue conter.
O papel
do Banco Central, nesse contexto, revela o dilema estrutural do Estado
periférico. A autoridade monetária atua para preservar a estabilidade do
sistema, mas o faz dentro de uma arquitetura que limita suas escolhas. A
intervenção técnica aparece como necessidade, mas carrega consigo custos
políticos e sociais que não são neutros. A gestão da crise passa a ser,
simultaneamente, contenção do colapso e administração da dependência.
O caso
brasileiro, portanto, não é exceção nem anomalia. Ele ilustra como a
financeirização da guerra se traduz em instabilidade institucional recorrente,
onde crises funcionam como mecanismo de ajuste de um sistema que transfere
riscos para a periferia. A aparência de normalidade esconde um processo
contínuo de reorganização do poder financeiro, no qual o choque é parte
integrante do método.
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O custo social da guerra financeira
A
financeirização da guerra não produz apenas rearranjos técnicos ou disputas
institucionais. Ela impõe custos sociais concretos, sistematicamente deslocados
para a sociedade. Quando o conflito se organiza por meio de fluxos financeiros,
esses custos não aparecem como destruição visível, mas como erosão lenta das
condições materiais de vida.
Crédito
mais caro, instabilidade monetária, retração de investimentos e insegurança
econômica não são efeitos colaterais acidentais. São mecanismos de
transferência de risco, pelos quais o sistema financeiro global preserva sua
arquitetura enquanto distribui perdas para fora de seus centros decisórios. O
dinheiro deixa de funcionar como instrumento de desenvolvimento e passa a
operar como fator de disciplina social.
Para o
povo trabalhador, essa lógica se manifesta de forma direta. A dificuldade de
acesso ao crédito afeta consumo, produção e emprego. A instabilidade
institucional corrói políticas públicas e compromete serviços essenciais. O que
se apresenta como ajuste técnico se traduz em precarização da vida cotidiana,
ampliando desigualdades e restringindo horizontes.
A
guerra financeira, portanto, não se trava apenas entre Estados ou grandes
atores econômicos. Ela atravessa o tecido social, reorganizando relações de
poder no interior das sociedades. A normalização da instabilidade cria um
ambiente no qual a exceção se torna regra e o futuro passa a ser administrado
sob permanente incerteza.
Esse é
o ponto em que a neutralidade técnica se revela ilusória. Toda decisão
financeira carrega uma escolha política implícita sobre quem suporta o peso da
crise. Na ausência de soberania efetiva, essas escolhas tendem a se repetir,
reproduzindo um padrão em que a sociedade paga por uma guerra que raramente é
nomeada como tal.
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Soberania ou gestão permanente da crise
A
financeirização da guerra coloca o Brasil diante de um dilema histórico que não
pode mais ser adiado. Não se trata de escolher entre isolamento ou integração,
mas entre soberania efetiva ou administração recorrente da crise. Enquanto a
arquitetura financeira global operar como instrumento de coerção algorítmica,
países estruturalmente dependentes seguirão presos a ciclos de instabilidade
apresentados como inevitáveis.
Esse
dilema não é técnico. É político. A capacidade de um país decidir sobre
crédito, pagamentos, liquidez e regulação deixou de ser mero atributo
administrativo e passou a constituir núcleo da soberania contemporânea. Onde
esses instrumentos estão subordinados a infraestruturas externas, a política se
move dentro de limites estreitos, e a crise deixa de ser exceção para se tornar
método de governança.
No
Brasil, a repetição de choques financeiros, intervenções emergenciais e ajustes
defensivos revela um padrão. Não se trata de falhas episódicas, mas de uma
estratégia sistêmica de gestão da dependência, na qual a estabilidade é sempre
provisória e o custo social, permanente. A normalização dessa lógica reduz o
horizonte democrático e comprime as possibilidades de desenvolvimento autônomo.
Compreender
a financeirização da guerra é, portanto, compreender o tempo histórico em que
vivemos. Não para descrevê-lo com neutralidade, mas para decidir como
enfrentá-lo. Ou o país disputa as bases materiais de sua soberania financeira e
informacional, ou continuará operando como território de ajuste de uma guerra
que não declara, mas impõe suas consequências diariamente.
O
conflito já está em curso. A escolha que resta é entre reconhecê-lo como
realidade objetiva — e agir — ou seguir tratando suas manifestações como crises
isoladas, administrando o inevitável até o próximo choque.
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon Gonçalves, em Brasil 247

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