Luís
Nassif: O caso Master e como entender o jornalismo
Operação
Lava Master gerou vazamentos e denúncias contra ministros do STF, desviando
foco de políticos do Centrão.
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Introdução: O Jornalista-Sela e o Boi-Guia
O
jornalismo de catarse no Brasil se estrutura em torno de dois papéis centrais
que comprometem a qualidade da cobertura investigativa.
# O
jornalista-sela é aquele que estabelece uma relação simbiótica com suas fontes.
Movido pela busca do furo — grande instrumento de promoção profissional —, esse
repórter reproduz acriticamente as informações recebidas, permitindo-se ser
cavalgado pelas intenções de quem vaza os dados.
# O
boi-guia representa o fenômeno que ocorre nas grandes coberturas catárticas: a
mídia comporta-se como boiada. O jornalista-sela, ao receber notícias
exclusivas e dar o furo, estabelece o tom geral da cobertura. Toda a imprensa
então busca fatos, inventa manchetes e reproduz narrativas em torno do tema
proposto — e até as chefias editoriais engrossam a manada.
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A Operação Lava Master: Ingredientes de uma Nova Lava Jato
Quando
começou a Operação Lava Master, ficou evidente que reunia todos os elementos
para se transformar em uma reprise da Lava Jato:
# 1.
Sentimento difuso de corrupção generalizada — A percepção de descontrole
decorrente do Centrão, das emendas parlamentares e da infiltração do crime
organizado em todos os poros do poder público.
# 2.
Abundância de fontes e vazamentos — Múltiplas fontes despejando informações
seletivas, facilitando a manipulação das investigações e da narrativa pública.
# 3.
Arquivos sensíveis sob sigilo — Se o Ministro Dias Toffoli retirasse o sigilo
dos arquivos trazidos da 13ª Vara Federal de Curitiba, o impacto poderia
superar o da Operação Spoofing.
# 4.
Temor institucional — A Rede Globo teme os vazamentos sobre a Lava Jato.
Sintomático foi a demissão da jornalista Daniela Lima da GloboNews por sua
insistência em abordar os arquivos da 13ª Vara.
# 5.
Interesses financeiros poderosos — O combate da Polícia Federal ao crime
organizado na Faria Lima envolve interesses financeiros de grande magnitude.
Esses
fatores despertavam fundados receios de que a aliança lava-jatista — entre
policiais, jornalistas e com respaldo da Globo — poderia se repetir. O risco
era claro: valer-se de vazamentos selecionados para conduzir a cobertura na
direção pretendida e desviar o foco dos alvos protegidos.
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Confirmação das Suspeitas: Os Vazamentos Estratégicos
Não
levou uma semana para as suspeitas se confirmarem. O vazamento de perícias
realizadas nos celulares de Daniel Vorcaro resultou na denúncia do contrato
firmado entre o Master e o escritório da esposa do Ministro Alexandre de
Moraes.
Seguiu-se
uma saraivada de denúncias contra Ministros do Supremo Tribunal Federal,
desviando o foco do envolvimento de políticos do Centrão, da Faria Lima, de
igrejas e dos órgãos de controle — os verdadeiros protagonistas do esquema.
Como
consequência, houve um sorteio no STF que colocou o caso nas mãos do Ministro
Dias Toffoli.
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A Reação de Toffoli: Contenção dos Vazamentos
Ainda
que de forma estabanada, os primeiros atos de Toffoli tiveram um objetivo
claro: interromper os vazamentos estratégicos.
#
Medida 1: Determinou um novo grupo de peritos para o caso, todos da Polícia
Federal e com alta reputação técnica.
#
Medida 2: Transferiu os arquivos ao STF, mantendo-os sob sigilo para impedir
novos vazamentos.
#
Medida 3: concluir a primeira fase do inquérito, manter no STF os casos com
direito de foro (parlamentares citados) e remeter o restante para a Justiça
Federal.
Em
nenhum momento houve indicação de boicote às operações. As investigações
continuaram sob escrutínio de peritos sérios, da Procuradoria-Geral da
República e de procuradores competentes.
Entretanto,
acabou o efeito Atlas — referência ao titã da mitologia grega que precisava
manter os pés na terra para ganhar força. O jornalista-sela necessita das
ligações com os autores de vazamentos para preservar sua influência. Sem eles,
perde relevância.
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A Campanha Contra o STF: Análise da Cobertura
Concentro-me
na cobertura da repórter Malu Gaspar por ter se tornado o boi-guia dessa
primeira fase. Seguiu-se uma campanha sistemática contra o Supremo, valendo-se
da vulnerabilidade dos Ministros em seus negócios particulares.
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A Estratégia da Confusão
A
primeira esperteza foi sutil: em nenhum momento as reportagens apresentaram
indícios consistentes de manipulação do inquérito. Porém, consolidou-se a ideia
de manipulação através do entrelaçamento de duas táticas:
#
Tática 1 — Ênfase nos negócios pessoais: Reportagens diárias sobre os negócios
particulares dos Ministros, criando um clima de suspeição generalizada.
#
Tática 2 — Correlações frágeis: A correlação absurda da indicação de Toffoli
com uma carona em jatinho na qual, entre vários passageiros, havia um advogado
que defendia um diretor do Master. A mediocridade geral da cobertura
transformou essa bobagem em suspeita de manipulação.
#
Tática 3 — Mal-estar fabricado: Afirmações vagas sobre mal-estar da Polícia
Federal em relação a temas irrelevantes sobre prazos processuais.
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A Anatomia dos Vazamentos Direcionados
Para
quem tem olhos para ver — e certamente os coordenadores de cobertura nos
diversos jornais não se enquadram nessa categoria —, havia objetivos claros por
trás de cada vazamento:
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Vazamento sobre contratos da esposa de Alexandre de Moraes
Intenção:
Tirar o foco dos alvos do Centrão, desviando atenção para o STF.
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Vazamento sobre mensagem do diretor do Banco Central
Intenção:
Isentar o Conselho de Administração do BRB, colocando responsabilidade em
funcionário técnico do BC.
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Pressão sobre Toffoli (tiroteio midiático)
Intenção:
Jogar o caso para a primeira instância e enfraquecer a ofensiva contra os
arquivos da Lava Jato. Indo para a primeira instância, sem preservação do
chamado foro privilegiado, haveria possibilidade concreta de anulação do
inquérito – objetivo final da ação do boi-guia.
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O Ataque ao Diretor do BRB
Todas
as informações visavam jogar no colo de um funcionário de carreira a decisão
que foi do Conselho de Administração do BRB: a compra dos créditos podres do
Master.
Apesar
das alegadas três ou quatro fontes no Conselho — aproximadamente um terço de
seus membros — que, segundo a repórter, confirmariam a pressão, nenhuma revelou
a informação central: o Diretor Jurídico do banco alertou o Conselho sobre os
problemas da carteira apenas quatro dias antes da tentativa de compra.
Esse
dado — crucial para entender a cronologia e as responsabilidades — foi
convenientemente omitido da cobertura.
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O Ataque aos Peritos Convocados por Toffoli
O
episódio foi apresentado pelo jornal O Globo como tentativa de manipulação do
inquérito. Curiosamente, o Jornal Nacional adotou o enfoque jornalístico
adequado: os peritos têm boa reputação.
Porém,
segundo Malu Gaspar:
“Na
avaliação de fontes ouvidas reservadamente pela equipe da coluna, Toffoli busca
minar a credibilidade da PF para tentar inverter a impressão de que ele atua em
consonância com os objetivos da defesa do Master, provocada por decisões
esdrúxulas tomadas nas últimas semanas.”
Antes
da mudança, havia um caso grave de vazamento sistemático de informações — que
não foi objeto de nenhuma reportagem investigativa da mídia. As medidas de
Toffoli visavam conter o vazamento. A leitura da coluna de Malu Gaspar era
diametralmente oposta à realidade.
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A Incongruência do Banco Central
O
projeto de lei permitindo ao Congresso demitir diretores do Banco Central não
passou. Mas nenhuma reportagem questionou o óbvio: se, conforme alegava Malu, o
BC pressionava em favor do Master, por que havia uma ameaça explícita por parte
do Centrão contra o BC?
A
contradição era flagrante, mas passou despercebida — ou foi deliberadamente
ignorada — pela cobertura.
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A Pressão para Devolver à Primeira Instância
A ida
do caso ao Supremo decorreu de uma preocupação jurídica relevante: sabia-se da
participação de parlamentares nos esquemas do Master.
Se o
inquérito permanecesse na primeira instância, haveria motivos suficientes para
os advogados do Master solicitarem a anulação pelo desrespeito ao princípio do
foro privilegiado — isto é, o julgamento de pessoa com foro especial só pode
ser feito no STF.
Não
houve um coordenador de cobertura competente para identificar essa
possibilidade óbvia: a malícia jurídica por trás da pressão para remeter o caso
à primeira instância.
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O Trabalho Real de Toffoli
Na
análise da Procuradoria-Geral da República, dos próprios membros do STF e de
juristas — jamais ouvidos pela cobertura —, estava claro o trabalho de Toffoli:
1.
Analisar o inquérito e identificar quais casos demandavam foro privilegiado e
quais não demandavam.
2.
Remeter o segundo grupo (sem foro privilegiado) para a primeira instância.
3.
Enquanto isso, manter o caso sob sigilo para impedir vazamentos e
direcionamentos da cobertura.
Toffoli
precipitou-se ao indicar os peritos sem uma negociação prévia com o
diretor-geral da PF. Mas alcançou seus objetivos: cessaram os vazamentos.
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O Resultado: Silêncio Revelador
Matéria
posterior de O Globo revelou:
Os
peritos indicados por Toffoli estão à frente das investigações e são técnicos
de alta competência — mantidos com a concordância do comando da PF devido à sua
reputação ilibada.
“A
extração dos celulares foi coordenada pelo perito Luiz Felipe Nassif, chefe do
Serviço de Perícias em Informática da PF. Formado no Instituto Militar de
Engenharia do Exército (IME), ele já atuou em grandes operações, como a
Lava-Jato e a Lesa-Pátria, e é especialista em processar grande volume de dados
e inteligência artificial”.
Porém,
essa informação ficou restrita a uma matéria, acessível apenas aos leitores bem
informados. Já eram do conhecimento dos leitores do GGN há vários dias.
As
suspeitas continuam espalhadas pela opinião pública, como penas de galinha ao
vento.
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Cessaram os vazamentos.
Sem o
principal alimento das manchetes, embora alegando ter três ou quatro fontes no
BRB, a repórter limitou-se a compilar o que sai na mídia ou a fazer provocações
ao STF e ao BC para salvar suas denúncias.
Não
acompanhou o inquérito aberto pela PF contra o BRB. Não deu nenhum furo
negativo contra o banco. Deixou de ser o boi-guia da cobertura.
Agora,
alimenta o relator da CPI do Master, senador Alessandro Vieira — outro
lava-jatista em estado puro, tão manipulador quanto seus colegas paranaenses —,
fazendo declarações bombásticas sobre meras suspeitas.
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O Segundo Tempo: Novos Fronts
Agora
haverá três centros de geração de informações:
# 1. A
CPI de Alessandro Vieira — Fazendo palanque, ameaçando represálias a Ministros
com ilações irresponsáveis.
# 2. A
Comissão de Assuntos Econômicos — Composta por senadores de várias tendências,
sob a relatoria responsável de Renan Calheiros.
# 3. A
primeira instância — Com parte do inquérito remetido, possibilidade de novos
vazamentos dos delegados lava-jatistas.
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Por um Jornalismo Profissional
Há dois
estilos de reportagem que precisam ser diferenciados:
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Primeiro Plano: O Jornalismo Responsável
Repórteres
que juntam peças, contextualizam denúncias, encontram explicações, sabem
definir o peso de cada acusação. Avançam além do jornalismo declaratório
brasileiro — baseado em fontes não conhecidas e não identificadas.
Este é
o trigo — e traz respeitabilidade.
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Segundo Plano: Os Jornalistas-Sela
Profissionais
que se limitam a reproduzir vazamentos de alto impacto, sem nenhuma preocupação
com contextualização, relativização ou análises técnicas.
Este é
o joio — e traz likes.
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A Proposta: Sala de Situação
Uma
cobertura responsável exigiria a criação de uma sala de situação, sob comando
de um jornalista experiente, com as seguintes funções:
•
Organizar todos os dados de forma sistemática
•
Juntar peças e estabelecer conexões fundamentadas
•
Analisar os aspectos técnicos de cada denúncia
•
Segurar os exageros, especialmente os originados dos bois-guia
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A Escolha Entre Likes e Reputação
A
ausência de coordenação editorial garante likes no início do jogo. Mas resulta
em perda de reputação a médio prazo, igualando a cobertura jornalística ao
fragor das redes sociais.
O
jornalismo brasileiro precisa escolher: quer ser reconhecido pela profundidade
e responsabilidade, ou pelo impacto efêmero das manchetes sensacionalistas?
A
resposta a essa pergunta definirá não apenas a credibilidade da imprensa, mas
também a qualidade do debate público e da própria democracia brasileira.
Fonte:
Jornal GGN

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