quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Vivemos uma epidemia de feminicídios. E precisamos enfrentá-la

Há alguns dias, uma cena de terror chocou o Brasil. Uma mulher foi atropelada pelo ex-namorado que, não satisfeito, a arrastou por um quilômetro em plena Marginal do Tietê, uma das vias mais movimentadas de São Paulo. Espalharam-se pelas redes sociais vídeos produzidos por motoristas que passavam pelo local e tentavam alertar o agressor de que a vítima estava presa ao carro em movimento. Mas ele não reagia, apenas seguia acelerando, para o desespero de todos.

O motorista do carro era Douglas Alves da Silva, de 26 anos, ex-namorado da vítima, Tainara Souza, 31. O motivo do ataque? Ele a teria visto acompanhada de outro homem em um bar. Douglas fugiu, mas acabou preso no dia seguinte, acusado de tentativa de feminicídio. Tainara, que é mãe de dois filhos, teve as duas pernas amputadas e passou por três cirurgias no Hospital das Clínicas. Segundo familiares, ela está se recuperando, mas segue internada em estado grave.

Esse não é um caso isolado. O episódio se soma a uma série de outras histórias da violência de homens contra mulheres. Uma epidemia que tomou conta não só de São Paulo, mas de todo o Brasil. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública registraram 1.492 casos de feminicídio em 2024. É o maior número desde o reconhecimento, em 2015, desse tipo de crime, no qual a vítima perde a vida por sua condição de gênero. Ou seja, pelo fato de ser mulher.

O Estado de São Paulo acompanhou a mesma curva de alta e bateu recorde de feminicídios em 2024. Os números preliminares sinalizam para um 2025 ainda pior por aqui. De janeiro a outubro deste ano, já foram 207 episódios, 6% a mais que no mesmo período do ano passado. O crescimento vai na contramão da queda de 5,4% do número de mortes violentas intencionais registradas em 2024 e mostra que a violência de gênero segue uma trajetória distinta da criminalidade geral no Brasil.

A nossa sociedade se tornou um ambiente cada vez mais perigoso para as mulheres. Em média, quatro mulheres morrem todos os dias. Um quadro devastador, que é totalmente inaceitável. Com a expansão da extrema-direita e do bolsonarismo, discursos que encorajam e legitimam o machismo e a misoginia se proliferaram e se tornaram campo fértil para todo tipo de violência contra a mulher. É preciso desmascarar esses e outros movimentos que objetificam as mulheres e “despertam” seguidores para uma realidade distorcida das relações de gênero.

Infelizmente, quando analisamos os números, vemos apenas uma parte da realidade. Na verdade, o problema é muito maior. Por inúmeras razões, muitas mulheres não denunciam as violências às quais são submetidas e que, muitas vezes, antecedem o feminicídio, como agressões e ameaças. Se o fizessem, esses números seriam exponencialmente maiores.

É aqui que entra o papel do Estado. Um dos fatores que contribuem para a subnotificação das violências prévias ao feminicídio é a falta de estrutura para acolher a mulher vítima de violência. Em São Paulo, o governo Tarcísio de Freitas zerou o orçamento específico para novas Delegacias da Mulher 24h e, em 2024, executou apenas 37% dos recursos destinados à Secretaria de Políticas para as Mulheres, R$ 9 milhões dos R$ 24 milhões disponíveis, montante irrisório para atender às necessidades.

Tão grave quanto é o fato de que o atual governo não utilizou nenhum centavo das verbas destinadas ao enfrentamento da violência e à empregabilidade das mulheres, cada uma com R$ 5 milhões previstos. Agora, em 2025, contingenciou integralmente os recursos para políticas de combate à violência contra a mulher: R$ 10 milhões, que simplesmente deixaram de existir. Isso não é admissível. Não há justificativa técnica ou fiscal que sustente o abandono das mulheres pelo governo Tarcísio.

Apesar da falta de estrutura e investimento em São Paulo, no âmbito federal, acumulamos nos últimos anos avanços legislativos significativos no enfrentamento da violência, com a tipificação de crimes contra as mulheres e o aumento de penas. O mais importante é a criação da Lei Maria da Penha, criada há 19 anos. Mas também tivemos o reconhecimento do crime de feminicídio, em 2015; da importunação sexual, em 2018; e da violência psicológica contra a mulher, em 2021.

É um arcabouço legal robusto, que aumenta a proteção das mulheres e fecha o cerco aos agressores. Agora, acredito que seja hora de avançarmos em outra frente. É preciso firmar um pacto, construir uma mobilização nacional ampla, que envolva a sociedade e o poder público e que tenha a potência e a capilaridade necessárias para colocar uma pá de cal na cultura de violência contra as mulheres que está enraizada.

Nessa batalha, cabe ao Estado prevenir, educar e transformar. Além de oferecer um ambiente efetivo de acolhimento, segurança, fortalecimento e independência para as mulheres que já enfrentam um ciclo de violência.

Quando um governo desmonta políticas de proteção às mulheres, ele não está apenas sendo negligente. Ele está permitindo a ocorrência de novos casos de feminicídio. A violência contra a mulher cresce na ausência do Estado. E, diante dessa omissão, não há neutralidade possível. Ou o poder público se compromete de forma real, urgente e estruturada, ou continuará dividindo responsabilidade com cada agressor que encontrar terreno fértil para agir.

        Lula chama Três Poderes para enfrentar escalada da violência contra mulheres

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou nesta sexta-feira (12) a convocação de uma reunião com representantes dos Três Poderes para discutir a alta da violência contra as mulheres no Brasil. A iniciativa foi divulgada durante discurso na 13ª Conferência dos Direitos Humanos, realizada em Brasília, em meio à apresentação de dados oficiais que apontam crescimento dos casos de feminicídio e a necessidade de uma resposta articulada do Estado e da sociedade.

As declarações foram feitas pelo presidente durante a 13ª Conferência dos Direitos Humanos, em Brasília, em um discurso no qual Lula abordou avanços sociais de seu governo, alertou para retrocessos institucionais e destacou a urgência de enfrentar a violência de gênero como um problema estrutural.

Lula ressaltou a importância da mobilização social na defesa de direitos. “É muito importante a gente dar muita importância a um evento como este, sobre os direitos humanos. Construir qualquer política positiva para ajudar as pessoas necessitadas é sempre muito difícil. Agora, destruir, basta eleger alguém que não presta”, afirmou. O presidente também alertou para a fragilidade de políticas públicas diante de mudanças de governo e destacou o papel das conferências como espaço de cobrança e visibilidade social.

Ao fazer um balanço das ações recentes, Lula citou indicadores econômicos e sociais. “A pobreza e a extrema pobreza caíram aos menores índices de toda a história desse país. O desemprego é o menor da nossa história. E também é o maior número de empregos formais que nós criamos nesses últimos anos”, disse, mencionando ainda a saída do Brasil do Mapa da Fome e mudanças na tributação do Imposto de Renda voltadas à redução da desigualdade.

O presidente também abordou avanços legais e programas sociais, destacando que “aprovamos a lei da igualdade salarial entre homens e mulheres e mesmo depois da lei aprovada, há uma segunda guerra, para fazer as pessoas cumprirem a lei”. Segundo ele, a garantia de direitos frequentemente exige judicialização para assegurar o cumprimento da legislação.

No campo das políticas públicas, Lula mencionou medidas voltadas a grupos vulneráveis, como a destinação de unidades do Minha Casa, Minha Vida para pessoas em situação de rua, a ampliação do Mais Médicos e do Farmácia Popular e a criação do programa Agora Tem Especialistas. Ele também destacou a participação inédita de indígenas e quilombolas no Orçamento da União e em políticas públicas, associando esses avanços a um ambiente democrático.

Ao tratar do cenário internacional e doméstico, Lula criticou o avanço de pautas extremistas. “A verdade nua e crua é que a ascensão da extrema-direita ao redor do mundo provocou uma inédita onda de negacionismo dos valores humanistas”, afirmou, apontando que grupos vulneráveis são alvos preferenciais de ataques e discriminação. Nesse contexto, defendeu a política de proteção a defensoras e defensores dos direitos humanos encaminhada ao Congresso Nacional.

O momento mais contundente do discurso foi dedicado à violência contra as mulheres. Lula afirmou que, apesar de políticas já implementadas, “é preciso fazer muito mais”. Citando dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública do Ministério da Justiça, ele destacou que, entre janeiro e outubro de 2025, “1.177 mulheres foram assassinadas pelo simples fato de serem mulheres”, o que representa “uma estarrecedora média de quatro mulheres assassinadas por dia”.

O presidente foi enfático ao caracterizar os crimes e responsabilizar os agressores. “Assassinadas pelos maridos, namorados, colegas de trabalho, desconhecidos com quem cruzam na rua. Agredidas, estupradas e assassinadas por homens que se acham donos do mundo e que se julgam proprietários de suas companheiras”, disse, defendendo punição rigorosa e ação conjunta entre os Poderes e a sociedade.

Lula anunciou que a reunião convocada para a próxima semana contará com autoridades do Supremo Tribunal Federal, do Superior Tribunal de Justiça, do Senado, da Câmara, da Defensoria Pública e da Procuradoria-Geral da República. Segundo ele, é necessário mudar a abordagem do problema. “A violência contra a mulher não é um problema para ser resolvido pelas mulheres. A violência contra a mulher é um problema para ser resolvido pelo caráter dos homens que acham que são donos das mulheres”, afirmou, associando o enfrentamento da violência a um desafio educacional.

Ao final, o presidente assumiu compromisso pessoal com o tema. “Vou assumir a responsabilidade de colocar esse assunto na minha mesa, porque nós temos que virar a cabeça dos homens nesse país”, declarou, reforçando que o combate à violência de gênero exige mudança cultural profunda e mobilização permanente das instituições e da sociedade brasileira.

 

Fonte: Por Maurici de Morais, em Brasil 247

 

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