Fanta:
a ligação do refrigerante com a Alemanha durante o nazismo
Lançado
no mercado brasileiro em 1964, o refrigerante Fanta logo se
tornou um sucesso.
De
acordo com informações divulgadas pela empresa The Coca-Cola Company, dona da
marca, o Brasil é o líder mundial em vendas do
produto e,
no portfólio da companhia, esse refrigerante só perde em preferência popular
para a própria Coca-Cola.
Mas se
é um sucesso comercial, a história da bebida remonta a um período nebuloso da
história mundial: o regime nazista que comandou a Alemanha e acabou se tornando
o antagonista de Estados Unidos e aliados —
inclusive o Brasil — durante a Segunda Guerra Mundial.
Em sua
receita original, a Fanta não tinha sabor de laranja. A bebida surgiu como uma
solução encontrada pela subsidiária alemã da Coca-Cola para seguir abastecendo
o mercado em tempos de embargos dos americanos.
Os
méritos recaem sobre o empresário alemão Max Keith (1903-1974), que era o
número um da companhia no país desde 1933.
Foi a
criatividade transformada em saída para uma situação que poderia ser
catastrófica.
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Inovação em tempos de crise
Um dos
que contam esta história é o pesquisador e escritor americano Mark Pendergrast,
autor do livro For God, Country & Coca-Cola ("Por
Deus, Pátria e Coca-Cola", na tradução livre para o português).
Segundo
ele, com o bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos durante a Segunda
Guerra, Keith ficou em uma "sinuca de bico".
Naquela
época, a Coca-Cola não tinha um vasto portfólio de bebidas como hoje. Era
apenas a versão original, ou seja, o refrigerante escuro feito de um xarope de
noz de cola.
Pendergrast
esclarece que a Coca-Cola já era "essencialmente" o mesmo
refrigerante de hoje.
"Ainda
continha extrato de folha de coca, embora este fosse descocainizado desde
1903", pontua.
Mas é
preciso entender como a empresa operava na época.
"A
forma como a The Coca-Cola Company trabalhava com suas filiais internacionais,
incluindo a Alemanha, nos anos 1930 era a seguinte: elas eram empresas
engarrafadoras", contextualiza o jornalista britânico Tristan Donovan,
autor do livro Fizz: How Soda Shook Up The World ("Fizz:
Como o Refrigerante Sacudiu o Mundo", em tradução livre).
"As
filiais de cada país importavam o xarope da Coca-Cola fabricado na sede em
Atlanta e depois o misturavam com água e açúcar para produzir a bebida vendida
naquele país", completa Donovan.
O
problema era que os insumos eram repassados da matriz americana, sediada em
Atlanta, para as fábricas ao redor do mundo. E o embargo passou a
impossibilitar a operação.
Havia
também um bloqueio físico.
"A
Marinha britânica bloqueou o Terceiro Reich, cortando o acesso da filial alemã
ao xarope da Coca-Cola. A empresa tornou-se uma entidade semi-independente, com
comunicações limitadas com a sede e sem qualquer possibilidade de importar
suprimentos de xarope", descreve Donovan.
"Ela
ficou apenas com estoques que diminuíam rapidamente do xarope importado antes
do bloqueio."
Seria o
fim da unidade alemã e Keith veria sua carreira de executivo sucumbir em meio
aos destroços da guerra.
Fabricar
o próprio xarope não era uma possibilidade. Nenhuma subsidiária tinha a
fórmula, segundo Donovan, já que o conhecimento da receita era restrito a um
número muito pequeno de funcionários nos EUA.
Keith
foi inovador. Seguindo o clichê do mundo empresarial, viu na crise a
oportunidade.
Em vez
de usar o concentrado base oriundo dos Estados Unidos, podia manter a fábrica
em funcionamento se conseguisse uma nova receita de bebida.
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Uma bebida feita de restos
A
interrupção dos trâmites entre a Coca-Cola com a Alemanha ocorreu logo após o
bombardeio de Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941, quando oficialmente os
Estados Unidos entraram na Guerra.
Àquela
altura, a Coca-Cola era um sucesso entre os alemães, consumida por pessoas de
todas as idades.
Segundo
Pendergrast, naquela época, a Coca-Cola tinha apenas uma bebida, em um único
tamanho.
"Era
uma empresa muito conservadora, que ganhava dinheiro com apenas um
produto", comenta.
Keith
reuniu os seus químicos e deu a eles o desafio de produzir uma nova bebida, que
não dependesse do saborizante enviado pelos americanos e que pudesse ser feita
em larga escala com os ingredientes cada vez mais restritos de um país em
conflito bélico de proporções mundiais.
A
solução veio das sobras.
O novo
refrigerante, em sua receita original, era feito de raspas de frutas, fibras e
polpa de maçã, açúcar de beterraba e soro de leite — que é o líquido que sobra
no processo de feitura do queijo.
Era o
que tinha, afinal: subprodutos da indústria alimentícia.
O
executivo então decidiu promover um concurso interno entre os funcionários para
chegar a um nome para o novo refrigerante. Acabou escolhendo Fanta, sugestão de
um vendedor, como uma redução da palavra alemã fantasie (fantasia,
em português).
A
engenheira de alimentos Tayla Danieli Lopes Dias, pesquisadora na Universidade
Estadual de Ponta Grossa define a situação.
"A
criação da Fanta não surgiu de uma estratégia planejada de expansão, mas de uma
necessidade imposta pela guerra", diz.
"A
ideia era apenas manter a empresa funcionando até que a guerra
terminasse", afirma Dias.
O
produto foi lançado no mercado alemão em 1942 e logo caiu no gosto popular. No
ano seguinte, 3 milhões de caixas de Fanta foram vendidas na Alemanha.
O
refrigerante acabou sendo usado não apenas para beber, mas também para adoçar
outros alimentos em época de sérias restrições.
"A
bebida original pouco lembrava a Fanta atual: tinha coloração escura, sabor
indefinido e era usada até mesmo como ingrediente culinário, em sopas e
sobremesas, diante da escassez de alimentos da época", descreve a
engenheira.
Com o
fim da Segunda Guerra em 1945, e a derrota da Alemanha, a produção da Fanta foi
interrompida.
Keith
foi reconhecido pela matriz americana como um excelente exemplo do mundo dos
negócios, afinal havia conseguido manter a operação de uma forma criativa,
mesmo em um cenário de dificuldades extremas.
Como
reconhecimento, ele se tornou o chefe de toda a operação europeia.
"A
empresa passou a ver Keith, que comandou a Coca-Cola dentro da Alemanha
nazista, como um herói por tê-la mantido viva durante a Guerra", salienta
Pendergrast.
"Eles
não sentiram nenhum constrangimento com isso."
O
pesquisador argumenta não haver dúvidas de que Keith foi colaborador do
nazismo, mas estava longe de ser um ideólogo ou um patriota.
O
empresário parecia agir por pragmatismo. Leal à sua empresa, buscava meios de
sobreviver em um regime autoritário. E não foi membro do Partido Nazista.
Donovan,
por sua vez, ressalta que "as empresas alemã e outras europeias da
Coca-Cola, que se viram obrigadas a se adaptar à vida sob o Terceiro
Reich" funcionavam, na época, como "entidades independentes durante a
Guerra".
"Operavam
sem orientação ou contato com os Estados Unidos e faziam o que podiam para
sobreviver", explica ele.
Por
meio da assessoria de imprensa da companhia, a BBC News Brasil solicitou
informações a respeito desta história tanto à subsidiária brasileira quanto à
matriz americana. A empresa, contudo, não quis se posicionar.
Na versão em português de seu site
oficial,
The Coca‑Cola Company diz que "os rumores de que a Fanta foi inventada
pelos nazistas são completamente falsos, nem Max Keith nem a empresa
engarrafadora estavam ligados ao regime".
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Na Itália, a versão laranja
Dez
anos mais tarde, em 1955, um novo refrigerante foi desenvolvido pela Coca-Cola
na Itália. Desta vez, o sabor principal seria a laranja.
A
escolha não foi aleatória. Segundo Donovan, refrigerantes de laranja já eram
uma categoria muito popular na época.
"Fazia
sentido que a Coca-Cola entrasse nesse segmento", avalia.
Na hora
de batizar a bebida, alguém se lembrou que a companhia já tinha o registro de
um nome muito bom: Fanta.
Professor
na Escola Superior de Propaganda e Marketing, o publicitário e administrador de
empresas Marcos Bedendo explica que, na época, quando uma empresa lançava uma
variação de um mesmo produto era comum que se recorresse a outra marca.
Para
ele, se fosse hoje, talvez o caminho natural seria chamar o novo refrigerante
de Coca Laranja, por exemplo.
"Porque
hoje se entende a marca como um ativo importante", explica.
Dos
escombros do nazismo, portanto, o nome Fanta foi recuperado e se tornou o
segundo tipo de refrigerante a integrar o portfólio da The Coca-Cola Company.
Em
1958, a bebida estava lançada no mercado americano.
"A
Fanta foi a primeira incursão da Coca-Cola em bebidas que não eram
Coca-Cola", comenta Donovan.
"Antes
disso, a empresa era quase puritana em sua dedicação exclusiva à produção da
Coca-Cola."
Conforme
analisa o jornalista, o refrigerante de laranja marcou a transformação da
Coca-Cola em uma empresa de bebidas, e não apenas em uma empresa de
refrigerante de cola.
E a
Fanta se tornou uma bebida totalmente diferente, sem manter "nenhuma outra
ligação com a bebida alemã além do nome", contextualiza Pendergrast.
"A
Coca-Cola detinha os direitos do nome Fanta, então o utilizou para sua nova
bebida em 1955", resume.
O
pesquisador admite que é curioso que a empresa tenha usado um nome de uma
bebida que se originou dentro da Alemanha nazista.
Mas, em
suas pesquisas, não encontrou nada que indique que a companhia norte-americana
"tenha se preocupado" com alguma associação ao nazismo por utilizar
essa marca com raízes no regime alemão.
Além
disso, ele recorda que a empresa se posicionou de forma clara a favor dos
esforços dos militares que lutavam contra o nazismo, com iniciativas como a que
garantia que qualquer militar do lado americano teria acesso a uma Coca-Cola
por apenas cinco centavos, não importasse onde estivesse no mundo.
"E
cumpriu essa promessa", enfatiza Donovan.
"A
bebida se tornou um símbolo de liberdade tanto para as tropas americanas como
para aqueles que estavam sendo libertados dos nazistas. Sob esse contexto, acho
que as pessoas de dentro e de fora da empresa, naquele momento, teriam enorme
dificuldade em imaginar que isso [o uso do nome Fanta] pudesse vir a ser um
problema", comenta o jornalista.
Dias
questiona se não seria melhor a empresa ter investido em outro nome, já que o
passado da Fanta carrega "uma sombra histórica delicada".
Embora
a bebida não tenha sido criada pelo regime nazista nem como propaganda
política, seu nascimento ocorreu dentro da Alemanha nazista, "o que
inevitavelmente gera questionamentos e desconforto", comenta.
"Para
a empresa, esse vínculo pode representar um risco reputacional, especialmente
em contextos de comunicação mal interpretados", avalia.
Por
outro lado, ela faz a ressalva de que, do ponto de vista mercadológico, a
decisão do uso da marca Fanta faz sentido.
"É
curto, sonoro, fácil de pronunciar em diferentes idiomas e já tinha
reconhecimento interno", diz.
Bedendo
também vê dessa forma. Segundo ele, o uso do nome veio de um contexto de
facilidade.
"Era
uma marca que já estava ali, era sonora e tinha a ver com fantasia. É um bom
nome, independentemente da origem."
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Variedade
Com o
passar o tempo, a empresa passou a contar com um amplo leque de bebidas entre
seus produtos.
A Fanta
se espalhou pelo mundo e, além da versão tradicional sabor laranja, se tornou o
rótulo para diversas experimentações e sabores distintos.
Na
preferência pessoal do brasileiro, a bebida ocupa a terceira posição, atrás da
Coca e do Guaraná Antarctica, conforme indicam
pesquisas como o Painel de Consumidor do Opinion Box.
Nesse
levantamento, que entrevistou 2.165 brasileiros, 77% dos consumidores de
refrigerante afirmaram ter tomado Coca-Cola nos últimos 12 meses, 64% citaram
Guaraná Antarctica e 48% se lembraram da Fanta.
Atualmente
no Brasil, conforme o site oficial da empresa, estão disponíveis as versões de
uva, de caju, de guaraná e de maracujá — nenhuma delas iguala a importância da
Fanta laranja na preferência popular, evidentemente.
Fonte:
BBC News Brasil

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