Por
que no clima frio é mais difícil para o corpo combater doenças respiratórias
“Pois a
chegada do inverno resolve as doenças do verão, e a chegada do verão elimina as
do inverno”, escreveu o homem considerado “o pai da medicina”, o médico e
filósofo grego Hipócrates, em 400 a.C.
Esse
relato é considerado o mais antigo estudo registrado sobre a variabilidade
sazonal de uma doença, a saber, a gripe. Entretanto, o motivo pelo qual algumas
doenças são periódicas foi um mistério que intrigou os cientistas até a era
moderna.
Ainda
não descobrimos totalmente, mas os pesquisadores agora entendem que, conforme o
ciclo das estações, os germes, seus hospedeiros e os ambientes que eles habitam
mudam juntos de maneiras complicadas que tornam as pessoas mais ou menos
propensas a contrair uma doença.
“Se
você perguntasse a cinco epidemiologistas de gripe o que eles acham que são as
contribuições relativas, você teria uma boa chance de obter cinco respostas
diferentes”, diz Dylan Morris, pesquisador de pós-doutorado da Universidade da
Califórnia de Los Angeles, nos Estados Unidos, que estuda a ecologia e a
evolução dos vírus, com uma risada.
Dito
isso, os cientistas descobriram como as mudanças de estação afetam não apenas
as estruturas físicas dos vírus, mas também as barreiras naturais do nosso
corpo contra doenças. Especialmente no inverno, o ar frio e seco e a falta de
luz solar afetam negativamente nossa capacidade de evitar infecções
respiratórias, como os vários tipos de vírus influenza, que causam a gripe ou o
coronavírus da Convid-19.
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O ar frio do inverno
Respirar
um ar mais frio e seco de fato altera o funcionamento do sistema imunológico,
afirma Akiko Iwasaki, imunologista da Universidade de Yale e pesquisadora do
Howard Hughes Medical Institute, nos Estados Unidos
Em um
artigo de 2015, Iwasaki e seus colegas demonstraram que no clima frio as
células que revestem as vias aéreas de camundongos produziam menos moléculas
chamadas interferons quando estavam mais frias. Os interferons são uma classe
de proteínas que soam o alarme de um vírus, chamando as células imunológicas,
que com sorte, conseguem interromper o processo de infecção.
“Desde
que esse estudo foi publicado, tenho dito aos meus filhos para usarem um lenço
em volta do nariz — e atualmente, obviamente, máscaras – porque isso permite
que a temperatura permaneça mais quente no nariz”, diz Iwasaki.
Mais
recentemente, Iwasaki e sua equipe descobriram que a baixa umidade também pode
diminuir a primeira linha de defesa do corpo: o muco nasal. As vias aéreas são
revestidas com a substância viscosa (o muco) e, abaixo dela, com cílios, que
servem como pequenas pás semelhantes a dedos usadas em todo o reino animal para
se movimentar.
Esses
dois componentes trabalham juntos como uma correia transportadora: O muco retém
a sujeira e os cílios batem juntos para mover o muco para fora do corpo pelo
nariz e pela boca. Alguém precisa de um lenço?
Esse
processo é chamado de depuração mucociliar, e o ar frio e seco não é seu amigo.
Como a baixa umidade, as camadas de muco ficam mais em nossos rostos e
gargantas, ela interrompe o movimento dos cílios, tornando mais difícil para o
corpo expulsar qualquer vírus invasor.
“Então,
essas coisas acontecem quando inalamos ar seco e, combinadas com o ar frio,
estamos realmente sobrecarregando a resposta imunológica do hospedeiro, de modo
que não somos mais capazes de combater bem essas infecções virais”, explica
Iwasaki.
Iwasaki
recomenda comprar um umidificador e manter sua casa com 40 a 60% de umidade.
“Dessa forma, não apenas ajudamos nossa resposta imunológica aos patógenos, mas
também, no ar úmido, as partículas que contêm vírus acumulam água”, diz ela.
“Em vez de serem transportadas pelo ar, elas caem no chão.”
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Os vírus da gripe e da covid-19 se desenvolvem mais no tempo frio
Com
base em experiências passadas com gripes e resfriados sazonais, os
especialistas em saúde pública têm alertado sobre um possível aumento de casos
de coronavírus no outono e no inverno (mesmo com boa parte da população já
vacinada, pois a transmissão segue ocorrendo).
Já que
o clima frio força as pessoas a ficarem em ambientes fechados, onde a
transmissão pelo ar se desenvolve tanto da influenza da gripe quando da
Covid-19.
A
influenza (especialmente os tipos A e B, mais comuns da gripe) ocorre de forma
sazonal – especialmente nos meses mais
frios em cada hemisfério do planeta – e pode causar “uma doença respiratória
altamente contagiosa capaz de infectar o nariz, a garganta e os pulmões”,
afirma a National Institutes of Health (NIH), a instituição nacional de saúde
dos Estados Unidos.
Em
relação ao coronavírus, Morris e seus colegas descobriram que temperaturas mais
baixas e umidades extremas (tanto altas quanto baixas) mantêm o vírus estável e
infeccioso por mais tempo. As temperaturas mais baixas retardam as reações
químicas, como as que causam a decomposição dos vírus. Isso significa que o
coronavírus pode flutuar livremente nas gotículas respiratórias por mais tempo.
Infelizmente,
a baixa temperatura e umidade são exatamente o que temos nos meses de inverno –
e comprovadamente agravam as infecções virais. Outras variáveis, como pessoas
que ficam em ambientes fechados e não recebem luz solar suficiente, também não
são muito favoráveis.
“Você
tem todos esses fatores que apontam na mesma direção, vários motivos para
esperar que os vírus respiratórios sejam um desafio maior no inverno”, afirma
Morris.
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Os benefícios da vitamina D e do sol
Com o
frio, o aumento do número de pessoas que passam o dia todo em ambientes
fechados agrava outra desvantagem do inverno: a redução da vitamina D. Além de
fortalecer os ossos, a vitamina D desempenha um papel importante na modulação
de nossas respostas imunológicas, afetando pelo menos 200 vias químicas
envolvidas com essas defesas essenciais, explica Annelise Barron, bioengenheira
da Universidade de Stanford que projeta versões sintéticas de moléculas
naturais.
Ela
está particularmente interessada em replicar o peptídeo (ou pequena proteína)
chamado LL-37, uma molécula antiviral, antibacteriana e antifúngica potente que
ocorre naturalmente em humanos. Isso porque os primatas são o único subgrupo de
mamíferos que depende da capacidade do corpo de absorver a luz solar e produzir
vitamina D para produzir esse peptídeo poderoso para imunidade.
Nossa
pele produz a vitamina D usando os raios ultravioleta B do sol para quebrar um
dos anéis de carbono de um precursor químico do colesterol. Embora alimentos
como peixes gordurosos ou leite fortificado possam fornecer parte da vitamina
D, é a luz solar que aumenta nossos níveis – e isso é um problema para as
pessoas que vivem mais longe da linha do Equador.
“Em
todo o mundo, mesmo durante os meses mais ensolarados, cerca de metade das
pessoas tem baixo nível de vitamina D”, diz Barron. “Agora, se formos para o
auge do inverno, em média, a porcentagem de pessoas com baixo nível de vitamina
D será mais de 80%.”
Níveis
adequados de vitamina D estão associados a menores riscos de doenças
inflamatórias, como diabetes tipo 1 e esclerose múltipla, bem como também menor
incidência de infecções respiratórias agudas.
Ainda
assim, tomar suplementos de vitamina D pode ajudar a regular melhor as defesas
naturais do corpo, afirma Barron, apontando para um estudo recente que mostrou
que a suplementação melhorou a atividade do LL-37 durante o inverno. Anthony
Fauci, ex-diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos
Estados Unidos, dizia que toma um suplemento diário de vitamina D para
estimular seu sistema imunológico.
Barron
recomenda 2 mil unidades internacionais, que é a medida padrão de substâncias,
de suplemento de vitamina D por dia. Isso é mais alto do que a orientação do
National Institutes of Health de 400 a 800 UI, mas está de acordo com o limite
superior das recomendações da Endocrine Society, e muito abaixo da dose diária
de 4 mil UI na qual a vitamina D se torna tóxica para adultos.
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O período de frio durante o outono e o inverno
A
produção de vitamina D não é a única função do corpo afetada pela variabilidade
sazonal da luz solar, comenta Micaela Martinez, ecologista de doenças
infecciosas da Universidade de Columbia, que estuda ritmos biológicos e doenças
sazonais.
Alguns
pesquisadores já estão propondo estudar como a interrupção do sono afeta a
vulnerabilidade do sistema imunológico de algumas pessoas. “Praticamente todos
os aspectos do nosso corpo – metabolismo, hormônios, imunidade – mudam com o
ciclo dia-noite”, diz ela.
Algumas
das primeiras pesquisas em cronobiologia com foco em doenças foram feitas sobre
o ciclo dia-noite e a melatonina. E um estudo de 2015 na Nature encontrou
variabilidade sazonal na expressão de cerca de 1/4 dos genes humanos, embora o
grupo não tenha demonstrado como ou se essa variação na expressão gênica afetou
a capacidade do sistema imunológico de combater invasores.
"Não
é que você tenha mais infecções no inverno e menos no verão. Não, para cada
doença infecciosa, há uma estação", explica Martinez, cujo laboratório
está trabalhando atualmente para mostrar como as mudanças sazonais afetam a
capacidade do sistema imunológico de afastar diferentes patógenos.
Historicamente, ela ressalta que as epidemias de sarampo se alastravam na
primavera, e a poliomielite atingia com mais força no verão.
Independentemente
da estação, Martinez se preocupa com o fato de as pessoas não estarem recebendo
luz solar suficiente para ajudar o corpo a funcionar de forma consistente, já
que cada vez mais passamos os dias dentro de casa.
Em um
estudo de pré-impressão publicado no final de 2020, sua equipe demonstrou como
os participantes do estudo equipados com sensores de luz na cidade de Nova York
tinham baixa exposição à luz natural durante todo o ano e pouca variabilidade
entre as estações.
Ela
recomenda absorver um pouco da luz solar matinal para ajudar na transição para
o modo diurno e regular as funções vitais, incluindo, esperamos, manter seu
corpo preparado para combater patógenos respiratórios como a influenza.
Fonte:
National Geographic Brasil

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