segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Os latinos eleitores de Trump desiludidos com seu governo: 'Ele prometeu que os preços iriam cair, e não caíram'

Quando Sam Negron, outrora um eleitor do Partido Democrata, foi às urnas para votar em Donald Trump (Partido Republicano) para presidente dos Estados Unidos, em 2024, tinha uma prioridade em mente: a economia.

"Não gostei de pagar US$ 7 [cerca de R$ 37] por ovos", disse Negron, um policial estadual da Pensilvânia na cidade de Allentown, de maioria latina. "Mas, basicamente, eram todos os argumentos de campanha dele… tornar os EUA um país forte novamente."

Negron, que migrou para o Partido Republicano em 2019 após décadas como democrata, não estava sozinho.

Na vitória presidencial decisiva em 2024, Trump contou com o apoio de milhões de eleitores latinos, que o ajudaram a cruzar a linha de chegada. Naquela eleição, Trump obteve a maior porcentagem de votos latinos já registrada por um republicano na história dos EUA, com 46% do eleitorado diverso votando a seu favor.

Mas, um ano após o início desse mandato, surgem sinais de desgaste no apoio desse segmento.

Uma nova pesquisa da CBS News, parceira da BBC nos EUA, indica que o apoio de latinos nos EUA a Trump caiu para 38%, uma queda significativa em relação ao pico de 49% registrado no início de fevereiro de 2025, após seu retorno à Casa Branca.

O voto latino é vasto e diversificado, abrangendo comunidades de diferentes tamanhos, origens e poder econômico.

Coletivamente, no entanto, os latinos formam o maior bloco de eleitores não brancos do país, totalizando mais de 36 milhões de pessoas.

Os dados mostram que os ganhos de Trump entre esses eleitores em 2024 foram, em grande parte, resultado da insatisfação com a economia nos últimos anos do governo do então presidente americano, Joe Biden (Partido Democrata).

Uma pesquisa do Pew Research Center indicou que 93% dos latinos que votaram em Trump consideraram a economia sua principal preocupação, enquanto a criminalidade com uso de violência e a imigração ficaram muito atrás.

Essas mesmas questões podem agora voltar a ser um problema para Trump.

Segundo a nova pesquisa da CBS, 61% dos latinos desaprovam a forma como Trump lida com a economia, enquanto 69% desaprovam seu manejo da inflação. A grande maioria afirmou que avalia o desempenho da economia dos EUA pelos preços.

O estrategista republicano Mike Madrid, crítico de Trump e um dos mais conhecidos observadores da política latina nos EUA, afirmou acreditar que os eleitores latinos se "voltaram completamente" contra Trump, principalmente por questões econômicas.

Segundo Madrid, essa tendência se repete em relação ao cenário enfrentado pelos democratas nas eleições de novembro de 2024. "O deslocamento dos latinos para a direita foi mais resultado de eles deixarem o Partido Democrata [por causa da economia] do que de terem sido atraídos pelo Partido Republicano."

"Muita gente por aqui votou em Trump desta vez, porque nada estava acontecendo com Biden", disse Moses Santana, morador de uma área de maioria latina no norte da Filadélfia (EUA), onde Trump conquistou apoio em 2024.

"Mas a situação continua difícil… quem tem baixa renda claramente sente o impacto dos preços", acrescentou Santana, que trabalha em um centro de redução de danos de drogas. "Muitos acham que Trump tem grande responsabilidade pelos problemas deles."

A avaliação de Santana foi confirmada por John Acevedo, corretor de imóveis de 74 anos e morador de Pasadena, na Califórnia (EUA).

"A economia não vai bem. Os preços subiram", disse ele. "Ele prometeu que cairiam. Não caíram."

Embora as autoridades da Casa Branca destaquem a queda nos preços da gasolina, a arrecadação com tarifas e o investimento estrangeiro como conquistas econômicas, pesquisas indicam que uma ampla parcela dos americanos continua preocupada com a desaceleração do mercado de trabalho, os preços altos e a questão da acessibilidade.

De acordo com dados oficiais de dezembro de 2025, a inflação anual nos EUA era de 2,7%, e a inflação anual dos alimentos, especificamente, era de 3,1%. A meta de inflação do Banco Central americano (Fed) é de 2%. Isso significa que os preços não estão caindo, como afirmou Trump, mas aumentando em ritmo mais lento.

(A título de comparação, o Brasil registrou em dezembro de 2025 uma inflação anual de 4,26%, e uma inflação anual dos alimentos de 2,95%. A meta do Banco Central brasileiro é de 3%).

Trump atribuiu repetidamente quaisquer problemas econômicos persistentes à gestão de Biden.

A inflação atingiu 9,1% em junho de 2022, o nível mais alto em 40 anos, durante o governo Biden, quando as economias globais ainda lidavam com os efeitos da pandemia. O índice havia recuado ao final do mandato de Biden para 2,9%.

O argumento do presidente Trump é algo que ao menos parte de seus eleitores latinos se dispõe a considerar.

Lydia Dominguez, nascida no México, veterana da Força Aérea há 10 anos e integrante do Conselho Escolar do Condado de Clark, em Las Vegas, afirmou acreditar que tem sido "bem difícil" colocar a economia nos trilhos neste governo, apesar de considerar os esforços.

"[Eles] certamente foram muito produtivos em atrair empresas e trazer fábricas para os EUA", disse, acrescentando que, embora os preços continuem altos, atribui a Trump o mérito de "dar mais autonomia" às empresas e aos seus funcionários.

Mesmo entre alguns apoiadores fervorosos de Trump, as questões econômicas geram sentimentos ambíguos em relação ao presidente.

É o caso de Amanda Garcia, pecuarista que mora perto de Rio Grande City, no Texas, na fronteira com o México.

Embora esteja, de forma geral, satisfeita com o governo Trump, especialmente pelo tratamento das questões de fronteira e imigração, Garcia disse ter enfrentado interrupções de mercado provocadas pelas campanhas de tarifas do presidente americano.

"Isso realmente afeta a economia e impacta a nós [pecuaristas] de outra forma", afirmou. "Às vezes, é só ele tuitar algo [sobre comércio], e isso irrita alguém, o que pode ter um efeito real."

"Não acho que ele perceba isso às vezes."

Outros eleitores latinos manifestaram preocupação com as operações de fiscalização migratória de Trump, que incluíram ações do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) em todo o país e a deportação de mais de 600 mil pessoas apenas entre janeiro e início de dezembro de 2024.

"Sou contra tudo isso", disse Rebeca Perez, trabalhadora de restaurante na cidade de Oxnard, na Califórnia (EUA), que sofreu grandes operações de fiscalização em locais de trabalho em junho. "Este deveria ser um país livre para todos, mas não é."

Perez acrescentou que, em Oxnard, um dos centros agrícolas da Califórnia, produtos foram desperdiçados nas fazendas porque os trabalhadores têm medo de comparecer ao trabalho.

A pesquisa da CBS mostrou que 70% dos latinos desaprovam a forma como Trump lida com a imigração, bem acima da média nacional, de 58%.

Embora os latinos estejam divididos quanto ao apoio às metas de deportação de Trump, 63% afirmaram não gostar da maneira como ele as está implementando.

No entanto, vários latinos ouvidos pela BBC disseram apoiar as operações de imigração, justificando-as como uma forma de proteger empregos e meios de subsistência de imigrantes legais e cidadãos americanos.

"Como ser humano, eu me solidarizo com eles. Eles são pobres em seus países", disse Sam Negron, agente estadual em Allentown. "Mas adivinha? Também sou pobre no meu."

Assim como ocorre com a economia, a política migratória de Trump também gerou sentimentos contraditórios entre alguns daqueles que ainda o apoiam após um ano no cargo.

Oscar Byron Sarmiento, um eletricista de Houston (EUA), afirmou que, embora considere que Trump esteja fazendo "um ótimo trabalho", também acredita que a repressão à imigração "foi um pouco extrema".

"Há muitas pessoas boas. Imigrantes que respeitam a lei", disse. "Sim, estão aqui ilegalmente, mas não acho que precisemos persegui-los."

Eles querem estar nos EUA e contribuir, acrescentou Sarmiento. "Seguem as regras. Como avós, mães, tias e tios. [...] Deixem essas pessoas em paz."

O estrategista político Mike Madrid afirmou que reduzir ou reverter índices de desaprovação preocupantes entre eleitores latinos provavelmente será um desafio para a Casa Branca de Trump antes das eleições de meio de mandato ainda este ano (quando parte das cadeiras do Congresso estarão em disputa).

"Nós [latinos] temos o vínculo partidário mais fraco de todos os grupos e podemos rejeitar ambos os partidos quando eles falham conosco ou não são honestos", acrescentou Madrid. "Ambos os partidos podem ser culpados disso."

Os problemas do presidente entre os latinos são reconhecidos até por muitos apoiadores de Trump, que esperam que sejam corrigidos a tempo.

"Há preocupações crescentes", disse Crystal, esposa de Oscar Byron Sarmiento. "Neste momento, Trump está em queda, simplesmente porque não consegue se antecipar à narrativa."

¨      Doutrina Donroe: Trump arrocha salários e aumenta dívida dos trabalhadores no Brasil. Por César Fonseca

O que aconteceu de mais importante na economia brasileira esta semana foi a valorização espetacular nas bolsas de valores.

Em janeiro, quem aplicou em ações ganhou cerca de 45%, 3 x 15%, patamar do juro Selic, taxa de juro mais alta do mundo.

Tudo isso decorre da política econômica do imperador Donald Trump, comandante da Doutrina Donroe.

Seu objetivo central é desvalorizar o dólar para aumentar exportações americanas e fortalecer a industrialização nos Estados Unidos.

Dessa forma, os EUA tentam disputar com as exportações chinesas, mais competitivas do mundo na atualidade.

O efeito imediato da desvalorização do dólar é a desdolarização da economia americana.

A moeda dos EUA migra para outros mercados, onde o juro é mais alto.

Como o Brasil pratica o juro mais alto do mundo — abaixo somente da Turquia —, a fuga de dólares busca nosso país.

Os investidores externos, portanto, estão se fartando tanto nos juros especulativos como nas ações com a fuga de dólares dos Estados Unidos, que aceleram, por sua vez, a desdolarização.

Por que desdolarização?

Simples.

Quem tem dinheiro aplicado nos títulos do Tesouro americano vende esses papéis diante dos riscos de desvalorização da papelada.

A dívida pública americana já se aproxima dos 40 trilhões de dólares, criando instabilidades gerais.

<><> Efeitos sobre trabalhadores

A corrida para o Brasil, como se verificou nesta semana, prejudica os trabalhadores brasileiros, que já recebem o mais baixo salário mínimo da América Latina, perdendo apenas para a Venezuela, segundo a Cepal.

O juro elevado, que atrai dólar, aumenta a dívida pública, que fortalece o discurso neoliberal favorável aos cortes de gastos sociais, enquanto preserva os gastos financeiros, especulativos, exigindo pagamentos de juros de cerca de R$ 1 trilhão/ano, 8% do PIB.

A redução dos gastos sociais, que puxam a economia, e dos investimentos em infraestrutura diminui salários em subempregos no cenário de subconsumismo, enquanto amplia a desigualdade social.

Tal lógica só fortalece o rentismo enquanto enfraquece a renda média, que mantém a economia na armadilha do baixo crescimento.

Por isso, os trabalhadores, no contexto do rentismo em ascensão, ao lado da supervalorização do mercado acionário, sem correspondência na valorização dos salários, estão cada vez mais endividados.

O BC informa que 49,9% da renda dos trabalhadores estão comprometidos com dívidas no cartão de crédito, pagando juros de 60% na faixa livre do crediário.

Ou seja, a política macroeconômica neoliberal — abertura total ao capital externo, câmbio flutuante, cortes de gastos sociais para fazer superávit primário e metas inflacionárias hiperestritivas (3% a.a.) — achata os salários quanto mais avança a entrada especulativa de dólar bombeada pela estratégia econômica de Trump.

A desdolarização econômica global — que reflete a decadência da economia americana frente à economia chinesa —, responsável maior pelo aumento do juro no Brasil, vira funeral dos trabalhadores brasileiros mergulhados no arrocho salarial neoliberal.

A saída nacionalista, para impedir esse naufrágio neoliberal acelerado pela sangria de dólares rumo à economia brasileira, patrocinada pelo trumpismo imperialista, teria ou não que começar pelo estancamento da enxurrada da moeda americana rumo à América do Sul, neste momento?

Esta é a tática imperialista do poder monetário intrínseco à Doutrina Donroe, que não deixa o capitalismo periférico crescer sustentavelmente.

 

Fonte: BBC News/Brasil 247 

 

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