Reflexão,
resistência a trituração consumista
Na
novela “A morte de Ivan Ilitch”, Tolstói relata o drama de um juiz russo que ao
longo da vida construiu uma carreira profissional respeitável. Fez tudo o que
se esperava para ter uma existência bem sucedida, uma vida social aprovada.
Entretanto, diante da morte, compreendeu que tudo não havia passado de uma
representação. Amizades, esposa, bens, todas as escolhas foram ditadas pela
ambição. Uma vida cheia de conquistas, vazia de sentido.
Ivan
Ilitch nunca parou para refletir se viver de acordo com “o que se esperava” era
o que ele realmente queria. A doença interrompeu a farsa de sua vida
superficial, focada em adquirir bens, conquistar status e seguir convenções
sociais. Mas já não havia tempo para viver sob novas escolhas.
Escrita
no final do século XIX, a novela nos convida a refletir sobre todos os modismos
e tendências que o sistema capitalista cria continuamente para manter-se. No
atual estágio, nós, cidadãos, fomos convertidos em consumidores e andamos
agarrados aos smartphones, que nos atualiza instantaneamente sobre as novas
tendências.
A
sensação de que o tempo é um recurso escasso e cada momento deve ser produtivo
nos faz abandonar a reflexão, necessária para escaparmos da adesão voluntária
às tendências e novas formas de exploração e de controle do sistema
capitalista. As agendas estão sempre lotadas, porque dessa forma também se
reconhece ou faz-se reconhecer-se como bem sucedido, como aponta o antropólogo
Michel Alcoforado em “Coisa de rico: a vida dos endinheirados brasileiros”.
A vida para o consumo transcorre em um
movimento frenético, com novas tecnologias a serem dominadas, conhecimentos a
serem aplicados, modismos a serem absorvidos. O medo de ficar desatualizado, de
perder oportunidades profissionais ou financeiras, guia as decisões de
indivíduos e grupos. Modelos de sucesso são exaustivamente renovados,
apresentados como tendência.
Nem
mesmo o processo de envelhecimento escapa a essa lógica. No momento em que a
expectativa média de vida do brasileiro sobe para quase 77 anos e a taxa de
natalidade declina, o sistema se antecipa para assegurar que as pessoas
seguirão consumindo bens, produtos e serviços anteriormente direcionados apenas
aos mais jovens.
Mensagem
que circula nas redes sociais afirma que existe uma nova forma de se dirigir às
pessoas 60+ ativas, que não se reconhecem mais no rótulo de idoso, termo que
estaria carregado de ideias
ultrapassadas sobre limitações e fim de ciclos. O termo correto seria NOLT —
New Older Living Trend — pessoas que seguem vivendo com propósito, curiosidade
e vontade de evoluir.
De
acordo com a ideia, essas pessoas continuam a estudar, aprendem novas
tecnologias, iniciam uma segunda ou até terceira graduação; abrem novos
negócios, empreendem, mudam de carreira ou transformam antigos sonhos em
projetos reais. Portanto, segundo essa concepção, chamá-los de NOLT é
reconhecer que envelhecer mudou e viver bem depois dos 60 não é exceção, é
tendência.
Outra
situação exemplar é a forma como usufruímos nosso tempo livre do trabalho. A
indústria do turismo transformou as viagens e dita uma maneira de fazer
turismo. Agentes de viagens cronometram todo o nosso tempo, assegurando que
será preenchido com experiências devidamente instagramáveis.
Antes
reservadas ao lazer, à fruição, hoje as viagens prometem crescimento pessoal e
aprendizagens que podem ser úteis à carreira profissional. O resultado é que
quase sempre chegamos a nossa casa
exaustos, necessitando de dois ou três dias de descanso para nos recuperarmos
da intensa programação das férias.
No
capitalismo, ainda que limites financeiros possam dificultar a realização dos
sonhos, não devem ser impeditivos. Afinal, os cartões de crédito existem para
propiciar aventuras, descobertas, felicidade. Não é preciso adiar os desejos e
futuramente se pensa em como pagar as despesas.
Na
sociedade do consumo, a oferta de crédito permanente transforma clientes em
fonte de lucro para bancos e empresas de cartões de crédito. Na obra “Vida para
consumo: a transformação das pessoas em mercadoria”, o sociólogo Zygmunt Bauman
explica que, nesta fase líquida da modernidade, a fonte primária de acumulação
capitalista se transfere da indústria para o mercado do consumo. E, nesse
momento, o Estado garante disponibilidade contínua de crédito e habilitação
contínua de consumidores para obtê-lo.
Segundo
dados do Banco Central (BC), em outubro de 2025, 49,3% das famílias brasileiras
estavam endividadas. O acesso facilitado via bancos digitais e novos aparatos
jurídicos explicariam o fenômeno.
Como se
não bastasse, o sistema também cria constantemente novas formas de explorar os
indivíduos. Os sites de apostas estão aí para demonstrar como enriquecer uns
poucos às custas da falência e adoecimento de muitos. Uma nova compulsão é
inserida, novos tratamentos e medicamentos são introduzidos e o ciclo
prossegue, alimentado pela adesão mecânica dos consumidores.
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Disciplinamento e adesão voluntária ao consumismo
Nesta
fase do capitalismo novas formas de disciplinamento e controle social coexistem
com formas tradicionais, como vigilância dos trabalhadores por supervisores e
gerentes e mensuração de produtividade. Instituições disciplinares como igrejas
e escolas ainda exercem papel importante na preparação e adesão dos indivíduos
à lógica da sociedade do consumo.
Ao
mesmo tempo, meios de comunicação de massa e redes sociais, dominados pelo
entretenimento banal e irracional, bombardeiam o sujeito com mensagens que
estimulam o consumo constante. Mídia, publicidade e redes sociais promovem
estilos de vida, criam necessidades e desejos que limitam a pulsão social ao
campo da mercadoria, esvaziando as relações humanas de sentido não comercial.
Quando
a lógica mercantil se expande para todas as esferas da vida, o corpo também é
visto como uma mercadoria, um produto, um objeto de culto. Identificamos como
tendência o culto à boa forma física, o corpo moldado de acordo com a estética
valorizada no momento. Esse corpo, inclusive, deve ser exibido, pois passa a
ser indicador de atributos como força de vontade, disciplina e empenho,
valorizados especialmente no mundo do trabalho e do empreendedorismo.
No
entanto, conseguir o corpo ideal, com músculos bem definidos, requer mais que
exercícios, exige suplementos, nutrientes específicos, prontamente produzidos
pela indústria. Se o caso for excesso de
peso, uma vasta indústria de emagrecimento também socorre a pessoa gorda. Uma
imensa variedade de intervenções é ofertada, como cirurgias, passando por
remédios e canetas emagrecedoras, clínicas, nutricionistas, cardápios low carb
e, quem sabe, uma reeducação alimentar, o que seria mais efetivo, ainda que sem
o resultado imediato desejado. Afinal, a magreza também é tendência.
Uma
mente sã também é importante mas, se entra em colapso por razões diversas, como
excesso de trabalho, de cobrança, de expectativa, de frustração por não
alcançar o ideal apontado nas redes sociais por influencers alçados à posição
de semideuses; ou devido a distúrbios,
quase sempre associados à inadaptação ao estilo de vida, não se questiona o
padrão que faz adoecer a quase totalidade da humanidade, antes lança-se mão de
toda sorte de medicamentos desenvolvidos por um dos setores mais lucrativos, a
indústria farmacêutica.
Contudo,
ainda que com a ajuda de drogas lícitas ou ilícitas, não se alcança a desejada
saúde mental, não há motivo para desespero. Uma legião de seitas, guias
espirituais, mentores e coaches estão prontos a ajudar, direcionar, apaziguar
mentes ansiosas e fragilizadas, que espontaneamente transferem pequenas ou
grandes quantias monetárias às lideranças espirituais.
Em
suma, na sociedade atual todas as experiências humanas, desde as mais banais
como o autocuidado, até as mais profundas, como a espiritualidade,
transformam-se em relações consumistas. Novas formas de controle e
disciplinamento promovem a adesão a um estilo de vida que converte pessoas em
mercadorias, enquanto a individualização da culpa pelo sucesso ou fracasso da
vida desvia o olhar justamente das estruturas sistêmicas que causam
desigualdade e adoecimento.
Todavia,
não estamos fadados a reviver o drama de Ivan Ilitch. Podemos escapar da adesão
cega ao consumismo se, de forma intencional e constante, examinarmos nossos
pensamentos, experiências e ações. Dedicar tempo à reflexão significa trazer o
pensamento de volta para os próprios valores, ações e essência.
Fonte:
Por Jaqueline Morelo, em Outras Palavras

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