Fábio
Caetano: Rios amazônicos - a dimensão real da vitória
A
revogação do Decreto nº 12.600/2025 representa uma vitória política
significativa do movimento indígena do Baixo Tapajós e um marco recente na luta
dos povos originários pela garantia de seus direitos territoriais e de
participação nas decisões que afetam diretamente seus modos de vida. Trata-se
de uma conquista construída a partir de uma sequência consistente de
mobilizações, que expressam não apenas uma reação a medidas administrativas
específicas, mas também a consolidação de um protagonismo político cada vez
mais estruturado diante de um modelo de desenvolvimento que avança sobre os
rios e territórios da Amazônia.
Esse
ciclo de mobilizações teve início em janeiro de 2025, quando povos indígenas do
Baixo Tapajós ocuparam por cerca de 30 dias a sede da Secretaria de Educação do
Estado do Pará, em Belém, em protesto contra medidas que afetavam diretamente a
educação indígena. A ocupação resultou em recuos concretos por parte do governo
estadual, que exonerou o secretário de educação e revogou a lei estadual
10.820/2024, cuja redação retirou artigos que tratavam da Educação Indígena a
Distância. Essa vitória demonstrou a capacidade de incidência política dessas
populações quando atuam de forma articulada e persistente.
Meses
depois, durante a realização da COP30, também em Belém, lideranças indígenas
protagonizaram uma ação de grande repercussão ao ocupar a chamada Blue Zone,
espaço institucional da ONU. O objetivo foi denunciar a ausência de consulta
prévia, livre e informada — direito assegurado pela Convenção 169 da
Organização Internacional do Trabalho, da qual o Brasil é signatário — em
decisões relacionadas a intervenções estruturais nos rios amazônicos. A ação
gerou tensão com as forças de segurança, mas também resultou em um compromisso
público por parte do Ministro Boulos, que afirmou na Cúpula dos Povos que obras
com impacto sobre territórios tradicionais não seriam executadas sem a devida
consulta aos povos afetados.
Entretanto,
esse compromisso foi fragilizado com o lançamento, em dezembro de 2025, de um
edital prevendo investimentos públicos de 74 milhões de reais para a dragagem
do rio Tapajós, medida diretamente vinculada à ampliação da capacidade
logística da região para o escoamento de commodities agrícolas. A decisão foi
interpretada pelos povos indígenas como uma ruptura do acordo firmado e como
evidência de que os compromissos institucionais assumidos não estavam sendo
plenamente respeitados.
Em
resposta, iniciou-se, em janeiro de 2026, uma nova etapa de mobilização. Povos
indígenas passaram a ocupar as instalações da Cargill, um dos principais
operadores logísticos de grãos na região amazônica. A mobilização reuniu
representantes de 17 etnias, incluindo povos cuja língua principal não é o
português, evidenciando a complexidade sociocultural do movimento e a
necessidade de procedimentos institucionais compatíveis com essa diversidade.
Após 31
dias de ocupação, a resposta institucional ocorreu de forma célere no que se
refere à proteção dos fluxos econômicos. Uma decisão judicial, comunicada ao
movimento por megafone e exclusivamente em português, determinou a desobstrução
das vias de acesso à empresa no prazo de 48 horas. Contudo, segundo
apontamentos do Ministério Público Federal, essa comunicação não respeitou
adequadamente a diversidade linguística e cultural dos povos envolvidos,
levantando questionamentos sobre a efetividade do acesso à justiça e a
observância dos protocolos legais aplicáveis aos povos indígenas.
Como
resposta política, o movimento ampliou sua ação, reforçando barricadas e
ocupando o escritório administrativo da empresa, sinalizando que não recuaria
diante de decisões que, na percepção das lideranças, priorizavam a fluidez
logística em detrimento do respeito aos direitos fundamentais dos povos
originários. Esse processo culminou no recuo do governo federal, que 33 dias
após o início da ocupação revogou o Decreto nº 12.600/2025, resultado direto da
pressão política exercida pelos povos indígenas e suas organizações.
Essa
revogação, embora represente uma vitória concreta e relevante, não encerra o
conflito em curso. O que está em disputa não é apenas um decreto específico,
mas a consolidação de um projeto estrutural mais amplo, conhecido como Arco
Norte. Esse projeto envolve a reconfiguração da Amazônia como principal
corredor logístico de exportação de commodities agrícolas, especialmente soja,
por meio da ampliação da navegabilidade de rios como o Tapajós, o Rio Madeira e
o Rio Tocantins.
Esse
modelo pressupõe intervenções como dragagens, derrocagens e construções ou
ampliações de portos e terminais logísticos, com o objetivo de reduzir custos
de transporte e aumentar a competitividade internacional do agronegócio
brasileiro. No entanto, essas intervenções incidem diretamente sobre
territórios ocupados por povos indígenas e comunidades ribeirinhas, além de
afetarem ecossistemas altamente sensíveis e essenciais para a reprodução da
vida aquática e a segurança alimentar regional.
Projetos
como a expansão da dragagem no rio Madeira e a derrocagem do Pedral do
Lourenção, no rio Tocantins — que já possui licença de instalação e prevê
intervenções em cerca de 35 quilômetros de formações rochosas fundamentais para
a reprodução de peixes — indicam que o processo de transformação dos rios
amazônicos em hidrovias logísticas permanece em andamento.
O
Ministério Público Federal tem atuado no questionamento dessas iniciativas,
apontando falhas relevantes nos processos de licenciamento, incluindo a
ausência de consulta adequada às populações tradicionais, a exclusão de grupos
impactados dos estudos socioeconômicos e a insuficiência das medidas de
compensação previstas. Esses questionamentos evidenciam que o conflito não se
limita a divergências pontuais, mas envolve concepções distintas sobre
desenvolvimento, território e democracia.
O
movimento indígena do Baixo Tapajós demonstra, neste momento, a capacidade
concreta de interferir no curso de decisões estatais e de afirmar, na prática,
o princípio constitucional de que os povos indígenas devem ser reconhecidos
como sujeitos de direito, e não como obstáculos ao desenvolvimento. A revogação
do decreto representa, portanto, não apenas uma vitória administrativa, mas a
afirmação de um princípio político fundamental: não há legitimidade em decisões
que afetam territórios tradicionais sem a participação efetiva de seus
habitantes.
Ao
mesmo tempo, a continuidade de projetos estruturais em andamento indica que
este é um processo ainda em aberto. O futuro da região dependerá da construção
de mecanismos institucionais de diálogo e planejamento participativo que
garantam o envolvimento das populações tradicionais na definição de modelos que
reconheçam os povos e a sociobiodiversidade como ativos fundamentais para o
desenvolvimento econômico, o respeito aos direitos coletivos e a regulação
climática do planeta.
Nesse
sentido, a mobilização indígena do Baixo Tapajós não deve ser compreendida como
um evento isolado, mas como parte de uma transformação mais ampla na relação
entre Estado, território e sociedade amazônica contemporânea.
A
vitória é real, mas o conflito estrutural permanece, exigindo vigilância
contínua, compromisso institucional e o fortalecimento permanente dos espaços
democráticos de participação.
• Mobilização indígena faz governo federal
recuar e revogar o Decreto nº 12.600/2025. Por Por Adi Spezia e Hellen Loures
A
defesa dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins ecoou de Santarém a Brasília. Após
mais de um mês de ocupação do terminal da Cargill, em Santarém (PA), e da
mobilização de quase 2 mil indígenas do Baixo Tapajós, o governo federal
anunciou, nesta segunda-feira (23), a revogação do Decreto nº 12.600/2025.
O
anúncio foi realizado pelos ministros Guilherme Boulos, da Secretária-geral da
Presidência da República, e Sônia Guajajara, dos Povos Indígenas, após se
reunirem com lideranças do movimento. A decisão do governo federal de revogar o
decreto foi publicada no Diário Oficial da União (DOU), desta terça-feira (24).
Boulos
afirmou que a decisão foi resultado da mobilização indígena e do processo
interno de discussão no governo. “Os povos indígenas vêm de uma manifestação de
mais de 30 dias questionando o decreto, apontando os efeitos que poderiam ter
para suas comunidades, também para quilombolas e ribeirinhos. A
Secretária-geral da Presidência e o Ministério dos Povos Indígenas têm feito o
diálogo nesse período e, após um processo de discussão dentro do governo, que
ouviu várias posições, firmou-se hoje a decisão pela revogação do Decreto nº
12.600”, disse o ministro.
Lideranças
indígenas dos 14 povos do Baixo Tapajós já estavam em Brasília, entre 23 e 27
de fevereiro, para cobrar a revogação do Decreto nº 12.600/2025, quando o
governo federal anunciou a decisão. A medida foi editada pelo próprio governo
federal em agosto do ano passado. Ela incluía os rios Madeira, Tocantins e
Tapajós no Programa Nacional de Desestatização (PND), concedia a empresas
privadas a realização de dragagem e o controle do tráfego de embarcações nessas
áreas. A proposta impactava de forma irreversível os territórios indígenas e de
outras comunidades tradicionais, como ribeirinhos e quilombolas, além da
biodiversidade e dos ecossistemas locais.
Durante
o protesto, a empresa ingressou na Justiça com pedido de reintegração de posse.
No sábado (21), data em que a mobilização completou um mês, os manifestantes
ampliaram a ocupação para a área interna do terminal.
“Hoje,
entra para a história como o dia da revogação do Decreto nº 12.600, uma
conquista construída com coragem, união e resistência”, afirma Auricélia
Arapiun, liderança do povo Arapiun, que participa de mobilização na capital
federal junto com outras 35 lideranças do Tapajós.
Do
terminal da Cargill, Alessandra Korap, liderança do povo Munduruku, conta que
essa conquista é fruto da luta dos povos do Tapajós. “Aqui estamos na Cargill
obrigando o governo a revogar o Decreto 12.600. Isso é resistência do Tapajós.
Conseguimos derrubar a usina hidrelétrica de São Luís Tapajós. E agora
conseguimos revogar o decreto que privatiza os três rios. Isso é muita luta,
isso é acreditar na força da natureza, isso é acreditar no nosso corpo, na
nossa alma”, conta Alessandra.
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Ocupação do terminal da Cargill
Desde o
dia 21 de janeiro, indígenas da região do rio Tapajós passaram a ocupar o
terminal da empresa estadunidense Cargill, em Santarém (PA). A mobilização
tinha como objetivo denunciar e resistir ao avanço de um modelo de
desenvolvimento considerado predatório, que, segundo as lideranças, ameaça a
vida do rio Tapajós e a existência de diversas comunidades tradicionais.
Após 14
dias de ocupação, o governo federal se dispôs a dialogar. À época, os indígenas
apresentaram como reivindicações a anulação da licitação para dragagem do rio
Tapajós, a revogação do Decreto nº 12.600 e a garantia da consulta prévia,
livre, informada e de boa-fé, conforme estabelece a Convenção 169 da
Organização Internacional do Trabalho (OIT). As demandas, no entanto, não foram
plenamente atendidas naquele momento.
O
governo anunciou apenas a suspensão do Pregão Eletrônico e a criação de um
Grupo de Trabalho Interministerial, sem devolutiva prévia ao movimento
indígena. Para as lideranças, a suspensão não equivalia à anulação, e as
garantias apresentadas eram consideradas insuficientes para proteger o rio
Tapajós e os territórios indígenas.
Durante
a mobilização, Alessandra Korap, liderança do povo Munduruku, declarou: “Não
iremos tolerar a entrega dos nossos rios às multinacionais do agronegócio. Os
rios Tapajós, Madeira e Tocantins pertencem ao povo brasileiro e não serão
transformados em estrada para a soja”.
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Decisão Judicial
A
empresa ingressou na Justiça na sexta-feira (20) com pedido de desocupação do
terminal, e foi concedido prazo de 48 horas para a liberação das vias de acesso
à Cargill. No sábado (21), quando a mobilização completou um mês, os
manifestantes ampliaram a ocupação para a área interna do terminal.
Em
carta aberta, o Conselho Indígena Tapajós Arapiuns (Cita) afirmou que a decisão
“não foi impulsiva, nem violenta. Foi construída coletivamente, a partir da
escuta dos mais velhos, de análises jurídicas e políticas e da indignação
diante do Decreto nº 12.600”. No documento, os indígenas declararam: “Estamos
aqui porque defendemos o direito de existir. Durante trinta dias aguardamos
posicionamento oficial do governo federal”.
Na
carta, o Cita reforçou a denúncia contra o decreto e afirmou que “os projetos
do governo atravessam territórios vivos” e que “os rios não são canais de
exportação, são fonte de vida, sustento, memória e identidade”. Ao mesmo tempo,
o movimento ressaltou não querer “tratar essa questão como caso de polícia” e
exigiu “posicionamento claro da Presidência da República”, além de “diálogo
efetivo antes de qualquer decisão que avance sobre os territórios”.
Ao
analisar o pedido, o juiz federal Eneias Alexandre Gonçalves Torres, da
subseção judiciária da Justiça Federal em Santarém, entendeu que a adoção de
medidas para desocupação não seria adequada durante o plantão judicial. O
magistrado considerou a presença de mulheres, crianças e idosos entre os
manifestantes, apontando risco de agravamento do conflito em caso de uso de
força policial.
“Retomamos
nosso território sagrado de Vera Paz, que foi invadido pela Cargill anos atrás.
Não estamos mexendo nem depredando, é um ato pacífico dos povos indígenas. Foi
uma resposta ao governo federal, que não nos deu nenhuma posição sobre a
revogação do decreto, e também à Justiça, que nos deu 48 horas para sair”,
explicou Auricélia.
A
decisão esteve em conformidade com recomendação do Ministério Público Federal
(MPF), de 9 de fevereiro, para que não fosse utilizada força policial para
impedir as manifestações.
Mesmo
após o anúncio da revogação, cerca de 2 mil pessoas permaneciam no terminal,
principalmente indígenas das regiões do Médio, Alto e Baixo Tapajós.
Alessandra
Munduruku afirmou que a mobilização se fortalecia com a chegada de povos
indígenas de outras regiões também impactadas pelo agronegócio. “Quando ferem
nossos direitos, a gente avança. Enquanto eles invadem nossas terras, nós
ocupamos a Cargill. E agora chamamos aqui de aldeia Tapajós”, declarou.
Auricelia
Arapiun também destacou a dimensão espiritual da mobilização. “Eu nunca vou
esquecer que houve um encantado lugar que se voltava para o território que a
nossa força estava lá. E a nossa força estava. E foi de lá que nós trouxemos
toda a força, toda a esperança. Foi uma luta árdua, foi uma luta difícil.
Agradecemos todos.”
Fonte:
Outras Palavras/Cimi

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