Joao
Pedro Malar: A questão da transparência no uso de IA - o caso Folha de S. Paulo
Um
assunto que dominou as rodas de conversas dos jornalistas recentemente foi a
coluna da atual ombudsman da Folha de S. Paulo Alexandra Moraes sobre o uso de
ferramentas de inteligência artificial generativa por uma das colunistas do
jornal. A revelação gerou diversas discussões, críticas e defesas, algo
esperado considerando o quão quente o tema é atualmente.
A
explosão da IA generativa desde o final de 2022 também atingiu o jornalismo,
com múltiplos impactos. De novas disrupções para modelos de negócios a temores
(e concretizações) de substituição de jornalistas pelas ferramentas, poucos
assuntos são um gatilho tão grande para jornalistas, com muitos enxergando a
tecnologia como mais uma ameaça para uma profissão cada vez mais questionada,
atacada e precarizada.
Para
que não acompanhou o caso, um breve resumo: tudo começou quando um leitor da
Folha entrou em contato com Moraes criticando uma das colunas da empresária
Natalia Beauty, e afirmando que o texto parecia ter sido escrito por uma IA.
Procurada por Moraes, a empresária confirmou o uso e o defendeu.
Segundo
Natalia Beauty, a ferramenta de IA não é usada para gerar textos do zero, mas
sim para estruturar e organizar as ideias da empresária compartilhadas via
áudio. Nesse sentido, a inteligência artificial seria auxiliar, e não
protagonista, no processo de produção da coluna.
Longe
de querer compartilhar um juízo de valor sobre a qualidade dos textos e o
impacto da adoção da IA no processo, acredito que o caso elenca uma série de
considerações importantes.
A
primeira é que o caso não é o primeiro, e não será o último, de um colunista
que, na prática, não está exatamente escrevendo os conteúdos do seu espaço no
jornal. Uma prática pouco divulgada junto ao público, mas bastante conhecida
entre jornalistas, é o uso dos chamados ghost writers, profissionais pagos para
escrever os textos sem a atribuição de autoria.
A
substituição de um ghost writer por uma ferramenta de IA, por mais que seja um
triste sinal dos tempos, não é exatamente uma surpresa. A novidade, talvez,
seja o fato das “marcas de estilo” das ferramentas de IA deixarem mais óbvia a
autoria terceirizada dos textos, o que acaba criando possíveis constrangimentos
para o suposto autor.
Mas, a
meu ver, temos aqui um problema maior, e mais complexo. Desde 2024, venho
pesquisando junto com o grupo de pesquisa COM+, da ECA-USP, a adoção de
ferramentas de IA por veículos jornalísticos e, principalmente, as políticas
editoriais públicas que delimitam o uso dessas ferramentas.
Em
linhas gerais, essas políticas são importantes para definir os usos liberados
dessas ferramentas, quais poderão ser usadas, quando poderão ser usadas ou não,
por quem, processos de verificação e supervisão e políticas de identificação
desses usos junto ao público. Cumprem, assim, uma função dupla, orientando
tanto o público quanto os próprios funcionários sobre o que esperar do uso
dessas ferramentas.
A Folha
de S. Paulo divulgou uma proto-política de uso de IA em 2023, no formato de um
verbete no seu tradicional Manual de Redação. Em resumo, o veículo autoriza o
uso das ferramentas, responsabiliza o jornalista por possíveis problemas
decorrentes, exige revisão e verificação e reconhece as “diversas oportunidades
para aumentar a eficiência” do veículo.
Em
comparação com outros veículos, a política da Folha chama atenção por três
fatores. Primeiro, apresenta uma das posturas mais flexíveis e livres em
relação ao uso por seus funcionários, focando nos supostos aspectos positivos
da tecnologia. Segundo, é uma das menores e mais vagas dentre as divulgadas
(não sabemos, porém, se a política interna para os funcionários é mais
extensa). Terceiro, não traz nenhuma obrigação de identificar nas matérias o
uso dessas ferramentas, e como foram usadas, com exceção do uso para produzir
imagens.
A falta
de identificação é, na prática, uma falta de transparência, já que o leitor
nunca sabe quando está lendo um texto potencialmente produzido ou “retocado”
por uma IA. O tópico não estava no radar do debate público, mas o caso recente
trouxe o tema à tona da pior forma possível.
O erro,
porém, está mais com o veículo. Ao primar pela falta de transparência,
contrata-se uma crise potencial dupla: críticas pelo uso em si da ferramenta e
pela falta de identificação desse uso, o que acaba “furando” um contrato de
expectativas entre o público e o veículo. Se a identificação de uso fosse
obrigatória a priori, talvez o caso não tivesse atraído na mesma magnitude a
polêmica e críticas resultantes.
Jornais
como a Folha constantemente divulgam seus quadros de colunistas como um dos
motivos para assinar os veículos. Seria, em teoria, a forma de ter acesso a
análises exclusivas, profundas, únicas. Para parte do público, o uso de IA pode
ameaçar tudo isso. Além disso, a falta de identificação de uso de IA pode
colocar outras produções do jornal em xeque para essa fatia do público, que
agora terá essa “pulga atrás da orelha”.
A
situação de Natalia Beauty é diferente pelo uso acessório da ferramenta, algo
que merece um debate à parte. Mas, pessoalmente, acredito que explicita uma
necessidade clara da Folha, e de outros veículos com posturas semelhantes,
atualizarem suas políticas de uso de IA com a obrigatoriedade de identificação
de uso para além da criação de imagens, em especial na produção de textos (e
incluindo dos colunistas, que ficaram de fora do verbete de 2023).
Em um
momento em que o jornalismo é alvo de ataques intensos e enfrenta uma forte
perda de credibilidade — com impactos comerciais diretos — é preciso primar
pela manutenção da boa relação com o seu público. E, neste e em outros casos, a
transparência parece ser o melhor caminho para se evitar novas crises.
• Caso Washington Post revela tendências
na diferenciação da imprensa. Por Carlos Castilho
O mega
passaralho que dizimou a redação do The
Washington Post deu um novo significado ao lema do jornal norte-americano: “A
democracia morre no escuro”. Além de mandar sumariamente embora 300
profissionais, foram fechados cerca de 20 editorias e 10 postos de
correspondentes no exterior. A brutal decisão de Jeff Bezos, o dono do jornal,
fornece a prova mais convincente de que a imprensa está irremediavelmente
dividida entre publicações locais e globais.
Quase
todas as editorias desativadas, porque ficaram sem pessoal, cobriam notícias
locais na capital, Washington, e arredores, bem como temas especializados como
esporte, cultura, arte, moda e gastronomia. Os sobreviventes do massacre
funcional se concentram basicamente na política nacional, na economia e na
cobertura de questões diplomáticas relacionadas a temas europeus, russos e
chineses.
A
agenda de notícias do The Washington Post será, daqui por diante, mais
concentrada na luta pelo poder nos Estados Unidos, relegando a um plano
secundário as preocupações locais, o que deixará os leitores do jornal no
“escuro” no debate sobre questões relacionadas à democracia, contrariando o
lema do jornal.
A
divisão, obviamente, não passou pela cabeça de Bezos, um bilionário dado a
excentricidades e que não está nem aí para o futuro do jornalismo. Suas duas
grandes preocupações são a inteligência artificial nos negócios da sua rede de
comércio eletrônico Amazon e a corrida espacial como aposta numa futura
colonização planetária.
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O circuito do poder mundial
Ele viu
que o jornalismo atual deixou de ser uma fábrica de dólares como foi até a
virada do século e nem o apoio político a Trump funcionou como Bezos esperava.
Assim, ele atirou no que viu, a perda de dólares, e matou o que não viu, o
futuro do jornal que ele comprou em 2013 por 250 milhões de dólares para
alavancar o seu ego no mundo empresarial e na política. O The Washington Post,
também conhecido pela sigla WaPo, terá agora que disputar leitores entre
grandes empresários, políticos, lobistas, governantes estrangeiros e formadores
de opiniões.
Trata-se
de um público já dominado pelo The New York Times e Wall Street Journal, sem
falar nas dezenas de newsletters políticas e influenciadores de alto nível que
ocupam os grandes fluxos informativos no chamado Beltway Circuit, a área de
Washington onde se concentram os principais núcleos de poder dos Estados
Unidos. É uma escolha editorial com desenlace incerto, porque de seu sucesso
dependerá a sobrevivência financeira do que restou do The Washington Post. E
tudo indica que a polarização entre seguidores e desafetos do governo Trump
pode acabar empurrando o jornal para o lado da direita norte-americana.
A
segmentação entre imprensa local e global confirmada pela crise no Post ajuda a
entender um pouco mais o futuro do jornalismo. A imprensa global atende os
interesses das elites e tomadores de decisões, envolvidos na guerra de
narrativas visando a tomada do poder político, econômico e militar. É o que já
assistimos hoje na maior parte da imprensa mundial. Este segmento noticioso não
terá problemas de sustentação financeira porque sempre haverá algum lobby,
partido, governo ou empresa disposto a pagar anúncios e narrativas que
favoreçam seus interesses. Neste segmento a informação é uma arma política e o
jornalismo uma ferramenta executiva.
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Bilhões de pessoas no ‘escuro’
O
grande espaço novo que se abre é o do noticiário local, cuja importância cresce
na medida em que a imprensa convencional se concentra cada vez mais na temática
global e no acompanhamento dos grandes mercados financeiros. O jornalismo local
tem diante de si um público órfão em matéria de dados, fatos e eventos
relacionados ao seu cotidiano e ao seu orçamento doméstico. São bilhões de
indivíduos, no mundo inteiro, que estão literalmente no escuro em matéria de
participação democrática porque não dispõem de ferramentas informativas locais.
O
futuro da imprensa e do jornalismo local é fascinante, mas seu presente é
desafiador, para dizer o mínimo. A implantação de um ecossistema informativo
local em regiões urbanas e rurais deve levar meses ou anos, porque depende da
população entender o valor da notícia no seu orçamento doméstico e no seu dia a
dia. Depende também da superação da desconfiança em relação à imprensa, de
aceitar o jornalismo como parceiro, admitir a necessidade de pagar pelo
noticiário local e adotar uma postura mais crítica em relação ao material
divulgado pelos influenciadores.
Por seu
lado, os jornalistas também terão que mudar seu comportamento no relacionamento
com pessoas comuns. Eles passarão a ser parceiros, portanto iguais, deixando de
ser aqueles que sabem o que é bom para o público. A meta de cada profissional
será a prestação de serviços às comunidades, em lugar de almejar um emprego em
Brasília, São Paulo ou Rio de Janeiro ou se tornar um correspondente
estrangeiro no circuito Londres, Paris, Washington e Nova Iorque.
Os 300
profissionais demitidos pelo The Washington Post provavelmente terão que fazer
uma difícil opção em termos de sobrevivência financeira. A capacitação
adquirida na produção de notícias globais lhes dá as credenciais para buscar
realização profissional na cobertura jornalística comunitária ou em áreas
especializadas como esportes, cultura,
gastronomia ou política municipal. O dilema será a adaptação ao novo meio e
conseguir alguma fonte suplementar de renda para recompor seu orçamento.
A
divisão da imprensa, escancarada pelo passaralho do WaPo, é um revés para todos
os que acreditam que o jornalismo tem uma função essencial no empoderamento das
pessoas comuns no combate à desinformação alimentada pela guerra de narrativas
promovida pelos participantes da luta pelo poder nas altas cúpulas da política
e da economia.
• A opacidade da IA e o risco de confiar
no que não entendemos. Por Suzy Azevedo
O
avanço da inteligência artificial marca uma mudança inédita: passamos a
depender de respostas cujo funcionamento não compreendemos. Diferentemente de
tecnologias anteriores, que podiam ser explicadas passo a passo, muitos
sistemas atuais operam por processos internos opacos e difíceis de interpretar
em detalhe, mesmo para especialistas que compreendem seu funcionamento geral.
Esse fenômeno é conhecido na literatura científica como “caixa-preta
algorítmica”. Ainda assim, essas ferramentas são cada vez mais consultadas para
tarefas intelectuais, da escrita à análise de dados. O paradoxo é evidente:
quanto mais recorremos a elas, mais confiamos em resultados cujo mecanismo
permanece fora do nosso alcance.
Essa
dependência afeta diretamente nosso modo de julgar informações. O cérebro
humano tende a confiar mais quando consegue perceber a lógica de um processo;
quando essa lógica não é visível, passa a recorrer a atalhos mentais para
decidir em que acreditar. Esses atalhos (conhecidos como heurísticas) estão
ligados a fenômenos bem documentados na psicologia, como o viés de autoridade,
o efeito halo e a fluência cognitiva.
Sistemas
de inteligência artificial acabam se beneficiando desse ponto cego cognitivo:
produzem respostas claras e plausíveis mesmo quando o processo que as gerou não
é acessível à interpretação humana. Casos recentes ilustram esse risco. Em
2023, um advogado apresentou em tribunal um documento elaborado com auxílio de
inteligência artificial contendo decisões judiciais inexistentes. As citações
eram plausíveis, bem redigidas e juridicamente verossímeis, mas falsas. O erro
só foi descoberto quando o juiz tentou localizar os precedentes citados no
processo contra a companhia aérea Avianca. Episódios assim mostram como
plausibilidade formal pode ser confundida com confiabilidade factual.
Essa
vulnerabilidade aumenta porque esses sistemas não apenas informam: apresentam
respostas em tom seguro e adaptado à linguagem do interlocutor, sinais que a
mente associa automaticamente a credibilidade. Não é o conteúdo que primeiro
convence, mas a forma. Estudos em psicologia cognitiva mostram que julgamentos
de confiabilidade costumam surgir antes da análise racional detalhada. Ao
produzir linguagem que transmite segurança, sistemas automatizados ativam
atalhos mentais que reduzem o impulso crítico. O efeito é sutil: passamos a
confiar antes mesmo de compreender.
Quando
respostas persuasivas surgem antes da compreensão, o impacto deixa de ser
individual e passa a ser coletivo. O critério de confiança começa a migrar da
verificação para a plausibilidade. Em vez de perguntar se algo é verdadeiro,
pergunta-se se parece verdadeiro. Essa mudança altera o próprio julgamento
público: não vence quem explica melhor, mas quem produz a resposta mais
convincente. Em ambientes mediados por sistemas opacos, a evidência corre o
risco de ser substituída pela aparência.
O marco
decisivo da inteligência artificial talvez não tenha sido quando máquinas
aprenderam a responder, mas quando humanos passaram a aceitar respostas sem
exigir explicação. Quando a confiança substitui a compreensão, o critério de
verdade deixa de ser conhecimento e passa a ser persuasão. Uma sociedade que
troca explicação por plausibilidade não perde apenas rigor intelectual,
transfere o próprio julgamento a quem apenas pareça confiável.
Fonte:
Observatório da Imprensa

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