6×1:
A saúde mental, muito além da redução da jornada
Vivemos
um tempo que nos é constantemente tomado. Ele escapa entre plantões, domingos
de descanso parcial e segundas-feiras atravessadas pelo cansaço acumulado. A
lógica produtivista transforma o tempo em mercadoria e os corpos em engrenagens
de um sistema que cobra mais do que pode ser entregue – sobretudo quando o
preço é a própria saúde mental. Pensar jornadas extensas, em termos de duração
e distribuição do trabalho, como dispositivos de adoecimento é, portanto,
urgente.
A
jornada de trabalho e a forma como ela se organiza no tempo são dimensões
distintas, ainda que muitas vezes apareçam entrelaçadas. A duração da jornada
refere-se ao número de horas semanais, diárias ou mensais, enquanto a escala de
trabalho regula a distribuição desses dias e horas, determinando quantos dias
consecutivos se trabalha antes do descanso. Um trabalhador pode enfrentar
jornadas longas sem estar em Escala 6×1 ou, inversamente, estar em Escala 6×1
sem jornada extensa (Dal Rosso et Al., 2022). Diferenciar essas dimensões é
fundamental para compreender os impactos do tempo de trabalho sobre a vida e a
saúde dos trabalhadores.
Categorias
clássicas da crítica do trabalho, como fadiga, desgaste, esgotamento e
envelhecimento precoce, analisadas desde Marx (2013), permanecem relevantes. O
tempo de deslocamento entre casa e trabalho, embora não contabilizado
formalmente, impõe esforço adicional e revela facetas da precarização
contemporânea. Em nível nacional, o tempo médio de deslocamento diário é de
aproximadamente 41 minutos, com variações entre áreas urbanas e rurais (IBGE,
2019). A intensidade do trabalho será mencionada pontualmente, mantendo o foco
na extensão e distribuição da jornada.
Este
artigo se configura como um ensaio analítico baseado em revisão bibliográfica e
análise de dados nacionais e internacionais. A seleção das fontes privilegiou
referências clássicas e contemporâneas sobre crítica do trabalho, precariedade
subjetiva e sociedade do cansaço, articuladas a evidências da OIT, OMS e órgãos
nacionais. Essa abordagem permite examinar como a duração e a distribuição da
jornada, especialmente na Escala 6×1, impactam a saúde mental e a vida dos
trabalhadores.
O texto
explora as consequências da extensão das jornadas e da adoção de escalas
restritivas de descanso, com foco na Escala 6×1, considerando o impacto direto
no adoecimento mental dos trabalhadores. A análise apoia-se em Sociologia do
Trabalho e Psicologia Social, articulando dados da Organização Internacional do
Trabalho (OIT) e estudos sobre efeitos psíquicos de condições de trabalho
precarizadas.
Referenciais
centrais incluem Richard Sennett (1999), sobre a desumanização do trabalho e
corrosão das relações sociais; Ricardo Antunes (2018) e Fernando Gastal de
Castro (2022), que refletem sobre precariedade subjetiva e perda de autonomia e
identidade; e Byung-Chul Han (2015), que discute a sociedade do cansaço,
reforçando que o excesso de produtividade se converte em esgotamento coletivo.
Ao longo do texto, são percorridos alguns eixos: resgate histórico das lutas
por jornada justa; análise da Escala 6×1 como produtora de precariedade
subjetiva; e discussão dos impactos psíquicos da exaustão e da relação entre
trabalho e sofrimento. Ao final, defende-se a necessidade de políticas públicas
que garantam jornadas equilibradas e o direito ao descanso, propondo reflexões
sobre o papel da Psicologia na defesa do tempo como valor humano inegociável –
para cuidado, afeto e vida digna.
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Trabalho e Tempo de Não-Trabalho: entre a história e o agora
A
história das lutas por jornadas de trabalho justas é, também, a história da
luta pelo tempo e pela vida – tempo para si, para os outros, para o que escapa
ao labor. Desde a Revolução Industrial, as jornadas extenuantes (que
ultrapassavam doze, quatorze, até dezesseis horas diárias) impuseram aos corpos
o ritmo das máquinas (Antunes, 2009). Reduzir o tempo de labuta significava,
historicamente, ampliar o tempo da existência humana, ou seja, o tempo do sono,
do afeto, da rua, do silêncio, da criação.
As
conquistas por limites à jornada, como a luta pelas oito horas diárias, não
foram concessões espontâneas, mas arrancadas por movimentos operários que
reivindicavam mais do que uma pausa: buscavam existir para além do trabalho.
Garantir o descanso tornou-se, assim, ato de insurgência coletiva diante de um
sistema que pretendia extrair tudo dos corpos, inclusive o direito ao tempo
ocioso.
Contudo,
as vitórias históricas não eliminaram a tensão entre trabalho e tempo de
não-trabalho. Nas últimas décadas, assistimos à intensificação de uma lógica
produtiva que captura o tempo das trabalhadoras e dos trabalhadores de
diferentes formas: pela extensão das jornadas (quantidade de horas) e pela
distribuição do trabalho (forma como os dias são organizados). A intensificação
do labor, a precarização contratual e a colonização do tempo livre remodelam
ambos os aspectos, ampliando desigualdades entre segmentos da classe
trabalhadora. Relatórios da Organização Internacional do Trabalho (OIT, 2009;
2022) apontam que jornadas excessivas impactam a saúde e a qualidade de vida,
evidenciando a tendência global de aumento da carga horária em detrimento do tempo
livre. Nessa dinâmica, o tempo do labor se configura como contínuo, fragmentado
e sem bordas: contínuo, pois se estende além do expediente; fragmentado e sem
bordas, porque atravessa todas as esferas da vida, prejudicando o repouso e
corroendo a separação entre tempo de produção e de existência (Antunes, 2018).
A
Escala 6×1 exemplifica a dimensão da distribuição do trabalho, concentrando
dias de labor seguidos e reservando apenas um dia de folga, reduzindo o
descanso a um intervalo mínimo e incapaz de recompor forças ou permitir
experiências que não sejam orientadas pela produtividade.
Sennett
(1999) descreve os efeitos subjetivos dessa mutação ao cunhar o conceito de
“corrosão do caráter”: a instabilidade, a descontinuidade e a aceleração dos
ritmos fragilizam projetos de vida e prejudicam a construção da identidade.
Construída historicamente a partir de linearidade e pertença, a identidade
dilui-se diante de ocupações temporárias, metas voláteis e ausência de sentido;
o tempo deixa de ser vivido como experiência e transforma-se em cronograma de
entrega.
Ao
diálogo de Sennett soma-se a reflexão de Byung-Chul Han (2015) sobre a
“sociedade do cansaço”: a transição da disciplina para o desempenho produz um
sujeito que se explora por via da liberdade aparente, tornando-se seu próprio
fiscal. Essa cobrança internalizada torna a sobrecarga ainda mais nociva, pois
combina coerção externa (gestão por metas, insegurança, medo do desemprego) à
autoexploração. Apesar de formas renovadas, não se trata de fenômeno
completamente novo, já que o fordismo articulava mecanismos de controle que
ultrapassavam a fábrica e penetravam modos de vida (Puckett, 2024),
evidenciando que a sujeição assume formas históricas variadas.
Castro
(2022) amplia essa perspectiva ao mostrar que o neoliberalismo atua diretamente
sobre a constituição dos sujeitos, moldando expectativas, afetos e modos de
vida. A precariedade subjetiva manifesta-se na transformação da liberdade em
autoexploração e na conversão do tempo livre em tempo útil, no qual até o lazer
é atravessado por exigências de eficiência. A Escala 6×1 materializa essa
lógica: mesmo o dia destinado ao descanso é colonizado por tarefas, cansaços
acumulados e preparação para o próximo ciclo laboral, reduzindo seu potencial
reparador.
A
comparação entre os relatórios da OIT (2009; 2022) confirma a continuidade e o
aprofundamento da lógica produtivista que captura o tempo de vida. Em 2022,
mais de 35% da força de trabalho global ultrapassava 48 horas semanais,
evidenciando a extensão excessiva das jornadas e colocando em xeque a eficácia
de limites formais à jornada para preservar a saúde mental (OIT, 2022).
No
Brasil, embora a legislação fixe 44 horas semanais como limite, esses
parâmetros têm se mostrado insuficientes diante das formas contemporâneas de
organização do trabalho e suas externalidades para a vida. Importa ressaltar
que, em muitos casos, tais limites não refletem conquistas, mas situações de
subocupação: vínculos precários e instáveis que reduzem o tempo formal de
trabalho sem garantir remuneração ou proteção social adequadas. Tanto o excesso
de horas quanto a insuficiência de trabalho seguro e digno configuram dimensões
do adoecimento.
Entre a
história e o presente, evidencia-se a persistência da luta pelo tempo: uma
disputa sindical e política, mas também existencial – o direito de viver para
além do trabalho, de construir afetos, memórias e projetos que não se reduzam à
lógica da produtividade. É nesse cenário que a Escala 6×1 se insere como
mecanismo de distribuição desigual do trabalho, ilustrando como a organização
injusta das jornadas pode corroer a possibilidade de vida digna.
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A Escala 6×1 como produtora de precariedade subjetiva
No
interior das engrenagens produtivas contemporâneas, a Escala 6×1 produz
precarização em dupla dimensão: material, ao prolongar jornadas, comprimir o
tempo de descanso e distribuir o trabalho de forma desigual; e subjetiva, ao
corroer identidades, vínculos afetivos e a capacidade de narrar a própria
experiência fora dos marcos da produtividade. Mais que um simples arranjo
organizacional, configura-se como símbolo da lógica do esgotamento, na qual o
tempo de não-trabalho é capturado e esvaziado de sua função reparadora. Como
aponta Antunes (2018), trata-se da compressão da vida pelo trabalho, que limita
espaços de pausa e criação – dimensões reconhecidas pela Psicologia como
essenciais à saúde mental e ao equilíbrio emocional.
Para
Castro (2022), essa captura, ao mesmo tempo material e simbólica, reconfigura
as subjetividades, moldando corpos e mentes a uma lógica de constante
disponibilidade e performatividade. Nesse contexto, a precarização das
condições de trabalho, para além de seus efeitos econômicos, implica também
numa precarização subjetiva: um esgarçamento das vivências que sustentam a
experiência de si e do outro.
Cabe
aqui refletir: seria possível conceber uma precarização apenas
material/objetiva, considerando que, em nosso corpo, não há separação entre
mente e matéria? A precarização, portanto, é também subjetiva, pois, a
exigência permanente de adaptação e produtividade atinge simultaneamente a
integridade física e psíquica. Essa concepção de precariedade subjetiva como a
fragilização do eu diante da urgência e da disponibilidade constante ajuda a
compreender como a falta de tempo para si, para o outro e para o coletivo se
traduz em esvaziamento simbólico, perda de vínculos e sofrimento psíquico –
elementos que atravessam silenciosamente o cotidiano de quem vive e trabalha
nessas condições (Castro, 2022), sobretudo aqueles submetidos à Escala 6×1.
Como
alerta Antunes (2018), vivemos a era da subsunção real da vida ao trabalho, e a
Escala 6×1, naturalizada em diversos setores, é uma das expressões evidentes
dessa subsunção, na medida em que afeta fisicamente e corrói os alicerces
psíquicos da existência de trabalhadoras e trabalhadores. Contribuindo para
esse debate, Castro (2022) observa que a subjetividade precarizada perde a
capacidade de narrar a si mesma fora dos marcos da produtividade, já que a
experiência do tempo é marcada pela urgência e pela impossibilidade de pausa.
Para Sennett (1999), resta um sujeito despedaçado, cuja identidade se dilui
diante de ocupações temporárias, metas voláteis e ausência de sentido.
Tal
processo evidencia a lógica capitalista que, ao mesmo tempo em que explora (ou
induz à autoexploração), esgarça laços afetivos e solidários, dificultando, por
exemplo, a organização coletiva da classe trabalhadora. Esse modelo de
subjetivação reforça o isolamento, esfacela as experiências coletivas e
transforma o sofrimento no trabalho em questão individual, obscurecendo suas
raízes estruturais.
Dialogamos
aqui com Dardot e Laval (2016) ao compreender que o neoliberalismo não se
limita a uma ideologia ou política econômica, mas opera como um sistema
normativo que estende a lógica do capital a todas as esferas da vida. Essa
racionalidade produz um sujeito empresarial de si, permanentemente
responsabilizado pelo sucesso ou fracasso de sua trajetória. O adoecimento que
emerge dessas formas contemporâneas de organização do trabalho é, antes de
tudo, expressão de um modo de vida que nega o tempo necessário para existir.
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Quando o tempo adoece: Trabalho, Sofrimento Psíquico e a Urgência de Cuidado
Ao
articular a exploração material e a corrosão subjetiva, a Escala 6×1 sintetiza
o modo como o capitalismo contemporâneo transforma o tempo em mercadoria e o
corpo em instrumento. Essa dinâmica, ao restringir o direito à pausa e ao
convívio, aprofunda um modelo de vida pautado na urgência e na produtividade.
Se, até aqui, discutimos como a precarização se estrutura e se infiltra nas
subjetividades, é preciso agora avançar na análise de suas consequências
diretas: o adoecimento psíquico, a exaustão emocional e a negação do cuidado
como dimensão fundamental da existência.
A
Escala 6×1 assume uma particularidade relevante no debate sobre tempo e saúde.
É importante diferenciar: a jornada longa refere-se ao excesso de horas na
semana; a Escala 6×1 refere-se à forma de distribuição desses dias. Podem
coincidir, mas não são sinônimos. A jornada extensa aumenta riscos físicos e
mentais; a Escala 6×1 compromete o potencial reparador do único dia de folga,
transformando o tempo de não-trabalho em mera preparação para o próximo ciclo
de esgotamento. A evidência internacional sustenta essa preocupação. O
Relatório Mundial de Saúde Mental da OMS (2022) aponta que uma em cada oito
pessoas vive com algum transtorno mental, como depressão e ansiedade,
especialmente entre mulheres e jovens. Já a OIT tem reiterado que jornadas
prolongadas estão associadas a distúrbios do sono, esgotamento e maior risco de
doenças cardiovasculares e AVCs. Desde 2009, a instituição estabelece que
jornadas acima de 48 horas semanais configuram fator de risco à saúde e ao
equilíbrio da vida.
No
plano nacional, os transtornos mentais e comportamentais figuram entre as
principais causas de afastamento do trabalho e de concessão de benefícios
previdenciários, evidenciando que o problema ultrapassa a esfera individual e
assume dimensão coletiva. Dados recentes do Instituto Nacional do Seguro Social
indicam aumento de 68% nos afastamentos por motivos de saúde mental em 2024,
revelando o agravamento do adoecimento psíquico relacionado ao trabalho (USP,
2025). Esses números dialogam com alertas de organismos internacionais, que
apontam crescimento contínuo dos transtornos mentais associados a condições
laborais precárias e à intensificação das jornadas (ONU, 2025).
A
Escala 6×1 reduz o tempo disponível para recuperação física e emocional,
fragiliza vínculos sociais e dificulta a construção de sentido – condições que
favorecem a emergência de sofrimento psíquico. Esse processo é alimentado por
uma racionalidade produtiva que combina coerção externa (gestão por metas,
insegurança no emprego) e coerção internalizada (autoexploração), conforme
apontam análises críticas sobre neoliberalismo e subjetivação (Antunes, 2018;
Dardot e Laval, 2016; Han, 2015).
A
resposta do sistema de saúde a esse sofrimento expõe contradições que agravam a
situação. Embora o Ministério da Saúde tenha ampliado recentemente o custeio da
Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), persistem entraves e desigualdades na
distribuição dos recursos (Brasil, 2023; Brasil, 2022), o que prejudica
respostas territoriais mais efetivas às demandas da classe trabalhadora e
reforça negligências históricas. É preciso, também, problematizar discursos que
tratam o cuidado em termos puramente econômicos. Embora organismos
internacionais eventualmente estimem retornos econômicos de investimentos em
saúde mental, essa retórica não pode substituir a crítica às causas estruturais
do sofrimento: a centralidade deve ser a transformação das condições de trabalho,
e não apenas a expansão do tratamento clínico. A medicalização do mal-estar
naturaliza o adoecimento, desloca responsabilidades do coletivo para o
indivíduo e obstrui estratégias públicas de prevenção e reestruturação do tempo
laboral.
Diante
desse quadro, a agenda pública deve combinar medidas sobre duração e
distribuição do tempo: redução de jornadas excessivas, regulação das escalas
(como a revisão do modelo 6×1), políticas de mobilidade e ações territoriais de
cuidado que ampliem o tempo de recuperação. A OIT já assinalou que políticas de
jornada e pausas bem estruturadas podem reduzir absenteísmo e favorecer o
bem-estar; contudo, esses argumentos não podem ser capturados pela lógica
empresarial de eficiência. O tempo livre deve ser afirmado como direito em si,
vinculado à dignidade humana e à possibilidade de sustentar vínculos, desejos e
projetos, reforçando a defesa do tempo como bem público.
À
Psicologia, como ciência e profissão comprometida com os direitos humanos, cabe
não apenas escutar os sujeitos que sofrem, mas tensionar as estruturas que os
ferem. É tempo de reivindicar o tempo: não como luxo, mas como urgência ética.
Porque, se o tempo não for espaço de afeto, pausa e criação, não é tempo de
viver – é tempo de (sobre)viver. Na recusa a reduzir o sofrimento a
diagnósticos ou sintomas, a Psicologia pode contribuir para a construção de
estratégias coletivas de cuidado, articulando escuta qualificada, territórios e
políticas públicas (Nunes e Oliveira, 2025). Isso implica denunciar causas
estruturais, recusar a naturalização da exaustão e defender a redução e a
reordenação das jornadas como condição para a vida.
O
enfrentamento da Escala 6×1, portanto, é mais do que pauta trabalhista: é pauta
de saúde mental, de defesa da vida e de criação de futuros habitáveis. Quando
se compromete com essa luta, a Psicologia se afirma como campo de resistência e
de reinvenção do tempo.
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Considerações Finais: o tempo como direito
Este
artigo buscou lançar luz sobre os impactos da organização do tempo de trabalho
– tanto em sua duração quanto em sua distribuição – sobre a saúde mental das
trabalhadoras e dos trabalhadores. O foco na Escala 6×1 permitiu problematizar
como um arranjo aparentemente técnico pode se converter em dispositivo de
adoecimento, ao concentrar seis dias consecutivos de labor e conceder apenas um
dia de descanso.
Mostramos
que a precariedade subjetiva, o esgarçamento dos vínculos e a exaustão crônica
não resultam apenas do excesso de horas, mas também da forma como essas horas
são distribuídas, corroendo o potencial reparador do tempo livre. Nesse
sentido, a jornada não é mero detalhe administrativo: é um marcador ético e
político que afeta diretamente o corpo, a subjetividade e a vida em comum.
Ainda
que os formatos atuais, como a Escala 6×1, revelem novas faces da exploração,
não se trata de fenômeno inédito. As categorias clássicas da crítica do
trabalho, como fadiga, desgaste e esgotamento, seguem sendo fundamentais para
compreender como o tempo de labor, quando apropriado pelo capital, deteriora
corpos e subjetividades. A luta pelo tempo, desde Marx até as disputas
contemporâneas, continua a ser uma luta pela vida. A Escala 6×1 encarna essa
lógica ao transformar o descanso em exceção e a fadiga em rotina. Sua superação
não é apenas pauta trabalhista, mas afirmação da dignidade humana. Defender o
fim desse modelo é afirmar o tempo como direito – direito à pausa, ao cuidado e
à reinvenção dos desejos, direito que não se mede em produtividade, mas em
possibilidade de viver.
A
experiência brasileira demonstra, ainda, que a falta de tempo coletivo
repercute no próprio sistema de cuidado: quando a vida é organizada pelo
trabalho, os espaços de encontro, de elaboração e de solidariedade se
estreitam, enfraquecendo tanto a saúde individual quanto o tecido social.
Normativas internacionais, como as da OIT, reforçam a importância de limitar a
duração das jornadas e regular sua distribuição, de modo a garantir condições
de recuperação e sustentabilidade da vida laboral.
Nesse
cenário, a Psicologia tem um papel fundamental: não apenas escutar os sujeitos
atravessados pelo sofrimento, mas tensionar as estruturas que o produzem. Ao
recusar a naturalização da exaustão, a Psicologia pode contribuir para a
construção de estratégias coletivas de cuidado, fortalecendo redes comunitárias
e políticas públicas que defendam o tempo para a vida em sua plenitude.
Reduzir
jornadas, garantir dias de recuperação, criar dispositivos coletivos de escuta
e fortalecer políticas territoriais de cuidado não são gastos, mas
investimentos em saúde, bem-estar e futuro comum. Por fim, deixamos uma
provocação: e se o tempo voltasse a ser nosso? Talvez seja nesse intervalo –
entre a pausa e o respiro – que a vida possa, enfim, reencontrar sentido.
Fonte:
Por Vanessa Silveira de Brito, em Outras Palavras

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