Um
ABC do autoritarismo: Argentina, Brasil e Chile
Entre
meados da década de 1960 e a década de 1980, ditaduras militares dominaram a
América do Sul, exemplificadas pelos países ABC: Argentina de 1966 a 1971 e de
1976 a 1983, Brasil de 1964 a 1985 e Chile de 1973 a 1990. Três historiadores
da América Latina questionam o que, se é que há algo nesse sentido, o regime
militar nesses três países revela sobre a atual guinada rumo ao autoritarismo
nos Estados Unidos.
Essas
observações, apresentadas na reunião anual da Associação Histórica
Estadunidense, podem ser lidas como uma introdução às diferentes vertentes do
autoritarismo, tanto no passado quanto no presente, lá e aqui.
Ao
analisar as comparações, três aspectos se destacam. Para começar, a retórica
alarmista de combate a inimigos internos, comum às ditaduras militares da
América do Sul, foi repetida por membros do governo Trump nos mais altos
escalões. Os contrastes, no entanto, são ainda maiores, abrangendo desde a
fonte de legitimidade do governo atual (eleições, em oposição a golpes
militares) até seu estilo personalista e sua relativa capacidade de exercer
poder irrestrito. Por fim, os casos sul-americanos nos lembram que as pessoas
resistiram ao autoritarismo em condições muito mais perigosas do que qualquer
coisa que as pessoas nos Estados Unidos tenham enfrentado até agora.
Precisaremos de mais oposição para conter a crescente onda autoritária.
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Argentina
Existem
quatro maneiras pelas quais o autoritarismo MAGA ecoa as ditaduras argentinas
da era da Guerra Fria, e especialmente o sinistro regime instalado em 1976.
O
primeiro eco é a ideia de inimigos internos. Os regimes argentinos da Guerra
Fria foram sustentados pela Doutrina de Segurança Nacional, que justificava a
repressão contra inimigos internos percebidos. Essa justificativa foi feita de
forma mais infame pelo governador militar da província de Buenos Aires em 1977,
quando declarou: “Primeiro matamos todos os subversivos; depois, seus
colaboradores; em seguida, seus simpatizantes; depois, aqueles que permanecem
indiferentes; e, finalmente, os indecisos”. Na Argentina, a ditadura
identificou uma gama cada vez maior de subversivos e inimigos internos. Aqui
nos Estados Unidos, vemos paralelos na noção de um inimigo interno que cresce
em círculos concêntricos: imigrantes, vozes contra o genocídio em Gaza e em apoio
aos imigrantes, funcionários públicos demitidos pelo DOGE, educadores,
estudantes e pessoas pobres punidas com a suspensão de benefícios alimentares.
E, claro, o envio de tropas da administração Trump para cidades democratas
exemplifica a construção e a perseguição de inimigos internos.
O
segundo eco são os casos de violência e terror estatal, visíveis e invisíveis.
Na Argentina, a violência era frequentemente clandestina; pessoas desapareciam
tarde da noite. Mas nem sempre. A violência e o terror também ocorriam à luz do
dia. Este último é evidente nos Estados Unidos hoje, nas prisões de estudantes
em plena luz do dia, nas batidas policiais em locais de trabalho por todo o
país e na rede de prisões que abriga imigrantes para deportação. E há o Serviço
de Imigração e Alfândega (ICE) e seus agentes mascarados do terror, formando
uma força paramilitar extrajudicial semelhante à Aliança Anticomunista
Argentina.
Um
terceiro eco talvez seja menos dramático. Ele reside na dissonância entre a
vida normal e cotidiana e o terror. Nos últimos anos, alguns dos melhores
trabalhos sobre o regime argentino têm se concentrado na vida diária sob o
autoritarismo. Obras de historiadores como Sebastián Carrassai, Marina Franco e
David Sheinin examinaram as diversas maneiras pelas quais indivíduos comuns
viviam e, muitas vezes, prosperavam sob o regime militar — uma espécie de
cumplicidade social. Muitos nos Estados Unidos provavelmente já sentiram essa
dissonância: em vendas de bolos escolares à sombra de batidas da imigração, em
entrevistas de naturalização no Lower Manhattan, ao lado da sede da imigração
em Nova York.
Contudo,
devemos ter cautela ao traçar muitas equivalências. A América do Sul certamente
demonstra como os países podem cair para o autoritarismo, mas Donald Trump
retornou ao cargo por meio do processo eleitoral, não por um golpe militar
(embora a tentativa de golpe de 6 de janeiro de 2021 possa estar mais próxima
deste último do que do primeiro). As instituições estadunidenses, embora se
mostrem frágeis, não foram formalmente suspensas como na Argentina.
Um
último eco, potencialmente mais esperançoso, surge ao pensarmos na resistência.
Ao longo do último ano, muitos artigos de opinião abordaram como a América
Latina oferece exemplos de como combater o autoritarismo. No caso argentino, é
importante notar que a resistência ao regime não foi imediata, nem foi abraçada
pela maioria dos argentinos comuns. Muitos conhecem as Mães e Avós da Praça de
Maio, as manifestantes de lenços brancos que exigiam saber o paradeiro de seus
entes queridos. Mas esse movimento, fundado em 1977, passou anos em relativo
isolamento. Foi somente em 1981, cinco anos após o golpe militar, quando os
crimes do regime eram conhecidos e condenados em todo o mundo, e com a economia
em queda livre, que o movimento de direitos humanos na Argentina começou a
ganhar maior aceitação, e mesmo assim o processo permaneceu lento.
Dizer
isso não é sucumbir à paralisia do pessimismo, que é outra ferramenta do
autoritarismo. Estamos testemunhando atos de resistência grandes e pequenos:
indivíduos comuns detendo agentes da imigração e protegendo seus vizinhos, a
mensagem especial do Conselho de Bispos Católicos dos EUA condenando a
perseguição a imigrantes, as marchas e manifestações massivas por todos os
Estados Unidos e até mesmo o encontro da Associação Histórica Estadunidense, na
qual os membros votaram esmagadoramente para condenar os ataques aos princípios
fundamentais da educação e expressar solidariedade a Gaza, apesar do veto do
Conselho Executivo às resoluções e da violação da expressão democrática dos
membros.
“ Não
está claro como seria uma resistência bem-sucedida ou como ela se desenrolaria
nos Estados Unidos, mas a indignação e a mobilização generalizada desencadeadas
pelos recentes assassinatos cometidos pelo ICE em Minneapolis podem dar uma
ideia do consenso crescente de que o que está acontecendo aqui não pode ser
permitido.” — Jennifer Adair
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Brasil
Mais do
que qualquer outra coisa, comparar o autoritarismo trumpista com o regime
militar brasileiro revela contrastes.
O
contraste mais básico entre o autoritarismo trumpista e o autoritarismo de
governos militares reside no caráter personalista da administração Trump e na
institucionalização dos governos militares brasileiros. O trumpismo é, como o
próprio termo sugere, um espetáculo unipessoal, dependente do apelo pessoal,
dos caprichos, das obsessões e da vaidade de Trump, enquanto os generais
brasileiros eram antipersonalistas por princípio.
E, no
entanto, há algo curioso sobre o personalismo trumpista. O personalismo, como
atributo político, tende a ser identificado com popularidade, mas Trump tem
alguns dos índices de aprovação mais baixos da história. Com base nisso,
poderíamos dizer que ele provavelmente é menos popular do que qualquer um dos
presidentes-gerais do Brasil, com exceção talvez do último, um cavaleiro que
ficou famoso por dizer que preferia o cheiro de cavalos ao “cheiro de povo”.
Mas,
embora o autoritarismo trumpista seja profundamente impopular, ele mobiliza uma
minoria de apoiadores incondicionais, enquanto a ditadura militar brasileira
estava desmobilizando. Mesmo em seu auge, a propaganda pró-regime no Brasil
visava fomentar a quietude, a passividade, a aceitação e, em sua versão mais
ambiciosa, o entusiasmo, mas sem qualquer apoio ativo e participativo por parte
de pessoas fora das forças de segurança. Trump, por outro lado, mobilizou seus
apoiadores mais fiéis contra instituições e indivíduos identificados como seus
inimigos, mais notavelmente em 6 de janeiro de 2021, mas também durante seu
segundo mandato. É sabido, por exemplo, que alguns legisladores republicanos
têm se mostrado relutantes em se distanciar do governo, não apenas por medo de
perderem as primárias, mas também por temerem por sua própria segurança e a de
suas famílias. Aqui, estamos muito mais próximos da Itália da década de 1920 do
que do Brasil sob o regime dos generais.
Voltando
ao Brasil: no início da década de 1970, no auge do regime militar, havia muitos
fatores que sustentavam a posição do governo. Foi o período do chamado milagre
econômico, durante o qual o crescimento do PIB ultrapassou os 10% ao ano e o
crescimento industrial chegou a ser o dobro. Sim, sabemos que os frutos desse
crescimento econômico foram esmagadoramente para os 10% mais ricos da
população, mas para os moradores e visitantes das cidades do sudeste do país, o
progresso era evidente. O interior era outra história — mas esse era o
objetivo, o projeto nacional dos generais brasileiros compartilhando uma
política de décadas que privilegiava o sudeste urbanizado.
A
expressão “projeto nacional” apresenta outro contraste entre o autoritarismo
militar-governamental e o trumpismo. Resumidamente, os generais brasileiros
tinham um projeto nacional; o governo Trump não. O projeto nacional brasileiro
centrava-se na industrialização, mas abrangia a modernização de forma mais
ampla, incluindo o desenvolvimento de infraestruturas de transporte e
comunicação em âmbito nacional, a expansão da educação e algumas medidas de
bem-estar social; após 1973, incluiu a diversificação das fontes de energia do
país. Após 1974, também se caracterizou por uma expansão do setor público. Este
último foi sacrificado nos anos 1990 neoliberais, mas elementos do projeto
nacional permanecem na infraestrutura de transportes, nos carros flex e na usina
hidrelétrica de Itaipu. Os generais não levaram o Brasil ao Primeiro Mundo,
como alguns sonhavam, mas tinham um projeto voltado para o futuro que produziu
coisas que ainda são úteis.
O
autoritarismo trumpista, por outro lado, não tem um projeto nacional. Sim,
todos viram os bonés vermelhos, mas quase dez anos depois ainda não sabemos
exatamente quando os EUA foram grandes, muito menos nos foi apresentado um
plano de ação para chegar lá (novamente). E mesmo que tivéssemos, a natureza
retrógrada do slogan contrasta com o senso de futuro apresentado pelo regime
militar brasileiro. Em vez de um projeto nacional, o autoritarismo trumpista
parece ter como único objetivo o autointeresse econômico e psicológico.
Analisando
os dois regimes sob uma perspectiva diferente, é preciso reconhecer que o
autoritarismo trumpista é muito menos completo. Tanto o Brasil quanto os
Estados Unidos são repúblicas federais, mas o federalismo brasileiro foi muito
mais restringido sob o regime militar do que o federalismo estadunidense. O
poder dos estados, e das jurisdições menores dentro deles, ainda se mantém nos
Estados Unidos em um grau nunca visto no Brasil sob o regime militar. Para
citar apenas o exemplo mais dramático, em novembro, um socialista foi eleito
prefeito da cidade mais populosa do país; há poucas semanas, ele tomou posse
sem incidentes. É possível imaginar um cenário semelhante ocorrendo no Brasil
sob regime militar? Claro que não. Em novembro de 1968, um socialista foi
eleito prefeito de Santos, importante cidade portuária do Brasil. Antes que
pudesse assumir o cargo, porém, Esmeraldo Tarquínio foi vítima da cassação —
ou seja, o governo militar suspendeu seus direitos políticos para impedi-lo de
assumir o cargo.
Dos
contrastes à citação:
“Ele
está se comportando como um imperador desde a posse […] Está demitindo as
melhores pessoas de altos cargos e substituindo-as por aquelas que contribuíram
significativamente para sua campanha, algumas das quais têm interesses pessoais
nas questões que deveriam regular. O Congresso, que deveria estar fazendo algo
para contrabalançar os esforços para concentrar todo o poder na presidência,
fala muito, mas não faz nada […] É vergonhoso, e nos perguntamos que tipo de
país será este após o término desse mandato. Todas as medidas de bem-estar
social estão sendo canceladas, e apoio adicional está sendo dado às empresas e
às classes ricas […] Uma das piores ações é o esforço crescente para silenciar
a oposição por parte dos jornais, da TV, do rádio, etc.”
“ Essa
passagem é de uma carta da antropóloga Betty Meggers. Não é de 2025 ou 2026,
mas de 1974, referindo-se a Richard Nixon, um lembrete de que não precisamos ir
tão longe quanto a América do Sul para encontrar precedentes para o
autoritarismo trumpista. Mas Meggers — que trabalhou no Brasil desde a década
de 1950, passando pelo período da ditadura militar e além — prosseguiu,
autorizando exatamente essa comparação, acrescentando: “Estamos nos parecendo
cada vez mais com o Brasil!”. Contrastes à parte, talvez estejamos mesmo.” — James
Woodard
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Chile
A ditadura
militar que derrubou o governo da Unidade Popular em 11 de setembro de 1973
estava no auge do seu poder quando cheguei ao Chile em novembro de 1976. Os
comandantes haviam abolido o parlamento, os partidos políticos, o Estado de
Direito e os direitos humanos e civis. O Chile estava sob toque de recolher,
então, conforme a noite se aproximava, as ruas se esvaziavam e os comércios
fechavam.
As
pessoas que conheci sentiam medo, tristeza e confusão, mas também raiva,
coragem e determinação, emoções sentidas por aqueles que se opõem ao governo
Trump nos Estados Unidos hoje.
Como os
protestos de rua estavam proibidos, no dia 1º de maio a oposição realizou uma
missa especial em homenagem a São José Operário na catedral do centro da
cidade, um dos poucos lugares seguros em Santiago. As homilias e os sermões
foram proferidos por um menino cujo pai havia desaparecido, uma mãe cuja filha
havia desaparecido, um adolescente que trabalhava em um refeitório comunitário
e um homem que havia juntado suas economias com outros trabalhadores que
perderam seus empregos para produzir algo para vender e ter uma renda mínima
para sustentar a si mesmos e suas famílias. Após a missa, algumas pessoas
gritavam: “Abaixo a Junta, Liberdade aos presos políticos!”, enquanto outras
berravam: “Cale a boca, a DINA (Direção de Inteligência Nacional, a
polícia secreta) está aqui!”. A polícia cercou a área externa da catedral com
pastores alemães que pareciam prontos para atacar. A multidão se dispersou
rapidamente. A polícia prendeu algumas pessoas, mas a maioria conseguiu voltar
para casa.
Apesar
do terror e da brutal repressão, a esquerda chilena continuou a se organizar, a
ter esperança e a lutar. Os membros da oposição sabiam que arriscavam suas
vidas, mas persistiram porque acreditavam que poderiam acabar com a ditadura e
construir um Chile socialista.
Obviamente,
as diferenças em relação aos Estados Unidos são enormes. A conferência da
Associação Histórica Estadunidense não estaria acontecendo e não estaríamos
apresentando estas observações se estivéssemos sob uma ditadura militar.
Manifestações públicas de resistência, como protestos de rua e comícios em
locais fechados, sofreriam repressão massiva. Embora o nível de repressão tenha
aumentado neste país, a maioria de nós não participa de manifestações pensando
que talvez não volte para casa. Contudo, após os recentes assassinatos
cometidos por agentes do ICE em Minneapolis, essa ideia está se tornando cada
vez menos verdadeira.
As
diferenças entre a esquerda chilena e a estadunidense são inúmeras. Poucas
organizações ou partidos nos EUA possuem o nível de organização, memória
histórica, experiência com repressão e o compromisso político e moral de
resistência que a esquerda chilena demonstrou. (Isso não significa que toda a
esquerda chilena tenha agido de forma heroica.) Ao mesmo tempo, a resposta das
dezenas de milhares de pessoas nos Estados Unidos que saíram às ruas em apoio
ao povo palestino e aos imigrantes, desafiando o ICE, e que foram presas e
brutalizadas, é impressionante e inspiradora. Precisamos manter e aprofundar
nosso compromisso com a justiça.
Outra
grande diferença, claro, é que os militares chilenos derrubaram o governo da
Unidade Popular de Salvador Allende. Até o momento, setores-chave das Forças
Armadas dos EUA não se alinharam às tentativas de Trump de violar a
Constituição. É por isso que Trump transformou o ICE em sua milícia particular
e removeu oficiais militares de alta patente que discordam dele.
Um
paralelo entre as forças armadas chilenas nas décadas de 1970 e 1980 e o ICE
nos dias de hoje é que ambos consideram e tratam pessoas em seus respectivos
países como o outro, o inimigo. Em 1964, a Escola de Guerra do Exército dos EUA
em Carlisle, Pensilvânia, instruiu os militares latino-americanos a derrotarem
o “inimigo interno”, aqueles a quem o General Augusto Pinochet se referia como
“intrinsicamente perversos”, já que eram eles que representavam a maior ameaça
à nação. Essa política inverteu o preceito de que o papel das forças armadas
era proteger a nação do inimigo externo e, em vez disso, as direcionou para
mirar nos chamados subversivos. Os membros do ICE não receberam essa mesma
doutrinação, mas é evidente que consideram qualquer pessoa que se oponha a eles
um alvo justificável. Os agentes do ICE, assim como os militares chilenos e a
DINA, operam com impunidade, acreditando que jamais enfrentarão a justiça,
muito menos a punição, por seus horríveis atos de brutalidade. Essa crença
provou-se errada no Chile, e precisamos garantir que seja igualmente falsa nos
Estados Unidos.
“Em
2026 e nos anos seguintes, precisamos intensificar nossa resistência, construir
redes de oposição comunitárias e interligadas nacionalmente, oferecer apoio e
solidariedade àqueles que estão sendo atacados e acreditar que, assim como os
chilenos se livraram da ditadura de Pinochet, derrotaremos o movimento MAGA.” — Margaret
Power
Fonte:
Por Jennifer Adair, James Woodard e Margaret Power - Tradução
Pedro Silva, para Jacobin Brasil

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