Paulo
Kliass: O povo não come PIB!
Maria
da Conceição Tavares foi a grande mestra de várias gerações de economistas que
não raciocinam pela lógica das abordagens conservadoras, liberais e
monetaristas dos fenômenos econômicos. Ela nos deixou em 8 de junho de 2024,
aos 94 anos de uma vida intensa e produtiva. Maria Conceição não aceitava
passivamente os ditames do mundo do financismo e muito menos as soluções
apresentadas pelo campo do neoliberalismo para os problemas estruturais da
economia e da sociedade brasileiras.
Os
meios de comunicação costumam repetir algumas de suas frases icônicas, em
especial a ideia de que o povo não come PIB. Em março de 2104, a economista
concedeu uma entrevista ao Globo e, em meio a uma série de outros assuntos, ali
afirmou que “ninguém come PIB, come alimentos”. Ela tentava encontrar
explicações para o fato de que a economia parecia retomar à época algum
crescimento e a inflação estava relativamente controlada. Questionada a
respeito de soluções apresentadas pelo povo da Faria Lima de aumentar o
desemprego para controlar o crescimento dos preços, ela não titubeou: “aumentar
o desemprego para combater a inflação... Vou te contar é pior do que o Fundo
Monetário. Não leio mais economia para não me aborrecer. É um festival de
besteira”.
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Enquanto
concedia a entrevista, a professora não poderia imaginar que apenas alguns
meses depois, após sua reeleição, Dilma Roussef chamaria Joaquim Levy para
chefiar o Ministério da Fazenda. E ele viria justamente com um plano de redução
de salários e de aumento do desemprego para diminuir a demanda agregada e,
assim, combater a inflação. Em suma, a aplicação diligente da cartilha do
neoliberalismo para promover ao ajuste cima dos mais pobres. Se ainda estivesse
entre nós, ela certamente teria um nível mais elevado de indignação ao
verificar os termos das notas e comunicados do Comitê de Política Monetária
(COPOM) para justificar a manutenção da SELIC nas alturas. Uma loucura!
Maria
Conceição nos faz muita falta!
O fato
é que a situação atual vivida pelo povo brasileiro guarda alguma relação com
aquela de 12 anos atrás, relatada por Maria Conceição. O governo e parte dos
analistas não conseguem explicações convincentes para o fato de as pesquisas de
opinião não apontarem para uma melhoria da popularidade aprovação de Lula e sua
equipe. Afinal, de acordo com as expectativas geradas pelos responsáveis da
área econômica, a situação seria perfeita para a entrada em período eleitoral.
O crescimento do PIB, ainda que medíocre, é positivo. Os níveis de inflação
estão razoavelmente sob controle. Os indicadores de desemprego estão nos
patamares mais baixos da série histórica do IBGE. Ora, face a tal quadro, como
explicar que as respostas dos entrevistados não apontem para uma avaliação mais
condescendente do suposto esforço governo em melhorar as condições da maioria
da população? O povo é ingrato? O povo não sabe votar? Na verdade, é questão é
bem mais complexa do que essa busca de saídas simplistas.
Então
tentemos compreender cada um dos fatores que deveriam servir como elemento de
aprovação da equipe governamental e verificar as razões para que isto não
ocorra. O primeiro deles, e talvez a maior aposta de Lula neste ano, refere-se
à mudança nas regras do Imposto sobre a Renda das Pessoas Físicas (IRPF), com o
aumento da faixa de isenção até R$ 5.000. Vale lembrar que esta é uma proposta
antiga do movimento sindical e do Partido dos Trabalhadores (PT), tendo se
convertido em promessa de Lula durante a campanha eleitoral de 2022.
Lula e
o PT propunham isenção até 5 salários mínimos.
Em
2019, por exemplo, a bancada do PT no Senado Federal apresentou um Projeto de
Lei que elevava a faixa de isenção até 5 salários-mínimos. Esta era uma
reivindicação histórica da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e demais
entidades sindicais, uma vez que os diferentes governos sempre atrasavam ou
congelavam os reajustes necessários dos valores na tabela das faixas de isenção
do IR. Caso estivesse valendo tal medida, a isenção seria estendida hoje até R$
8.105. No entanto, depois da derrota de Bolsonaro e a vitória de Lula em 2022,
a proposta foi esquecida e deixada à margem do debate político.
Por
outro lado, o mínimo que se poderia esperar seria um reajuste do valor
prometido durante campanha eleitoral. Assim, os R$ 5.000 de 2022
corresponderiam a R$ 6.048 no final do ano passado. Mas não foi assim que Lula
e sua equipe se comportaram. Eles simplesmente trouxeram para o início de 2026
o valor nominal do ano da eleição. Isso significa que os ganhos auferidos pelos
assalariados com registro em carteira estão sendo bem menores do que aquilo que
se esperava. Por outro lado, toda a expectativa gerada pelo anúncio prévio da
medida parece não ter encontrado o eco na sociedade, inclusive dentre os mais
beneficiados.
No que
se refere à dinâmica no mercado de trabalho, a manutenção das estatísticas
atuais nos níveis mais baixos da série histórica esconde detalhes que talvez
ajudem a compreender um pouco melhor a postura dos entrevistados pelas empresas
de pesquisa de opinião. Afinal, nada foi feito pelo novo governo com relação às
suas promessas de revogar as reformas trabalhistas de Temer e Bolsonaro. Ambas
foram realizadas com o intento de reduzir direitos e os ganhos dos
trabalhadores. Com isso, incorporaram-se para dentro da legislação as
possibilidades da informalidade e da precariedade nas relações trabalhistas.
Reforma
trabalhista com redução de direitos.
Os
modelos dos entregadores de mercadorias e de transporte por aplicativo, por
exemplo, romperam a lógica da relação de emprego e criaram um novo espaço sem
regras, sem segurança e sem direitos para os trabalhadores. O mesmo ocorre com
o avanço extraordinário da chamada “pejotização” nas relações trabalhistas, com
a introdução da figura jurídica de uma mera relação comercial entre as empresas
contratantes e as empresas individuais contratadas. Com isso, desaparecem
também direitos históricos dos trabalhadores, como salário-mínimo, férias
regulamentadas, 13º salário, FGTS, abono salarial, regras relativas à jornada
de trabalho, auxílio acidente de trabalho, previdência social, assistência à
saúde, proteção às gestantes, auxílio alimentação, dentre tantos outros.
Dessa
forma, ainda que o registro do desemprego aponte o nível mais reduzido da
série, as condições de tais postos de trabalho são bastante precárias. Alguns
estudos apontam para uma redução da remuneração média da força de trabalho, uma
vez que há uma substituição generalizada de postos de salários melhores por
outros com ganhos mais baixos. É razoável supor que tal percepção também
contribua para uma menor avaliação positiva da condição do próprio trabalhador.
Endividamento
e inadimplência das famílias.
Outro
aspecto relevante diz respeito ao elevado índice de endividamento das pessoas e
das famílias. Os dados da pesquisa da Confederação Nacional do Comércio para o
encerramento de 2025 apontam para cerca de 79% do total das unidades familiares
endividadas. Além disso, o percentual de famílias com dívidas em atraso se
mantém em torno de 30% do total. Finalmente, a pesquisa aponta que por volta de
13% afirmam não terem condições de honrar os compromissos em atraso. A
modalidade mais apontada refere-se ao cartão de crédito (85%), seguida dos
carnês (16%) e do crédito pessoal (12%).
Por
outro lado, merece atenção e reflexão a análise dos dados estratificados por
faixa de renda. Aqui fica gritante a diferença da incidência do drama do
endividamento e da inadimplência para os setores de renda mais baixa. O grupo
mais vulnerável é o da faixa de zero a 3 salários-mínimos (sm). Na sequência
vem o grupo de 3 a 5 sm. O percentual de endividamento é de 82% das famílias
para o estrato de menor renda, em comparação com os 68% do estrato mais alto
(mais de 10 sm). Assim, o que se percebe é que o nível de famílias endividadas
na base da pirâmide é 21% mais elevado que os setores do estrato mais alto.
No
entanto, o quadro se agrava bastante quando os quesitos avaliados são relativos
à inadimplência: as dívidas em atraso e a percepção de que não será possível
honrar os compromissos. Para as dívidas em atraso, a faixa de 0-3 sm apresenta
o percentual de 39%, ao passo que a faixa mais de 10 sm exibe 15%. Ou seja, os
mais vulneráveis mantêm uma porcentagem de famílias com compromissos atrasados
160% mais alta que os de cima de renda mais elevada. A disparidade é ainda mais
alarmante quando se trata da percepção de que não devem conseguir pagar as
dívidas. Na faixa 0-3 sm esse percentual é de 19%, enquanto no topo ele baixa
para 5%. Ou seja, dentre os mais pobres esta impressão negativa e de desalento
é 280% mais alta do que na faixa superior a 10 sm.
Desta
maneira, o que se pode aprender com as reflexões da mestra é que não bastam
apenas alguns bons números aparentes da esfera da macroeconomia. O fundamental
é perceber como tal dinâmica rebate para o dia a dia concreto da vida da
maioria da população. Ao que tudo indica esse coquetel composto por
precarização das condições de trabalho, rebaixamento de salários, jornadas de
trabalho extenuantes e dívidas impagáveis impede que os índices festejados
pelos analistas nos gabinetes cheguem nas residências das famílias e dos
eleitores.
• É preciso derrotar Lula. Por Emir Sader
A
direita fica entre a resignação de que Lula se reeleja e a possibilidade de
desgastá-lo ao máximo para que, mesmo que se reeleja, tenha que conviver com um
Congresso como o atual, muito hostil a ele.
Sabe
que a candidatura do filho de Bolsonaro, apesar de incentivá-lo com pesquisas
de duvidosa credibilidade, terá poucas possibilidades nos debates eleitorais.
Sabe que não pode contrapor nenhuma herança positiva do governo Bolsonaro
diante do que Lula pode propor.
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Mas a
mídia, como verdadeiro partido da direita brasileira, trata de desgastar Lula
de todas as formas que consegue. Um Lula forte, reeleito, é o pior dos
pesadelos para a direita, e a mídia sabe disso. E faz o seu papel de tentar
debilitar a imagem pública de Lula.
A FSP é
craque nisso. Coloca chamadas mentirosas de primeira página, caluniosas contra
Lula, desmentidas pela matéria no interior, porque não conseguem fundamentar as
mentiras, mas o dano já está feito pela chamada da primeira página.
Por que
se opõem tanto a Lula, se a economia vai bem, o prestígio do Brasil no mundo é
cada vez maior e há emprego para todo mundo?
Em
primeiro lugar, porque Lula coloca em prática políticas antineoliberais, e o
neoliberalismo é o projeto assumido pelo grande empresariado brasileiro, com o
qual a mídia tem estreitos laços.
Em
segundo, porque Lula é o PT, é a esquerda, é o partido que melhor representa o
povo brasileiro.
Em
terceiro, porque ele derrota e seguirá derrotando os candidatos da direita
brasileira, com a qual a mídia tem estreitos laços.
Por
isso é preciso derrotar Lula. Senão, o Brasil será uma sociedade cada vez menos
injusta, cada vez mais democrática. Senão, Lula se reelegerá e, como já fez
anteriormente, elegerá seu sucessor. Sem que seja possível, de novo, dar um
golpe para que a direita possa voltar novamente ao governo.
Senão,
o Brasil, cada vez mais, liderará os países da América Latina e fortalecerá,
cada vez mais, os BRICS, enfraquecendo, cada vez mais, os Estados Unidos, com
quem o grande empresariado tem interesses comuns.
É
preciso derrotar Lula, senão a esquerda se consolidará, cada vez mais, como a
força hegemônica no país. E a direita seguirá colecionando derrotas.
Senão,
a mídia terá sempre que se enfrentar ao melhor comunicador brasileiro, que
poderá sempre contrapor a mídia com resultados cada vez mais positivos para o
Brasil.
Fonte:
Brasil 247

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