Guerra
pela terra: conflitos crescem entre latifundistas e povos indígenas no Maranhão
No dia
10 de fevereiro, o Ministério da Justiça e Segurança Pública publicou, no
Diário da União, o ato oficial nº 1.147, que autorizou formalmente o envio de
tropas da Força Nacional de Segurança Pública (FNSP) para a Terra Indígena
Governador, no município de Amarante do Maranhão. O envio de tropas da Forças
Nacional ao estado do Maranhão se dá em um contexto de cada vez mais agudos
conflitos por terra no campo brasileiro, e em especial no Maranhão, líder
nacional em ocorrências por conflitos agrários.
O envio
das tropas, que já se encontram em exercício na região, se deu a partir de uma
recomendação do Ministério Público Federal em tentar aplastar as disputas de
terra no estado. O pretexto utilizado é que a Força Nacional atuará em
coordenação com a Fundação Nacional do Índio (Funai), entidade de pouco ou
nenhum prestígio perante as comunidades indígenas. No ano de 2022, Os indígenas
do povo Awá-Guajá denunciaram que o novo coordenador da Frente Etno Ambiental,
Elton Henrique Sá de Magalhães, mandou servidores da Funai atearem fogo em um
galpão onde os indígenas faziam reuniões, no Maranhão. O ataque teria sido uma
retaliação por seu nome ter sido reprovado para o cargo de coordenador pelos
indígenas, que o expulsaram com arco e flechas durante uma reunião no dia 13 de
julho. Na ocasião, após ouvirem Magalhães, cerca de 50 indígenas o cercaram e
deixaram claro que não o reconhecem como coordenador.
O
Brasil ao longo dos últimos anos tem visto os conflitos por disputa de terra no
campo crescerem ano após ano. Segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT) no ano
de 2024 foram contabilizadas 2.185 ocorrências de conflitos no campo, segundo
maior número de conflitos no campo de toda a série histórica, perdendo apenas
para o ano de 2023. Somente o Maranhão, líder de conflitos no campo brasileiro,
somou 420 ocorrências, sendo 363 por disputas de terra, 45 por disputas por
água, 10 conflitos trabalhistas e 2 ocupações. No ano anterior, esse número
total foi de 210 ocorrências, demonstrando um aumento vertiginoso.
Em
números de conflito agrário, o pódio é ocupado por Maranhão em primeiro lugar,
Pará em segundo, com 243 registros de conflito, e Bahia em terceiro, com 135
registros de conflito. No entanto, a título de comparação, cabe ressaltar que o
estado do Maranhão corresponde a cerca de 26% da área do Pará, e a 59% da área
da Bahia. Outro ponto fundamental a se ressaltar é que o estado do Maranhão
possui o maior número de comunidades remanescentes de quilombos, as quais mais
sofreram os casos de violência registrados. Segundo a CPT, 421 desses quilombos
possuem processos de titulação territorial abertos junto ao INCRA, no entanto a
maioria em fase inicial.
Os
casos de violência na terra do Maranhão não são meramente números e processos.
Eles são acompanhados de muito perto pela tribuna de AND há anos. Somente em
2025, denunciamos a participação ativa do judiciário maranhense no processo de
entrega de parte das terras da comunidade Gleba Campina para a família de
grileiros Finger. Assim como repercutimos a vitória histórica dos camponeses na
disputa pelas terras da fazenda nazaré, marcada por conflitos de extrema
violências, registrados no documentário “Crianças do Gurupi”, lançado em 2024
por Daniel Moreno. Fizemos também repercutir a denúncia de que a Caixa
Econômica Federal (CEF), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
(BDES) e o Banco CNH estão financiando a invasão da Terra Indígena (TI) Bacurizinho
e À TI Porquinhos, do povo Tenetehara-Guajajara, pela empresa latifundista
GenesisAgro S/A.
• PR:
Povo Xetá realiza retomada e funda a Terra Indígena Tikuein Iratxó
Na
madrugada do dia 6 de janeiro, cerca de 36 famílias do povo indígena Xetá
realizaram uma histórica ocupação e fundaram a Terra Indígena Tikuein Iratxó no
distrito de Terra Nova, em São Jerônimo da Serra, norte do Paraná. A retomada é
a resposta dos indígenas à espera de mais de 25 anos pela demarcação de seu
território ancestral, a TI Herarekã Xetá, localizada na Serra dos Dourados.
Essa é a primeira vez que os Xetá realizam uma retomada desde o genocídio que
exterminou a absoluta maioria de seu povo e forçou ao exílio os sobreviventes.
Ao erguer a ocupação, os Xetá transformam décadas de espera imposta pela
burocracia do velho Estado em ação direta, assumindo de forma consciente o
combativo caminho da retomada na prolongada luta pela terra para conquistar seu
território.
O
Comitê de Apoio ao AND de Curitiba esteve no território para prestar apoio e
entrevistar Julio Xetá, proeminente liderança de seu povo. Julio, cujo nome na
língua materna é Tikuen Hararau, é filho de Tikuein Iratxó, um dos oito
sobreviventes ao genocídio Xetá cometido na década de 1950, e a quem a ocupação
é nomeada em homenagem. “É pensando bastante nele, porque ele morreu lutando e
a gente deu prosseguimento, então nada mais justo do que fazer uma homenagem
para ele. Era um sonho dele ver os filhos, os netos, colocados num território
que pudesse dizer que era nosso”, relata Julio, que tem guiado seu povo no
cumprimento dessa tarefa histórica com muita altivez.
O
território no qual se ergue a TI Tikuein Iratxó está localizado em um pequeno
município do norte do Paraná, a 400 km de distância de seu território
originário na Serra dos Dourados. A razão para o povo se estabelecer tão longe
de casa remonta ao projeto genocida de colonização do Oeste do Paraná, que
obrigou os poucos sobreviventes à vida em exílio de sua terra através do
Paraná. Julio conta que seu pai, forçado a deixar seu território, percorreu
praticamente todas as aldeias do Paraná até chegar a São Jerônimo da Serra,
buscando um lugar onde pudesse fincar o pé e criar uma família.
O
município, onde foi realizada a retomada, é uma região sob a influência de
forte poder político e econômico das elites latifundiárias do Paraná, o que
contrasta com a realidade de pobreza da grande maioria da população. Dados do
IBGE demonstram que uma em cada treze pessoas do município vive em extrema
pobreza, com menos de R$218 por mês. A própria Secretaria da Saúde do município
reconhece que “a vulnerabilidade socioeconômica contribui para o aumento da
carga de doenças crônicas e agravos evitáveis, exigindo atuação integrada entre
saúde, assistência social e educação”.
De
acordo com o falido Estatuto da Terra, a terra deveria “cumprir função social
ou ser destinada à reforma agrária”. Com base nesse dispositivo jurídico, os
Xetá identificaram a área pública destinada a reflorestamento e a reivindicaram
por meio da ocupação,para cumprir com a falsa promessa de demarcação do velho
Estado. Nas últimas semanas, surgiram indícios de tentativas de grilagem do que
agora é território indígena, reforçando importante o papel da retomada e
demarcando a subserviência do velho Estado às classes dominantes.
Como
seria de se esperar, as dificuldades são grandes. A maior preocupação dos Xetá
é com a saúde coletiva, em especial das crianças. Em virtude da estrutura
precária e falta de água tratada, existe uma fragilidade na saúde que demanda
acompanhamento próximo da equipe de saúde multidisciplinar, coordenada e
financiada pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI). Após a visita
inicial da equipe ao território, foi alegado que o status de ocupação do
território impedia a presença das equipes, uma clara violação à garantia de
saúde indígena em territórios não-homologados, conforme ditado pela ADPF 709.
Além disso, há a urgente necessidade de gerador de energia para refrigeração de
insulina de pacientes diabéticos e de leite das crianças.
Apesar
das dificuldades típicas de início de ocupação, os Xetá declaram estar muito
otimistas e felizes. A conquista do território é um passo dado para a
realização de um grande sonho de todos os povos forçados ao exílio e à
dispersão — os Xetá agora planejaram reunir novamente seu povo sob o mesmo
chão. “Em todos esses anos de luta, que nunca ninguém viu pela gente, para
demarcar pelo menos um pedacinho de terra e dizer que ali é um território de
Xetá, a gente ficou todo espalhado, sem saber notícia um do outro, como que
está, como que não está”, conta Julio, mencionando dor da recente perda de um
dos anciãos de seu povo. “Morreu por morte natural, mas a gente não teve nenhum
privilégio de fazer uma última homenagem. Saber que a pessoa faleceu e não ter
nem condição financeira de fazer uma última homenagem não é fácil”. Atualmente,
os Xetá encontram-se em diáspora entre as TI Tikuein Iratxó, TI Marrecas, TI
Rio d’Areia, Aldeia Urbana Kakané Porã, TI Xapecó (SC) e nos centros urbanos de
Umuarama e Douradina.
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A Marcha para Oeste expropria os Xetá de suas terras
A
Marcha para Oeste foi uma política estatal do governo de Getúlio Vargas e marco
da consolidação política, econômica e ideológica do latifúndio como pilar do
Estado brasileiro. Através de decretos, vastas extensões de terra passaram a
ser consideradas “terras devolutas”, aptas à concessão, grilagem legal ou venda
a preços irrisórios para intermediários do capital, geralmente sob forma de
empresas colonizadoras, que passaram a explorar economicamente, lotear ou
simplesmente deter a terra como reserva de valor. A terra passou a ser tratada
como ativo econômico, subordinado à lógica da exportação, da monocultura e da
acumulação.
Ao
final da década de 1940, esse projeto impulsionou o avanço da colonização no
Oeste do Paraná, região onde os indígenas Xetá viviam de caça e de coleta.
Expropriados de suas terras e cercados por fazendas dos colonizadores, os
indígenas perderam as condições materiais necessárias à sua sobrevivência e aos
poucos, passaram passaram a fazer contato com os colonizadores. Em nome do
lucro, se iniciou então o processo de extermínio desse povo que por muitos anos
manobrou-se habilmente nas matas e evadiu do contato com os colonizadores.
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Governo do Paraná e Banco Bradesco engendram o Genocídio Xetá
Conforme
denunciado pela Comissão Estadual da Verdade (CEV), em virtude do início do
governo estadual de Bento Munhoz da Rocha em 1951, a Companhia Brasileira de
Imigração e Colonização (Cobrimco), pertencente ao grupo Bradesco, passou a
deter os direitos sobre as terras dos Xetá. A partir de então, o genocídio dos
indígenas foi impulsionado com grande força – sequestro de crianças,
envenenamentos, desaparecimentos, assassinatos e ataques de pistoleiros tinham
respaldo político, jurídico e cultural do velho Estado para acontecer.
Em
1958, denúncias do genocídio em curso foram feitas ao Conselho Nacional de
Proteção ao Índio, órgão do Estado para a proteção dos indígenas. O professor
Loureiro Fernandes, médico, antropólogo e professor da UFPR escreveu um relato
denunciando as atividades da Cobrimco: “seus caminhões teriam sido vistos pelo
menos duas vezes conduzindo os índios para fora da Serra dos Dourados. Qual o
destino? Ninguém ao que parece até agora tentou averiguar”.
A
Cobrimco, como braço imobiliário do grupo Bradesco, acabou sendo reorganizada
em uma outra entidade do mesmo grupo, notadamente a Santa Maria Agropecuária
Industrial S/A, cujos sócios-proprietários são os irmãos Rubens e Denise Aguiar
Alvarez, netos do fundador do Banco Bradesco, Amador Aguiar. Essa sociedade
abarca um conjunto de empresas agropecuárias que mantém fazendas no Paraná,
entre elas, a fazenda São Francisco.
Conforme
denunciado pela CEV, houve à época do genocídio o sequestro de duas crianças
que foram parar na fazenda São Francisco, propriedade da Cobrimco. Anos mais
tarde, essas crianças raptadas foram transferidas para o Mato Grosso do Sul e
suas identidades e paradeiro acabaram, tragicamente, desconhecidas. Em
depoimento à comissão, Claudemir Xetá falou sobre as profundas marcas que essa
violência deixou em seu povo. “Na época meu pai contava pra nós e eu chegava
chorar, diz que quando começaram a tirar os índios, é a mesma coisa de quando
cria uma cadela chega lá os pessoal e diz: olha que cachorrinho bonitinho, eu
vou levar esse aqui! Foi a mesma coisa que aconteceu com nosso povo, por isso
aconteceu de ir pra um lado ir pro outro, extraviou tudo, foi isso que
aconteceu.”.
Em
2023, o observatório De Olho Nos Ruralistas publicou um relatório que expôs a
contradição do povo com o latifúndio: existe uma sobreposição de registros
entre a TI Herarekã Xetá e a Fazenda São Francisco. Com 4 mil hectares de
extensão, o suficiente para acomodar 5.600 campos de futebol, 2.679 hectares
estão em sobreposição com a área delimitada pela Funai em 2014. Na prática,
sobrariam somente 7 hectares para os Xetá viverem. O que sobrou do seu
território ancestral serve hoje de pasto, de lavoura de café e de plantio de
cana para a produção de etanol.
“Eu não tive o prazer nem de visitar esse
território”, nos conta Julio sobre o exílio forçado. No início dos anos 2000,
agentes da Funai convidaram seus irmãos mais velhos a conhecer a TI Herarekã
Xetá, no início do que viria a ser o seu inconcluso processo de demarcação.
Seria a primeira vez que um Xetá retornaria à sua terra ancestral, 50 anos após
o genocídio. No entanto, eles foram impedidos e tiveram suas vidas ameaçadas
por pistoleiros não identificados. “Quando ficaram sabendo que eles estavam fazendo
visita no território lá, o pessoal já começou a se movimentar para não deixar
eles chegarem até o território nem para visitar lá na época. E aí eles tiveram
que evacuar rapidamente”.
Passados
mais de 70 anos, a Fazenda São Francisco se mantém na região, gerando lucros
aos herdeiros dos genocidas. Apesar de fartas denúncias e provas de seus
crimes, nunca sofreu sanções nem fez qualquer tipo de reparação. Pelo
contrário, o grande poder político e econômico de seus proprietários é a grande
e verdadeira razão pela qual o processo de demarcação do território originário
dos Xetá nunca foi concluído e filhos dos sobreviventes nunca puderam sequer
pisar em suas terras.
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Indígenas em luta por conquistar a terra e a Revolução Agrária
Em um
momento de intensificação de conflitos pela terra e de avanço da Revolução
Agrária no Brasil, o recrudescimento da violência do latifúndio e das forças
repressivas do Estado a seu serviço têm sido enfrentados pela infalível coragem
dos povos camponeses do Brasil.
De
acordo com o Centro de Documentação Dom Tomás Balduino (Cedoc) da Comissão
Pastoral da Terra (CPT), entre os anos de 2019 e 2023, foram registrados 2.501
conflitos pela terra envolvendo povos indígenas no Brasil — número que a
própria CPT reconhece ser subestimado. No mesmo período, o Brasil registrou 161
ameaças de morte de indígenas e de pessoas envolvidas na luta pelos seus
direitos. Boa parte dessas ocorrências está localizada justamente na região
Oeste do Paraná, território originário de dezenas de povos indígenas, dentre os
quais o povo Xetá.
Neste
contexto, a tendência que se apresenta cada vez maior no movimento indígena é a
do combativo caminho das ocupações de terras. “Para reconquistar seus
territórios, esses povos agem de forma estratégica. Eles produzem ações de
resistência, mapeiam seus territórios e, muitas vezes, realizam a própria
autodemarcação”, relata a CPT.
brasileiros,
combativas e massivas mobilizações têm agitado o país. Desde o dia 22 de
janeiro, centenas de indígenas e apoiadores ocupam o terminal portuário da
gigante imperialista Cargill, exigindo a imediata revogação do Decreto
12.600/2025. Editado pelo governo de Luís Inácio, o decreto é uma medida
entreguista que pretende, em última instância, privatizar o rio Tapajós e
transformá-lo em uma hidrovia para escoar a produção de commodities do
latifúndio serviçal do imperialismo. Além da ocupação, foi realizado um
vitorioso e massivo bloqueio de acesso ao aeroporto de Santarém, com mais de
200 manifestantes presentes. Em ano de farsa eleitoral, a luta indígena coloca
Luís Inácio na desagradável posição de ser novamente desmascarado como inimigo
dos povos indígenas diante do assumimento do papel de serviçal do capital
imperialista.
É fato
incontestável que o formidável avanço da Revolução Agrária no Brasil é
impulsionado pelas medidas reacionárias do governo de turno. Diante da
constatação de que a reforma agrária é uma promessa falida feita por um Estado
cujo único compromisso é com o velho e decadente latifúndio e seus maiores
aliados, a grande burguesia e o capital imperialista, as massas populares tomam
para si a tarefa de conquistar a terra para quem nela trabalha. De Norte a Sul
do país, indígenas e camponeses, especialmente a Liga dos Camponeses Pobres,
têm se organizado para realizar vitoriosas ocupações de terras e destruir o
latifúndio, seja através da autodemarcação ou do corte popular, que dá a cada
camponês um pedaço de terra para chamar de seu. A combativa e explosiva força
das massas populares já decretou: o velho Estado e o latifúndio estão com os
seus dias contados.
Fonte:
A Nova Democracia

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