4
anos de guerra na Ucrânia: da promessa de vitória rápida ao risco de confronto
geral na Europa
Em 24
de fevereiro de 2022, a entrada das tropas russas na Ucrânia marcou o início de
uma guerra que rapidamente ultrapassaria os limites territoriais do país. O
conflito não surgiu como um episódio isolado, mas como o desdobramento de
tensões acumuladas ao longo de décadas: a expansão da Otan em direção ao Leste
Europeu, disputas por zonas de influência, reconfigurações estratégicas após o
fim da Guerra Fria e o enfraquecimento de mecanismos de segurança coletiva no
continente.
Quatro
anos depois, a guerra permanece como um dos acontecimentos mais decisivos do
século 21. Recolocou a Rússia no centro do tabuleiro internacional, aprofundou
a disputa geopolítica entre Estados Unidos, Europa e potências emergentes como
a China, e acelerou transformações na economia política global. Mais do que uma
guerra regional, trata-se de um processo que expôs fraturas estruturais na
ordem internacional e reacendeu o debate sobre o risco de uma escalada mais
ampla na Europa.
A
expansão da Otan até as fronteiras russas, advertida por estrategistas
estadunidenses desde os anos 1990 como fator potencial de instabilidade, é um
dos elementos centrais para compreender o atual cenário. É o que explica o
valenciano Joan Garcés, jurista, doutor em Ciências Políticas pelas
universidades Sciences Po e Sorbonne e especialista em História, Justiça
Internacional e Geopolítica Mundial.
Pesquisador
visitante no Instituto para Estudos Políticos, uma instituição de esquerda nos
EUA, dedicou anos de investigação nos arquivos do Departamento de Estado e do
Departamento de Defesa daquele país, bem como nos serviços secretos
estadunidenses. Para ele, a guerra na Ucrânia deve ser entendida como parte de
uma estratégia de longo prazo que redefiniu o equilíbrio europeu e pode
projetar consequências por gerações.
Confira
a entrevista concedida recentemente por Garcés ao podcast Donde callan
las armas (Onde as armas se calam), do Centre Delàs de Estudos pela
Paz, transmitido em plataformas digitais e no portal espanhol elDiario.es.
·
A que mudanças na ordem internacional assistimos com
Donald Trump?
Joan
Garcés – A política internacional é dinâmica e mutável. Trump acelera o fim do
período posterior à Guerra Fria, iniciado em 1989. A Guerra Fria, entre 1945 e
1989, teve três pilares: a divisão da Alemanha; impedir governos de partidos
operários na Europa Ocidental; e conter, além de fazer retroceder, a União
Soviética nos países onde derrotou o exército alemão.
Os três
pilares desapareceram a partir de 1990. A União Soviética se autodissolveu, a
Alemanha se unificou e os principais partidos operários tornaram-se marginais.
Da parte da Rússia, Gorbatchov, Yeltsin e também, em um primeiro momento, Putin
buscaram um acordo com os Estados Unidos e a Europa Ocidental. Gorbatchov
propôs estabelecer um sistema de segurança coletiva no que chamava de “casa
comum europeia”.
Esse
período terminou. Já não serve aos Estados Unidos. Trump acelera o processo de
mudanças e, neste momento, negocia com a Rússia, enquanto alguns países da
Europa Ocidental se armam para derrotá-la financeira e militarmente — trata-se
de um país com armamento nuclear.
Deliberadamente
ou por acidente, a Espanha pode ser arrastada para uma nova guerra no cenário
internacional.
·
O senhor afirmou que a guerra na Ucrânia se tornou, de
algum modo, um instrumento que Trump utiliza para pressionar a União Europeia e
que esse conflito representa uma derrota estratégica para a Europa. Em que os
países europeus erraram?
É uma
tragédia para a Europa. Durante séculos, o que eu, em meus estudos,
conceitualizo como “Estratégia Britânica” — assumida pelos Estados Unidos desde
o presidente Truman — buscou impedir a unidade do continente euroasiático,
particularmente entre Alemanha e Rússia. Isso faz sentido: as ilhas britânicas
foram invadidas ou alvo de tentativas de invasão a partir do continente, razão
pela qual essa unidade é percebida como uma potencial ameaça à sua
independência.
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Manter
a divisão tem sido uma constante desde o século 18. Sua concretização mais
recente é a guerra na Ucrânia, antecipada por analistas — sobretudo dos Estados
Unidos — como Brzezinski, Kennan e muitos outros, que, desde os anos 1990,
argumentaram que expandir a Otan até as fronteiras russas poderia provocar uma
guerra preventiva.
Em
2008, na Cúpula de Bucareste, a Otan adotou a formulação de que Ucrânia e
Geórgia se tornariam membros da aliança. Essa orientação, em minha leitura,
chocava-se com o horizonte proclamado pela Ucrânia em sua Declaração de
Autodeterminação e Soberania de 1990, na qual “proclama solenemente sua decisão
de tornar-se, no futuro, um Estado permanentemente neutro”, “fora de blocos
militares” e de “participar diretamente do processo paneuropeu e das estruturas
europeias”.
A atual
guerra na Ucrânia criou um fosso de sangue e destruição que se projetará por
gerações; é um desastre humano e econômico para os ucranianos, os russos e o
conjunto da Europa.
Vamos
transferir o problema para um cenário imaginário mais próximo: que o Estado
espanhol, assim como a Rússia em 1990, tivesse aceitado, em 2017, a declaração
de independência do Parlamento da Catalunha, com garantia de neutralidade e de
não instalação em seu território de uma potência interessada em desintegrar o
Estado espanhol; e que, ao cabo de algum tempo, uma mudança política na
Catalunha considerasse que sua segurança dependia de ingressar em uma coalizão
que contemplasse a desintegração do Estado plurinacional vizinho. Teria havido
na Espanha alguém que antecipasse o que Kennan previu em 1998, quando o Senado
dos Estados Unidos aprovou a expansão da Otan até as fronteiras da Rússia?
A atual
guerra no leste da Europa criou, nas relações com o Ocidente, um fosso de
sangue e destruição que se projetará por gerações. É um desastre humano e
econômico para os ucranianos, os russos e o conjunto da Europa entendida como
realidade cultural, geográfica e política. Tchaikovski, Tolstói e São
Petersburgo não são menos Europa do que Berlim ou Londres.
·
Ouvimos recentemente o secretário de Estado dos Estados
Unidos, Marco Rubio, fazer referência ao expansionismo ocidental que se
estendeu por 500 anos. Os Estados Unidos querem continuar mantendo seu
perímetro global?
Dentro
dos Estados Unidos convivem várias correntes. A representada por Rubio e Trump
é de expansão imperial. Rubio evoca a dos impérios da Espanha, Inglaterra e
França, que os EUA sempre se propuseram a dissolver. Isso é coerente com a
manutenção da hegemonia sobre a antiga América espanhola e sobre a Europa
Ocidental, mobilizando esse conjunto de recursos humanos e naturais para
enfrentar a ascendente China popular, uma potência nuclear. Isso é de interesse
para a Espanha?
Os
principais dirigentes políticos europeus parecem caminhar como sonâmbulos rumo
a uma guerra geral.
·
Trump está exigindo mais gastos militares de seus aliados
europeus na Otan. O que implica esse aumento dos gastos militares que já está
ocorrendo na União Europeia?
É
assombroso. Os principais dirigentes políticos europeus parecem caminhar como
sonâmbulos rumo a uma guerra geral. Preparam a opinião pública para que aceite
investimentos descomunais em armamentos, para abastecer arsenais e sustentar
uma guerra de grandes proporções. Por exemplo, o ministro da Defesa da
Alemanha, Pistorius, do Partido Social-Democrata, afirmava no Frankfurter
Allgemeine Zeitung, em 15 de novembro passado, que “alguns historiadores
militares” consideram inclusive que o verão passado “já” pode ter sido o último
em paz.
Há
poucos dias, um importante jornal espanhol publicava a análise de um acadêmico
inglês com o seguinte silogismo: uma vez que a Rússia, contra todo prognóstico,
avançou na guerra da Ucrânia ao militarizar sua economia, necessitará de mais
guerras para evitar o colapso de sua economia militarizada. Desconhece ele que
a corrida armamentista contribuiu para a quebra financeira da URSS?
As duas
últimas guerras hegemônicas europeias começaram em datas precisas, em 1914 e
1939: a primeira por um incidente precipitador; a segunda de forma deliberada —
mas ambas foram preparadas previamente. É preciso ler os especialistas
norte-americanos.
Brzezinski,
em 2014, pouco depois da insurreição da Maidán contra o governo constitucional
de Yanukóvich, sustentou que a
expansão da
Otan até a Ucrânia poderia provocar uma guerra suscetível de escalar por uma
dinâmica comparável, em certos aspectos, à guerra da Espanha nos anos 1930: uma
insurreição armada provoca uma guerra civil que escala com intervenções
estrangeiras, que primeiro se enfrentaram em território espanhol e depois no
restante da Europa.
Armamento
para quê? Para ser usado — ou para que possa ser usado — voluntariamente ou por
acidente.
·
Acredita que esse risco existe agora?
Essa
advertência, em minha interpretação, foi confirmada pela sequência posterior:
insurreição contra o governo constitucional em 2014, guerra civil nos óblasts
do leste da Ucrânia, “operação militar especial” russa e progressiva implicação
material de países da Otan.
A
internacionalização, por enquanto, está delimitada ao território ucraniano, mas
há elementos para uma escalada — o risco de que esse conflito seja o prólogo de
uma guerra geral na Europa. A guerra da Espanha terminou em abril de 1939 e, em
setembro, generalizou-se progressivamente por toda a Europa.
Recordemos
que, quando em 2022 as tropas russas entraram na Ucrânia, dirigentes da Europa
Ocidental anunciaram que a economia russa seria “posta de joelhos”, nas
palavras de um ministro francês. Ou que a guerra seria resolvida “no campo de
batalha”, com a derrota russa, dizia Borrell desde a União Europeia. São os
azares das guerras: sabe-se como começam, mas não como terminam.
As
Nações Unidas encontram-se atualmente em uma situação de impotência comparável
à da Sociedade das Nações no período anterior à Segunda Guerra Mundial.
·
Trump pede mais gastos militares no âmbito da Otan; os
países europeus estão nessa direção, e alguns justificam isso dizendo que
poderia servir para construir um Exército europeu comum e uma autonomia
europeia em matéria de defesa. Isso é viável?
Um
Exército é execução. Requer uma direção política e um comando únicos. O comando
político único na Europa Ocidental é hoje o dos Estados Unidos, no âmbito da
Otan. Poderia haver um acordo entre Estados, na lógica do “concerto europeu”
clássico que Charles de Gaulle propunha atualizar para uma “Europa do Atlântico
aos Urais”.
Mas, na
estrutura atual da União Europeia, se vier a se concretizar o projeto do
chanceler alemão de ter sob seu comando o Exército convencional mais poderoso
da Europa, a Alemanha terá mais poder do que nunca. Poderia ser uma
atualização, em chave militar, do Zollverein (união aduaneira) iniciado em 1834
entre Estados independentes, que culminou no II Império Alemão após derrotar a
Áustria-Hungria e a França. Esse projeto, se for aceito por franceses,
poloneses etc., conduz a um Exército “europeu” com comando político único e
exércitos auxiliares subordinados. É esse o interesse da Espanha?
·
Uma última questão: nos dois últimos anos, vimos, ao
vivo, um genocídio em curso. Apesar de alguns passos inéditos nas Cortes
Internacionais de Haia, há a percepção de que boa parte dos Estados do mundo
não tem utilizado esses instrumentos para fazer política com eles. Onde fica o
direito internacional nesse avanço da impunidade?
A
aplicação efetiva do direito como norma requer coerção sobre quem o desobedece.
Caso contrário, trata-se apenas de um preceito moral, seguido ou não. Se o
direito interno é aplicado em nosso país, é porque existe um Estado, com seus
tribunais e instituições, que sancionam quem o descumpre. No plano
internacional ocorre o mesmo. Se uma norma não dispõe de força para se impor e
punir sua desobediência, transforma-se em uma recomendação moral.
Desde
1945, a legitimidade para usar a força em apoio ao direito internacional reside
na estrutura concebida pela equipe do presidente Roosevelt após a derrota dos
Impérios da Alemanha e do Japão: o Conselho de Segurança das Nações Unidas. Mas
a realidade dos fatos seguiu outro caminho. Houve intervenções militares, em
diferentes cenários, sem que essa legitimidade operasse de forma efetiva e
uniforme.
As
Nações Unidas ficaram reduzidas a uma impotência comparável à da Sociedade das
Nações antes da Segunda Guerra Mundial. Nas últimas décadas, as contradições
entre os Estados Unidos e outras potências conduziram à ineficácia do sistema
da ONU.
Lamentavelmente,
grandes meios de comunicação semeiam medo na população para que não reaja
diante dos descomunais investimentos em armamentos destinados a sustentar,
voluntariamente ou por acidente, a escalada bélica.
·
O que isso implica?
É um
momento extraordinariamente perigoso. Deliberadamente ou por acidente, a
Espanha pode ser arrastada para uma nova guerra, com o agravante de um poder
destrutivo sem precedentes desde Hiroshima, em 1945. Antes, as armas destruíam
temporariamente um território e uma população delimitados. As armas atômicas
podem contaminar o território por séculos, e a nuvem radioativa pode alcançar
populações muito distantes do local de combate. Caminhamos, como cegos, em
direção a esse abismo.
Lamentavelmente,
grandes meios de comunicação semeiam medo na população para que não reaja aos
grandes investimentos em armamentos necessários para sustentar, voluntariamente
ou por acidente, a escalada bélica. O que ocorre na Europa é um indicador disso;
o que ocorre no Oriente Médio e na Palestina, outro. Isso é do interesse dos
espanhóis?
Armamento
para quê? Para ser usado, sem dúvida. Ou para que possa ser usado,
voluntariamente ou por acidente. Esse é, do meu ponto de vista, o maior perigo
que estamos vivendo neste momento. É preciso olhar para os fatos, abstrair-se
de ideologias e de definições políticas cujos significados estão desgastados.
Destruições em massa, genocídios. As categorias ideológicas correntes pouco
ajudam a compreender e a remediar o rumo para o qual os fatos nos conduzem.
·
'Fim está próximo': ex-analista da CIA expõe como a bolha
da defesa ucraniana está prestes a estourar
Segundo
os resultados da campanha de inverno europeu na zona da operação militar
especial, o Exército ucraniano piorou significativamente suas posições, ficando
à beira do esgotamento, disse o ex-analista da CIA, Larry Johnson, no canal no
YouTube do tenente-coronel reformado Daniel Davis.
"O
fim está próximo. Sabe, os ucranianos não podem mais continuar do mesmo jeito,
o país deles vai chegar ao fim. E assim como você tenta inflar um balão e
continua bombeando ar nele, em algum momento ele vai estourar. E o estouro
neste caso está relacionado a vítimas, falta de recursos humanos, falta de armas e
falta de dinheiro", explicou o especialista.
Um
sinal do colapso iminente das forças ucranianas, na opinião dele, foi a
diferença entre a forma como as forças russas e ucranianas lidaram com a luta
durante um inverno rigoroso.
"Não
há nenhuma frente [de batalha] na qual os ucranianos pudessem indicar que
fizeram um verdadeiro progresso e foram capazes de deter os russos. […] o fato
de a Rússia continuar operando de forma bastante eficiente nas condições de
inverno, demonstra mais uma vez as capacidades dela. Já os ucranianos estão
sofrendo consequências terríveis, algumas das suas baixas em combate incluem
morte por congelamento e ferimentos relacionados com o clima. […] acho que na
primavera [europeia] veremos uma ofensiva russa
massiva para
acabar com isso, porque até lá, acho que a Ucrânia estará à beira do
esgotamento", resumiu Johnson.
Anteriormente,
o porta-voz do presidente russo, Dmitry Peskov, afirmou que Kiev deve tomar uma
decisão e começar a negociar, pois o espaço para a liberdade de decisão
do lado ucraniano está diminuindo devido às ações ofensivas das Forças Armadas
russas.
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Exibição de bunker por Zelensky é sinal de desespero, acredita analista
Ao
mostrar seu bunker, Vladimir Zelensky tentou evidenciar o drama de sua situação
para o público europeu, mas o tema da Ucrânia está perdendo cada vez mais sua
urgência para o Ocidente, disse à Sputnik o analista político turco e
pesquisador do Leste Europeu, Nejat Sezgin.
Segundo
Sezgin, tais gestos simbólicos têm como objetivo principal manter a mobilização
política e preservar o interesse do público ocidental. Ele acredita que as
imagens visuais da crise são usadas como ferramenta para influenciar a
opinião pública e os políticos que tomam decisões sobre a continuidade da
ajuda.
"Mostrar
o bunker é uma tentativa de enfatizar visualmente o drama da
situação e demonstrar que a liderança do país está agindo sob constante
ameaça. Mas na Europa, o efeito emocional de tais medidas já está
diminuindo visivelmente", observou o especialista.
O
analista também acredita que a agenda de informações na União Europeia e nos
Estados Unidos está gradualmente mudando para problemas econômicos
e sociais domésticos. Segundo ele, no contexto da inflação, questões
energéticas e processos eleitorais, o tema da Ucrânia deixa de ser
dominante no discurso público, o que reduz a eficácia de tais medidas
midiáticas.
Além
disso, Sezgin observa que a dramatização excessiva realizada pelo líder
ucraniano pode ter o efeito oposto. Em sua opinião, o Ocidente já se
acostumou a tais sinais ao longo dos quatro anos do conflito, e o impacto
emocional está gradualmente enfraquecendo, o que exige que Kiev encontre novas
formas de comunicação com seus aliados.
Vale
lembrar que na véspera, em entrevista à mídia francesa, o líder
ucraniano Vladimir Zelensky confessou que esteve escondido em
seu bunker por
dois anos e prometeu mostrá-lo. Segundo ele, sua equipe e o Gabinete de
Ministros estavam escondidos com ele, e reuniões com os militares foram
realizadas no bunker.
O
bunker, no centro de Kiev, mostrado por Zelensky em sua mensagem de vídeo, tem
longos corredores subterrâneos com salas perto das quais são visíveis placas
como "liderança do Gabinete de Ministros", "gabinete da
Suprema Rada" e outras.
Fonte:
Por Olga Rodríguez, para elDiario.es/Sputnik Brasil

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