Equipes
unidas pelos rios e corações amazônicos, celebram a força e a resistência
indígena
Javari,
Purus, Madeira, Solimões, Juruá, Xeruã, Coari, Catrimani, Urubu, Tacutu, Branco
e Negro: rios que unem suas águas e formam o Grande Amazonas. Alto Javari,
Lábrea, Borba, Tefé, Juruá, Maici/Marmelos, Eapil, Itinerante, Catrimani,
Amajari, Serra da Lua, Raposa, Baixo Cotingo, Serras, Surumu, São Marcos,
Tabaio, Alto Cauamé: equipes de missionárias e missionários que atuam ao longo
dos rios amazônicos junto aos povos indígenas, unem suas vidas e formam o
Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Norte 1 e a Pastoral
Indigenista de Roraima, confirmando a sabedoria do Papa Francisco em sua
Exortação Apostólica Pós-Sinodal Querida Amazônia: “O rio não nos separa; mas
une-nos”.
Esse
foi o lema da 46ª Assembleia do Cimi Regional Norte 1, realizada nos dias 6 e 7
de fevereiro, no Centro de Formação Xare, em Manaus, que reuniu equipes,
indígenas e parceiros para celebrar, abraçar, dialogar, partilhar, trocar,
sorrir, compartilhar dores e conquistas, interligar suas realidades.
A
diversidade de cores, formas, sons e movimentos que compõem as vidas amazônicas
em um território vasto, amplo e diverso, nutrem caminhos, assim como as águas
dos rios da Amazônia nutrem suas terras. “Nossas veias são como os rios que
regem a vida, alimentam pessoas, animais e florestas, conduzem nossas equipes e
ajudam-nos a conviver entre diferentes culturas e línguas”, diz Raimunda
Paixão, missionária do Cimi na equipe Itinerante, citando a Querida Amazônia.
“O
Amazonas acaba de nascer. A cada instante ele nasce. Desce devagar, para
crescer no chão. Varando verdes, faz o seu caminho e se acrescenta. De mais
alto ainda, desce a água celeste. Reunidas, elas avançam, multiplicadas em
infinitos caminhos, banhando a imensa planície (…). É a Grande Amazônia”,
retratada nos mais de 50 participantes, entre missionários, indígenas e
parceiros indigenistas, conduzidos pelo tema “Defesa da Natureza e dos
Territórios, no contexto pós COP 30 (Conferência das Nações Unidas sobre as
Mudanças Climáticas de 2025) e das eleições de 2026”.
O
secretário executivo do Cimi, Luiz Ventura, esteve presente e comentou que os
objetivos das Assembleias Regionais do Cimi é unir forças, entender as
realidades e planejar as ações junto aos povos indígenas.
“É um
momento fundamental para a vida do regional. É o momento de encontro para o
abraço, o afago e a partilha. Para atualizar a leitura da realidade, da
conjuntura, e sobretudo para atualizar estratégias de como o Cimi vai responder
junto com os povos indígenas aos desafios que estão postos. Também é para tomar
algumas decisões, deliberações que têm a ver com a vida orgânica do regional”,
esclareceu, apontando os desafios do Regional Norte 1 em toda a sua grandeza
geográfica e de diversidade.
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Novas colonizações
A
História indígena é repleta de investidas contra suas vidas. Enfrentam,
historicamente, ameaças, assassinatos, extermínios, perseguições. Mas, sempre
resistiram e continuam resistindo. Conquistaram a garantia constitucional de
proteção a seus modos de vida, cultura e territórios. Mesmo assim, atualmente,
enfrentam novas formas de colonização, novos modos de ataques, ameaças e
tentativas de extermínio com um Congresso Nacional que se alinha ao poder
econômico e cria legislações sobre os territórios, a fim de regulamentar a
exploração das riquezas naturais em nome do desenvolvimento.
A
análise da conjuntura política indigenista e as negociações das terras
indígenas foi o tema da mesa que abriu os debates com a contribuição de Luiz
Ventura, Edinho Batista Macuxi, liderança do Conselho Indígena de Roraima (CIR)
e assessor político da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia
Brasileira (Coiab), e a assessora jurídica da Articulação das Organizações e
Povos Indígenas do Amazonas (Apiam), Ellen Estefany Sateré Mawé.
Ventura
destacou aspectos dos ataques aos territórios mantidos na Lei 14.701, que
tentou manter a tese do marco temporal. Não conseguiu, mas ataca por outras
frentes tão ou mais terríveis que ela.
“O
marco temporal foi declarado inconstitucional pela segunda vez no STF, mas é
preciso continuar atentos contra ele; a alteração do procedimento
administrativo de demarcação vai deixa-lo mais complexo e demorado; a
indenização por títulos e pela terra nua poderá beneficiar àqueles que
expulsaram e cometeram violência contra as comunidades e obrigará ao governo a
determinar o valor da indenização e ver se tem dinheiro ou não, tornando a
demarcação mais difícil; e a mais grave é a abertura dos territórios para
exploração econômica, especialmente a mineração”, elencou, alertando que a
decisão do ministro Flávio Dino em obrigar o Congresso a regulamentar a
mineração em Terras Indígenas é, justamente, o contrário da luta indígena, que
busca demarcação e proteção de seus territórios.
Edinho
corrobora as análises de Luiz Ventura, dizendo que os povos indígenas nunca
foram vencidos. “Reduziram a gente, mas nunca venceram a gente. Não é agora que
vão vencer. Somos, historicamente, símbolo de resistência”, disse emocionado,
mas realista, e afirmou que o movimento indígena sabe quem está ou não ao seu
lado.
“A
gente sabe quem é inimigo e quem são nossos aliados. Nós conquistamos na
Constituição a regulamentação das nossas políticas. Mas, ela está sendo
atropelada por aqueles que deveriam proteger. O Brasil prega desenvolvimento,
mas um progresso sangrento, onde os poderes – executivo, legislativo e
judiciário – não respeitam as pessoas e colocam o mercado acima da vida. Estão
alinhados e já colocaram como prioridade para suas pautas, a mineração, o
petróleo, hidrelétricas, soja e outros megaempreendimentos que rasgam a
Constituição”, analisa o Macuxi, exemplificando com a COP 30 que não ouviu os
indígenas e com as eleições de 2026, “saberemos votar”.
Já
Estefany Sateré Mawé, trouxe o “trabalho de formiguinha” que a Apiam desenvolve
nos territórios e disse que é tão poderoso quanto a ação nas esferas macro das
políticas indígenas.
“A
Apiam está nos territórios, atenta às carências de políticas públicas, seja da
educação escolar, de violência em território ou da demarcação. O trabalho de
formiguinha é um trabalho legítimo, que faz a gente tomar a frente das nossas
políticas e faz com que nossas problemáticas e lutas sejam elevadas a um
patamar maior, certos de que não iremos desistir, nada vai nos abalar,
independente da legislação contrária, de todos os afrontes e embates. Estamos
firmes na luta pelo coletivo”, afirmou a Sateré.
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Vozes da floresta
Ter
presente na Assembleia representações dos povos indígenas significa
materializar a força do enfrentamento aos desafios da Grande Amazônia. Unidos,
mãos dadas, raízes ajuntadas e vozes que ecoam uníssonas, são os insumos
necessários para seguir os caminhos na defesa incondicional dos direitos ao
território, às políticas específicas e à manutenção da cultura e formas da vida
indígena.
Perla
Kaixana, da aldeia São Lázaro, da Terra Indígena (TI) Belo Horizonte,
representando sete aldeias dos povos Kaixana e Kokama, diz que a aliança entre
o Cimi e os povos indígenas firmada há tantos anos significa descolonização.
“Eu
vejo que [o Cimi] é descolonizador, porque ele constrói em vez de destruir, e
contribui com a gente para manter nossas culturas e tradições. Antes tínhamos
uma visão de que os missionários vieram para impor realidades não vividas pelos
indígenas. Mas, o Cimi não faz isso. Ele traz informações para o povo entender
como funciona a vida não indígena e nos anima a manter nossa cultura”, contou.
A TI
Lago do Coari, da aldeia Buiuçuzinho, foi representada pelo jovem Moisés
Tikuna, de 16 anos, que participa do Movimento Rede das Águas e diz que a luta
é para que as riquezas da Amazônia não acabem.
“Nossa
região está sendo atacada com a pesca e caça predatórias e desmatamento. A
gente tem que proteger a nossa casa. Se a gente não lutar, o destino que está
aí, é que possa acontecer algo terrível, que tudo isso se acabe. Eu, já na
minha idade, não conheço muitas coisas da floresta que meu avô conta que tinha.
Hoje, não existem mais. Queixada, não conheço. Tracajá, tem, mas muito pouco
porque os caçadores pegam tudo. Logo não vai ter mais”, advertiu o jovem
indígena.
Bernardo
Sateré Mawé coordena a Base Sanitária de Monitoramento Geral do Povo
Sateré-Mawé, da TI Andirá Marau, em Maués, ao leste do estado do Amazonas,
próximo ao Pará. Esteve presente virtualmente na Assembleia e contou como é o
trabalho na Barreira. “O território tem 56 comunidades e a gente atua
monitorando, levando e trazendo informações, fazendo documentos dos
acontecimentos sobre invasão, narcotráfico, dos regatões, caçadores,
pescadores, mineradores, madeireiros e de todas as ameaças que a gente sofre”,
disse.
Do lado
oposto do Amazonas, no extremo oeste do estado, fronteira com o Peru, a mais de
mil quilômetros de distância em linha reta, está a TI Vale do Javari, onde
vivem os povos Kanamari, Marubo, Matis, Mayoruna (Matsés), Kulina Pano, Korubo
e Tsohom-dyapa. Estão organizados na União dos Povos Indígenas do Vale do
Javari (Univaja). Os Mayoruna também se unem na Organização Geral dos Mayoruna
(OGM) e, para proteger suas comunidades, encontraram a mesma solução que os
Saterá Mawé: fazer a proteção com as suas próprias forças e saberes, como
contou Mauricio Mayoruna.
“Represento
18 comunidades e trabalho junto com o meu povo para cuidar do nosso território,
monitorar nosso lago e cuidar dos nossos animais e peixes. São terras limpas,
porque não deixamos entrar os pescadores, madeireiros, e outros que vão para
tirar o que é nosso. Lá é fronteira Peru-Brasil e os pescadores do Peru vêm
também. Mas, nossa equipe de vigilância, nossos próprios parentes monitoram o
lago”, disse com orgulho.
Descendo
o Solimões está Coari, conhecida pela exploração de petróleo e gás no coração
da Amazônia. Francisco Bernardo Arara, da TI Itaboca, e representante da Rede
das Águas, formada por indígenas e ribeirinhos, contou que chegam ao município
altos valores de royalties, mas que não chega às comunidades, principais áreas
impactadas pela exploração. Também contou que as comunidades, unidas,
formalizaram acordos de pesca na busca da conservação do principal alimento que
possuem: o peixe.
A
mudança climática afetou muito a região e a falta de alimento foi um dos pontos
cruciais. Por isso nos organizamos e buscamos meios para que a gente pudesse
sanar a situação. Uma das soluções foi formalizar um acordo de pesca na área
formada pelos rios Urucu, Aruã e Coari. Nessa região tem muita pesca predatória
e caça ilegal. E é pelo rio Urucu o escoamento do gás e petróleo de Coari,
município do Amazonas que mais arrecada royalties, mas não chegam nas
comunidades indígenas ou ribeirinhas”, denunciou.
Chegando
mais perto de Manaus, representantes do povo Mura, de Autazes, levaram sua
realidade de enfrentamento a uma das mais perversas ameaças à vida indígena: a
instalação de mineração de silvinita para produção de potássio, componente para
fertilizantes usado pelo agronegócio. A empresa Potássio do Brasil,
desconsiderando a existência indígena na região se instalou sem pedir licença
e, agora, vem cooptando lideranças, explica Rony Mura, coordenador da
Organização Indígena Mura da Resistência de Autazes (Oirma).
“Sem
pedir a ninguém, chegou a mineração dentro do território que se chama Potássio
do Brasil, que ameaça a nossa vida, costumes, a nossa língua e tradições.
Usaram várias estratégias, e agora, estão cooptando os parentes que não têm
conhecimento da gravidade dos impactos, estão iludidos. A gente sabe as
consequências [da mineração] em outros lugares. Brumadinho e Maceió são
exemplos”, lamentou o Mura, dizendo que “só com demarcação teremos
desenvolvimento dentro das nossas terras, que há anos vem sendo negado pelo
governo. Mas, não perdemos a esperança, estamos resistindo”, declarou convicto.
Claudineia
e Lucineia Tariano, da Associação das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro,
vivem em Manaus apoiando as associadas e atuando junto aos indígenas que vivem
em contexto urbano. Contaram que o preconceito é um dos piores desafios que
enfrentam na cidade.
“Temos
dificuldades de acesso à saúde e à educação. Nas escolas, públicas ou privadas,
e até nas universidades, o preconceito é grande. As pessoas não entendem que
mesmo a gente morando na cidade, não deixamos de ser indígena. Nós mantemos
nossa cultura viva, nossa tradição, danças e nossa língua materna”, relatou
Claudineia, explicando que os indígenas estão se autodeclarando e que o estado
precisa reconhecer que “o indígena urbano é indígena”.
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Institucionalidades
A 46ª
Assembleia do Cimi Regional Norte 1 foi eletiva. Concluídos os quatro anos de
mandato da coordenação colegiada composta por três membros, a assembleia olhou
para as grandes dimensões geográfica, ambiental e humanas, analisou os desafios
que se colocam aos povos indígenas, e deliberou a ampliação do colegiado para
cinco coordenadores: Fabiana Caresto, Gilmara Fernandes, Jussara Góes, Pedro da
Silva e Souza e Raimundo Freitas compõem a equipe que conduzirá o Regional nos
próximos quatro anos.
Para
Jussara Góes, coordenadora no colegiado anterior e eleita para a nova equipe, a
assembleia foi intensa e o novo colegiado conduzirá o Regional com sabedoria.
“A
assembleia foi um momento de muita partilha e leitura crítica da conjuntura
política. Vimos muitos desafios pela frente, principalmente para o ano de 2026.
Acredito que a nova coordenação do regional são pessoas experientes, com muitos
anos de caminhada no Cimi e junto aos povos indígenas. Saberão conduzir o
serviço com muita serenidade e expertise”, disse confiante.
O novo
coordenador estatutário, Pedro da Silva, da equipe Maici/Marmelos, caracterizou
a função e comentou as ações que continuarão. “Coordenar o regional é
desafiador, mas gratificante pela contribuição que se pode dar em um novo
serviço. Nesse colegiado de cinco pessoas vamos encaminhar os trabalhos com
mais tranquilidade, apesar dos tantos desafios com as leis que visam prejudicar
os povos indígenas. Vamos continuar com o fortalecimento das bases, ouvir e
refletir junto com os indígenas, continuar os processos formativos e a luta
pela garantia e proteção dos territórios, e também dar mais atenção na proteção
dos povos indígenas livres, em isolamento voluntário”, pontuou Pedro.
O
Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental (Sares), parceiro
do Cimi há muitos anos, esteve presente com o seu diretor, Silvio Marques
Jesuíta, que parabenizou a nova coordenação e falou da importância das
assembleias institucionais. “É nelas que a gente consegue afinar, delimitar e,
acima de tudo, estabelecer quais são as nossas estratégias de atuação de
maneira conjunta”, disse, destacando a participação da juventude e das mulheres
na caminhada.
“A
juventude indígena hoje é muito forte. Há neles e nas mulheres indígenas um
despertar de que, para existir, tem que resistir. Sua voz é bastante potente
diante dos grandes desafios que a sociedade vai apresentando para os povos.
Porque, de fato, são elas e eles que trazem essa fortaleza ancestral da
cultura, da identidade, da resistência”, afirmou Silvio, destacando o trabalho
junto aos jovens e mulheres.
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Referendar é acreditar
“A
causa indígena é de todos nós”. Esse é o lema do Cimi. Uma frase simples, mas
imbuída de vida. É uma invocação, um chamamento à luta por uma causa que não
está perdida. Se os povos indígenas continuam resistindo depois de tantos
genocídios, mantém suas culturas e sabedorias alicerçando a vida na Terra,
significa que a humanidade tem o dever de agir em sua defesa para a
continuidade de sua existência.
É com
esse convite que o Cimi a cada assembleia de seus Regionais acolhe novos e
novas missionários e missionárias. Pessoas que ouviram o chamado e aceitaram
integrar as frentes de ação do Cimi. No Norte I, Daniel dos Santos Lima, Ir.
Lígia Maria de Jesus Cipriano e Sirlei do Nascimento de Andrade foram
referendados e acolhidos pela Assembleia.
Daniel,
ao falar sobre suas motivações à causa indígena, disse que sua missionariedade
vem de uma “chama que chama outras chamas”, simbolizando a fé e a ação
missionárias. Sirlei também buscou nas palavras em forma de poema, a motivação
para se tornar missionário: “Antes da história ser escrita no papel / já
existiam povos que ninguém apaga ou desfaz / anciões da mata, do rio e do chão,
/ guardando a vida, a memória e a criação”, sintetizou, afirmando que é em
defesa dessa história que assume a causa indígena pelos caminhos do Cimi.
Luiz
Ventura, acolhendo os novos missionários, disse que “o mistério da causa é o
mistério da vida que nós compartilhamos. E que, agora, os três entraram no
abraço do Cimi, que mais do que abraçar a causa é a causa que nos abraça e nos
atrai e transforma”, celebrou.
Dom
Raimundo Vanthuy Neto, bispo da Diocese de São Gabriel da Cachoeira, presente
na Assembleia, acolheu os novos missionários e enalteceu as graças e
inspirações da missão. “Na escola de seu Filho Jesus, na companhia de irmãos e
irmãs, na disponibilidade de servir os mais pequenos, os pobres e os
sofredores, na alegria de se dar as mãos quando necessitamos uns dos outros e
na beleza de darmos passos juntos, numa aurora de uma humanidade nova, um outro
mundo possível de paz e fé”, abençoou.
Fonte:
Por Lígia Apel, do Cimi Regional Norte 1

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