Os
princípios movediços da Folha de S.Paulo
Eis aí
um livro sobre um assunto que muita gente acha que conhece – o apoio do grupo
Folhas ao regime militar – mas que surpreende o leitor do começo ao fim ao nos
revelar um mundo de crimes e torpezas.
Foram
necessários seis autores para oferecer ao público esse trabalho preciso e
cuidadoso que vai às entranhas do Grupo Folhas, descerra suas intimidades
acumulando fatos e provas de uma trajetória trapaceira que até hoje não recebeu
o necessário julgamento perante a Nação.
Os
autores são quatro historiadoras e historiadores e duas jornalistas: Ana Paula
Goulart Ribeiro, Amanda Romanelli, André Bonsanto, Flora Daemon, Joëlle Rouchou
e Lucas Pedretti.
Nunca é
demais reafirmar, a imprensa comercial, a chamada grande imprensa, jornais,
rádio e televisão, apoiou o golpe de estado de 1964 e a ditadura empresarial
militar. Divulgou amplamente o discurso do regime militar, fez autocensura,
silenciou sobre a negação dos direitos políticos, a tortura e os assassinatos,
enfim, omitiu-se a maior parte do tempo.
Como na
vida e na política não há lugar vazio, em seu lugar surgiu uma imprensa
independente, que ficou conhecida como alternativa. Seguindo o exemplo de
Opinião, Pasquim, Movimento floresceram do Acre ao Rio Grande do Sul pequenos
jornais procurando, apesar da censura, divulgar as notícias, denunciar os
crimes da ditadura. Sem esquecer a imprensa clandestina produzida pelos
partidos e organizações políticas mantidas na clandestinidade, como o jornal
Classe Operária, do PcdoB. Se alguém tiver interesse nesse tema pode acessar no
Instituto Vladimir Herzog a série de dez documentários intitulada “Resistir é
Preciso”, de 2013, dirigida pelo jornalista Ricardo Carvalho e em parte
roteirizada por mim.
O que
esse livro nos mostra, entretanto, é que de toda essa chamada grande imprensa
ajoelhada perante o poder ditatorial, a Folha de S. Paulo foi a que mais se
envolveu dando apoio à repressão e, mais que isso, participou dela. Como
resultado, obteve em troca benesses de tal monta que se transformou em poucos
anos de uma empresa endividada em um império de comunicação.
O
cérebro dessa façanha inescrupulosa foi o proprietário do jornal, Octavio Frias
de Oliveira. Começou sua trajetória de ave de rapina como acionista do Banco
Nacional Imobiliário. Atuou como diretor da carteira imobiliária. Em 1954 o BNI
faliu causando prejuízos a muitas famílias. Mas Frias se saiu bem e se tornou
um administrador de empreendimentos imobiliários, participando da construção de
grandes prédios como o Edifício Copan, no centro da capital. Por essa época
conheceu seu sócio, Carlos Caldeira Filho, que trabalhava no mesmo ramo em
Santos.
Frias
tinha uma capacidade muito especial de enxergar oportunidades para negócios e
levar vantagem. Em 1962 deu apoio financeiro à candidatura de Carlos Lacerda ao
governo do então Estado da Guanabara. Relatando esse episódio em entrevista a
Engel Paschoal, em 2006, Frias disse que não tinha nenhum interesse em
política. Seu objetivo era outro:
“Eu
tinha horror àquilo, desprezava. Queria ganhar dinheiro, claro, onde tivesse
dinheiro eu ia trabalhar para faturar o meu. O negócio era ganhar dinheiro.
Ganhar dinheiro foi um compromisso que eu assumi comigo mesmo” .
Como
veremos, apesar de desprezar a política e, talvez por isso mesmo, aprendeu a
temperar sua obsessão dinheirista com o uso da política. Não tinha posição
política, mas sempre apoiou a direita.
Seu
primeiro grande negócio em sociedade com Caldeira Filho, a concessão da
Rodoviária de São Paulo, “uma mina de ouro”, diria, se concretizou com apoio
político do prefeito Adhemar de Barros, com quem trabalhara anos antes, e que
cedeu parte do terreno (ilegalmente aliás); e com apoio do governador Carvalho
Pinto que interveio com o superintendente do Banco do Estado para facilitar o
empréstimo vultoso de 250 milhões de cruzeiros.
Em 1962
os dois sócios compraram a empresa Folha da Manhã S/A, que publicava o jornal
Folha de S. Paulo. Precisavam um porta-voz para se defender das furiosas
críticas do jornal O Estado de São Paulo aos negócios duvidosos envolvidos na
Rodoviária. Mas o jornal dava prejuízo e se manteve em dificuldades até 1964.
Com
olhar de águia Frias estava atento e provavelmente participou da conspiração de
parte do empresariado paulista contra o governo de João Goulart. Sinal de que
estava informado sobre o golpe militar foi a publicação pela Folha, no dia 31
de março de 1964. Antes mesmo de o general Mourão sair com tropas de Minas
Gerais, a Folha estava nas bancas com um suplemento especial intitulado “64 –
Brasil Continua” com 44 páginas, repleto de anúncios das grandes empresas e de
artigos opinativos contra o governo.
A
situação muda a partir de então: de empresa com dificuldades financeiras passa
a contar com créditos favorecidos. Frias e Caldeira compram a Litográfica
Ypiranga numa operação nebulosa que lhes rendeu lucros de 2 mil por cento. Em
agosto de 1965 os dois sócios compram a Última Hora, jornal que apoiara o
governo de João Goulart e passava por dificuldades devido à perseguição
política do regime militar.
No dia
em que comprou a UH, Frias se revelou. De acordo com a Jornalista Karla
Monteiro, em sua biografia de Samuel Wainer, dono da Última Hora (Samuel
Wainer, o homem que estava lá), ele disse: “O que eu gostaria de fazer agora,
era ir à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo e mostrar, numa
bandeja de prata, a cabeça de Samuel Wainer.” Definitivamente não era um
empresário apolítico, só preocupado com seus negócios, como se afirmava.
No
mesmo ano a empresa comprou outro jornal, Notícias Populares, jornal de
escândalos dirigido por um anticomunista. Nos anos seguintes, enquanto a Última
Hora minguava por falta de recursos, o NP prosperava com sua pauta de casos
bizarros.
Outra
aquisição da dupla Frias Caldeira foi a da TV Excelsior, o canal mais bem
sucedido até 1964. Propriedade da família Simonsen que era apoiadora do governo
Goulart. Perseguida pela ditadura militar, estava debilitada financeiramente.
Frias e Caldeira aproveitaram a oportunidade e a adquiriram e depois exauriram
seus recursos e propriedades, roubaram seus equipamentos, provocando sua
falência. Processo semelhante iria sofrer a Fundação Casper Libero, que passou
ao controle do Grupo Folhas e foi desmantelada.
Em 1967
a empresa Folha fundou a Agência de Notícias Folhas que concentrou a produção
de todos os veículos do grupo de modo que o jornalista produzia sua matéria
para vários jornais recebendo apenas um pequeno aumento salarial. O que
provocou protestos do sindicato dos jornalistas.
No
mesmo ano a Folha, obtendo créditos favorecidos do governo, por meio do Banco
do Brasil, e também da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento
Internacional (USAID), se modernizou, adquirindo equipamentos offset, os mais
caros e sofisticados, sendo a primeira empresa brasileira a utilizar essa
técnica em grandes tiragens. Eram 300 toneladas de equipamentos.
Em 1970
foi além, comprando a mais moderna rotativa offset até então fabricada, capaz
de imprimir 360 mil exemplares de jornal por hora, sendo superada no mundo
apenas pelo jornal britânico Daily Mirror.
O
contexto do “milagre econômico” foi muito favorável ao Grupo Folha, que no
início dos anos 1970 se tornou um império jornalístico. Em troca, o apoio à
ditadura era explícito. A partir do AI-5 a Folha passou a adotar a autocensura
de forma sistemática. Colocou um jornalista de relações próximas com a
repressão, Paulo Nunes, como dirigente da Agência Folhas. (Em 1975 Paulo Nunes
foi encarregado pelos órgãos de repressão de conduzir Vladimir Herzog ao
DOI-CODI, onde ele foi assassinado).
Frias
entregou um dos seus jornais, a Folha da Tarde, a uma equipe de policiais
dirigidos por Antonio Aggio Jr., um misto de jornalista e policial, eterno
assessor do delegado Romeu Tuma. A FT respaldava a ação da repressão, como
assumir versões mentirosas sobre assassinatos de militantes da oposição e
manchetes escandalosas justificando a repressão aos “terroristas”. Ia além
publicando nomes e endereços de pessoas procuradas pela repressão.
Aggio
comemorava o aniversário do jornal com almoços festivos aos quais compareciam o
diretor do DEOPS delegado Fleury, Erasmo Dias, Romeu Tuma, o coronel Lepiane,
chefe da OBAN, que vinham acompanhados de seus asseclas.
CARROS
DA FOLHA PARTICIPAM DA REPRESSÃO
Além de
publicar as matérias de interesse do regime, Frias e Caldeira acomodaram
policiais pelas redações de seus jornais. Formou-se dentro da empresa um núcleo
policial. Edward Quass, delegado do DEOPS, auxiliar de Fleury, foi nomeado
chefe de segurança da empresa.
Frias e
Caldeira permitiram que sua empresa participasse diretamente da repressão
emprestando seus carros de distribuição de jornais, que tinham o logotipo da
Folha, para a Operação Bandeirantes (OBAN) fazer campana, captura e mesmo
assassinato de militantes políticos.
Depois
de tomar conhecimento dessa participação da Folha na repressão, a Aliança
Libertadora Nacional (ALN), organização política que promovia ações armadas
contra o regime, respondeu incendiando vários desses veículos. Frias respondeu
em editorial afirmando que não alteraria a linha de conduta do jornal. A ALN
ameaçou Frias de atacar a Folha e o próprio Frias. E a família Frias foi morar
no prédio da Folha transformado em um bunker fortemente defendido por um
sistema de segurança oficial do DEOPS com o delegado Edward Quass chefiando o
esquema.
O
empréstimo de carros da Folha para a repressão foi testemunhado por diversos
militantes, vários dos quais viram esses carros estacionados no pátio da OBAN.
Um motorista da Folha confirmou que fora orientado a entregar o carro que
dirigia para policiais. O sargento Marival Alves do Canto, agente do DOI CODI,
confirmou não só o uso dos carros para ações de repressão aos militantes da
luta armada, como enfatizou a importância dessa colaboração. Mais tarde, o
próprio filho de Frias, Otavio Frias Filho, o Otavinho, em depoimento sobre a
biografia do pai, iria confirmar que de fato isso ocorreu.
O
crescimento vertiginoso da Folha gerou suspeitas. Era uma ameaça de formação de
monopólio. Foi protocolada uma CPI na Assembleia de Deputados de São Paulo, em
1968. Acabou não sendo instalada porque a Assembleia foi fechada pelo Ato
Complementar 47, de fevereiro de 1969.
Em
1974, informado pelo general Golbery sobre a politica de distensão que seria
promovida pelo General Geisel, Frias disse que se sentiu à vontade para
promover uma linha editorial mais moderada. Recontratou Claudio Abramo, que
havia demitido em 1972, e o autorizou a trazer para o jornal profissionais e
intelectuais democráticos. Traz Jânio de Freitas, Alberto Dines, Paulo Francis.
Mas também dá espaço para apoiadores do regime como Jarbas Passarinho.
Entretanto,
a política de superexploração de seus funcionários, salários reduzidos,
direitos trabalhistas sonegados, promoveu um crescente descontentamento. Sem
esquecer o torpe comportamento de demitir por “abandono de emprego” os
profissionais que estavam presos. Isso somado à corrupção de funcionários de
Ministério do Trabalho para não dar guarida às reclamações dos trabalhadores.
Tudo isso culminou em 1979 na greve dos jornalistas, que teve uma duração de
uma semana e não alcançou seus objetivos. E resultou na demissão em massa de
profissionais e na perseguição de muitos outros.
Na
década de 1980 a ditadura enfrenta a crise econômica e vai perdendo
sustentação. Mas o grupo Folha estava muito bem financeiramente. Frias procura
formas de diluir os traços de sua trajetória de apoio à repressão. Sob a
direção de seu filho Otavio uma reformulação é promovida, cria-se o “Projeto
Folha” para fazer um “jornalismo crítico, factual e apartidário”.
A
oposição se consolidava, havia ocorrido a anistia, os exilados políticos haviam
voltado, dava-se a reorganização partidária. Cresciam o movimento popular e a
reivindicação por eleições diretas. A Folha se engaja na campanha das “Diretas
Já” e passa a ser identificada como jornal da resistência. Coloca-se como
porta-voz da sociedade civil em seu anseio pela democratização.
Em
2009, num editorial de crítica ao regime de Hugo Chavez na Venezuela a Folha se
referiu à ditadura militar no Brasil como “ditabranda”. Foi de tal forma
criticada que se viu obrigada a fazer um recuo envergonhado, aceitando que
todas as ditaduras são execráveis, mas que a brasileira “foi menos repressiva
que a argentina, uruguaia e a chilena”.
Em 2014
o jornal assumiu pela primeira vez em editorial que “aos olhos de hoje, apoiar
a ditadura militar foi um erro”. E adiante: “É fácil, até pusilânime, porém,
condenar agora os responsáveis pelas opções daqueles tempos, exercidas em
condições tão mais adversas e angustiosas que as atuais. Agiram como pareceram
melhor ou inevitável naquelas circunstâncias…”
O texto
acima reforça a ideia da Folha como vítima da ditadura, que os fatos mostrados
nesse livro desmentem cabalmente. Diante disso é impositivo que a Folha se
disponha a fazer reparações pelos danos coletivos causados à sociedade
brasileira pela posição editorial dos jornais da empresa como veículo de
legitimação às graves violações aos direitos humanos perpetrados pelo regime
ditatorial.
Também
precisa fazer reparação aos danos dos seus funcionários pela violação de
direitos trabalhistas e de direitos humanos no caso de demissão de funcionários
por abandono de emprego enquanto estavam presos. E é necessário que a Folha
também reconheça seu papel na cessão de veículos para as ações da repressão.
Esse
livro poderoso termina aqui. Entretanto, não vejo que a Folha esteja disposta a
fazer reparação. É preciso que a sociedade a induza a isso como, aliás, se deu
no caso das reparações feitas pela Volkswagen de suas ações de apoio à
repressão.
Pelo
que temos visto da posição editorial da Folha com relação ao governo atual e ao
presidente Lula, negando os evidentes avanços promovidos por esta
administração, anunciando a cada semana a iminência de uma debacle na economia,
e dando espaço às posições antidemocráticas da oposição de extrema direita,
fica-se com a impressão de que a Folha está onde sempre esteve. Isto é, o lobo
perde o pelo, mas não perde o vício.
Fonte:
Por Carlos Azevedo, em Outras Palavras

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