terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

6 tendências na agenda da água tratada para 2026

Em 2026, o acesso à água potável seguirá como um dos grandes desafios da capacidade do Brasil para cumprir suas promessas de desenvolvimento sustentável. Apesar de avanços desde o Novo Marco Legal do Saneamento em 2020, legislação que atualizou as regras para o setor, com o objetivo de universalizar o saneamento básico no Brasil até 2033, garantindo 99% de acesso à água potável, o país ainda convive com um cenário desigual: milhões de brasileiros seguem sem água tratada.

Segundo um levantamento recente do Instituto Trata Brasil, dos 5.570 municípios brasileiros, 5.079 têm acesso à água tratada (91,2% do total). Isso significa que a parcela fora desse contingente e sem acesso pleno ao serviço ainda representa um desafio relevante: considerando a estimativa de 207.767 milhões de brasileiros, cerca de 40.208 milhões de pessoas vivem sem acesso à água tratada, um número que ajuda a dimensionar o tamanho da lacuna a ser enfrentada para a universalização do serviço, já que é o correspondente à toda população do Canadá, na América do Norte.

Nesse contexto, a combinação entre políticas públicas, regulação eficiente e inovação tecnológica ganhará ainda mais protagonismo no próximo ano, especialmente para acelerar resultados em territórios onde a infraestrutura tradicional não chega ou avança com lentidão. A startup brasileira PWTech, que desenvolve soluções no tratamento de água, aponta as 6 principais tendências na agenda do tratamento de água:

01) Saneamento rural

O saneamento rural é aquele que envolve o conjunto de soluções de abastecimento de água, tratamento e destinação adequada de esgoto e gestão de resíduos em comunidades fora das redes urbanas, como áreas rurais dispersas, assentamentos, comunidades tradicionais, localidades remotas e isoladas. Os principais desafios para o fornecimento de saneamento rural incluem a distância entre moradias, baixa densidade populacional, maior custo por ligação, dificuldades logísticas de manutenção e, muitas vezes, limitações de capacidade técnica e financiamento local. Para 2026, o movimento para oferta de soluções estruturais e escaláveis (para além das ações emergenciais, de distribuição eventual de água ou as intervenções isoladas) irá crescer, dando força para os modelos sustentáveis, com operação simples, manutenção viável e gestão local. Nesse cenário, tecnologias modulares e descentralizadas, combinadas a arranjos de gestão e parcerias (público-privadas e com organizações locais), tendem a ganhar espaço por entregarem continuidade, qualidade e previsibilidade, alcançando territórios em que as concessionárias não chegam.

02) Adaptação climática e resiliência hídrica

A pauta de resiliência climática, que ganhou destaque nas discussões da COP 30, fomentou o debate sobre a importância de se conectar diretamente o saneamento e o acesso à água nas pautas de adaptação e resiliência climática. Cada vez mais, eventos extremos como secas severas, chuvas intensas, enchentes e contaminação de mananciais, impactam diretamente os sistemas de abastecimento e no aumento da incidência de doenças transmitidas pela água. Em 2026, a tendência é que projetos e investimentos passem a considerar com mais força a “segurança hídrica” como infraestrutura crítica, levando à diversificação de fontes, planos de contingência, capacidade de resposta rápida e soluções que funcionem mesmo quando a rede convencional falha.

03) Redução do desperdício

Investir na redução de desperdícios se torna cada vez mais decisivo para atender a demanda por água tratada sem ampliar a pressão sobre rios e mananciais. Ainda segundo o Instituto Trata Brasil, a estimativa é que o volume perdido em 2023 (7,257 bilhões de m³) seria, sozinho, mais do que suficiente para cobrir o crescimento projetado da demanda por água tratada nos próximos anos (6,414 bilhões de m³), evitando a necessidade de captar água adicional. Para o próximo ano, a tendência é que a criação e implantação de soluções que diminuam as perdas ganhem ainda mais força.

04) Infraestruturas verdes

Para o próximo ano, a infraestrutura verde, como a recuperação de matas ciliares, nascentes e áreas úmidas, terá mais espaço como estratégia complementar ao saneamento, pois impacta na quantidade e na qualidade da água na origem, reduzindo assoreamento e a carga de sedimentos, o que encarece o tratamento de água.

05) Internacionalização de soluções

À medida que o mundo traça metas na universalização do acesso à água tratada e saneamento, cresce também a demanda por soluções que sejam portáteis, eficientes, de rápida implementação e que demandem uma estrutura menos robusta, especialmente em regiões com baixa cobertura de infraestrutura, como em  emergências climáticas ou crises humanitárias. Assim, 2026 tende a consolidar a internacionalização de soluções, com a importação e exportação de tecnologias e modelos operacionais entre diferentes países e contextos, ampliando impacto e escala. O Brasil tem potencial para, além de expandir seus caminhos comerciais, fortalecer sua reputação como agente de inovação aplicada ao direito humano à água, estimulando padrões de qualidade, certificações e parcerias globais que ajudam a acelerar a evolução tecnológica e a adoção em larga escala.

06) Água tratada nas escolas brasileiras

Com a sanção recente de leis voltadas ao acesso à água potável e à infraestrutura sanitária como direito fundamental de estudantes em escolas públicas brasileiras, a expectativa é que o tema ganhe ainda mais força em 2026. O impacto esperado é que água segura para o consumo disponibilizada nas escolas melhore a saúde, aumente a frequência dos alunos e aprimore o aprendizado dos alunos, além de reduzir desigualdades e criar uma cultura de cuidado com recursos hídricos dentro das mais diversas comunidades.

Solução 100% brasileira

Fundada em 2019, a PWTech é um exemplo de startup brasileira que nasceu com o propósito declarado de contribuir para mudar o cenário da falta de água tratada não só no Brasil, mas também no mundo. Certificada por órgãos governamentais, atendendo aos parâmetros para água potável da Portaria GM/MS nº 888, de 04 de maio de 2021, a empresa atua há 6 anos no com foco em regiões remotas e vulneráveis. Os equipamentos de tratamento modulares e portáteis desenvolvidos pela PWTEch pesam menos de 20 quilos e são capazes de tratar até 10 mil litros de água por dia, operando a partir de diferentes fontes de energia, como rede elétrica, baterias e painéis solares, e com tecnologia 100% brasileira para o tratamento de água.

•        Mudanças climáticas e migração: o papel da habitabilidade

Este é o tema central do artigo acadêmico “How Habitability Shapes Climate-Related Migration and Displacement” (Como a Habitabilidade Molda a Migração e o Deslocamento Relacionados ao Clima), da pesquisadora Julia Blocher, que propõe uma análise mais profunda e matizada dos deslocamentos populacionais relacionados às alterações ambientais.

Habitabilidade: uma nova lente para entender migrações climáticas

O estudo de Blocher desafia a visão simplista de “refugiados climáticos” que tem dominado tanto o discurso midiático quanto algumas políticas públicas. Em vez de estabelecer uma relação direta e automática entre eventos climáticos extremos e migrações em massa, a pesquisadora demonstra que a habitabilidade — entendida como a capacidade de um lugar sustentar vida humana e bem-estar — é o fator mediador crucial nessa equação.

“A habitabilidade não se resume apenas a condições físicas ou ambientais”, explica Maria Santos, especialista em migrações climáticas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ao comentar o trabalho de Blocher. “Trata-se de um conceito multidimensional que envolve aspectos sociais, econômicos, culturais e políticos que determinam se as pessoas podem — ou querem — permanecer em suas regiões de origem.”

Vulnerabilidade diferenciada e desigualdades estruturais

Uma das contribuições mais significativas do artigo é destacar como as mudanças climáticas afetam desproporcionalmente populações já vulneráveis. Blocher argumenta que a degradação ambiental não cria simplesmente novos problemas, mas amplifica desigualdades socioeconômicas e políticas preexistentes.

Comunidades marginalizadas enfrentam múltiplas camadas de vulnerabilidade: além de frequentemente habitarem áreas mais expostas a riscos ambientais, possuem menos recursos para adaptação e enfrentam barreiras institucionais que limitam sua capacidade de migrar de forma segura e digna.

Implicações para políticas públicas e cooperação internacional

As conclusões do estudo têm implicações profundas para formuladores de políticas públicas. Ao invés de focar exclusivamente em medidas reativas e de emergência diante de crises migratórias, o trabalho sugere a necessidade de estratégias proativas que fortaleçam a habitabilidade das regiões vulneráveis.

Isto significa investir em adaptação climática e resiliência comunitária, mas também abordar fatores estruturais como pobreza, desigualdade, governança frágil e conflitos que agravam os impactos das mudanças climáticas na mobilidade humana.

Para o Brasil, país que tem recebido um número crescente de migrantes socioambientais, especialmente da América Central e Caribe, o artigo oferece perspectivas valiosas. “Precisamos superar abordagens puramente humanitárias e desenvolver políticas que reconheçam a complexidade dos fatores que levam as pessoas a se deslocarem por razões ambientais”, defende Ana Clara Rodrigues, coordenadora do Observatório das Migrações Climáticas.

Para além das previsões catastróficas: agência e resiliência

Um aspecto frequentemente negligenciado nos debates sobre migração climática, e destacado por Blocher, é a ação das comunidades afetadas. O estudo chama atenção para como populações vulneráveis não são meras vítimas passivas das mudanças climáticas, mas atores que desenvolvem estratégias criativas de adaptação e resistência.

“As comunidades tradicionais do semiárido brasileiro, por exemplo, têm desenvolvido ao longo de gerações tecnologias sociais para conviver com a seca. Esse conhecimento é fundamental para políticas de adaptação climática efetivas”, exemplifica Pedro Almeida, diretor do Centro de Pesquisas sobre Clima e Justiça Ambiental.

De acordo com a Autora, políticas e fluxos de financiamento devem considerar as seguintes ações para expandir as estratégias locais e globais de mitigação e adaptação às mudanças climáticas:

•        Abordar as causas profundas das vulnerabilidades socioeconômicas e ambientais que contribuem para a migração e deslocamento relacionados ao clima, como o subdesenvolvimento, o afastamento e a falta de apoio (por exemplo, ajuda, seguro ou redes de segurança social), particularmente nas áreas rurais.

•        Abertura de vias de financiamento adicionais e direcionadas para fazer face à migração e deslocação relacionadas com o clima, complementando os fundos de adaptação existentes, bem como os fundos econômicos e .

•        Apoiar abordagens participativas e abordagens políticas que incluam vozes de migrantes, pessoas deslocadas e comunidades indígenas, com foco nos esforços liderados pela comunidade que gerenciam esses desafios e os potenciais impactos adversos das limitações e deslocamentos da mobilidade.

•        Reforçar as capacidades adaptativas das áreas que recebem migrantes e reforçar os sistemas de mediação e resolução de conflitos nestas regiões.

•        Melhorar o planejamento e a infraestrutura nas áreas de destino dos migrantes, particularmente nos centros urbanos, para apoiar sua capacidade de lidar com os impactos climáticos e prosperar como comunidades socioeconômicas diversas.

•        Incluir uma lente de migração relacionada ao clima em diferentes níveis de governança, particularmente nas leis e políticas de imigração e asilo, mas também na redução e gestão de riscos de desastres, estratégias de adaptação às mudanças climáticas e planos de desenvolvimento sustentável em geral.

•        Melhorar o monitoramento e a avaliação do progresso em direção a esses objetivos, incluindo especificamente uma lente de migração relacionada ao clima em planos de adaptação nacionais e subnacionais, além de Contribuições Nacionalmente Determinadas para a Convenção do Clima da ONU.

Ao todo, as políticas devem abordar a migração relacionada ao clima através da lente da habitabilidade, aumentando os mecanismos de desenvolvimento e adaptação nas áreas de origem, promovendo um acesso mais equitativo a recursos e oportunidades para todos e reduzindo as desigualdades dentro e em todos os países – muitas das quais são exacerbadas pela migração e deslocamento.

O trabalho de Julia Blocher representa uma contribuição significativa para uma abordagem mais holística e matizada da migração relacionada ao clima. Ao colocar a habitabilidade no centro do debate, o artigo oferece uma base conceitual robusta para entender por que algumas pessoas migram enquanto outras permanecem, mesmo quando expostas a ameaças ambientais semelhantes.

Em um contexto global de crescente polarização sobre questões migratórias, o estudo fornece evidências científicas que podem informar políticas mais humanas e eficazes, capazes de proteger populações vulneráveis e fortalecer a resiliência comunitária diante das mudanças climáticas.

•        O funcionalismo, os municípios e a sustentabilidade. Por Gilberto Natalini

A associação congrega os funcionários públicos do Estado de São Paulo e mantém, historicamente, uma atuação alinhada ao fortalecimento do municipalismo. Essa vocação é identificada na relação contínua da AFPESP com as prefeituras, com os servidores públicos e com os gestores municipais, entendendo que o desenvolvimento sustentável depende da cooperação entre instituições e do compromisso com a gestão pública.

Nesse contexto, a sustentabilidade é um tema central de atuação dentro da AFPESP. As 23 Unidades de Lazer – além da Unidade Capital e Clube de Campo Vinhedo –, distribuídas pelo estado de São Paulo e Minas Gerais, vêm sendo planejadas, implantadas e adaptadas com foco na preservação ambiental, na gestão adequada dos recursos naturais e no controle das emissões de gases de efeito estufa.

Ademais, a AFPESP desenvolve e executa uma série de medidas e projetos voltados a esse objetivo. Entre as iniciativas, destacam-se o plantio de 45 mil mudas de árvores na Unidade de Serra Negra, a ser contemplado no inventário de Gases de Efeito Estufa (GEE) da associação para o ano de 2026; o controle sanitário da água e dos efluentes; e o estabelecimento de parcerias para o avanço de projetos ambientais.

Essas ações refletem o compromisso da AFPESP em avançar continuamente na agenda ambiental, buscando soluções que dialoguem com os desafios enfrentados pelos municípios paulistas.

Nesse sentido, a Associação Paulista de Municípios (APM), entidade que congrega e representa os municípios do estado de São Paulo, desempenha papel estratégico como ferramenta de mobilização e organização dos poderes municipais, com reconhecida atuação histórica neste tema.

A pauta da sustentabilidade defendida pela APM converge com as propostas e ações desenvolvidas pela AFPESP, criando um ambiente propício à cooperação institucional. Essa parceria fortalece a defesa do meio ambiente e o enfrentamento das questões climáticas no estado de São Paulo.

Nosso caminho é comum, porque os desafios são compartilhados.

 

Fonte: Envolverde/EcoDebate

 

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