segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Dédallo Neves: Um teatro de esquerda

Recentemente uma fração brasileira celebrou a vitória do país no Globo de Ouro, prêmio da crítica estadunidense, isto é, da mídia americana. Recentemente, a América Latina assistiu um de seus presidentes ser sequestrado, ação estadunidense, isto é, o imperialismo em marcha. Da primeira, vitória simbólica; da segunda, derrota real. Colonialismo!

A mesma estrutura cultural que premiou O agente secreto e Wagner Moura, constrói os discursos imperialistas e colonizadores dos povos que um tipo de progressismo diz subalternizados. Porém, se hoje, o Brasil está lá como ganhador, não é uma vitória contra o colonialismo, é uma recomposição num movimento de absorção de culturas emergentes para a cultura dominante, é o mudar para deixar tudo como está. Capitalismo!

Os EUA sequestraram um presidente latino em 3 de janeiro. Agora abandonamos o sentimento anti-imperialista para fazer festa em solo yankee, como se estivéssemos invadindo um país. A esquerda aplaude a si mesma. Alienação! Nas redes sociais era possível ler coisas como “Puro suco de Brasil” diante de um vídeo de Wagner Moura cantando “Não deixa o samba morrer”. Qual Brasil? O simbólico ou o real?

Kleber Mendonça Filho lá em Los Angeles afirmou: “Há cerca de 10 anos, o Brasil deu uma guinada muito acentuada para a direita e esse tempo já passou. O ex-presidente está agora na prisão. Ele foi epicamente irresponsável ao não liderar o país”. Ora, leitura política pífia ou setorizada. Irresponsável para usar de suas palavras, ou melhor, responsável com a sua classe social, melhor, com parte de sua classe. Evidencia de modo inconteste o seu alinhamento e como as classes médias de fato são os amortecedores da luta de classes na sociedade capitalista.

Se se tomar Kleber Mendonça Filho como síntese da classe média progressista de esquerda, e sua afirmação que esse tempo já passou – e não passou! Há uma ingênua (?) confusão da parte dele em pensar política como sucessão de governos –, ele deixa claro o trauma que ficou para a classe média progressista após o governo Bolsonaro, sendo a pandemia uma síntese também possível, mas não a fundamental. Bolsonaro quebrou o pacto social pós-ditadura em que esse grupo social não seria alvo de violações sócioestatais.

Embora ele ainda esteja parcialmente em pé, vide a diferença de tratamento policial com a classe média progressista e as classes baixas tão volúveis quanto a necessidade que se impõe no cotidiano, pois é questão de sobrevivência. Kleber Mendonça Filho se sentiu atacado pelo bolsonarismo que escancarou que ele poderia ser violado pelo Estado e por milícias bolsonaristas difusas (casos de bolsonarista matando lulista ou violências do gênero – de gênero também, que nunca entraram no pacto). Isso o colocou num lugar inseguro, que o governo Lula, parcialmente, reorganizou, mas de modo muito frágil, pois isso não é uma questão de governo, é um movimento social mais amplo.

Essa digressão sobre Kleber Mendonça Filho é o fundamento do caldo político para a apoteótica euforia em torno dos prêmios de Wagner Moura e O agente secreto.

Enquanto classe média progressista, ganhar o Globo de Ouro, em Los Angeles, traz a vitória simbólica necessária para acalmar os ânimos de uma classe que era supostamente anti-imperialista na semana anterior. Os fatos ocorrem na diferença de uma semana e um dia, entre 3 de janeiro e 11 de janeiro. O que me leva a crer que a reação ao sequestro de Nicolás Maduro também foi estética, uma performance de esquerda necessária.

Não é propriamente política, é um teatro de esquerda. Pois, após o revoltismo contra Donald Trump (que vem em ondas), aprofundar a discussão ao nível político e defender a Revolução Bolivariana não é algo possível para quem tem não um compromisso político de esquerda. Daí as imensas ponderações e receios ao falar de Nicolás Maduro, sempre o colocando como ditador ao lado das críticas ao presidente estadunidense, assemelhando-se a teoria da ferradura: “Nicolás Maduro é um ditador, mas é injustificado um sequestro”.

Ou seja, há uma discordância tática com a ação imperialista. A estratégia parece ser a mesma, a defesa de uma democracia liberal em solo venezuelano. Sendo a democracia abstrata, o solo venezuelano real. Nesse caso derrota simbólica e derrota real.

A colonização das concepções democráticas fala muito sobre o nosso cenário político, que só sabe viver na contradição fundamental “democracia versus barbárie”; há quantos anos? Será essa mesma a nossa contradição fundamental?

E aí, me contradizendo com o que coloquei de início, não há contradição, portanto, entre o anti-imperialismo de 3 de janeiro e a exaltação ao Globo de Ouro de 11 de janeiro. É o mesmo fenômeno de uma classe que fundamentalmente serve para amortecer a luta de classes e as contradições presentes na sociedade em vez de radicalizá-las. Aqui estou concordando com a tese de que “a esquerda morreu”.

Essa fração de classe está só ecoando um discurso preservacionista. Compartilhando dos ideais políticos do mundo hegemônico (democracia liberal), mas tal qual esse mundo hegemônico que está em decadência e na ofensiva (imperialismo americano), essa maneira de constituição de classe média progressista no Brasil – passando pelas necessárias mediações – pode ser que também esteja (tivemos amostras significativas no governo de Jair Bolsonaro, e uma fissura se lhe apresentou desde 2013).

À diferença do imperialismo, é que a arma mais poderosa da classe média de esquerda brasileira é a resignação e adesão ao conservadorismo. E assim ela pode continuar se reproduzindo, com todos os valores fundantes das sociedades liberais, embora nunca os tenha abandonado, nem no momento mais à esquerda.

Ou seja, por gozar de um pensamento que se pauta em valores democráticos abstratos que estão ruindo enquanto sistema de ideias, a classe média de esquerda brasileira demonstra contradições discursivas, mas sem antagonismo de classe. A classe média de esquerda, leia-se em todas as vezes “progressismo”, tenta preservar seus interesses desinteressados.

Daí decorre outra falsa contradição, que esse mesmo grupo social que consegue compreender tudo como político, compreendendo o político no seu modo ontológico, pretensamente, tenha dificuldades em ver a política presente nos aparatos da indústria cultural e os aspectos coloniais característicos de nossa era que se expressam materialmente quando falamos de cultura, um exemplo são os baixíssimos índices da sessões e bilheterias do cinema nacional (em 2024, Divertida Mente 2, levou 22,2 milhões de espectadores às salas de cinema; Ainda estou aqui, quase chegou aos seis milhões. O nosso recorde é o filme do Edir Macedo, que está em xeque a veracidade do público, e, ainda assim, ficou dez milhões de espectadores atrás de Divertida Mente 2).

A contradição é aparente. Com isso quero dizer que há sim uma compreensão do progressismo do teor político na vitória do Globo de Ouro, mas uma visão política liberal que consegue combinar com tranquilidade colonialismo cultural e pensamento de esquerda. Fica esquisito e estranho, como se fosse uma atualização de ideias fora do lugar.

Se o colonialismo chega por vias armadas e pelas práticas culturais, por que não chegaria via discurso teórico-político progressista?

Dessa maneira, a classe média de esquerda considera que um brasileiro ganhar é a expressão de uma atitude decolonial. Ganho simbólico. E a aparente contradição nunca é questionada. O pensamento político de esquerda anda tão esclerosado que nem se chega na aparente contradição. Há simplesmente a adesão passiva da ideologia dominante.

As derrotas reais aceitamos e aqui poderíamos enumerar várias, desde as estritas ao que se compreende como esfera cultural (invasão dos streamings, pasteurização dos produtos culturais, submissão estrangeira na valoração entre o que compreendemos como aceitável ou inaceitável enquanto cultura) até as que escapam desse cenário e demonstram que o colonialismo é uma realidade que nunca esteve perto de ser superada: os EUA deram a amostra em 3 de janeiro que a decadência desse império vai ser mais prolongada do que se imaginava (?).

O pensamento seria limitado e não apontaria saídas necessárias, mas diante do cenário já daria uma dimensão de altivez de um progressismo combatente o simples questionamento do porquê estamos indo aos EUA participar de uma cerimônia como essa uma semana depois de um sequestro de um presidente latino?

Como se consegue dissociar uma coisa da outra? Consegue-se porque partilha-se do mesmo sistema de ideias, na melhor das hipóteses, aceitam. Tudo isso porque a esquerda brasileira é liberal. Tem seus interesses interessados.

•        Quando a democracia resolve brigar consigo mesma. Por Renata Medeiros

Quando Alexis de Tocqueville foi estudar a democracia americana no século XIX, ele não estava encantado com o experimento. Estava desconfiado. A Revolução Francesa tinha começado prometendo liberdade e terminou em terror. A pergunta dele era simples: como evitar que a democracia use as próprias regras para se sabotar?

Dois séculos depois, a pergunta continua atual — e barulhenta.

Tocqueville percebeu algo que até hoje incomoda: democracia não é sinônimo automático de liberdade. Ela pode proteger direitos, mas também pode esmagá-los. O perigo não é só um ditador clássico com tanques na rua. Às vezes, o risco nasce no voto, cresce na maioria e se apresenta como vontade popular.

Ele chamou isso de “tirania da maioria”. É quando a maioria deixa de ser um critério numérico e passa a se achar dona da verdade. Quem discorda não é adversário — é traidor.

O debate vira ofensa. A divergência vira ameaça. O trumpismo encosta exatamente aí. A maioria vira identidade: “o verdadeiro povo”. E tudo o que não confirma essa identidade — tribunais, imprensa, eleições, organismos internacionais — passa a ser visto como sabotagem. A democracia continua sendo citada nos discursos. Mas começa a ser tratada como detalhe burocrático. O voto só é legítimo quando produz o resultado correto.

Tocqueville também falava de outro problema menos dramático, mas igualmente perigoso: o cidadão cansado. Gente que prefere cuidar da própria vida e deixar a política para depois.

Aos poucos, cada um se fecha no seu mundo, na sua bolha, na sua pequena sobrevivência cotidiana. Esse isolamento não produz autonomia — produz solidão política. E solidão coletiva tem consequências.

Esse cenário prepara o que, décadas depois, Hannah Arendt chamaria de atomismo: indivíduos isolados, desconectados uns dos outros, sem vínculos coletivos sólidos. Gente sozinha é mais fácil de mobilizar pelo medo e pela raiva do que pelo debate. Regimes autoritários não começam com campos de concentração. Começam quando a política vira guerra moral, quando a verdade vira opinião do líder e quando o limite jurídico passa a ser tratado como frescura liberal.

O trumpismo não é um regime totalitário. Mas flerta com o clima. Testa fronteiras. Empurra os limites para ver até onde dá.

A ironia é quase literária. Tocqueville estudou os Estados Unidos para entender como impedir que a democracia repetisse o desastre francês. Agora, são os próprios instrumentos democráticos — maioria, liberdade de expressão, eleição — que podem ser usados para corroê-la.

Não são tanques nas ruas. É algo mais sofisticado: desmontar a democracia dizendo que está salvando-a do inimigo interno.

No caso brasileiro, a ironia ganha um toque quase cômico. Jair Bolsonaro, pouco afeito aos livros — com exceção declarada das palavras cruzadas — provavelmente jamais leu Tocqueville, desconhece a Revolução Francesa como dilema político e nunca passou por

Hannah Arendt. Ainda assim, encaixa-se com precisão inquietante nos fenômenos que eles descreveram. Não é preciso entender teoria para produzir seus efeitos. Basta agir como se limites fossem opcionais e imaginar o povo como uma unanimidade moral — de preferência com megafone.

 

Fonte: A Terra é Redonda/Brasil 247

 

Nenhum comentário: