Dédallo
Neves: Um teatro de esquerda
Recentemente
uma fração brasileira celebrou a vitória do país no Globo de Ouro, prêmio da
crítica estadunidense, isto é, da mídia americana. Recentemente, a América
Latina assistiu um de seus presidentes ser sequestrado, ação estadunidense,
isto é, o imperialismo em marcha. Da primeira, vitória simbólica; da segunda,
derrota real. Colonialismo!
A mesma
estrutura cultural que premiou O agente secreto e Wagner Moura, constrói os
discursos imperialistas e colonizadores dos povos que um tipo de progressismo
diz subalternizados. Porém, se hoje, o Brasil está lá como ganhador, não é uma
vitória contra o colonialismo, é uma recomposição num movimento de absorção de
culturas emergentes para a cultura dominante, é o mudar para deixar tudo como
está. Capitalismo!
Os EUA
sequestraram um presidente latino em 3 de janeiro. Agora abandonamos o
sentimento anti-imperialista para fazer festa em solo yankee, como se
estivéssemos invadindo um país. A esquerda aplaude a si mesma. Alienação! Nas
redes sociais era possível ler coisas como “Puro suco de Brasil” diante de um
vídeo de Wagner Moura cantando “Não deixa o samba morrer”. Qual Brasil? O
simbólico ou o real?
Kleber
Mendonça Filho lá em Los Angeles afirmou: “Há cerca de 10 anos, o Brasil deu
uma guinada muito acentuada para a direita e esse tempo já passou. O
ex-presidente está agora na prisão. Ele foi epicamente irresponsável ao não
liderar o país”. Ora, leitura política pífia ou setorizada. Irresponsável para
usar de suas palavras, ou melhor, responsável com a sua classe social, melhor,
com parte de sua classe. Evidencia de modo inconteste o seu alinhamento e como
as classes médias de fato são os amortecedores da luta de classes na sociedade
capitalista.
Se se
tomar Kleber Mendonça Filho como síntese da classe média progressista de
esquerda, e sua afirmação que esse tempo já passou – e não passou! Há uma
ingênua (?) confusão da parte dele em pensar política como sucessão de governos
–, ele deixa claro o trauma que ficou para a classe média progressista após o
governo Bolsonaro, sendo a pandemia uma síntese também possível, mas não a
fundamental. Bolsonaro quebrou o pacto social pós-ditadura em que esse grupo
social não seria alvo de violações sócioestatais.
Embora
ele ainda esteja parcialmente em pé, vide a diferença de tratamento policial
com a classe média progressista e as classes baixas tão volúveis quanto a
necessidade que se impõe no cotidiano, pois é questão de sobrevivência. Kleber
Mendonça Filho se sentiu atacado pelo bolsonarismo que escancarou que ele
poderia ser violado pelo Estado e por milícias bolsonaristas difusas (casos de
bolsonarista matando lulista ou violências do gênero – de gênero também, que
nunca entraram no pacto). Isso o colocou num lugar inseguro, que o governo
Lula, parcialmente, reorganizou, mas de modo muito frágil, pois isso não é uma
questão de governo, é um movimento social mais amplo.
Essa
digressão sobre Kleber Mendonça Filho é o fundamento do caldo político para a
apoteótica euforia em torno dos prêmios de Wagner Moura e O agente secreto.
Enquanto
classe média progressista, ganhar o Globo de Ouro, em Los Angeles, traz a
vitória simbólica necessária para acalmar os ânimos de uma classe que era
supostamente anti-imperialista na semana anterior. Os fatos ocorrem na
diferença de uma semana e um dia, entre 3 de janeiro e 11 de janeiro. O que me
leva a crer que a reação ao sequestro de Nicolás Maduro também foi estética,
uma performance de esquerda necessária.
Não é
propriamente política, é um teatro de esquerda. Pois, após o revoltismo contra
Donald Trump (que vem em ondas), aprofundar a discussão ao nível político e
defender a Revolução Bolivariana não é algo possível para quem tem não um
compromisso político de esquerda. Daí as imensas ponderações e receios ao falar
de Nicolás Maduro, sempre o colocando como ditador ao lado das críticas ao
presidente estadunidense, assemelhando-se a teoria da ferradura: “Nicolás
Maduro é um ditador, mas é injustificado um sequestro”.
Ou
seja, há uma discordância tática com a ação imperialista. A estratégia parece
ser a mesma, a defesa de uma democracia liberal em solo venezuelano. Sendo a
democracia abstrata, o solo venezuelano real. Nesse caso derrota simbólica e
derrota real.
A
colonização das concepções democráticas fala muito sobre o nosso cenário
político, que só sabe viver na contradição fundamental “democracia versus
barbárie”; há quantos anos? Será essa mesma a nossa contradição fundamental?
E aí,
me contradizendo com o que coloquei de início, não há contradição, portanto,
entre o anti-imperialismo de 3 de janeiro e a exaltação ao Globo de Ouro de 11
de janeiro. É o mesmo fenômeno de uma classe que fundamentalmente serve para
amortecer a luta de classes e as contradições presentes na sociedade em vez de
radicalizá-las. Aqui estou concordando com a tese de que “a esquerda morreu”.
Essa
fração de classe está só ecoando um discurso preservacionista. Compartilhando
dos ideais políticos do mundo hegemônico (democracia liberal), mas tal qual
esse mundo hegemônico que está em decadência e na ofensiva (imperialismo
americano), essa maneira de constituição de classe média progressista no Brasil
– passando pelas necessárias mediações – pode ser que também esteja (tivemos
amostras significativas no governo de Jair Bolsonaro, e uma fissura se lhe
apresentou desde 2013).
À
diferença do imperialismo, é que a arma mais poderosa da classe média de
esquerda brasileira é a resignação e adesão ao conservadorismo. E assim ela
pode continuar se reproduzindo, com todos os valores fundantes das sociedades
liberais, embora nunca os tenha abandonado, nem no momento mais à esquerda.
Ou
seja, por gozar de um pensamento que se pauta em valores democráticos abstratos
que estão ruindo enquanto sistema de ideias, a classe média de esquerda
brasileira demonstra contradições discursivas, mas sem antagonismo de classe. A
classe média de esquerda, leia-se em todas as vezes “progressismo”, tenta
preservar seus interesses desinteressados.
Daí
decorre outra falsa contradição, que esse mesmo grupo social que consegue
compreender tudo como político, compreendendo o político no seu modo
ontológico, pretensamente, tenha dificuldades em ver a política presente nos
aparatos da indústria cultural e os aspectos coloniais característicos de nossa
era que se expressam materialmente quando falamos de cultura, um exemplo são os
baixíssimos índices da sessões e bilheterias do cinema nacional (em 2024,
Divertida Mente 2, levou 22,2 milhões de espectadores às salas de cinema; Ainda
estou aqui, quase chegou aos seis milhões. O nosso recorde é o filme do Edir
Macedo, que está em xeque a veracidade do público, e, ainda assim, ficou dez
milhões de espectadores atrás de Divertida Mente 2).
A
contradição é aparente. Com isso quero dizer que há sim uma compreensão do
progressismo do teor político na vitória do Globo de Ouro, mas uma visão
política liberal que consegue combinar com tranquilidade colonialismo cultural
e pensamento de esquerda. Fica esquisito e estranho, como se fosse uma
atualização de ideias fora do lugar.
Se o
colonialismo chega por vias armadas e pelas práticas culturais, por que não
chegaria via discurso teórico-político progressista?
Dessa
maneira, a classe média de esquerda considera que um brasileiro ganhar é a
expressão de uma atitude decolonial. Ganho simbólico. E a aparente contradição
nunca é questionada. O pensamento político de esquerda anda tão esclerosado que
nem se chega na aparente contradição. Há simplesmente a adesão passiva da
ideologia dominante.
As
derrotas reais aceitamos e aqui poderíamos enumerar várias, desde as estritas
ao que se compreende como esfera cultural (invasão dos streamings,
pasteurização dos produtos culturais, submissão estrangeira na valoração entre
o que compreendemos como aceitável ou inaceitável enquanto cultura) até as que
escapam desse cenário e demonstram que o colonialismo é uma realidade que nunca
esteve perto de ser superada: os EUA deram a amostra em 3 de janeiro que a
decadência desse império vai ser mais prolongada do que se imaginava (?).
O
pensamento seria limitado e não apontaria saídas necessárias, mas diante do
cenário já daria uma dimensão de altivez de um progressismo combatente o
simples questionamento do porquê estamos indo aos EUA participar de uma
cerimônia como essa uma semana depois de um sequestro de um presidente latino?
Como se
consegue dissociar uma coisa da outra? Consegue-se porque partilha-se do mesmo
sistema de ideias, na melhor das hipóteses, aceitam. Tudo isso porque a
esquerda brasileira é liberal. Tem seus interesses interessados.
• Quando a democracia resolve brigar
consigo mesma. Por Renata Medeiros
Quando
Alexis de Tocqueville foi estudar a democracia americana no século XIX, ele não
estava encantado com o experimento. Estava desconfiado. A Revolução Francesa
tinha começado prometendo liberdade e terminou em terror. A pergunta dele era
simples: como evitar que a democracia use as próprias regras para se sabotar?
Dois
séculos depois, a pergunta continua atual — e barulhenta.
Tocqueville
percebeu algo que até hoje incomoda: democracia não é sinônimo automático de
liberdade. Ela pode proteger direitos, mas também pode esmagá-los. O perigo não
é só um ditador clássico com tanques na rua. Às vezes, o risco nasce no voto,
cresce na maioria e se apresenta como vontade popular.
Ele
chamou isso de “tirania da maioria”. É quando a maioria deixa de ser um
critério numérico e passa a se achar dona da verdade. Quem discorda não é
adversário — é traidor.
O
debate vira ofensa. A divergência vira ameaça. O trumpismo encosta exatamente
aí. A maioria vira identidade: “o verdadeiro povo”. E tudo o que não confirma
essa identidade — tribunais, imprensa, eleições, organismos internacionais —
passa a ser visto como sabotagem. A democracia continua sendo citada nos
discursos. Mas começa a ser tratada como detalhe burocrático. O voto só é
legítimo quando produz o resultado correto.
Tocqueville
também falava de outro problema menos dramático, mas igualmente perigoso: o
cidadão cansado. Gente que prefere cuidar da própria vida e deixar a política
para depois.
Aos
poucos, cada um se fecha no seu mundo, na sua bolha, na sua pequena
sobrevivência cotidiana. Esse isolamento não produz autonomia — produz solidão
política. E solidão coletiva tem consequências.
Esse
cenário prepara o que, décadas depois, Hannah Arendt chamaria de atomismo:
indivíduos isolados, desconectados uns dos outros, sem vínculos coletivos
sólidos. Gente sozinha é mais fácil de mobilizar pelo medo e pela raiva do que
pelo debate. Regimes autoritários não começam com campos de concentração.
Começam quando a política vira guerra moral, quando a verdade vira opinião do
líder e quando o limite jurídico passa a ser tratado como frescura liberal.
O
trumpismo não é um regime totalitário. Mas flerta com o clima. Testa
fronteiras. Empurra os limites para ver até onde dá.
A
ironia é quase literária. Tocqueville estudou os Estados Unidos para entender
como impedir que a democracia repetisse o desastre francês. Agora, são os
próprios instrumentos democráticos — maioria, liberdade de expressão, eleição —
que podem ser usados para corroê-la.
Não são
tanques nas ruas. É algo mais sofisticado: desmontar a democracia dizendo que
está salvando-a do inimigo interno.
No caso
brasileiro, a ironia ganha um toque quase cômico. Jair Bolsonaro, pouco afeito
aos livros — com exceção declarada das palavras cruzadas — provavelmente jamais
leu Tocqueville, desconhece a Revolução Francesa como dilema político e nunca
passou por
Hannah
Arendt. Ainda assim, encaixa-se com precisão inquietante nos fenômenos que eles
descreveram. Não é preciso entender teoria para produzir seus efeitos. Basta
agir como se limites fossem opcionais e imaginar o povo como uma unanimidade
moral — de preferência com megafone.
Fonte:
A Terra é Redonda/Brasil 247

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