Primeiro
arrasar Gaza, depois construir um parque de diversões para o capital global
Quando
o presidente Donald Trump intermediou um acordo de cessar-fogo entre Israel e o
Hamas no final de setembro, o presidente estadunidense foi aclamado, inclusive
por alguns democratas de destaque,
por sua atuação em prol da paz. O presidente da Câmara dos Representantes, Mike
Johnson, e o presidente do Knesset israelense, Amir Ohana, disseram que
indicariam Trump
conjuntamente ao cobiçado Prêmio Nobel da Paz.
A
apresentação do plano de paz relativamente sóbrio de Trump para Gaza, composto
por vinte pontos, pareceu marcar uma mudança drástica em relação à forma como o
presidente pensava sobre Gaza menos de oito meses antes, quando anunciou, em uma coletiva de imprensa na Casa
Branca com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, que os Estados
Unidos assumiriam o controle da Faixa de Gaza, a ocupariam e a transformariam
na “Riviera do Oriente Médio” — uma possibilidade que, nas palavras de Trump,
poderia ser “magnífica”. Pouco depois da coletiva de imprensa, Trump
compartilhou nas redes sociais um vídeo bizarro, gerado
por inteligência artificial, de uma Gaza reconstruída, com direito a dançarinas
do ventre, Elon Musk jogando maços de dinheiro para o ar e Trump e Netanyahu
deitados sem camisa em cadeiras de praia.
A
ambição de Trump de transformar Gaza em um destino turístico foi incorporada a
um plano mais amplo para o futuro da região, que foi discutido em Washington
no final do verão. O Fundo Fiduciário para a Reconstituição, Aceleração
Econômica e Transformação de Gaza (GREAT Trust, sigla em inglês)
foi a primeira grande proposta do governo Trump para trazer a paz a Gaza. Sua
lógica permanece em vigor no atual plano de paz.
O plano
GREAT Trust destacou-se pela sua franqueza: propunha realocar um quarto da
população existente em Gaza para países vizinhos durante o processo de
reconstrução e transferir o restante para acomodações temporárias e restritas
na Faixa. Feito isso, os Estados Unidos assumiriam o controle de Gaza por um
período de dez anos e supervisionariam a transformação da devastada pátria de
mais de dois milhões de palestinos em “um centro mediterrâneo para manufatura,
comércio, hospedagem de dados e turismo, beneficiando-se de sua localização
estratégica, acesso a mercados (Europa, CCG [Conselho de Cooperação do Golfo],
Ásia), recursos e uma força de trabalho jovem, tudo isso apoiado pela
tecnologia israelense e por investimentos do CCG”.
A
transformação seria financiada por até US$ 100 bilhões em investimentos
públicos e até US$ 65 bilhões em investimentos privados, que cobririam o custo
de tudo, desde “pacotes generosos de realocação” para residentes palestinos até
“10 megaprojetos de construção”.
A ideia
que atraiu mais atenção foi o projeto de transformar o litoral de Gaza na
“Riviera Trump de Gaza e Ilhas”, uma série de resorts de luxo e pequenas ilhas
artificiais inspiradas nas Ilhas Palm de Dubai, que, presumivelmente, atrairiam
turistas dispostos a estender suas cadeiras de praia sobre os ossos dos
palestinos mortos. Mas esse não foi o único megaprojeto na proposta. Outros
incluem a construção de rodovias com os nomes de Mohammed bin Salman,
governante da Arábia Saudita, e Mohamed bin Zayed al-Nahyan, governante de Abu
Dhabi; uma zona de manufatura inteligente com o nome de Elon Musk; e uma rede
de data centers para atender Israel e os países do Golfo.
Em
nenhum momento do plano havia qualquer sugestão de que a população palestina de
Gaza pudesse apoiar democraticamente a transformação de sua pátria sitiada em
uma zona econômica especial tecnofuturista governada pelos EUA; palavras como
democracia e soberania estavam ausentes de uma apresentação de
trinta e oito slides sobre
a proposta, obtida pelo Washington Post. Isso ocorre porque os
idealizadores do plano sabiam que não conseguiriam apoio democrático ou porque
desistiram da pretensão de se importar. Não há menção aos direitos políticos
palestinos no plano até que Gaza seja “desmilitarizada e desradicalizada”,
momento em que a governança será transferida para uma entidade política
palestina submissa que aderirá aos Acordos de Abraão e, potencialmente,
assinará um pacto de livre associação com o GREAT Trust para garantir apoio
financeiro contínuo “em troca da manutenção de alguns poderes plenos por parte
do Trust”.
Entretanto,
a suposição implícita é que a população palestina de Gaza irá migrar
permanentemente para países vizinhos ou será “pacificada” por um aparato de
segurança multibilionário, apoiado, a julgar pelos logotipos apresentados nos
slides, por uma lista dos principais empreiteiros militares e fabricantes de
armas do mundo. O plano do GREAT Trust não menciona o que poderia acontecer se
os habitantes de Gaza resistirem a essa próxima fase de sua desapropriação, mas
não é muito difícil imaginar.
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O modelo Neom
Como escreveu Alberto
Toscano, Gaza está sendo reimaginada como uma “apoteose daquela fusão entre
capital e regime autoritário que constitui, para grande parte da reação global,
o ‘milagre’ daquelas ‘cidades milagrosas’ do Oriente Médio”. A referência às
cidades milagrosas do Oriente Médio é frequentemente explícita nos planos para
o futuro de Gaza, com Neom, a cidade planejada que está sendo construída a um
custo enorme na costa noroeste da Arábia Saudita, servindo como um ponto de
referência frequente.
A
região onde Neom está sendo construída foi descrita como uma “tela em branco”
por bin Salman, de forma muito semelhante à maneira como os arquitetos do plano
de Trump parecem conceber Gaza. Neom também foi imaginada como um novo e
reluzente centro regional para a indústria, o comércio e o lazer, com direito a
uma estação de esqui e um estádio de futebol suspenso. Mas a região não é uma
tela em branco. O governo já destruiu diversas aldeias no processo de
desmatamento para a construção. No ano passado, autorizou o uso de força letal contra
moradores para facilitar a construção em curso e potencialmente fadada ao fracasso da Linha — uma
cidade inteligente de 177 quilômetros de extensão, revestida de vidro, que
inicialmente deveria ser capaz de acomodar um quarto da população total do
país.
O
projeto Neom se destaca não apenas por sua ambição vertiginosa —
uma cidade industrial flutuante! Um resort de luxo em uma ilha! Um “arranha-céu
ultraluxuoso de cabeça para baixo”! — mas também por incorporar a mesma lógica
que anima os planos para Gaza: a de que a terra é uma tela em branco à espera
de ser transformada, não em nome da construção da nação, mas em nome da criação
de zonas econômicas especiais que só podem ser acessadas pelos ricos e que
funcionam, como sugeriu Quinn
Slobodian, como um “navio de cruzeiro ou um parque temático”.
Já
vimos versões dessa visão sendo implementadas em lugares como Dubai. Embora a
Palestina seja frequentemente usada como um laboratório para o futuro,
o plano de Trump para Gaza não é tanto uma prévia do que está por vir, mas uma
extensão macabra de um futuro que já chegou — não apenas no Golfo, mas também
em países da América Central como El Salvador e Honduras.
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O sionismo encontra o capital global
O plano
GREAT Trust foi previsivelmente duramente criticado pelos palestinos e por
grande parte da comunidade internacional, mas em Israel mostrou-se bastante
popular entre figuras-chave do governo Netanyahu. Em setembro, o Ministro das
Finanças, Bezalel Smotrich, sugeriu em uma conferência imobiliária em Tel Aviv
que o custo do ataque a Gaza acabaria por se pagar. “A demolição, a primeira
etapa da renovação da cidade, já fizemos”, disse Smotrich. “Agora precisamos
construir.”
Smotrich
está longe de ser a única figura de destaque a apoiar o espírito, senão a letra
fria, do plano de Trump para a Riviera de Gaza. Durante o verão, Smotrich
discursou em uma conferência do Knesset intitulada “A Riviera de Gaza — do
Projeto à Realidade” para uma plateia que, segundo relatos, incluía outros
ministros do governo, membros do Knesset, agentes de segurança, parentes dos
reféns e uma variedade de outros pesquisadores e ativistas, como a notória
“madrinha” do movimento de colonos israelenses, Daniella Weiss. Smotrich
assegurou à sua plateia que Trump apoiava o esforço “para transformar Gaza em
uma faixa próspera, uma cidade turística com empregos”. Isso, disse ele, é
“como se faz a paz”.
O fato
de Smotrich e membros de seu partido de extrema-direita, a coalizão sionista
religiosa, apoiarem o reassentamento e a anexação de Gaza após a guerra não é
surpreendente; a expansão territorial tem sido um objetivo primordial do
movimento sionista, e o próprio Smotrich foi preso por planejar um atentado a
bomba contra uma rodovia israelense em protesto contra a retirada dos colonos
israelenses de Gaza em 2005. Smotrich cresceu no assentamento de Beit El, na
Cisjordânia; seu pai é o rabino Chaim Smotrich, que também protestou contra a retirada
das forças israelenses de Gaza duas décadas atrás e permanece uma figura de
destaque na política sionista como reitor de uma yeshivá no
assentamento de Kiryat Arba, nos arredores de Hebron.
O que
chama a atenção é o entusiasmo demonstrado por Smotrich e seus aliados pelo
projeto de repensar Gaza exatamente da maneira como Trump o faz: como uma
oportunidade para extração e acumulação de capital. É quase como se Smotrich e
Itamar Ben-Gvir, o ministro da segurança nacional, também de visão
extremista, entendessem que essa é uma
estrutura particularmente eficaz para angariar o apoio internacional necessário
para concluir o reassentamento e a anexação. Essa ideia não surgiu com a
intervenção de Trump: no ano passado, antes da reeleição de Trump, Netanyahu
promoveu um plano semelhante que
propunha reconstruir Gaza “do nada” e convertê-la em uma próspera zona de livre
comércio que pudesse servir como um centro para toda a região.
Os
planos têm mais em comum do que o desejo compartilhado de transformar Gaza em
um centro tecnofuturista para extrativismo e livre comércio. Apresentações em
PowerPoint detalhando as particularidades dos planos exibem a mesma imagem gerada
por inteligência artificial de uma Gaza reconstruída, reluzente com
arranha-céus angulares de vidro, extensas linhas ferroviárias, campos
verdejantes e uma frota de plataformas de petróleo ociosas perto da costa do
Mediterrâneo. Não há nada identificável como palestino na imagem; essa Gaza
transformada poderia estar em qualquer lugar com litoral e uma política de
desenvolvimento adequada.
A
proposta de Netanyahu, “Gaza 2035”, apresentava diversos elementos notáveis. Um
deles era o foco na extração de petróleo, como evidenciado pela presença
sinistra das plataformas no Mediterrâneo. As Nações Unidas estimam que existam 1,7
bilhão de barris de petróleo recuperáveis na Bacia do Levante, no Mediterrâneo,
além de aproximadamente 3,45 bilhões
de metros cúbicos de gás. Outro elemento notável
era a referência a Neom, que seria conectada a Gaza por uma ferrovia
de alta velocidade. O plano, argumenta Shane Reiner-Roth, “demonstra quão ilimitada é a
imaginação colonialista quando o tema da contenção é percebido como algo do
passado”.
Planos
dessa natureza abundam. Em abril passado, o bilionário gestor de fundos de
hedge, Bill Ackman, apresentou sua própria proposta — uma
competição global entre arquitetos, planejadores e “tecnólogos” disputando o
direito de “construir uma nova cidade a partir de uma folha em branco”, que
seria governada pelos Estados Unidos e um consórcio de aliados do Golfo. Na
fantasia de Ackman, Gaza se torna não apenas habitável, mas uma “cidade
modelo”. Não há qualquer menção à autodeterminação dos residentes palestinos de
Gaza, e certamente não à criação de um Estado palestino. O mesmo ocorre
com os planos divulgados pela RAND
Corporation e pelo Instituto Judaico para a Segurança Nacional da América: Gaza
pode e será ressuscitada, mas apenas como um canal higienizado para o capital e
um playground para a elite global.
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Blair e os bilionários
Desde
então, Trump recuou do plano da Riviera de Gaza, e seu plano de paz de vinte pontos
não menciona clubes de praia ou reformas haussmannianas na Cidade de Gaza. É
retoricamente mais ameno, embora não menos ameaçador — sobretudo porque obteve o apoio da Autoridade
Palestina, além de Egito, Jordânia, Turquia e dos principais Estados do Golfo.
Resta saber se os últimos dos vinte pontos chegarão a ser implementados;
Israel já teria violado os termos do
cessar-fogo quase trezentas vezes, e os palestinos
sabem muito bem que as etapas finais dos planos de paz muitas vezes nunca se concretizam. Já
existem indícios de que os
Estados Unidos não têm intenção de cumprir os termos do plano de vinte pontos.
No
entanto, o plano de Trump, em teoria, prevê que uma Gaza “desradicalizada” seja
transformada em uma “zona econômica especial” com “tarifas e taxas de acesso
preferenciais a serem negociadas com os países participantes”. Essa zona
econômica especial será governada, em caráter provisório, por um órgão
palestino “tecnocrático e apolítico”, supervisionado por um comitê
internacional presidido pelo próprio Trump.
O
comitê também incluirá o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair. O órgão de
supervisão “definirá a estrutura e administrará o financiamento para a
reconstrução de Gaza” até que a Autoridade Palestina seja considerada apta a
assumir o controle, governando de maneira “propícia à atração de
investimentos”. Essa visão de Gaza não endossa explicitamente mais limpeza
étnica, mas, como argumentou Oliver
Eagleton, ainda se assemelha a um “protetorado colonial”.
O
envolvimento de Blair no projeto não se limita a um horizonte futuro. O think
tank londrino do ex-líder trabalhista teria prestado consultoria sobre o plano
inicial de Trump para a Riviera de Gaza, e Blair teria ajudado a elaborar o
plano de vinte pontos em uma reunião na Casa Branca com Trump, o conselheiro
para o Oriente Médio Jared Kushner e o ministro israelense de assuntos
estratégicos Ron Dermer, no final de agosto.
Outra
proposta de plano, discutida antes do anúncio do acordo de cessar-fogo, era que
Blair administrasse uma autoridade de
transição para Gaza por um período de três anos, com um conselho composto
principalmente por bilionários como o financista de Wall Street Marc Rowan e o
magnata egípcio Naguib Sawiris.
A
presença de Blair, apesar de seu histórico de serviço público, pode estar
relacionada com as amizades que mantém. Desde 2021, o presidente executivo da
Oracle, Larry Ellison — um antigo apoiador das Forças de
Defesa de Israel — doou, ou prometeu doar, mais de US$ 300 milhões ao Instituto
Tony Blair para a Mudança Global. A Arábia Saudita, os Emirados Árabes
Unidos e o Bahrein também contrataram o Instituto
Blair para realizar trabalhos, e Blair, em sua atuação anterior na região,
sempre foi um defensor fervoroso da abertura de terras
palestinas ao investimento estrangeiro.
A
variedade de planos para a reinvenção de Gaza parece ambiciosamente ridícula,
mas não há razão para crer que alguma versão ou combinação deles não será
executada. O mundo que foi incapaz, ou se mostrou relutante, em deter o
genocídio em Gaza até o fim de 2025 pode não ter maior sucesso em impedir a
próxima fase do apagamento do povo de Gaza e o roubo de suas casas, recursos
naturais e direitos.
Isso, é
claro, não é necessariamente incompatível — pelo menos no curto prazo — com os
objetivos da extrema-direita israelense. E assim chegamos a um momento em que o
movimento sionista, que busca a expropriação de terras palestinas sob o
pretexto da supremacia judaica, encontra um ponto em comum com uma estrutura de
poder global de direita que busca criar espaços supranacionais autoritários e
sem atritos para o extrativismo e os fluxos de capital.
Essa
aliança sugere que, apesar de todas as circunstâncias excepcionais que levaram
à criação de Israel, o Estado israelense deve ser compreendido principalmente
como um projeto colonial de povoamento em curso, que agora faz parte de uma
rede de países e interesses comerciais que tentam remodelar o mundo para
favorecer seu próprio enriquecimento. Gaza, lamentavelmente, permanece na mira
dessa rede.
Fonte:
Por Abe Asher - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

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