'Herançocracia':
por que gerações atuais dependem mais do patrimônio dos pais para seu sucesso
financeiro
A
historiadora britânica Eliza Filby conta que, sempre que uma empresa a convida
para dar uma palestra, ela começa explicando aos empregadores um ponto que ela
acredita ser fundamental para entender a dinâmica dos ambientes de trabalho modernos.
"Você
percebe que, agora, seus empregados com menos de 45 anos têm mais possibilidade
de comprar uma casa sendo leais aos seus pais e não ao seu chefe?"
Filby é
autora de Inheritocracy: It's Time to Talk About the Bank of Mum and
Dad ("'Herançocracia': está na hora de falar do banco da mamãe e
do papai", em tradução livre).
O livro
é best-seller no Reino Unido e analisa como a fortuna acumulada por uma geração
específica (os baby boomers, nascidos entre 1946 e 1964) modelou o
sistema econômico no qual as gerações posteriores precisaram se desenvolver.
"'Herançocracia'
é um título intencionalmente provocador", declarou a autora ao
apresentador do podcast Radical, da BBC Rádio 4, Amol Rajan.
"É o oposto da meritocracia, a crença de que o trabalho árduo resultará em
sucesso e oportunidades."
"A
herançocracia é uma sociedade na qual o importante não é o quanto você ganha,
nem o que você aprendeu", prossegue ela, "mas sim se você tem acesso
ao banco da mamãe e do papai, que é o que define suas oportunidades, sua rede
de segurança e sua plataforma para a vida adulta."
Filby
garante que este fenômeno tem imenso impacto sobre a vida da geração X (os
nascidos entre 1965 e 1980) e os millennials (entre 1981 e
1986). E poderá continuar se expandindo no futuro para a geração Z (1997 a
2012) e alfa (2013 a 2024).
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Meritocracia
Filby
destaca que o conceito de meritocracia nasceu como uma advertência. O sociólogo
britânico Michael Young (1915-2002) cunhou o termo em 1958 como uma sátira, não
como um ideal.
No seu
livro The Rise of the Meritocracy ("A ascensão da
meritocracia", em tradução livre), Young descreveu uma sociedade em que o
sucesso era moralmente justificado pelo talento e pelo esforço, enquanto o
fracasso era culpa exclusiva do indivíduo.
Com o
passar do tempo, a ironia se perdeu e a palavra passou a ser usada como elogio.
Para
Filby, este mal-entendido é fundamental para entendermos a frustração da
geração atual.
"A
ideia de que o trabalho árduo deveria trazer recompensas é fundamental para
qualquer democracia", declarou ela à BBC. "O problema é que reduzimos
o mérito a passar nos exames, acumular credenciais e seguir um único caminho
educacional."
A
escritora explica que, em parte, a ideia do mérito se popularizou entre
os baby boomers porque foi um conceito que serviu bem a muitos
deles.
Foi uma
época em que se tornaram comuns as histórias de pessoas que conseguiram sair de
casa com pouca idade e, pelo caminho da educação superior, construíram seu
próprio futuro.
Mas
Filby recorda que os reais motivos que fizeram com que este caminho funcionasse
tão bem para os baby boomers estão menos concentrados no
mérito e mais nas características sem precedentes do mundo do pós-guerra, com
crescimento econômico sustentado, impulsionado pela "paz" frágil, mas
consistente, oferecida ao mundo pela Guerra Fria (1947-1991).
Com
maiores receitas, os governos buscaram formas de democratizar as oportunidades
para os jovens da zona rural ou da classe trabalhadora e encontraram um caminho
para isso, com a educação superior.
Filby
reconhece que a intenção foi boa e que, em termos sociais e culturais, o envio
de mais pessoas para a universidade trouxe benefícios reais.
Mas ela
também defende que, a partir dos anos 1990, este impulso ajudou a consolidar
uma narrativa única do significado do sucesso: estudar, ir para a universidade,
conseguir um diploma e atingir uma carreira profissional estável.
Ocorre
que o sistema não tinha condições de garantir este mesmo sucesso para todos os
que ingressassem na universidade.
Para a
autora, "o problema é que construímos um sistema em que 50% das pessoas
não tinham uma forma alternativa clara rumo a uma vida segura".
Para
muitos jovens, não ir para a universidade deixou de ser uma opção legítima. E,
para os que cursaram o ensino superior, o valor monetário de um título
universitário começou a cair, enquanto os custos para consegui-lo disparavam.
O
resultado foi uma geração que se endividou para ter acesso a uma promessa que
não garantia mais a estabilidade.
Em
muitos casos, os mais afetados foram jovens de famílias mais modestas,
motivados pelo desejo de ganhar mais dinheiro para ajudar em casa.
Filby
explica que o sistema não fracassou apenas por motivos econômicos, mas pela sua
rigidez.
Ele foi
construído em torno de uma ideia limitada do que constitui inteligência e
sucesso, herdada do século 19, uma época em que a economia e a tecnologia
viviam uma transformação radical.
A
autora afirma que essa rigidez se torna ainda mais problemática em uma época em
que a inteligência artificial ameaça até mesmo as funções de escritório.
"A
educação não pode terminar aos 21 anos", orienta ela. "E não pode
recair apenas sobre as pessoas."
"Durante
décadas, as empresas terceirizaram a formação universitária. Antes, se aprendia
no trabalho. Hoje, as empresas esperam empregados 'prontos' e investem muito
pouco no seu treinamento."
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O banco da mamãe e do papai
Nas
condições atuais, Filby afirma que o "banco da mamãe e do papai" se
transformou em uma fonte de estabilidade maior do que o próprio trabalho. Isso
está alterando a dinâmica em diferentes áreas da sociedade.
Mas a
autora destaca que, na maioria dos casos, o que ocorre não são atos de avareza
ou irresponsabilidade juvenil, mas sim de adaptação.
"A
família está intervindo porque o Estado se retirou e o mercado ficou
disfuncional em áreas fundamentais", explica ela. "Em muitos
sentidos, é uma história de amor parental."
Filby
conta que a expressão "banco da mamãe e do papai" começou a surgir no
Reino Unido perto de 2013. Ela descreve o fenômeno cada vez mais comum que leva
pais e avós a usarem seu patrimônio para ajudar seus filhos e netos a pagar
estudos, aluguel, hipotecas, creches ou simplesmente para poderem chegar ao
final do mês.
Depois
da crise financeira de 2008, o panorama econômico para as pessoas que entravam
na idade adulta mudou repentinamente.
Algumas
coisas passaram a ser mais baratas, como a tecnologia, viagens e alguns luxos
do dia a dia. Mas outras começaram a subir, como a moradia, educação, o cuidado
com as crianças e, em alguns países, a assistência médica.
Neste
panorama, muitos jovens passaram a se concentrar nos gastos pequenos e
visíveis, como o café, uma viagem ou o telefone celular. Já os grandes feitos
da vida adulta começaram a ficar inatingíveis sem a ajuda da família.
É daí,
segundo a autora, que nasce o estereótipo do millennial que gasta em "torradas com abacate", uma
caricatura que ignora o contexto estrutural por trás daquela imagem.
Filby
também afirma que o banco da mamãe e do papai não é um conceito válido apenas
para a classe média acomodada.
Ela
explica que, na verdade, a maioria dos jovens que moram com seus pais com perto
de 30 anos de idade vem de famílias da classe trabalhadora.
Nestes
casos, o apoio não se traduz em depósitos para financiamento imobiliário, mas
sim em teto, comida e cuidados mútuos.
"A
solidariedade familiar aumentou em todos os níveis de renda", segundo
Filby.
São os
avós que cuidam dos netos para que seus filhos possam trabalhar. Pais que
abrigam filhos adultos para que eles economizem. Famílias que funcionam como
redes de segurança frente a um sistema cada vez mais frágil.
O
problema, segundo a autora, é que nem todas as famílias podem fazer isso. Ela
destaca que, em uma sociedade em que a estabilidade depende da família, o
nascimento passa a ser decisivo.
O
divórcio, as famílias misturadas, os conflitos familiares ou simplesmente a
pobreza estrutural se transformam em profundas desvantagens.
O
resultado é uma economia em que a lealdade à família é mais importante que a
lealdade ao empregador e a riqueza não se acumula pelo salário, mas
principalmente pelos bens, explica Filby.
E o
trabalho, mesmo que bem remunerado, não consegue garantir o acesso aos pilares
básicos da vida adulta.
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Sociedade herdada
Em um
fenômeno tão profundo como a herançocracia, seus efeitos se estendem além do
dinheiro.
Filby
afirma que a herançocracia está reconfigurando a forma como as pessoas escolhem
parceiros, planejam sua vida e entendem a segurança.
Ela
cita como exemplo a escolha seletiva de parceiros, que é a tendência a formar
casais entre pessoas com origens e recursos similares.
Durante
o século 20, grande parte da mobilidade social feminina ocorreu pelo casamento.
Hoje em dia, o padrão é diferente.
Filby
explica que, inicialmente, a formação de casais se dava entre formandos
universitários. Mas, desde a crise de 2008, a variável decisiva passou a ser
outra: o acesso ao patrimônio familiar.
"Não
é que as pessoas se casem pelo salário do outro", afirma ela. "É que
duas pessoas com banco de mamãe e papai tendem a se encontrar e se unir."
A
autora menciona pesquisas que indicam que mais da metade dos jovens da geração
Z consideram a compatibilidade financeira um fator central em uma relação. Esta
é uma proporção muito maior do que nas gerações anteriores.
Some-se
a este panorama a pressão sobre a classe média.
Filby
indica que, embora a riqueza extrema tenha aumentado, a maior parte do
patrimônio privado permanece concentrada em amplos setores da população mais
idosa.
Paralelamente,
ela descreve uma "classe média espremida", especialmente na geração
X, entre o apoio aos filhos adultos e o cuidado com os pais envelhecidos.
Para
Filby, este fenômeno está levando as gerações atuais a perder a fé na ideia de
que o Estado moderno pode proporcionar um sistema em que eles e seus filhos
possam ter uma vida melhor no futuro, rompendo a promessa básica inculcada
pelos seus pais.
Isso
faz com que o mundo viva um período similar à década de 1970, ou seja, uma
etapa de desilusão, que obriga as pessoas a reformular as bases do contrato
social.
"Escrevi
este livro porque precisamos falar disso", afirma ela. "Não se trata
de 'bebês nepotistas'. Trata-se de como as oportunidades são
distribuídas."
Filby
deixa claro que entender como a herançocracia funciona não garante que iremos
escapar dela, mas permite tomar decisões pessoais e coletivas mais bem
informadas.
Ela
adverte que o risco é não o fazer. Afinal, quando uma sociedade deixa de
acreditar que o esforço vale a pena, algo mais profundo que a economia começa a
desmoronar.
Fonte:
BBC News Mundo

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