A
universidade brasileira e a América Latina num cenário de grandes
transformações
Muito
já se discutiu sobre a distância, construída ao longo da História, entre o
Brasil e os demais países da América Latina. O assunto não é exatamente uma
novidade, mas sempre volta a ser debatido quando a região se vê diante de
grandes desafios, como tem sido o caso nesse momento em que o governo dos
Estados Unidos anuncia sem rodeios sua intenção – inspirada na velha Doutrina
Monroe, de 1823 – de exercer novamente pleno domínio sobre todo o continente
americano e evitar que potências externas à região continuem a expandir sua
influência sobre nossos países, como vem ocorrendo desde, pelo menos, o início
deste século, notadamente com a China e, em alguma medida, com a Rússia.
Apesar
do encontro, ainda no início do processo de colonização, entre portugueses e
espanhóis na Bacia do Prata, facilitado pelas condições topográficas e de
navegabilidade (algo que se estenderia depois para a rivalidade entre os
governos de Brasil e Argentina ao longo do século XIX), a distância do Brasil
em relação a vários de seus outros vizinhos na região é geográfica, marcada por
obstáculos naturais como a Floresta Amazônica e a Cordilheira dos Andes. Mas
vai muito além disso. Ela é também cultural, política e até linguística, ainda
que os idiomas trazidos à região pelos colonialismos espanhol e português não
sejam assim tão diferentes entre si, mas cujas diferenças marcaram por muito
tempo a sociedade brasileira, muitas vezes alheia a uma identidade
latino-americana comum com outras nações e povos do continente.
Os
processos de independência também diferiram entre o Brasil e os demais países
da América Latina, posto que entre nós instaurou-se a partir de 1822 uma
monarquia, costurada de cima para baixo pelas elites políticas da época,
enquanto na Grã-Colômbia (atuais Venezuela, Colômbia, Panamá e Equador) ou nas
Províncias Unidas do Rio da Prata (que dariam origem à Argentina), por exemplo,
o fim do jugo colonial espanhol deu-se através de guerras. O mesmo ocorreu com
o Peru e o México, que também enfrentaram processos longos e violentos para
alcançar a independência política em relação à Espanha.
Cabe
lembrar, além disso, que o Brasil tardou muito mais que seus vizinhos a abolir
oficialmente a escravidão, fato que marcou e ainda influencia diversas
características da sociedade e da economia brasileiras e que de alguma forma
também ressalta diferenças do nosso país em relação a alguns de seus vizinhos.
Deve-se mencionar ainda a estratégia da diplomacia brasileira, ao longo do
século XIX e em parte do século XX, de priorizar laços com potências europeias
como Reino Unido, França e Alemanha e também com os Estados Unidos, muitas
vezes tentando demonstrar-se àqueles países como um parceiro bem mais confiável
na região do que nações vizinhas que atravessaram décadas em meio a
instabilidades políticas ou mesmo separatismos e guerras civis após a consolidação
de seus processos de independência.
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O que você vê na mídia?
Outro
ponto importante para se pensar as distâncias entre o Brasil e seus vizinhos é
a educação. A escola brasileira, no geral, passou muito tempo sem priorizar o
ensino da História latino-americana e dos laços culturais, sociais e econômicos
comuns entre nosso país e a região. Lacuna maior que essa na educação nacional
só mesmo as tantas gerações que passaram pelos bancos escolares sem ouvir
praticamente nada sobre a História da África.
Some-se
à quase completa ausência de referências históricas sobre a América Latina nos
livros escolares brasileiros ao longo de anos, deve-se dizer que a imprensa
brasileira também tem priorizado em suas pautas, durante muito tempo, as
notícias sobre a Europa e os Estados Unidos. Exceções a isso existem, claro,
mas são relativamente recentes no jornalismo nacional e geralmente formadas por
meios de comunicação de alcance e influência menores que os grandes jornais e
as grandes redes de televisão e radiodifusão.
Mais
recentemente, nas últimas décadas, o protagonismo econômico do Brasil em
relação aos demais países da região também contribuiu para que nossos governos
atuassem de forma relativamente autônoma no cenário de uma economia cada vez
mais globalizada. A desproporção dos tamanhos das economias do Brasil e de seus
vizinhos conferiu ao país um papel de liderança que nem sempre foi visto como
positivo por eles. Por outro lado, iniciativas adotadas desde a criação do
Mercosul, entre os anos 1980 e 1990, e depois da União de Nações Sul-Americanas
(Unasul) e da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), já
neste século, muitas vezes foram vistas pela região como gestos relevantes do
Brasil em direção à integração latino-americana (há tanto tempo desejada, mas
ainda longe de ser realizada).
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O pop na linha de frente
Pensando,
porém, no brasileiro médio, é possível afirmar que o país ainda reconhece
poucos traços relativos à realidade latino-americana: a carne de boi, o futebol
e o tango argentinos, os produtos importados do Paraguai, o comunismo cubano,
as novelas e os seriados infantis mexicanos e talvez alguns destinos turísticos
mundialmente famosos localizados na região, como Machu Picchu. Figuras
históricas como Maradona, Fidel Castro e Pepe Mujica são bastante conhecidas no
Brasil, mas outras, como Simon Bolívar, Juan Domingo Peron e Emiliano Zapata,
absolutamente centrais na História política latino-americana, nem tanto.
Lembremos,
por outro lado, que Frida Kahlo tornou-se nesses últimos anos no Brasil uma
espécie de “ícone pop”, estampada nos mais diversos produtos, de canecas a
quadros, de bolsas a capinhas de celular, mais ou menos como um dia Che Guevara
foi retratado em camisetas país afora. E, impossível não mencionar, figuras da
música e das artes em geral tornaram-se também muito conhecidas do público
nacional nas últimas décadas, como Shakira, Luís Miguel e Roberto Gomez
Bolaños, cujo rosto é parte da memória de gerações de brasileiros como os
personagens Chaves e Chapolim Colorado. E vale mencionar Bad Bunny, fenômeno
global que ganhou multidões também no Brasil. Some-se a tudo isso o fato de que
a sociedade brasileira tem recebido fluxos migratórios de países como Bolívia,
Haiti e Venezuela, e de alguma forma por conta dessas milhares de pessoas que
acorreram ao país tem aumentado entre nós a curiosidade e o conhecimento sobre
suas respectivas nações de origem.
A
recente invasão da Venezuela por forças militares dos Estados Unidos, com a
captura de Nicolás Maduro e Cilia Flores e o acesso de Washington às reservas
de petróleo daquele país – as maiores do mundo – parece ter impulsionado o interesse da
sociedade brasileira em relação à sua vizinhança. O fato tem tido ampla
cobertura da mídia brasileira, ocupado o debate acadêmico e chegado até mesmo
às conversas do dia a dia de milhares de brasileiros comuns. Outros temas relacionados
à América Latina, como o Programa Mais Médicos, do governo cubano, já haviam
alcançado algo parecido, despertando paixões positivas e negativas em eleições
brasileiras recentes, mas talvez nenhum outro tema latino-americano tenha
despertado, até hoje, tanto interesse, nos mais variados setores da sociedade
brasileira, quanto essa questão recente da Venezuela.
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O que a universidade tem feito sobre isso?
Por
fim, cabe mencionar que, apesar de ainda termos a gigantesca tarefa voltada a
aumentar o conhecimento sobre a América Latina entre nós, brasileiros e
brasileiras, e a contribuir para a construção da nossa identidade
latino-americana, a América Latina tem sido, há muito tempo, objeto de reflexão
e pesquisa na Universidade pública brasileira. Grandes nomes da nossa
intelectualidade, como Celso Furtado, Florestan Fernandes, Milton Santos, Moniz
Bandeira, Lélia Gonzalez, Ruy Mauro Marini, Theotonio dos Santos, Vania
Bambirra, Darcy Ribeiro, Caio Prado Junior e Sergio Buarque de Holanda, entre
tantos outros, contribuíram ao longo de décadas, cada qual a partir de suas
diferentes perspectivas teóricas e metodológicas, com reflexões sobre a região
e sobre os traços que aproximam e distanciam o Brasil de seus vizinhos. E este
é um trabalho que continua na atualidade, no cotidiano profissional de centenas
de latino-americanistas brasileiros espalhados por nossas universidades e
centros de pesquisa.
Programas
de Pós-Graduação voltados à produção de conhecimento sobre a América Latina e à
formação de especialistas em temas sobre o continente desempenham um papel
extremamente relevante de reflexão crítica sobre o tema na Universidade
brasileira. Iniciativas mais recentes, como o Programa de Pós-Graduação em
Integração Contemporânea da América Latina (PPG-ICAL), da Universidade Federal
da Integração Latino-Americana (UNILA), criado em 2014, ou mais antigas, como o
Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina (PROLAM) da
Universidade de São Paulo (USP), fundado em 1988, passando também pelo
Instituto de Estudos Latino-Americanos (IELA) da Universidade Federal de Santa
Catarina (UFSC) e o Departamento de Estudos Latino-Americanos (ELA) da Universidade
de Brasília (UNB), congregam esforços de gerações de docentes, estudantes e
pesquisadores, ao longo de anos, para ampliar o conhecimento sobre esse que é o
lugar do Brasil no mundo, a América Latina. E ganham crescente importância
neste momento de rápidas reconfigurações da geopolítica mundial, no qual a
compreensão sobre as potencialidades e os desafios da América Latina – num
cenário marcado por profundas transformações de natureza política, econômica,
ambiental e tecnológica – é fundamental para a construção de um futuro soberano
e próspero para a região.
Fonte:
Por Wagner Iglecias, no Le Monde

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