O
que o colonialismo tem a ver com o cuidado?
O
primeiro dia de debates do 18º Congresso Paulista de Saúde Pública, que
acontece na USP até a próxima quarta (11), suscitou um tema que tem andado
aquecido: a descolonização – conceito grafado com “S”, mesmo, na programação do
evento. Coube a Deivison Faustino, professor da Faculdade de Saúde Pública
(USP) e autor de livros que debatem a teoria de Frantz Fanon, adentrar o cerne
da questão – e expor a atualidade e urgência de pensar o colonialismo e suas
reverberações na saúde hoje.
O
colonialismo, frisa Deivison, não representa apenas um momento histórico já
superado. Ele continua operando de forma simbólica e ideológica, mas também
objetivamente como “uma forma de exploração e organização do mundo”. Em uma
operação dupla, “enquanto o colonialismo é genocídio, ocupação, violência e
escravização, ele também é a construção de uma ideia de humano em que uma parte
da humanidade aparece como expressão universal dela toda”.
A
questão da humanidade – e a quem ela é historicamente conferida – esteve no
centro de toda a fala de Deivison. Como buscar uma universalidade real, que
abarque as múltiplas determinações?, questiona o professor. Conseguiremos
fazê-lo, ou “estamos tão imersos nesse país, que passou mais tempo na
escravidão do que livre, que também somos parte da reprodução dessas
violências, mesmo quando nos vestimos de crítica?”
“A
rigor”, define o professor, “o colonialismo é parte incontornável do sistema
capitalista. Para Marx, não haveria capitalismo, democracia ou industrialização
sem colonialismo: o saque, genocídio, violência, expropriação de terras e
estupro coletivo foram o que permitiu à
Europa acumular capital para desenvolver-se. O colonialismo permitiu
universalizar o capital, convertendo toda a humanidade em produtora de valor”.
E o que
estas considerações têm a ver com a Saúde Coletiva? Transformações como a
Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), pensa
Deivison, foram pensadas “com e para o SUS, como caminho para a
universalidade”. Mas são compreendidas muitas vezes, inclusive entre os
sanitaristas, como um movimento pela fragmentação. Isso é falso, explica ele, e
reflete justamente esse colonialismo que confere humanidade – e universalidade
– apenas ao homem branco e europeu.
Deivison
faz uma recuperação histórica para explicar o racismo sanitário no Brasil. Por
um lado, a saúde das pessoas escravizadas era pensada em termos veterinários –
uma vez que eram consideradas propriedade de seus senhores. Por outro, foram os
seus saberes e de outros grupos marginalizados (indígenas e populares europeus)
que predominaram no período colonial para o cuidado à saúde de todos.
Quando
a medicina começa a se institucionalizar no país, no começo do século XX,
remonta Deivison, ela vem carregada de eugenia. “Esses saberes passam a ser
perseguidos como charlatanismo, vistos como ameaça, não como possibilidade.
Esses mesmos saberes que produziram cuidado – e ainda produzem em muitos
lugares onde a saúde dita universal e moderna não chega – são marginalizados.”
Deivison
destaca que o movimento negro esteve organizado junto à Reforma Sanitária
Brasileira para a construção do SUS, por perceber que tal luta também
beneficiaria o povo negro. Mas, desde então, “muitas vezes, a discussão sobre
racismo foi vista com desconfiança, quando não barrada, dentro do próprio SUS.
Havia a ideia de que falar de negro, de indígena, de racismo, poderia ameaçar a
noção de universalidade”.
Ainda
hoje, lembra ele, é preciso lutar pelo básico no SUS – como a inserção do
quesito raça/cor nos serviços de saúde, para que se possa compreender as
necessidades específicas dessa população. “Mas o básico implica perguntar qual
o lugar dessas discussões em nossas reflexões sobre saúde”, provoca o
professor.
Deivison
encerra: “Essa é uma oportunidade, mas ela exige assumir como tarefa de todas
as pessoas o enfrentamento a esse modelo colonial. Um modelo que não produziu
só o negro, o indígena, a pessoa em situação de rua como ‘o outro’. Produziu a
nós todos como uma coisa colonial que reproduz violência, muitas vezes a
despeito de nossas vontades e intenções”.
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Colonialismo e direitos humanos
Na
mesma manhã, a conferência de Deivison Faustino foi seguida por quatro mesas de
debate simultâneas, com temas ligados à Descolonização, Cuidado e Poder
Comunitário, eixo do dia. Uma delas foi Direitos Humanos e Saúde: perspectivas
descoloniais, com os debatedores Alexandre Silva (Ministério dos Direitos
Humanos), Juarez Tadeu de Paula Xavier (UNESP Bauru) e Fernando Aith (FSP/USP).
Alexandre
frisou, em toda a sua fala, como os direitos às pessoas idosas são negados,
assim como seu reconhecimento. Ele exibiu alguns mapas que mostravam como o
envelhecimento é desigual: pessoas negras vivem menos e a desigualdade regional
é marcante. Ele questiona o fato de que, no Brasil, pessoas empobrecidas pagam
proporcionalmente mais impostos e contribuem por mais tempo com o INSS – e não
lhes é dado o direito nem a usufruir de fato de sua aposentadoria.
Juarez
deu um passo além: o massacre de jovens negros ainda não é tratado como um
problema central no Brasil. A sociedade não discute de fato alternativas que
levem essa população a ter o direito à vida. O Brasil está repleto de
“microlaboratórios de experiências nazifascistas de extermínio das populações
indesejáveis”.
E
embora o acesso de pessoas negras à universidade esteja se ampliando e haja
diversos estudos buscando compreender a violência policial, falta avançar de
fato. Os indicadores não estão reduzindo, as pesquisas não estão se traduzindo
em diminuição da letalidade. Para Juarez, a banalidade da morte avança no país
de forma assustadora – “e nós convivemos bem com isso!”, indigna-se.
O tema
da universalidade foi trazido novamente à tona por Fernando Aith, que traçou um
histórico da elaboração dos direitos humanos universais, do século 19 em
diante. O professor apresentou as noções de direitos individuais e direitos
sociais, em tensionamento desde então, e concluiu: é preciso buscar um modelo
multicultural de proteção aos direitos humanos – que aprenda também com a
ancestralidade dos povos. Para ele, há um “potencial enorme” na construção
descolonizada de direitos humanos, “que nasça da nossa história de democracia,
dos movimentos sociais, dos mecanismos de participação democrática e do livre
pensar”.
Fonte:
Por Gabriela Leite, Outra Saúde

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