Fernando
Nogueira da Costa: Plano de Reconstrução e Transformação do Brasil
O Plano
de Reconstrução e Transformação do Brasil é um documento publicado em setembro
de 2020 pela Fundação Perseu Abramo, ligada ao Partido dos Trabalhadores (PT).
Coordenado por Guilherme Mello (atual secretário de Política Econômica) e
Aloizio Mercadante (atual presidente do BNDES), o plano foi elaborado como uma
proposta alternativa ao governo de Jair Bolsonaro e serviu como o embrião do
programa de governo de Lula para as eleições de 2022.
O
documento propõe mudanças estruturais na condução da política econômica e no
papel de instituições-chave, sendo os seguintes pontos os mais relevantes para
entender as propostas coordenadas por Mello:
A
primeira seria a ampliação do papel do Banco Central do Brasil (BCB). O plano
defende que sua missão institucional seja expandida. Além da estabilidade
monetária, a autoridade passaria a ter uma preocupação explícita com o nível de
emprego e com o crescimento econômico. O BCB não seria alheio às desigualdades
sociais brasileiras, integrando essas dimensões em sua atuação.
A
segunda seria a mudança no Regime de Metas de Inflação. Uma das sugestões
centrais é o ajuste desse sistema, em vigor desde o início de 1999, propondo a
construção de um novo indicador para orientar a definição da taxa Selic. O
plano sugere dar maior peso ao núcleo da inflação.
Essa
medida estatística calcula a variação de preços excluindo itens voláteis (como
alimentos in natura e combustíveis), não persistentes ou variações extremas,
focando na tendência de longo prazo. Diferentemente do índice cheio (IPCA),
remove choques temporários para identificar a inflação persistente e auxiliar o
Banco Central na definição da taxa de juros. Esse método já é utilizado por
diversos outros países.
A
terceira seria a regulação de capitais e câmbio. O documento prega a adoção de
uma “regulação inteligente” sobre o fluxo de capitais (entradas e saídas) e
sobre posições especulativas no mercado futuro. O diagnóstico do plano é que a
sobrevalorização da moeda nacional (queda da taxa de câmbio), nos últimos 31
anos, contribuiu para a desindustrialização do país, sendo necessário desarmar
essa “armadilha cambial”, expansiva de importações, para retomar o
desenvolvimento sustentado com taxas de crescimento da renda mais elevadas.
A
quarta seria referente ao sistema bancário e ao crédito. O Plano de
Reconstrução também defende uma hipótese, a meu ver, equivocada: o aumento da
concorrência entre bancões reduziria as taxas de juros e as distorções no
mercado de crédito, combatendo a alta concentração bancária. A meu ver, “cinco
bancos têm de ser grandes demais para não quebrarem” – e levarem a rodo o
dinheiro acumulado pela população como reservas financeiras para necessidades
(essenciais), desejos (estilo de vida) e objetivos financeiros (poupança para
evitar dívidas).
As
diretrizes contidas nesse documento-base para o plano financeiro do governo
eleito em 2022 são justamente a base das “visões heterodoxas de Guilherme
Mello”, geradoras de resistência no mercado financeiro em relação à sua
possível indicação para a diretoria do Banco Central. Investidores temem que a
implementação dessas ideias possa significar uma mudança radical na “função de
reação” do Banco Central, afetando a credibilidade da instituição no controle
da inflação.
O
“Plano de Reconstrução e Transformação do Brasil”, coordenado por Guilherme
Mello e Aloizio Mercadante, identifica que o processo de desindustrialização
ocorrido nos últimos 30 anos no país teria sido impulsionado por juros altos e,
principalmente, pela sobrevalorização do câmbio.
Essas
propostas visam, em conjunto, criar um ambiente macroeconômico mais favorável à
produção nacional, combatendo o chamado, pelos formuladores do modelo, de
“paraíso dos rentistas” em detrimento do setor industrial. Entretanto, propõe o
aumento da concorrência no setor bancário como uma das medidas centrais para
retomar o desenvolvimento econômico. O documento diagnostica que a alta
concentração do mercado de crédito no Brasil, quando comparada a países como
Estados Unidos e México, seria um entrave e sustentaria os juros elevados.
Até
2021, os cinco maiores bancos mantinham uma participação superior a 80% no
mercado de crédito. Em 2025, passaram a deter cerca de 58% das operações de
crédito e depósitos totais, devido a fintechs e bancos cooperativos.
Essa
alta concentração não significa baixa competição. Não é por conta dela que o
país tem um dos maiores spreads bancários do mundo e juros de crédito elevados.
O
Brasil ocupa a segunda posição no ranking mundial de juros reais, à frente de
pares dos BRICS e da América Latina. Na verdade, o custo de captação é
decisivo, e a perda por inadimplência, embutida no spread, é um processo de
realimentação, devido à elevada despesa financeira do devedor.
O
mercado de crédito americano é extremamente pulverizado, com milhares de bancos
comunitários e regionais, mas a concentração bancária também é uma
característica marcante no sistema financeiro dos Estados Unidos, bem como no
México e nas nações do BRICS. Em todos os países, um pequeno grupo de
instituições financeiras (geralmente cinco ou menos) detém a maior parte dos
ativos, depósitos e operações de crédito.
No
entanto, a competição pelo mercado de crédito é muito maior, resultando em
spreads de crédito muito menores do que os do Brasil. Os bancos lá fora não têm
o custo de oportunidade em carteira de títulos de dívida pública como aqui,
inclusive pós-fixados, para evitar a fuga de capitais e/ou dolarização.
O
México também possui um sistema bancário altamente concentrado, com poucos
bancos estrangeiros e locais controlando grande parte do crédito, similar ao
cenário brasileiro. No entanto, o sistema financeiro mexicano é mais integrado
ao dos EUA (USMCA: Acordo Estados Unidos-México-Canadá, substituto do NAFTA em
2020), com forma diferente de regulação e custo de capital.
A China
possui um sistema dominado por cinco grandes bancos estatais, que operam com
margens menores e focam no desenvolvimento econômico. Rússia e Índia também
apresentam cenários de alta concentração, mas com estruturas diferentes das do
Brasil e taxas de juros reais inferiores às brasileiras.
O
Brasil se destaca no bloco pelo alto endividamento das famílias em cartões de
crédito e maior sensibilidade a mudanças na Selic.
Para
alcançar esse aumento de competitividade e reduzir o custo do crédito, o plano
defende explicitamente medidas para reduzir o domínio dos grandes bancos,
visando diminuir as “armadilhas” capazes de manter os juros altos por longos
períodos.
O Banco
Central pode utilizar instrumentos para cumprir um papel institucional
ampliado, incluindo a estabilidade econômica e a preocupação com o emprego, por
meio de exigir menor cobertura de capital para a alavancagem financeira dos
bancos. Mas isso não resultará em um sistema bancário menos concentrado.
Embora
o plano seja de 2020, as diretorias técnicas do Banco Central (como a de
Organização do Sistema Financeiro) têm tido papel central em reformas
microeconômicas para garantir maior competição e inovação. A possível indicação
de Mello para uma dessas vagas sinalizaria a intenção do governo de aprofundar
essa agenda sob uma ótica de modo a favorecer o setor produtivo em detrimento
do chamado “paraíso dos rentistas”.
Sem
dúvida, políticas focadas no estímulo ao crédito e, por exemplo, mudanças no
financiamento imobiliário e no modelo brasileiro de cartões de crédito são
bem-vindas para diversificar as opções de crédito tanto para o setor produtivo
quanto para a população. Mas elas não se relacionam com diminuição da
concentração bancária. Afinal, os clientes depositantes ou investidores,
certamente, escolhem bancos grandes demais para o Banco Central não os deixar
falir, por conta do risco sistêmico.
Curiosamente,
essa visão desinformada a respeito de competição bancária é um ponto de
convergência com o outro nome indicado por Haddad, Tiago Cavalcanti. Ele também
defende “a promoção da concorrência bancária e o funcionamento eficiente dos
mercados para enfrentar a alta concentração de crédito no país”.
Infelizmente,
ambos se equivocam, pois o problema é o custo de captação referenciado à Selic,
e o spread de crédito contém o repasse das elevadas perdas com inadimplência e
os custos fiscais. A taxação e/ou a tributação dos bancos, administradores de
recursos de terceiros, é repassada aos clientes devedores...
¨
Reindustrialização e correlação de forças. Por José
Álvaro de Lima Cardoso
Embora
os dados definitivos de 2025 ainda dependam da consolidação anual do IBGE,
segundo os dados disponíveis a indústria de transformação encerrou o ano
mantendo uma participação próxima aos 10,8% do PIB, refletindo um cenário de
estagnação, apesar dos esforços do governo de reindustrialização. O esforço
pela retomada da indústria no Brasil não é ação trivial que possa ser feita sem
um grande esforço nacional.
Como
qualquer grande problema do país, a reindustrialização requer uma forte
mobilização da sociedade, pois depende de correlação de forças. Os países
centrais não querem indústria forte na periferia do sistema. Para esses países,
as nações atrasadas devem se concentrar em enviar matérias-primas e commodities
para o centro industrial imperialista. Essa dificuldade fica ainda mais nítida
em períodos de grave crise internacional, como o atual.
Os
problemas econômicos atuais do Brasil não são meros obstáculos no ciclo de
crescimento, de redução "normal" da atividade econômica. Na
realidade, o país enfrenta uma crise estrutural, somada a uma verdadeira guerra
econômica, que se origina dos países imperialistas. É uma política deliberada
de liquidação das economias de alguns países, visando inclusive reduzir parte
das forças produtivas e o "excesso" de mercadorias ao nível
internacional. Excesso, aqui temos que entender bem, em relação àquilo que as pessoas
podem comprar, que é o que interessa ao funcionamento da engrenagem
capitalista.
É o
conhecido problema de sobreprodução de mercadorias, que é relativa, decorrente
do fato de que uma parte da produção não é absorvida porque a população não tem
dinheiro para comprar. Tal política de guerra não é exclusivamente contra o
Brasil, mas sim contra todos os países atrasados com aspirações de
desenvolvimento e soberania nacional. Sempre houve tal política, mas ela foi
muito intensificada em função da atual crise econômica internacional, que se
agravou muito.
Neste
momento de grande crise e de disputa acirrada por mercados mundiais, os EUA
estão declarando que não aceitam políticas nacionalistas, especialmente quando
desenvolvidas em aliança com seus principais inimigos no mundo, China e Rússia.
Sempre foi assim: imperialismo é um jogo de força, mesmo. A tresloucada
política de "tarifaço" de Donald Trump vai, inclusive, na contramão
dessa política imperialista, de obrigar os países a abrirem suas economias. O
estabelecimento de elevadas tarifas de importação por parte dos EUA, na gestão
Trump, justifica a reciprocidade por parte dos demais países, o que vai contra
o interesse dos grandes grupos econômicos dos EUA, que sempre ganharam muito
dinheiro com a globalização e a abertura dos mercados nacionais.
Nos
países desenvolvidos, que em alguns casos também se desindustrializaram, a
indústria nacional já cumpriu o seu papel no desenvolvimento econômico,
colocando a renda per capita da população em patamar mais elevado. Além disso,
os países imperialistas praticam política industrial que procura tirar
vantagens de todas as situações econômicas possíveis, pelo bem ou pelo mal. Ao
se desindustrializar, o Brasil está perdendo, gradativamente, a sua maior
conquista econômica no Século XX. Entre 1930 e 1980, a economia brasileira
cresceu a elevadas taxas (6,8%, entre 1932-1980) baseado no processo conhecido
como substituição de importações, com fortes incentivos estatais à
industrialização através das políticas cambial, tarifária e fiscal.
Não há
desenvolvimento da indústria sem políticas públicas articuladas. O setor
privado tem que ser induzido a investir, especialmente na fase atual de
financeirização, na qual predominam os investimentos financeiros em detrimento
da produção. Nessa etapa, as estratégias empresariais passam a privilegiar
resultados financeiros de curto prazo, em vez de investir no longo prazo ou em
inovação produtiva. Todas as decisões das corporações acabam se subordinando à
lógica financeira.
Com
base em estudo da UNIDO (Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento
Industrial), o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI)
elaborou o ranking dos maiores parques manufatureiros do mundo, com destaque
para a posição do Brasil. Segundo a análise, a participação brasileira no valor
adicionado da indústria manufatureira global declinou novamente, embora em
ritmo inferior ao de anos anteriores. Segundo o estudo, que vai até 2023, o
Brasil seguiu declinando no sistema industrial mundial, especialmente em função
de um desempenho inferior dos ramos de maior intensidade tecnológica.
O país
está na 15ª posição do ranking mundial da indústria manufatureira, construído a
partir do valor adicionado do setor em dólares a preços constantes de 2015. A
participação do Brasil no valor adicionado manufatureiro mundial foi de 1,21%
em 2023, muito restrito, considerando que se trata da 10ª maior economia do
mundo. O país é a 10ª economia do mundo, mas com um percentual ridículo de
participação industrial.
O
ranking em valor adicionado, em 2023, era:
China:
com 31,8% da manufatura mundial;
EUA,
com 15,1%;
Japão,
6,6% do total.
A
análise da distribuição do valor adicionado entre as principais economias do
mundo pode explicar, em boa parte, a escalada de hostilidades dos EUA em
relação à China (já antes de Trump, claro): a participação do gigante asiático
em 2023, em valor adicionado, era maior que a soma das 4 potências industriais
seguintes (EUA, Japão, Alemanha e Índia), que juntos responderam por 29,5% do
valor adicionado da indústria no mundo. Há pouco mais de vinte anos, em 2005,
nesse ranking a China aparecia com 13,2%, em 2º lugar, e os EUA, 1º no ranking,
participavam com 22,6% no total.
Enquanto
a China escalou no ranking, entre 2005 e 2023, o Brasil caiu da 10ª para a 11ª
posição, e saiu de uma participação de 2,2% do total de valor adicionado
produzido no mundo para 1,55%. Segundo o estudo, consideradas as vinte maiores
manufaturas do mundo, o Brasil aparece como um dos países que mais desceram no
ranking, recuando 5 posições entre 2005 e 2023, desempenho melhor somente que
Espanha e Canadá, que recuaram 7 posições.
Quando
cai o peso da indústria em relação ao PIB porque as famílias estão consumindo
mais serviços, essa pode ser considerada uma trajetória natural. Mas no Brasil
ocorreu uma desindustrialização prematura. A indústria começou a perder peso na
estrutura produtiva antes da renda da população subir. Nos últimos anos,
inclusive, a redução do peso da indústria no PIB ocorreu simultaneamente à
queda da renda per capita, o que trouxe muitas consequências negativas para o
país, a começar pelo maior impacto sobre a população mais pobre e a maior
concentração de renda. Muitos empregos da indústria, por exemplo, migraram para
o setor de serviços, que tem menor remuneração média e maior informalidade.
O
desenvolvimento dos países imperialistas e dos países atrasados é, como se
sabe, desigual e combinado. Combinado aqui no sentido de que o desenvolvimento
dos primeiros está relacionado ao atraso dos segundos. Isso significa que, para
reindustrializar o país e melhorar a renda da população, é fundamental
enfrentar a atual divisão internacional do trabalho, dominada pelos países
ricos.
Por
essa razão, a implementação de políticas que revertam a redução da indústria no
PIB nacional está intimamente ligada ao debate sobre soberania nacional. O
problema é fundamentalmente político: se o país tivesse uma política econômica
soberana, com projeto nacional de desenvolvimento, teria aqui muitas empresas
de primeira linha, com capacidade de disputar mercados mundiais. A conquista de
um projeto soberano de desenvolvimento depende do rompimento com a dependência
externa. Essa transição, entretanto, é dificultada por condicionantes
econômicos e políticos de grande complexidade.
Fonte:
Brasil 247

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