Quase
7 em cada 10 pacientes com câncer desconhecem direitos durante tratamento,
aponta pesquisa
Muitos
pacientes com câncer enfrentam a doença sem saber que têm direitos garantidos
por lei. A pesquisa “Direitos do Paciente com Câncer: Conhecimento e acesso na
prática”, divulgada pela Associação Brasileira de Defesa do Paciente com Câncer
(Oncoguia), revelou que 68% não conhecem nenhuma das principais leis que
asseguram direitos durante o tratamento. A pesquisa reuniu 1.559 respostas
válidas de pacientes e familiares em 25 estados do país.
A Lei
dos 30 dias, por exemplo, garante a realização da biópsia em até 30 dias no SUS
e a Lei dos 60 dias determina que o tratamento comece até 60 dias após o
diagnóstico.
Há
ainda o direito a sacar o Fundo de Garantia (FGTS) e o PIS/PASEP, além da
isenção do Imposto de Renda, caso o paciente receba aposentadoria ou pensão e
até isenção de IPI e ICMS na compra de carro, caso a doença provoque algum tipo
de deficiência.
Além da
falta de informação, a burocracia e as barreiras administrativas aparecem na
pesquisa como obstáculos importantes para quem já enfrenta as dificuldades do
tratamento.
Nesta
quarta-feira (4) o um relatório divulgado pelo Instituto Nacional de Câncer
(INCA) apontou que o Brasil deve registrar cerca de 781 mil novos casos de
câncer por ano entre 2026 e 2028. O avanço consolida o câncer como uma das
principais causas de adoecimento e morte no país, com impacto cada vez mais
próximo ao das doenças cardiovasculares.
<><>
Desinformação sobre direitos
Quase
metade dos participantes (48%) afirmou saber que pacientes com câncer têm
direitos garantidos por lei, enquanto 46% disseram já ter ouvido falar, mas sem
conhecer bem, e 7% desconheciam totalmente a informação.
A
fundadora e presidente do Instituto Oncoguia, Luciana Holtz, afirmou ao podcast
do Bem-Estar que o problema aparece quando o tema é aprofundado.
Segundo
ela, muitas pessoas acreditam conhecer seus direitos, mas demonstram surpresa
ao serem apresentadas às leis e políticas que podem impactar diretamente o
tratamento e a vida financeira durante o câncer.
Entre
aqueles que conheciam alguma legislação específica, a mais citada foi a Lei dos
60 dias (37%), seguida pela Lei dos 30 dias (31%), Estatuto do Paciente com
Câncer (21%) e Lei da quimioterapia oral e rol da ANS (11%).
Segundo
Holtz, dados do painel da oncologia indicam que duas em cada cinco pessoas têm
a Lei dos 60 dias descumprida. A dirigente afirma que a falta de infraestrutura
e a sobrecarga dos serviços contribuem para atrasos, filas pouco transparentes
e início tardio do tratamento.
Ela
destaca ainda que, no Brasil, cerca de 65% dos diagnósticos ocorrem em estágios
avançados ou metastáticos, o que reduz as chances de prognóstico positivo e
reforça a importância do diagnóstico precoce.
<><>
Direitos financeiros são os mais conhecidos
Os
benefícios mais lembrados foram aqueles que têm impacto direto na renda, como
saque do FGTS e PIS (75%).
Outros
direitos tiveram pouca lembrança, como isenção de imposto de renda (14%),
transporte público gratuito (5%), tratamento gratuito pelo SUS (4%) e
prioridade em atendimento e filas (2%).
Alguns
direitos não foram citados por nenhum participante, incluindo reconstrução
mamária, acesso a bolsas coletoras para ostomia e compra de veículos com
desconto.
Holtz
destaca que existe um bloco de direitos menos conhecidos, mais diretamente
ligado ao desfecho clínico, como o acesso a procedimentos, cirurgias e etapas
essenciais do tratamento.
<><>
Perfil dos participantes
Entre
os participantes do estudo, 80% eram pacientes e 20% familiares. A maioria
estava em tratamento (49%) ou em acompanhamento após o tratamento (42%).
As
respostas foram colhidas em 25 unidades da federação, com maior participação de
São Paulo (46%), Rio de Janeiro (13%) e Minas Gerais (8%).
A maior
parte tinha mais de 50 anos (58%), seguida por pessoas entre 35 e 50 anos (37%)
e menos de 35 anos (5%).
Quanto
ao acesso à saúde, 45,67% utilizavam o SUS, 43,23% tinham plano de saúde, 8,92%
atendimento misto e 2,18% atendimento particular.
<><>
Dificuldade de acesso e desistência
Entre
os participantes, 63% disseram já ter tentado buscar direitos na prática; 25%
afirmaram que querem buscar, mas ainda não o fizeram, e 12% nunca tentaram.
Os
direitos mais buscados foram FGTS e PIS/Pasep (26%), benefícios do INSS (19%),
isenção de imposto de renda (16%), isenções veiculares (14%), transporte (9%) e
tratamento com medicamentos ou cirurgias (5%).
Entre
quem tentou acessar benefícios, 44% não conseguiram obter algum ou todos os
direitos.
Dos que
conseguiram, 55% tiveram acesso apenas parcial, 25% desistiram e 21% seguem
tentando por vias administrativas ou judiciais.
Segundo
Holtz, muitos pacientes enfrentam processos burocráticos longos, negativas de
planos e atrasos em perícias e aprovações, o que gera cansaço e faz parte deles
desistir durante o tratamento.
<><>
“Luta constante” para garantir direitos
O
sentimento predominante entre os participantes foi o de luta constante —
percepção relatada por 82% dos que tentaram acessar benefícios.
Esse
cenário foi mais intenso entre pacientes do SUS (85%), mas também comum entre
usuários de planos de saúde (79%).
A
maioria contou com apoio de familiares (52%), advogados (27%) e assistentes
sociais (20%). Cerca de 6% disseram não ter recebido ajuda de ninguém.
<><>
Burocracia, demora e falta de informação
As
principais barreiras relatadas foram burocracia e exigência de documentos
(42%), falta de informação clara (36%), desconhecimento dos próprios direitos
(34%) e demora nas respostas (29%).
Também
aparecem dificuldades com canais digitais, custos de deslocamento para perícias
e negativas de planos de saúde.
Para os
entrevistados, menos burocracia (72%), informação simples (70%), processos mais
rápidos (65%) e apoio profissional (54%) ajudariam a melhorar o acesso.
<><>
SUS e planos enfrentam problemas semelhantes
A
pesquisa mostra que as dificuldades de acesso aos direitos aparecem tanto entre
usuários do SUS quanto entre pacientes com planos de saúde.
Segundo
Holtz, o levantamento revela um sistema ainda marcado por burocracia e
obstáculos administrativos em diferentes níveis de atendimento.
Fonte:
g1

Nenhum comentário:
Postar um comentário