segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O Rio de Janeiro e a batalha de 2026

É difícil acreditar, mas o Rio de Janeiro já foi o estado mais lulista do país. Para quem olha os resultados das duas últimas eleições presidenciais, a afirmação soa inverossímil. No entanto, os números do segundo turno de 2002 não deixam dúvidas.

Naquela eleição, Lula obteve 78,97% dos votos válidos no estado contra apenas 21,03% de José Serra — uma vantagem extraordinária de quase 58 pontos percentuais. O Rio superou até mesmo os redutos tradicionais da esquerda no Nordeste: o Ceará deu a Lula 71,78%, a Bahia 65,69%, o Amapá 75,51%. Nenhum chegou perto dos quase 80% que o Rio concedeu ao petista. Foi o pior ano para a direita brasileira em toda a história. O único estado onde Serra venceu foi Alagoas.

Os votos de Lula no Rio representavam então 7,33% de todos os votos que o candidato recebeu no Brasil. Era uma contribuição significativa para a vitória nacional. A direita, ao contrário, colhia no estado apenas 5,04% de seus votos.

A situação foi mudando ao longo de duas décadas. Em 2006, Lula ainda venceu no Rio com 69,69% dos votos contra 30,31% de Geraldo Alckmin. Em 2010, Dilma Rousseff obteve 60,48% contra 39,52% de José Serra. Em 2014, Dilma venceu, mas com vantagem bem menor: 54,92% contra 45,08% de Aécio Neves. A inflexão veio em 2018, quando Jair Bolsonaro obteve 67,95% dos votos no estado contra apenas 32,05% de Fernando Haddad.

Em 2022, mesmo com a derrota nacional, Jair Bolsonaro manteve vantagem no Rio, com 56,53% contra 43,47% de Lula. Ainda assim, houve melhora significativa em relação a 2018, sobretudo na capital, que concentra aproximadamente 38% do eleitorado estadual.

Na cidade do Rio de Janeiro, Haddad havia perdido por 36 pontos em 2018. Em 2022, Lula reduziu essa diferença para apenas 5 pontos no município.

Com o tsunami reacionário ainda devastando boa parte das democracias ocidentais, as eleições no Brasil, a quarta maior democracia do planeta, serão acompanhadas com ansiedade por toda parte. Uma volta da extrema direita ao Planalto representaria a ascensão de um grupo alinhado com uma Casa Branca hoje dominada por oligarcas que desprezam as leis internacionais, a cooperação entre nações, a preservação do meio ambiente e até mesmo o livre comércio. Os setores sociais do Rio de Janeiro que defendem uma frente ampla democrática para evitar o risco de um retrocesso nacional com graves implicações geopolíticas devem se perguntar como o estado pode ajudar a evitar isso.

Todos os aspectos desse pleito devem ser examinados com cuidado. Já é possível prever uma vitória de Lula no Nordeste e no Norte, enquanto no Centro-Oeste e no Sul os resultados devem ser ruins para a esquerda. No Sudeste, a situação é mais equilibrada. Neste artigo, examinamos o caso específico do Rio de Janeiro, cujo comportamento eleitoral parece mais aberto a mudanças do que o de outros estados.

O Rio de Janeiro possui aproximadamente 13 milhões de eleitores, o terceiro maior colégio eleitoral do país, atrás de São Paulo e Minas Gerais. A cidade do Rio, com cerca de 5 milhões de eleitores, é o segundo maior colégio eleitoral municipal do Brasil.

Uma pesquisa do Real Time Big Data, realizada em dezembro de 2025, traz um recorte específico para o estado. Lula aparece com 27% das intenções de voto, seguido por Flávio Bolsonaro com 25%, Ratinho Jr. com 8%, Romeu Zema com 5% e Ronaldo Caiado com 2%.

A definição de Flávio Bolsonaro como candidato à presidência da República pelo PL coloca o estado no centro da disputa de 2026. Diferente de Tarcísio de Freitas, que é carioca de nascimento mas constrói sua trajetória política como governador de São Paulo, Flávio fez carreira no Rio. Foi deputado estadual de 2003 a 2018, cumprindo quatro mandatos na Alerj, e é senador pelo estado desde 2019.

Seu pai, Jair Bolsonaro, foi deputado federal pelo Rio de Janeiro de 1991 a 2018, enquanto seu irmão Carlos Bolsonaro foi vereador na cidade do Rio de 2001 a 2025, quando renunciou para disputar o Senado por Santa Catarina. Antes dos problemas com a Justiça, a residência oficial da família Bolsonaro era no condomínio Vivendas da Barra, na Barra da Tijuca.

A história política do Rio de Janeiro pós-redemocratização começa com grande força da esquerda, refletida tanto nas votações de Lula no estado como na vitória de governadores progressistas, a começar por Leonel Brizola, símbolo da esquerda trabalhista, que governou o estado duas vezes, em 1983-1987 e 1991-1994. Moreira Franco venceu em 1986 após uma campanha agressiva da Rede Globo contra Brizola. Anthony Garotinho e Rosinha Matheus elegeram-se com plataformas de esquerda em 1998 e 2002, mas depois traíram seus ideais. Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão governaram de 2007 a 2018, representando um centro pragmático que se revelaria fisiológico e corrupto. Wilson Witzel e Cláudio Castro marcaram a guinada à direita no Palácio Guanabara.

Para 2026, as pesquisas apontam o prefeito Eduardo Paes como favorito ao governo do estado, com 58% das intenções de voto. Por mais que Paes tenha um histórico liberal e seu governo faça acenos à direita, a dinâmica da política fluminense o coloca como adversário do bolsonarismo. Seu apoio a Lula em 2022 e a presença de secretários progressistas em posições estratégicas revelam um perfil complexo. Diego Zeidan (filho de Quaquá) foi secretário de Habitação; Adilson Pires, do PT, ocupa o cargo atualmente; Tatiana Roque, do PSB, comanda Ciência e Tecnologia; Elias Jabour, do PCdoB, preside o Instituto Pereira Passos. A indicação de quadros progressistas para cargos estratégicos revela um perfil que não pode ser classificado como direita clássica. Paes é um representante do centro com alianças importantes à esquerda e algumas à direita.

A escolha de Flávio Bolsonaro como principal candidato da direita na eleição presidencial deve polarizar o debate político no estado do Rio de Janeiro, tanto na campanha estadual como na campanha presidencial. Essa polarização tende a coesionar a campanha de Eduardo Paes para governador com a campanha do presidente Lula, fazendo com que a linguagem e o discurso de ambas convirjam naturalmente.

Marcelo Freixo deve ser candidato a deputado federal pelo PT em 2026. Além de ser um bom puxador de votos, Freixo tem boa relação com Eduardo Paes e pode desempenhar papel estratégico na construção de uma aliança entre o bloco político do prefeito e o presidente Lula. Outros nomes que devem ajudar a costurar essa aliança são Washington Quaquá, prefeito de Maricá, e Rodrigo Neves, prefeito de Niterói. Ambos também têm boas relações com Paes e podem contribuir para articular as campanhas estadual e nacional.

A disputa pelo Senado ainda está em aberto. Cláudio Castro deve disputar uma vaga. Pela esquerda, Benedita da Silva é o nome mais provável pelo PT. A posição de Eduardo Paes será decisiva para definir o candidato da chapa.

Para entender a mudança no comportamento eleitoral fluminense, é preciso olhar para as diferentes regiões do estado. A Baixada Fluminense é o exemplo mais dramático. No segundo turno de 2002, a região deu a Lula quase 85% dos votos válidos. Em 2004, Lindbergh Farias foi eleito prefeito de Nova Iguaçu e reeleito em 2008. Duas décadas depois, a Baixada se tornou terreno adverso: na última eleição presidencial, Bolsonaro obteve mais de 60% na região. Nova Iguaçu deu 63% à direita. Duque de Caxias votou 58% em Bolsonaro.

A deterioração do voto progressista na Baixada pode ser explicada pela crise de segurança pública. A região registrou taxas de letalidade violenta superiores a 70 homicídios por 100 mil habitantes no início dos anos 2000. Embora os números tenham caído significativamente — o estado registrou em 2024 o menor número de mortes desde 1991, com 3.809 vítimas, uma redução de 53% em relação a 2002, a percepção de insegurança persiste. Crimes como roubo de celular mantêm a sensação de insegurança elevada. A questão da segurança pública será central no debate de 2026.

No Leste Metropolitano, Niterói foi a única grande cidade onde Lula venceu no segundo turno de 2022, com 51,21%. Maricá ficou praticamente empatada. São Gonçalo deu 55% à direita. Na Região Serrana, Nova Friburgo foi de 69% para Lula em 2002 para 59% para Bolsonaro na última eleição presidencial. Teresópolis votou 68% na direita em 2022. Petrópolis deu 62% a Bolsonaro. Cabo Frio votou 67% na direita.

A capital fluminense ilustra bem a trajetória do eleitorado. No segundo turno de 2002, Lula obteve 81% dos votos na cidade. Em 2018, Haddad obteve apenas 32%. Em 2022, Lula alcançou 47,34%. Se esse movimento continuar, Lula pode vencer na capital em 2026. No Norte Fluminense, Campos foi de 75% para Lula em 2002 para 63% para Bolsonaro em 2022. No Sul, Angra dos Reis foi de 58% para Lula e para 67% para Bolsonaro.

Segundo pesquisa Quaest de dezembro de 2025, a base do governo Lula na Câmara dos Deputados conta com 164 parlamentares (32%). Os independentes somam 144 deputados (28%). A oposição reúne 180 parlamentares (35%).

A bancada de deputados federais do Rio é muito parecida com a divisão que se vê no próprio Congresso Nacional, entre governistas, independentes e oposição. Dos 46 deputados, cerca de 15 integram a base do governo (33% da bancada). Entre os mais votados em 2022 estão Talíria Petrone (PSOL), com 198.548 votos, Tarcísio Motta (PSOL), com 159.928 votos, e Lindbergh Farias (PT), com 152.219 votos. A oposição bolsonarista conta com cerca de 12 deputados, liderados por General Pazuello (PL), que obteve 205.324 votos. O centro tem como destaque Daniela do Waguinho (União), a mais votada do estado com 213.706 votos. Daniela foi ministra do Turismo no início do governo Lula e atualmente é vice-líder do governo no Congresso.

A eleição de Eduardo Paes ao governo do estado pode mudar esse cenário. Um candidato competitivo e próximo de Lula no topo da chapa estadual tende a puxar votos para candidatos a deputado federal da base governista. Se a tendência verificada entre 2018 e 2022 se mantiver, o Rio de Janeiro pode oferecer uma bancada mais robusta para o eventual quarto mandato do presidente Lula, contribuindo de forma mais significativa para a governabilidade do próximo governo.

<><> O Rio precisa debater mais seu próprio futuro

Na última segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026, eu estive no IFICS, o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, ali no Largo de São Francisco. A região é bonita, mas decadente, como grande parte do centro histórico do Rio de Janeiro.

Na frente dos portões do instituto tem uma comunidade de mendigos. A universidade fornece água, dá acesso ao banheiro e talvez até apoie com algum alimento. Eu fico dividido. Existe um lado humano, imediato, de não virar as costas. Mas também acho que, desse jeito, isso prejudica a universidade e não resolve o problema das próprias pessoas. A população mais pobre precisa de uma universidade limpa, funcional, com boa imagem, que imponha respeito e ofereça perspectiva. E eu sinceramente não sei se manter a cena permanente de abandono na porta do instituto ajuda alguém.

O prédio do IFICS é bonito, mas a estrutura é precária. E tem um detalhe que me incomoda muito: não tem nenhuma lanchonete dentro do prédio. Não dá nem para comprar uma água, nem um café.

E em período de férias o lugar fica meio abandonado, vazio. Eu sempre acho que seria interessante que, mesmo nas férias, o instituto fosse ocupado de alguma maneira, com atividades, cursos, qualquer coisa que mantivesse vivo aquele espaço público.

Eu fui para um evento organizado pelo Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (Lappcom-UFRJ), sob coordenação geral da Mayra Goulart, para apresentar o Guia Lappcom – Eleições gerais 2026, volume 1: A estrutura da disputa e as clivagens territoriais. O volume compila resultados iniciais do monitoramento realizado ao longo de 2025 e 2026 pelo Grupo de Trabalho de Política Local do laboratório e reúne textos de alguns participantes da mesa, inclusive um artigo meu.

Participaram da mesa o economista Mauro Osório (UFRJ), o cientista político Theófilo Rodrigues, o Paulo Baía, sociólogo da UFRJ, o Henrique Silveira, subsecretário de tecnologia social da cidade do Rio, o jornalista Leandro Rezende, da CBN, e o cientista político Carlos Serrano.

Antes do evento começar, o grupo de debatedores aguardou um pouco dentro da sala do professor Michel Gherman, professor de sociologia da UFRJ, e a gente conversou ali dentro. O Michel é autor de um livro muito interessante, O não judeu judeu: A tentativa de colonização do judaísmo pelo bolsonarismo, em que ele mostra as artimanhas da extrema direita para capturar identidades e tentar reescrever tradições a seu favor.

Na minha intervenção, eu falei do incômodo de ver o Rio preso num atraso político e social que já dura décadas. Lembrei que o estado concentra quase 90% da produção nacional de petróleo e tem o segundo maior PIB do país, mas ainda assim convive com desigualdade brutal e uma classe política que, ao longo de décadas, foi se tornando predatória, com hábitos mafiosos.

E eu toquei num ponto que, para mim, é um dos principais: a falta de atenção que os próprios eleitores fluminenses e cariocas dão às lutas políticas dentro do estado do Rio de Janeiro. A gente discute muito o país, discute Brasília, discute o barulho nacional, mas não olha com a mesma seriedade para o Rio como projeto.

Nesse ponto eu fiz a comparação com o Ceará, um estado que eu acompanho muito. Eu considero que lá existe um ecossistema de comunicação e discussão política muito mais sofisticado. Tem podcasts especializados em política cearense, tanto no jornalismo corporativo quanto nos meios independentes. As pessoas discutem o Ceará. Existe uma conversa pública mais permanente sobre o estado, seus rumos e seus conflitos.

Aqui no Rio, muitas vezes, a gente vive esse vazio. E, se a gente quiser mudar o estado de coisas, a cidadania fluminense vai precisar se organizar melhor e, sobretudo, criar mais espaços de discussão.

Com a possível eleição de Eduardo Paes, abre-se uma janela de oportunidade para o Rio iniciar uma nova fase, com um projeto verdadeiro de desenvolvimento e uma cidadania mais engajada. Mas eu disse no evento que não adianta o eleitor se conformar apenas em votar em Eduardo Paes e derrotar o bolsonarismo no estado do Rio. É preciso participar, oferecer propostas, se organizar, fazer pressão por ideias e por rumo.

 

Fonte: Por Miguel do Rosário, em O Cafezinho

 

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