O
Rio de Janeiro e a batalha de 2026
É
difícil acreditar, mas o Rio de Janeiro já foi o estado mais lulista do país.
Para quem olha os resultados das duas últimas eleições presidenciais, a
afirmação soa inverossímil. No entanto, os números do segundo turno de 2002 não
deixam dúvidas.
Naquela
eleição, Lula obteve 78,97% dos votos válidos no estado contra apenas 21,03% de
José Serra — uma vantagem extraordinária de quase 58 pontos percentuais. O Rio
superou até mesmo os redutos tradicionais da esquerda no Nordeste: o Ceará deu
a Lula 71,78%, a Bahia 65,69%, o Amapá 75,51%. Nenhum chegou perto dos quase
80% que o Rio concedeu ao petista. Foi o pior ano para a direita brasileira em
toda a história. O único estado onde Serra venceu foi Alagoas.
Os
votos de Lula no Rio representavam então 7,33% de todos os votos que o
candidato recebeu no Brasil. Era uma contribuição significativa para a vitória
nacional. A direita, ao contrário, colhia no estado apenas 5,04% de seus votos.
A
situação foi mudando ao longo de duas décadas. Em 2006, Lula ainda venceu no
Rio com 69,69% dos votos contra 30,31% de Geraldo Alckmin. Em 2010, Dilma
Rousseff obteve 60,48% contra 39,52% de José Serra. Em 2014, Dilma venceu, mas
com vantagem bem menor: 54,92% contra 45,08% de Aécio Neves. A inflexão veio em
2018, quando Jair Bolsonaro obteve 67,95% dos votos no estado contra apenas
32,05% de Fernando Haddad.
Em
2022, mesmo com a derrota nacional, Jair Bolsonaro manteve vantagem no Rio, com
56,53% contra 43,47% de Lula. Ainda assim, houve melhora significativa em
relação a 2018, sobretudo na capital, que concentra aproximadamente 38% do
eleitorado estadual.
Na
cidade do Rio de Janeiro, Haddad havia perdido por 36 pontos em 2018. Em 2022,
Lula reduziu essa diferença para apenas 5 pontos no município.
Com o
tsunami reacionário ainda devastando boa parte das democracias ocidentais, as
eleições no Brasil, a quarta maior democracia do planeta, serão acompanhadas
com ansiedade por toda parte. Uma volta da extrema direita ao Planalto
representaria a ascensão de um grupo alinhado com uma Casa Branca hoje dominada
por oligarcas que desprezam as leis internacionais, a cooperação entre nações,
a preservação do meio ambiente e até mesmo o livre comércio. Os setores sociais
do Rio de Janeiro que defendem uma frente ampla democrática para evitar o risco
de um retrocesso nacional com graves implicações geopolíticas devem se
perguntar como o estado pode ajudar a evitar isso.
Todos
os aspectos desse pleito devem ser examinados com cuidado. Já é possível prever
uma vitória de Lula no Nordeste e no Norte, enquanto no Centro-Oeste e no Sul
os resultados devem ser ruins para a esquerda. No Sudeste, a situação é mais
equilibrada. Neste artigo, examinamos o caso específico do Rio de Janeiro, cujo
comportamento eleitoral parece mais aberto a mudanças do que o de outros
estados.
O Rio
de Janeiro possui aproximadamente 13 milhões de eleitores, o terceiro maior
colégio eleitoral do país, atrás de São Paulo e Minas Gerais. A cidade do Rio,
com cerca de 5 milhões de eleitores, é o segundo maior colégio eleitoral
municipal do Brasil.
Uma
pesquisa do Real Time Big Data, realizada em dezembro de 2025, traz um recorte
específico para o estado. Lula aparece com 27% das intenções de voto, seguido
por Flávio Bolsonaro com 25%, Ratinho Jr. com 8%, Romeu Zema com 5% e Ronaldo
Caiado com 2%.
A
definição de Flávio Bolsonaro como candidato à presidência da República pelo PL
coloca o estado no centro da disputa de 2026. Diferente de Tarcísio de Freitas,
que é carioca de nascimento mas constrói sua trajetória política como
governador de São Paulo, Flávio fez carreira no Rio. Foi deputado estadual de
2003 a 2018, cumprindo quatro mandatos na Alerj, e é senador pelo estado desde
2019.
Seu
pai, Jair Bolsonaro, foi deputado federal pelo Rio de Janeiro de 1991 a 2018,
enquanto seu irmão Carlos Bolsonaro foi vereador na cidade do Rio de 2001 a
2025, quando renunciou para disputar o Senado por Santa Catarina. Antes dos
problemas com a Justiça, a residência oficial da família Bolsonaro era no
condomínio Vivendas da Barra, na Barra da Tijuca.
A
história política do Rio de Janeiro pós-redemocratização começa com grande
força da esquerda, refletida tanto nas votações de Lula no estado como na
vitória de governadores progressistas, a começar por Leonel Brizola, símbolo da
esquerda trabalhista, que governou o estado duas vezes, em 1983-1987 e
1991-1994. Moreira Franco venceu em 1986 após uma campanha agressiva da Rede
Globo contra Brizola. Anthony Garotinho e Rosinha Matheus elegeram-se com
plataformas de esquerda em 1998 e 2002, mas depois traíram seus ideais. Sérgio
Cabral e Luiz Fernando Pezão governaram de 2007 a 2018, representando um centro
pragmático que se revelaria fisiológico e corrupto. Wilson Witzel e Cláudio
Castro marcaram a guinada à direita no Palácio Guanabara.
Para
2026, as pesquisas apontam o prefeito Eduardo Paes como favorito ao governo do
estado, com 58% das intenções de voto. Por mais que Paes tenha um histórico
liberal e seu governo faça acenos à direita, a dinâmica da política fluminense
o coloca como adversário do bolsonarismo. Seu apoio a Lula em 2022 e a presença
de secretários progressistas em posições estratégicas revelam um perfil
complexo. Diego Zeidan (filho de Quaquá) foi secretário de Habitação; Adilson
Pires, do PT, ocupa o cargo atualmente; Tatiana Roque, do PSB, comanda Ciência
e Tecnologia; Elias Jabour, do PCdoB, preside o Instituto Pereira Passos. A
indicação de quadros progressistas para cargos estratégicos revela um perfil
que não pode ser classificado como direita clássica. Paes é um representante do
centro com alianças importantes à esquerda e algumas à direita.
A
escolha de Flávio Bolsonaro como principal candidato da direita na eleição
presidencial deve polarizar o debate político no estado do Rio de Janeiro,
tanto na campanha estadual como na campanha presidencial. Essa polarização
tende a coesionar a campanha de Eduardo Paes para governador com a campanha do
presidente Lula, fazendo com que a linguagem e o discurso de ambas convirjam
naturalmente.
Marcelo
Freixo deve ser candidato a deputado federal pelo PT em 2026. Além de ser um
bom puxador de votos, Freixo tem boa relação com Eduardo Paes e pode
desempenhar papel estratégico na construção de uma aliança entre o bloco
político do prefeito e o presidente Lula. Outros nomes que devem ajudar a
costurar essa aliança são Washington Quaquá, prefeito de Maricá, e Rodrigo
Neves, prefeito de Niterói. Ambos também têm boas relações com Paes e podem
contribuir para articular as campanhas estadual e nacional.
A
disputa pelo Senado ainda está em aberto. Cláudio Castro deve disputar uma
vaga. Pela esquerda, Benedita da Silva é o nome mais provável pelo PT. A
posição de Eduardo Paes será decisiva para definir o candidato da chapa.
Para
entender a mudança no comportamento eleitoral fluminense, é preciso olhar para
as diferentes regiões do estado. A Baixada Fluminense é o exemplo mais
dramático. No segundo turno de 2002, a região deu a Lula quase 85% dos votos
válidos. Em 2004, Lindbergh Farias foi eleito prefeito de Nova Iguaçu e
reeleito em 2008. Duas décadas depois, a Baixada se tornou terreno adverso: na
última eleição presidencial, Bolsonaro obteve mais de 60% na região. Nova
Iguaçu deu 63% à direita. Duque de Caxias votou 58% em Bolsonaro.
A
deterioração do voto progressista na Baixada pode ser explicada pela crise de
segurança pública. A região registrou taxas de letalidade violenta superiores a
70 homicídios por 100 mil habitantes no início dos anos 2000. Embora os números
tenham caído significativamente — o estado registrou em 2024 o menor número de
mortes desde 1991, com 3.809 vítimas, uma redução de 53% em relação a 2002, a
percepção de insegurança persiste. Crimes como roubo de celular mantêm a
sensação de insegurança elevada. A questão da segurança pública será central no
debate de 2026.
No
Leste Metropolitano, Niterói foi a única grande cidade onde Lula venceu no
segundo turno de 2022, com 51,21%. Maricá ficou praticamente empatada. São
Gonçalo deu 55% à direita. Na Região Serrana, Nova Friburgo foi de 69% para
Lula em 2002 para 59% para Bolsonaro na última eleição presidencial.
Teresópolis votou 68% na direita em 2022. Petrópolis deu 62% a Bolsonaro. Cabo
Frio votou 67% na direita.
A
capital fluminense ilustra bem a trajetória do eleitorado. No segundo turno de
2002, Lula obteve 81% dos votos na cidade. Em 2018, Haddad obteve apenas 32%.
Em 2022, Lula alcançou 47,34%. Se esse movimento continuar, Lula pode vencer na
capital em 2026. No Norte Fluminense, Campos foi de 75% para Lula em 2002 para
63% para Bolsonaro em 2022. No Sul, Angra dos Reis foi de 58% para Lula e para
67% para Bolsonaro.
Segundo
pesquisa Quaest de dezembro de 2025, a base do governo Lula na Câmara dos
Deputados conta com 164 parlamentares (32%). Os independentes somam 144
deputados (28%). A oposição reúne 180 parlamentares (35%).
A
bancada de deputados federais do Rio é muito parecida com a divisão que se vê
no próprio Congresso Nacional, entre governistas, independentes e oposição. Dos
46 deputados, cerca de 15 integram a base do governo (33% da bancada). Entre os
mais votados em 2022 estão Talíria Petrone (PSOL), com 198.548 votos, Tarcísio
Motta (PSOL), com 159.928 votos, e Lindbergh Farias (PT), com 152.219 votos. A
oposição bolsonarista conta com cerca de 12 deputados, liderados por General
Pazuello (PL), que obteve 205.324 votos. O centro tem como destaque Daniela do
Waguinho (União), a mais votada do estado com 213.706 votos. Daniela foi
ministra do Turismo no início do governo Lula e atualmente é vice-líder do
governo no Congresso.
A
eleição de Eduardo Paes ao governo do estado pode mudar esse cenário. Um
candidato competitivo e próximo de Lula no topo da chapa estadual tende a puxar
votos para candidatos a deputado federal da base governista. Se a tendência
verificada entre 2018 e 2022 se mantiver, o Rio de Janeiro pode oferecer uma
bancada mais robusta para o eventual quarto mandato do presidente Lula,
contribuindo de forma mais significativa para a governabilidade do próximo
governo.
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O Rio precisa debater mais seu próprio futuro
Na
última segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026, eu estive no IFICS, o Instituto
de Filosofia e Ciências Sociais, ali no Largo de São Francisco. A região é
bonita, mas decadente, como grande parte do centro histórico do Rio de Janeiro.
Na
frente dos portões do instituto tem uma comunidade de mendigos. A universidade
fornece água, dá acesso ao banheiro e talvez até apoie com algum alimento. Eu
fico dividido. Existe um lado humano, imediato, de não virar as costas. Mas
também acho que, desse jeito, isso prejudica a universidade e não resolve o
problema das próprias pessoas. A população mais pobre precisa de uma
universidade limpa, funcional, com boa imagem, que imponha respeito e ofereça
perspectiva. E eu sinceramente não sei se manter a cena permanente de abandono
na porta do instituto ajuda alguém.
O
prédio do IFICS é bonito, mas a estrutura é precária. E tem um detalhe que me
incomoda muito: não tem nenhuma lanchonete dentro do prédio. Não dá nem para
comprar uma água, nem um café.
E em
período de férias o lugar fica meio abandonado, vazio. Eu sempre acho que seria
interessante que, mesmo nas férias, o instituto fosse ocupado de alguma
maneira, com atividades, cursos, qualquer coisa que mantivesse vivo aquele
espaço público.
Eu fui
para um evento organizado pelo Laboratório de Partidos, Eleições e Política
Comparada (Lappcom-UFRJ), sob coordenação geral da Mayra Goulart, para
apresentar o Guia Lappcom – Eleições gerais 2026, volume 1: A estrutura da
disputa e as clivagens territoriais. O volume compila resultados iniciais do
monitoramento realizado ao longo de 2025 e 2026 pelo Grupo de Trabalho de
Política Local do laboratório e reúne textos de alguns participantes da mesa,
inclusive um artigo meu.
Participaram
da mesa o economista Mauro Osório (UFRJ), o cientista político Theófilo
Rodrigues, o Paulo Baía, sociólogo da UFRJ, o Henrique Silveira, subsecretário
de tecnologia social da cidade do Rio, o jornalista Leandro Rezende, da CBN, e
o cientista político Carlos Serrano.
Antes
do evento começar, o grupo de debatedores aguardou um pouco dentro da sala do
professor Michel Gherman, professor de sociologia da UFRJ, e a gente conversou
ali dentro. O Michel é autor de um livro muito interessante, O não judeu judeu:
A tentativa de colonização do judaísmo pelo bolsonarismo, em que ele mostra as
artimanhas da extrema direita para capturar identidades e tentar reescrever
tradições a seu favor.
Na
minha intervenção, eu falei do incômodo de ver o Rio preso num atraso político
e social que já dura décadas. Lembrei que o estado concentra quase 90% da
produção nacional de petróleo e tem o segundo maior PIB do país, mas ainda
assim convive com desigualdade brutal e uma classe política que, ao longo de
décadas, foi se tornando predatória, com hábitos mafiosos.
E eu
toquei num ponto que, para mim, é um dos principais: a falta de atenção que os
próprios eleitores fluminenses e cariocas dão às lutas políticas dentro do
estado do Rio de Janeiro. A gente discute muito o país, discute Brasília,
discute o barulho nacional, mas não olha com a mesma seriedade para o Rio como
projeto.
Nesse
ponto eu fiz a comparação com o Ceará, um estado que eu acompanho muito. Eu
considero que lá existe um ecossistema de comunicação e discussão política
muito mais sofisticado. Tem podcasts especializados em política cearense, tanto
no jornalismo corporativo quanto nos meios independentes. As pessoas discutem o
Ceará. Existe uma conversa pública mais permanente sobre o estado, seus rumos e
seus conflitos.
Aqui no
Rio, muitas vezes, a gente vive esse vazio. E, se a gente quiser mudar o estado
de coisas, a cidadania fluminense vai precisar se organizar melhor e,
sobretudo, criar mais espaços de discussão.
Com a
possível eleição de Eduardo Paes, abre-se uma janela de oportunidade para o Rio
iniciar uma nova fase, com um projeto verdadeiro de desenvolvimento e uma
cidadania mais engajada. Mas eu disse no evento que não adianta o eleitor se
conformar apenas em votar em Eduardo Paes e derrotar o bolsonarismo no estado
do Rio. É preciso participar, oferecer propostas, se organizar, fazer pressão
por ideias e por rumo.
Fonte:
Por Miguel do Rosário, em O Cafezinho

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