João
Carlos Loebens: Eleições e a máquina de histeria moral das elites
Um
discurso tem se repetido nos momentos de crise política da história brasileira:
o combate à corrupção como imperativo moral supremo. Cabe lembrar que o
discurso moral sempre é verdadeiro, mas a prática cotidiana pode estar
completamente dissociada do discurso, como na famosa hipocrisia dos fariseus
descrita na Bíblia. Esse discurso moralista é a ferramenta predileta da elite
(na verdade, oligarquia econômica e midiática), para justificar aquilo que ela
sempre executou quando perde o jogo democrático eleitoral: o Golpe de Estado.
O
combate à corrupção é um valor inquestionável na sociedade. Por outro lado, a
corrupção real, sistêmica e estrutural do Brasil, desde as Capitanias
Hereditárias, é o sistema onde uma minúscula oligarquia (elite de super ricos),
historicamente avessa à meritocracia e à livre concorrência, se apropria do
Estado e dos recursos nacionais para manter seus privilégios seculares. Essa
oligarquia, acostumada a governar para si, desenvolveu uma narrativa poderosa
para camuflar e legitimar seus privilégios e dominação: o discurso moral.
A
Proclamação da Independência, de autoria do herdeiro direto do poder colonial,
foi um movimento de afastamento das ameaças liberais e republicanas que
poderiam surgir de uma independência popular. Décadas depois, a Proclamação da
República, em 1889, longe de ser uma revolução cívica, foi um Golpe Militar de
oligarquias agrárias e elites insatisfeitas com o Império, mantendo intactas as
estruturas de concentração de riqueza e a consequente desigualdade social
geradora da pobreza.
O
século XX segue na mesma toada. Getúlio Vargas, ao criar as bases de um Estado
social e industrial, tornou-se o maior alvo dessa elite oligárquica. Suas
conquistas – a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), a criação da Justiça do
Trabalho, da Petrobrás, do BNDES, e a instituição do salário-mínimo –
representavam uma afronta à ordem oligárquica de concentração de riqueza, pois
repartiam renda, direitos e poder simbólico com a classe trabalhadora. Eleito
democraticamente em 1951, Getúlio foi perseguido e difamado, sob campanha feroz
da “imprensa conservadora” (da oligarquia/elite de sempre), que o acusava de
imensa corrupção, criando a expressão “mar de lama”, que desembocou no trágico
suicídio em 1954.
O ciclo
repetiu-se com os sucessores. Juscelino Kubitschek, com seu plano de metas que
industrializou o país e construiu Brasília, foi incessantemente atacado por
suposto “esbanjamento” e corrupção, tentando-se desmoralizar a euforia
desenvolvimentista. João Goulart, herdeiro político de Vargas, ao propor as
Reformas de Base (agrária, urbana, bancária) e ampliar a organização popular,
foi pintado como um comunista corrupto e incompetente, um perigo à moralidade e
à família, abrindo caminho para o Golpe Militar de 1964. Jango se viu obrigado
a fugir para salvar a vida de sua equipe e apoiadores.
O
regime ditatorial subsequente se autoproclamou uma “revolução moral” para
limpar a corrupção e o comunismo, mas serviu para impor um projeto econômico
excludente, manter e reforçar a concentração de renda e riqueza, e reprimir
qualquer ameaça à ordem oligárquica existente.
A
redemocratização não desmontou essa lógica, com a oligarquia financeirizada e
midiática usando o combate à corrupção como arma seletiva. A campanha de
Fernando Collor em 1989, com seu discurso moralizante de “caçador de marajás”,
foi amplamente beneficiada por uma manipulação grosseira da Rede Globo, que
editou o debate decisivo contra Lula e a favor de Collor. No dia da eleição, a
Globo transmitiu por horas a fio a cobertura do sequestro encenado do
empresário Abílio Diniz, criando um clima de comoção e desestabilização. O
ápice foi a exibição da “pasta de denúncias” vazia contra Lula, um teatro
midiático mentiroso com profundo impacto eleitoral. Collor, o moralista da
Globo, caiu dois anos depois por corrupção, revelando a hipocrisia do uso do
discurso moral dissociado da prática. Atualmente Collor encontra-se condenado
por corrupção, cumprindo prisão domiciliar em função de enfermidade.
O
impeachment da Presidenta Dilma Rousseff em 2016 foi o ápice contemporâneo
dessa estratégia moralista e golpista. Sem crime de responsabilidade ou
enriquecimento ilícito, com um discurso moral inflamado pela grande mídia e por
setores do judiciário, criou-se a atmosfera de “crise ética” necessária para
depor um governo democrático e legitimamente eleito, que, apesar de suas
alianças contraditórias, ameaçava interesses oligárquicos ao manter políticas
de inclusão social e não se curvar totalmente às agendas econômicas mais
radicais do capital financeiro.
A
Operação Lava Jato foi o aparato técnico e midiático perfeito para essa
narrativa moralista e golpista. Ao criminalizar a política e o Estado como um
todo, criou a imagem de um país inteiro corrompido, mas direcionou seu fogo
para setores específicos do espectro político, destruindo projetos nacionais e
deslegitimando a democracia representativa. O verdadeiro alvo nunca foi o
combate da corrupção, mas a reconquista total do Estado por uma oligarquia que
se vê como a dona do país e é subserviente a interesses externos, especialmente
interesses estadunidenses.
O
padrão histórico se confirma: após cada golpe, a corrupção não é combatida,
direitos são reduzidos, políticas sociais desmontadas e o Estado retorna ao seu
papel tradicional de garantidor dos privilégios econômicos da oligarquia do
país.
E assim
chegamos ao presente. A cada eleição em que se anuncia a derrota do campo
político da elite oligárquica, o mesmo roteiro é reativado: a histeria moral
com acusações de corrupção seletiva (p.ex. do STF que puniu golpistas), e
apelos por intervenção das forças “puras” contra a “bandidagem” no poder. O
objetivo real e não declarado é emplacar o campo político preferido e escolhido
pela elite oligárquica.
Portanto,
quando se ouve o grito histérico contra a corrupção vindo da tradicional mídia
hegemônica e dos púlpitos financeiros, a primeira pergunta a fazer não é sobre
a veracidade de eventuais crimes (que devem, em um Estado de Direito sério, ser
investigados e punidos), mas sobre a função política desse discurso neste
momento. Quem ele beneficia? Quais são as pessoas que representam a “força
pura” que irá substituir a “bandidagem” no poder? Que projeto de país ele
pretende viabilizar? A Lava e Vaza Jato podem servir de inspiração para as
respostas.
Ficou
famosa uma frase de campanha do Bill Clinton a presidente dos Estados Unidos:
“É a economia, estúpido”. Ela buscava focar no que realmente importava para o
eleitor estadunidense, a economia do país. Considero o termo “estúpido” meio
forte, mas vem “importado” da frase usada nos Estados Unidos. No
Brasil, o núcleo do conflito está no controle do Estado e dos limites da
democracia. A formulação para a situação brasileira, fazendo analogia à frase
estadunidense, poderia ser: “Não é a corrupção, é Golpe de Estado, estúpido”.
Sempre
foi.
É isso
que a elite oligárquica brasileira tenta reacender quando perde no voto.
Enquanto o combate à corrupção continuar sendo um discurso moral, distanciado
da prática, o Brasil seguirá preso ao seu ciclo histórico mais perverso: o da
democracia tolerada apenas quando não ameaça os privilégios oligárquicos
internos e externos.
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Imperialismo zumbi, produto de um
capitalismo senil. Por Rodrigo Lucas Pereira
O
retorno de Donald Trump às manchetes globais, vociferando ameaças de invasão a
Cuba, orquestrando encenações judiciais contra Nicolás Maduro e mais
recentemente falando abertamente em anexação da Groenlândia, evoca, à primeira
vista, um forte sentimento de déjà vu. Para o observador apressado,
os Estados Unidos parecem estar apenas espanando a poeira da velha Doutrina
Monroe. É o mesmo imperialismo de sempre, dizem. Contudo, ao ajustarmos a lente
analítica sobre esses eventos de janeiro de 2026, algo fundamental não se
encaixa na moldura clássica.
A
retórica é agressiva, mas a execução é errática. As sanções e ameaças não vêm
acompanhadas daquele planejamento meticuloso de ocupação territorial ou da
lógica férrea de exploração produtiva que marcou o século XX. O que vemos são
ações espasmódicas, teatrais e desconectadas de qualquer estratégia de longo
prazo. Não estamos mais diante do “Imperialismo Clássico”, impulsionado por um
projeto de nação. O que enfrentamos hoje é o Imperialismo Zumbi: um corpo de
guerra formidável que continua a caminhar e a morder, mas que agora opera
desprovido da racionalidade estratégica (o “cérebro”) que um dia o criou.
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O Cérebro Morto
Para
entender a ausência de comando, é preciso voltar à tese central de Paulo
Ghiraldelli em Capitalismo 4.0: a hegemonia hoje é do capital
financeiro, e ele não tem pátria. A velha burguesia industrial precisava
organizar o “burgo” (infraestrutura, escolas, estabilidade social) para lucrar.
Já a elite financeira e da infosfera lucra com fluxos globais, volatilidade e
algoritmos. Para esses agentes, a “saúde” do território nacional tornou-se
irrelevante. Houve um descolamento: quem detém o dinheiro não tem mais
interesse em gerir a nação.
É
fundamental não confundir a presença de bilionários do Vale do Silício no
governo com um “novo projeto de país”. Eles não ocuparam a Casa Branca para
atuar como estadistas ou para planejar o futuro da sociedade americana. Eles
estão lá apenas para garantir que o Estado não regule seus monopólios e para
capturar o orçamento militar em contratos de IA e energia, impulsionados pelo
pânico de perder a corrida tecnológica para a China. Eles não operam os botões
da política para construir hegemonia, mas para garantir o saque. Ninguém,
absolutamente ninguém nesse núcleo de poder que sequestrou a Casa Branca, tem
um projeto de nação.
Trump
opera, de fato, como um showman, mas seria um erro confundi-lo com
um mero bufão inofensivo. Sua performance constante não é uma cortina de fumaça
para esconder a política; o espetáculo é a própria política.
Em um
Estado que perdeu a capacidade de entregar melhorias materiais, a função do
líder deixa de ser administrativa e passa a ser puramente instintiva. Trump não
governa para resolver crises, ele as encena para saciar a fome de conflito de
sua base neofascista. Ele é o mestre de cerimônias do colapso, cujo único
projeto é manter a tensão alta o suficiente para que ninguém perceba que o
navio está à deriva. O showman não constrói; ele mantém o público entretido
enquanto o teatro pega fogo.
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A Mordida
Essa
mutação na base econômica alterou a natureza da intervenção externa. No
capitalismo industrial clássico, a exportação de capitais exigia a exportação
casada da superestrutura: para garantir o lucro fixo da ferrovia ou da mina, o
imperialismo precisava transplantar seu aparato jurídico e manter o controle
político-militar — a infraestrutura chegava, e a superestrutura vinha junto
para garanti-la. Hoje, sob a hegemonia do capital financeiro que entra e sai
dos países conforme a conveniência dos algoritmos e das políticas neoliberais,
o imperialismo dispensa a custosa administração colonial. Ele não precisa mais
governar a periferia; precisa apenas garantir que ela não atrapalhe o fluxo ou
gere volatilidade lucrativa.
A
recente operação na Venezuela ilustra essa lógica macabra: tratou-se de um
sequestro, não de uma ocupação. Mesmo após a prisão de Maduro, quem segue
governando em Caracas é sua vice-presidente, enquanto a própria ExxonMobil já
declarou a inviabilidade de explorar o petróleo local naquele contexto. O
objetivo não era a conquista territorial para a produção, mas o espetáculo
punitivo e o caos pontual. O Zumbi morde e segue vagando, sem interesse em
gerir as ruínas que deixa para trás.
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O Corpo Vivo
Contudo,
decretar o fim do imperialismo apenas pela ausência de um projeto seria um erro
fatal. Se o cérebro morreu, o corpo do gigante continua funcional. O complexo
industrial-militar, a CIA e a hegemonia do dólar são estruturas construídas ao
longo de um século. Elas possuem uma inércia própria; não evaporam só porque a
elite mudou.
Aqui, a
realidade material se impõe. Recorrendo à sabedoria popular: se tem focinho de
porco, rabo de porco e pé de porco, é porco. Quando Trump mobiliza frotas ou
asfixia economias, ele opera com a materialidade de um Estado imperialista. O
aparato está lá, disponível e letal. Para a vítima na ponta final — o
venezuelano ou o cubano — a distinção acadêmica entre “projeto” e “prática” é
irrelevante. A dor é real. O Zumbi pode não saber para onde vai, mas sua
mordida continua sendo mortal.
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O Espasmo
Se na
América Latina a ação é predatória e performática, no Ártico o comportamento do
Zumbi revela outra faceta de sua patologia: o pânico. A recente retórica sobre
a anexação da Groenlândia não deve ser lida como um novo ciclo de expansão
imperialista clássica, mas como um reflexo defensivo desesperado.
Ali, o
objetivo não é “conquistar para desenvolver”, mas “tomar para negar”. Diante da
movimentação concreta da Rússia e da China nas novas rotas polares, o sistema
nervoso do império dispara um alerta de sobrevivência. O corpo militar se move
para o Norte não porque possui um projeto para a região, mas porque teme ser
engolido pelas potências que, ao contrário dele, mantêm seus cérebros
estratégicos funcionando.
A
tentativa de compra ou anexação da ilha funciona como uma barricada de última
hora. O Zumbi percebe que seu antigo “mundo unipolar” está encolhendo e, num
espasmo de autopreservação, tenta fechar fisicamente as portas do Ocidente. É a
geopolítica da negação: ocupar o espaço apenas para garantir que o “outro” não
o ocupe. O império não avança para construir o futuro; ele se entrincheira
violentamente para tentar impedir que o futuro chegue.
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A Fome
Mas se
o cérebro morreu, a ocupação acabou e os movimentos externos são apenas reações
de pânico, o que mantém esse organismo colossal operando com tanta violência? A
resposta reside na anatomia residual do império: o Complexo Industrial-Militar,
agora fundido às gigantes da tecnologia.
Mesmo
sem direção estratégica, esse corpo possui um estômago insaciável. Com um
orçamento anual que ultrapassa os 900 bilhões de dólares, a máquina de guerra
americana opera por uma inércia aterrorizante. Para justificar sua existência,
o corpo precisa de movimento constante. E aqui entra o novo apetite: as Big
Techs não querem apenas vender anúncios; elas disputam ferozmente
fatias desse orçamento para contratos de vigilância, drones autônomos e
sistemas de IA.
É essa
aliança que torna o Zumbi tão perigoso. Diferente do soldado racional, que luta
para atingir um objetivo político e depois descansa, a máquina de guerra luta
para se alimentar. Sem uma Guerra Fria real, ela fabrica ameaças fantasmas e
espetáculos de força para garantir a renovação dos contratos. O Zumbi ataca não
porque tem um plano de vitória, mas porque seu metabolismo — agora digital e
financeiro — exige a violência contínua para não colapsar.
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A Troca de Cérebro
Em
última análise, o conceito de “Imperialismo Zumbi” diagnostica uma patologia
terminal do Ocidente: a dissolução da Razão de Estado no coração do capitalismo
financeiro. Enquanto analistas ainda buscam estratégias ocultas nas ações da
Casa Branca, a realidade do Capitalismo 4.0 revela que o comando estratégico
está vazio.
A
burguesia financeira, ao descolar seus interesses do território nacional,
condenou o Estado americano a se tornar uma casca oca. O “cérebro” migrou para
a nuvem global, deixando para trás um “corpo” militar colossal, armado até os
dentes, mas guiado apenas por instintos primitivos: a fome de audiência interna
e a voracidade do saque imediato.
Isso
não decreta, contudo, o fim da política, mas o colapso de sua forma
liberal-burguesa. Para sobreviver ao século XXI, é preciso olhar além dos
escombros. Enquanto o capitalismo financeiro produz zumbis erráticos presos ao
curto prazo, o socialismo com capacidade de planejamento estratégico e economia
de projetamento — exemplificadas pela China — provam que a Razão de Estado não
morreu. No cenário de apocalipse institucional que vivemos, a política
capitalista tornou-se um morto-vivo, mas a história continua sendo escrita por
aqueles que tiveram a coragem de transplantar o cérebro.
Fonte:
Outras Palavras

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