sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

João Carlos Loebens: Eleições e a máquina de histeria moral das elites

Um discurso tem se repetido nos momentos de crise política da história brasileira: o combate à corrupção como imperativo moral supremo. Cabe lembrar que o discurso moral sempre é verdadeiro, mas a prática cotidiana pode estar completamente dissociada do discurso, como na famosa hipocrisia dos fariseus descrita na Bíblia. Esse discurso moralista é a ferramenta predileta da elite (na verdade, oligarquia econômica e midiática), para justificar aquilo que ela sempre executou quando perde o jogo democrático eleitoral: o Golpe de Estado.

O combate à corrupção é um valor inquestionável na sociedade. Por outro lado, a corrupção real, sistêmica e estrutural do Brasil, desde as Capitanias Hereditárias, é o sistema onde uma minúscula oligarquia (elite de super ricos), historicamente avessa à meritocracia e à livre concorrência, se apropria do Estado e dos recursos nacionais para manter seus privilégios seculares. Essa oligarquia, acostumada a governar para si, desenvolveu uma narrativa poderosa para camuflar e legitimar seus privilégios e dominação: o discurso moral.

A Proclamação da Independência, de autoria do herdeiro direto do poder colonial, foi um movimento de afastamento das ameaças liberais e republicanas que poderiam surgir de uma independência popular. Décadas depois, a Proclamação da República, em 1889, longe de ser uma revolução cívica, foi um Golpe Militar de oligarquias agrárias e elites insatisfeitas com o Império, mantendo intactas as estruturas de concentração de riqueza e a consequente desigualdade social geradora da pobreza.

O século XX segue na mesma toada. Getúlio Vargas, ao criar as bases de um Estado social e industrial, tornou-se o maior alvo dessa elite oligárquica. Suas conquistas – a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), a criação da Justiça do Trabalho, da Petrobrás, do BNDES, e a instituição do salário-mínimo – representavam uma afronta à ordem oligárquica de concentração de riqueza, pois repartiam renda, direitos e poder simbólico com a classe trabalhadora. Eleito democraticamente em 1951, Getúlio foi perseguido e difamado, sob campanha feroz da “imprensa conservadora” (da oligarquia/elite de sempre), que o acusava de imensa corrupção, criando a expressão “mar de lama”, que desembocou no trágico suicídio em 1954.

O ciclo repetiu-se com os sucessores. Juscelino Kubitschek, com seu plano de metas que industrializou o país e construiu Brasília, foi incessantemente atacado por suposto “esbanjamento” e corrupção, tentando-se desmoralizar a euforia desenvolvimentista. João Goulart, herdeiro político de Vargas, ao propor as Reformas de Base (agrária, urbana, bancária) e ampliar a organização popular, foi pintado como um comunista corrupto e incompetente, um perigo à moralidade e à família, abrindo caminho para o Golpe Militar de 1964. Jango se viu obrigado a fugir para salvar a vida de sua equipe e apoiadores.

O regime ditatorial subsequente se autoproclamou uma “revolução moral” para limpar a corrupção e o comunismo, mas serviu para impor um projeto econômico excludente, manter e reforçar a concentração de renda e riqueza, e reprimir qualquer ameaça à ordem oligárquica existente.

A redemocratização não desmontou essa lógica, com a oligarquia financeirizada e midiática usando o combate à corrupção como arma seletiva. A campanha de Fernando Collor em 1989, com seu discurso moralizante de “caçador de marajás”, foi amplamente beneficiada por uma manipulação grosseira da Rede Globo, que editou o debate decisivo contra Lula e a favor de Collor. No dia da eleição, a Globo transmitiu por horas a fio a cobertura do sequestro encenado do empresário Abílio Diniz, criando um clima de comoção e desestabilização. O ápice foi a exibição da “pasta de denúncias” vazia contra Lula, um teatro midiático mentiroso com profundo impacto eleitoral. Collor, o moralista da Globo, caiu dois anos depois por corrupção, revelando a hipocrisia do uso do discurso moral dissociado da prática. Atualmente Collor encontra-se condenado por corrupção, cumprindo prisão domiciliar em função de enfermidade.

O impeachment da Presidenta Dilma Rousseff em 2016 foi o ápice contemporâneo dessa estratégia moralista e golpista. Sem crime de responsabilidade ou enriquecimento ilícito, com um discurso moral inflamado pela grande mídia e por setores do judiciário, criou-se a atmosfera de “crise ética” necessária para depor um governo democrático e legitimamente eleito, que, apesar de suas alianças contraditórias, ameaçava interesses oligárquicos ao manter políticas de inclusão social e não se curvar totalmente às agendas econômicas mais radicais do capital financeiro.

A Operação Lava Jato foi o aparato técnico e midiático perfeito para essa narrativa moralista e golpista. Ao criminalizar a política e o Estado como um todo, criou a imagem de um país inteiro corrompido, mas direcionou seu fogo para setores específicos do espectro político, destruindo projetos nacionais e deslegitimando a democracia representativa. O verdadeiro alvo nunca foi o combate da corrupção, mas a reconquista total do Estado por uma oligarquia que se vê como a dona do país e é subserviente a interesses externos, especialmente interesses estadunidenses.

O padrão histórico se confirma: após cada golpe, a corrupção não é combatida, direitos são reduzidos, políticas sociais desmontadas e o Estado retorna ao seu papel tradicional de garantidor dos privilégios econômicos da oligarquia do país.

E assim chegamos ao presente. A cada eleição em que se anuncia a derrota do campo político da elite oligárquica, o mesmo roteiro é reativado: a histeria moral com acusações de corrupção seletiva (p.ex. do STF que puniu golpistas), e apelos por intervenção das forças “puras” contra a “bandidagem” no poder. O objetivo real e não declarado é emplacar o campo político preferido e escolhido pela elite oligárquica. 

Portanto, quando se ouve o grito histérico contra a corrupção vindo da tradicional mídia hegemônica e dos púlpitos financeiros, a primeira pergunta a fazer não é sobre a veracidade de eventuais crimes (que devem, em um Estado de Direito sério, ser investigados e punidos), mas sobre a função política desse discurso neste momento. Quem ele beneficia? Quais são as pessoas que representam a “força pura” que irá substituir a “bandidagem” no poder? Que projeto de país ele pretende viabilizar? A Lava e Vaza Jato podem servir de inspiração para as respostas.

Ficou famosa uma frase de campanha do Bill Clinton a presidente dos Estados Unidos: “É a economia, estúpido”. Ela buscava focar no que realmente importava para o eleitor estadunidense, a economia do país. Considero o termo “estúpido” meio forte, mas vem “importado” da frase usada nos Estados Unidos.   No Brasil, o núcleo do conflito está no controle do Estado e dos limites da democracia. A formulação para a situação brasileira, fazendo analogia à frase estadunidense, poderia ser: “Não é a corrupção, é Golpe de Estado, estúpido”.

Sempre foi.

É isso que a elite oligárquica brasileira tenta reacender quando perde no voto. Enquanto o combate à corrupção continuar sendo um discurso moral, distanciado da prática, o Brasil seguirá preso ao seu ciclo histórico mais perverso: o da democracia tolerada apenas quando não ameaça os privilégios oligárquicos internos e externos.

¨      Imperialismo zumbi, produto de um capitalismo senil. Por Rodrigo Lucas Pereira

O retorno de Donald Trump às manchetes globais, vociferando ameaças de invasão a Cuba, orquestrando encenações judiciais contra Nicolás Maduro e mais recentemente falando abertamente em anexação da Groenlândia, evoca, à primeira vista, um forte sentimento de déjà vu. Para o observador apressado, os Estados Unidos parecem estar apenas espanando a poeira da velha Doutrina Monroe. É o mesmo imperialismo de sempre, dizem. Contudo, ao ajustarmos a lente analítica sobre esses eventos de janeiro de 2026, algo fundamental não se encaixa na moldura clássica.

A retórica é agressiva, mas a execução é errática. As sanções e ameaças não vêm acompanhadas daquele planejamento meticuloso de ocupação territorial ou da lógica férrea de exploração produtiva que marcou o século XX. O que vemos são ações espasmódicas, teatrais e desconectadas de qualquer estratégia de longo prazo. Não estamos mais diante do “Imperialismo Clássico”, impulsionado por um projeto de nação. O que enfrentamos hoje é o Imperialismo Zumbi: um corpo de guerra formidável que continua a caminhar e a morder, mas que agora opera desprovido da racionalidade estratégica (o “cérebro”) que um dia o criou.

<><> O Cérebro Morto

Para entender a ausência de comando, é preciso voltar à tese central de Paulo Ghiraldelli em Capitalismo 4.0: a hegemonia hoje é do capital financeiro, e ele não tem pátria. A velha burguesia industrial precisava organizar o “burgo” (infraestrutura, escolas, estabilidade social) para lucrar. Já a elite financeira e da infosfera lucra com fluxos globais, volatilidade e algoritmos. Para esses agentes, a “saúde” do território nacional tornou-se irrelevante. Houve um descolamento: quem detém o dinheiro não tem mais interesse em gerir a nação.

É fundamental não confundir a presença de bilionários do Vale do Silício no governo com um “novo projeto de país”. Eles não ocuparam a Casa Branca para atuar como estadistas ou para planejar o futuro da sociedade americana. Eles estão lá apenas para garantir que o Estado não regule seus monopólios e para capturar o orçamento militar em contratos de IA e energia, impulsionados pelo pânico de perder a corrida tecnológica para a China. Eles não operam os botões da política para construir hegemonia, mas para garantir o saque. Ninguém, absolutamente ninguém nesse núcleo de poder que sequestrou a Casa Branca, tem um projeto de nação.

Trump opera, de fato, como um showman, mas seria um erro confundi-lo com um mero bufão inofensivo. Sua performance constante não é uma cortina de fumaça para esconder a política; o espetáculo é a própria política.

Em um Estado que perdeu a capacidade de entregar melhorias materiais, a função do líder deixa de ser administrativa e passa a ser puramente instintiva. Trump não governa para resolver crises, ele as encena para saciar a fome de conflito de sua base neofascista. Ele é o mestre de cerimônias do colapso, cujo único projeto é manter a tensão alta o suficiente para que ninguém perceba que o navio está à deriva. O showman não constrói; ele mantém o público entretido enquanto o teatro pega fogo.

<><> A Mordida

Essa mutação na base econômica alterou a natureza da intervenção externa. No capitalismo industrial clássico, a exportação de capitais exigia a exportação casada da superestrutura: para garantir o lucro fixo da ferrovia ou da mina, o imperialismo precisava transplantar seu aparato jurídico e manter o controle político-militar — a infraestrutura chegava, e a superestrutura vinha junto para garanti-la. Hoje, sob a hegemonia do capital financeiro que entra e sai dos países conforme a conveniência dos algoritmos e das políticas neoliberais, o imperialismo dispensa a custosa administração colonial. Ele não precisa mais governar a periferia; precisa apenas garantir que ela não atrapalhe o fluxo ou gere volatilidade lucrativa.

A recente operação na Venezuela ilustra essa lógica macabra: tratou-se de um sequestro, não de uma ocupação. Mesmo após a prisão de Maduro, quem segue governando em Caracas é sua vice-presidente, enquanto a própria ExxonMobil já declarou a inviabilidade de explorar o petróleo local naquele contexto. O objetivo não era a conquista territorial para a produção, mas o espetáculo punitivo e o caos pontual. O Zumbi morde e segue vagando, sem interesse em gerir as ruínas que deixa para trás.

<><> O Corpo Vivo

Contudo, decretar o fim do imperialismo apenas pela ausência de um projeto seria um erro fatal. Se o cérebro morreu, o corpo do gigante continua funcional. O complexo industrial-militar, a CIA e a hegemonia do dólar são estruturas construídas ao longo de um século. Elas possuem uma inércia própria; não evaporam só porque a elite mudou.

Aqui, a realidade material se impõe. Recorrendo à sabedoria popular: se tem focinho de porco, rabo de porco e pé de porco, é porco. Quando Trump mobiliza frotas ou asfixia economias, ele opera com a materialidade de um Estado imperialista. O aparato está lá, disponível e letal. Para a vítima na ponta final — o venezuelano ou o cubano — a distinção acadêmica entre “projeto” e “prática” é irrelevante. A dor é real. O Zumbi pode não saber para onde vai, mas sua mordida continua sendo mortal.

<><> O Espasmo

Se na América Latina a ação é predatória e performática, no Ártico o comportamento do Zumbi revela outra faceta de sua patologia: o pânico. A recente retórica sobre a anexação da Groenlândia não deve ser lida como um novo ciclo de expansão imperialista clássica, mas como um reflexo defensivo desesperado.

Ali, o objetivo não é “conquistar para desenvolver”, mas “tomar para negar”. Diante da movimentação concreta da Rússia e da China nas novas rotas polares, o sistema nervoso do império dispara um alerta de sobrevivência. O corpo militar se move para o Norte não porque possui um projeto para a região, mas porque teme ser engolido pelas potências que, ao contrário dele, mantêm seus cérebros estratégicos funcionando.

A tentativa de compra ou anexação da ilha funciona como uma barricada de última hora. O Zumbi percebe que seu antigo “mundo unipolar” está encolhendo e, num espasmo de autopreservação, tenta fechar fisicamente as portas do Ocidente. É a geopolítica da negação: ocupar o espaço apenas para garantir que o “outro” não o ocupe. O império não avança para construir o futuro; ele se entrincheira violentamente para tentar impedir que o futuro chegue.

<><> A Fome

Mas se o cérebro morreu, a ocupação acabou e os movimentos externos são apenas reações de pânico, o que mantém esse organismo colossal operando com tanta violência? A resposta reside na anatomia residual do império: o Complexo Industrial-Militar, agora fundido às gigantes da tecnologia.

Mesmo sem direção estratégica, esse corpo possui um estômago insaciável. Com um orçamento anual que ultrapassa os 900 bilhões de dólares, a máquina de guerra americana opera por uma inércia aterrorizante. Para justificar sua existência, o corpo precisa de movimento constante. E aqui entra o novo apetite: as Big Techs não querem apenas vender anúncios; elas disputam ferozmente fatias desse orçamento para contratos de vigilância, drones autônomos e sistemas de IA.

É essa aliança que torna o Zumbi tão perigoso. Diferente do soldado racional, que luta para atingir um objetivo político e depois descansa, a máquina de guerra luta para se alimentar. Sem uma Guerra Fria real, ela fabrica ameaças fantasmas e espetáculos de força para garantir a renovação dos contratos. O Zumbi ataca não porque tem um plano de vitória, mas porque seu metabolismo — agora digital e financeiro — exige a violência contínua para não colapsar.

<><> A Troca de Cérebro

Em última análise, o conceito de “Imperialismo Zumbi” diagnostica uma patologia terminal do Ocidente: a dissolução da Razão de Estado no coração do capitalismo financeiro. Enquanto analistas ainda buscam estratégias ocultas nas ações da Casa Branca, a realidade do Capitalismo 4.0 revela que o comando estratégico está vazio.

A burguesia financeira, ao descolar seus interesses do território nacional, condenou o Estado americano a se tornar uma casca oca. O “cérebro” migrou para a nuvem global, deixando para trás um “corpo” militar colossal, armado até os dentes, mas guiado apenas por instintos primitivos: a fome de audiência interna e a voracidade do saque imediato.

Isso não decreta, contudo, o fim da política, mas o colapso de sua forma liberal-burguesa. Para sobreviver ao século XXI, é preciso olhar além dos escombros. Enquanto o capitalismo financeiro produz zumbis erráticos presos ao curto prazo, o socialismo com capacidade de planejamento estratégico e economia de projetamento — exemplificadas pela China — provam que a Razão de Estado não morreu. No cenário de apocalipse institucional que vivemos, a política capitalista tornou-se um morto-vivo, mas a história continua sendo escrita por aqueles que tiveram a coragem de transplantar o cérebro.

 

Fonte: Outras Palavras

 

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