Miguel
do Rosário: Extrema direita e grande imprensa fazem trégua para mentir sobre
“rombo fiscal”
Com o
governo sem muitos flancos vulneráveis na economia, é previsível que a oposição
reacionária bata na tecla do “rombo fiscal”.
Trata-se
de um tema em que ela encontra convergência com a grande mídia, o que para ela
é politicamente muito oportuno. A mesma direita que hoje se encontra sob
controle de suas franjas extremistas — para as quais a mídia é “inimiga” sempre
que não se curva a delírios conspiratórios — tem dificuldade de construir
pautas comuns com a imprensa liberal.
A
macroeconomia surge como terreno fértil para essa reaproximação. É o espaço em
que extrema direita e grande mídia conseguem fazer as pazes e dar-se as mãos
para atacar o governo popular.
Nos
Estados Unidos, algo semelhante ocorre sempre que o tema é guerra contra o Sul
Global. A agressividade da mídia liberal contra Donald Trump tende a
desaparecer quando ele decide atacar o Irã, apadrinhar o genocídio em Gaza,
alongar a guerra na Ucrânia, hostilizar a China ou sequestrar o presidente da
Venezuela.
A
política externa imperialista funciona como eixo de consenso entre elites
políticas e midiáticas. No Brasil, papel equivalente é desempenhado pelo
alarmismo fiscal.
Dessa
vez, porém, a estratégia corre o risco de cair no ridículo. O déficit primário
do setor público em 2025 foi de R$ 55 bilhões, segundo o Banco Central —
equivalente a 0,4% do PIB. É difícil enxergar nisso qualquer ameaça real à
sustentabilidade fiscal do país.
O PIB
brasileiro fechou 2025 em R$ 12,7 trilhões. A receita total do governo federal
chegou a R$ 2,94 trilhões no ano passado. Diante de números com essa magnitude,
um déficit de R$ 55 bilhões não chega nem perto de configurar um “rombo”.
Há
ainda um detalhe que tem sido convenientemente omitido. Consideradas as
exceções autorizadas judicialmente, o déficit efetivo cai para algo próximo de
R$ 13 bilhões, cerca de 0,10% do PIB.
Com
esse resultado, a propósito, o governo cumpre rigorosamente a meta do chamado
“arcabouço fiscal”, um objetivo que muita gente tratou como inalcançável (e ele
talvez tenha sido, de fato, uma aposta arriscada do ministro Haddad, mas que
ele ganhou ao final).
A
comparação internacional também nos ajuda a mensurar a magnitude real do
déficit fiscal do país.
Segundo
dados do Fundo Monetário Internacional, calculados para o governo geral com
metodologia padronizada própria, praticamente todas as grandes economias operam
com déficits primários significativamente maiores que o brasileiro.
Em
2025, os Estados Unidos registraram déficit de 3,80% do PIB. A França, 3,39%. O
Reino Unido, 1,82%. A Alemanha, 1,61%. O Japão, 0,86%. O Brasil, pelo mesmo
critério, aparece com 0,61% do PIB.
Mesmo
sob uma metodologia mais rigorosa do que a usada nas regras fiscais domésticas,
o país figura entre aqueles com menor desequilíbrio primário. Mais importante:
o próprio FMI projeta melhora gradual e constante dos números fiscais
brasileiros, com superávits a partir de 2027 — na contramão da maioria das
grandes economias, que devem continuar registrando déficits por muito mais
tempo.
Há
outra pegadinha no debate fiscal, envolvendo os precatórios. Durante os anos do
governo Bolsonaro, os pagamentos foram artificialmente represados por meio da
Emenda Constitucional nº 114, conhecida como emenda do calote. Entre 2019 e
2022, a média anual paga em precatórios foi de aproximadamente R$ 66,7 bilhões.
A
partir de 2023, o governo Lula passou a enfrentar o passivo acumulado. A média
anual de pagamentos subiu para cerca de R$ 114,7 bilhões.
É
sempre mais fácil fechar as contas do mês através do milenar artifício de
simplesmente não pagá-las.
Caso o
governo Bolsonaro tivesse quitado os precatórios nos valores devidos em 2022, o
resultado primário daquele ano teria sido substancialmente pior. O mesmo vale
para os cortes realizados em saúde e educação, que comprimiram despesas
essenciais e melhoraram artificialmente o resultado fiscal do período.
Durante
o governo Bolsonaro, os gastos federais com saúde ficaram praticamente
estagnados em valores reais, oscilando entre R$ 154 bilhões e R$ 163 bilhões
por ano. A partir de 2023, já no governo Lula, houve recomposição expressiva:
R$ 186 bilhões em 2023, R$ 216 bilhões em 2024 e R$ 231 bilhões em 2025, todos
ajustados pela inflação de hoje. Entre o último ano de Bolsonaro e 2025, o
aumento real acumulado foi de aproximadamente 45%.
Na
educação, a trajetória é semelhante. Entre 2019 e 2022, o gasto federal direto
caiu 21% em termos reais, passando de R$ 39 bilhões para R$ 30,7 bilhões. Em
2025, esse valor subiu para R$ 41,7 bilhões — um aumento de 36% em relação a
2022.
O
Fundeb, fundo federal que financia parte dos gastos estaduais e municipais com
educação básica, teve expansão ainda mais expressiva. Saltou de R$ 38,3 bilhões
em 2022 para R$ 60,7 bilhões em 2025, em valores reais de dezembro de 2025 — um
aumento de quase 60% no período.
Também
se mostraram infundados os rumores, inclusive em setores à esquerda, de que o
governo Lula “acabaria” com o Benefício de Prestação Continuada. O que ocorreu
foi o oposto. Em valores reais de dezembro de 2025, as despesas com o BPC
cresceram de R$ 102,9 bilhões em 2023 para R$ 118,3 bilhões em 2024 e R$ 129
bilhões em 2025, com aumento também em percentual do PIB. O programa foi
ampliado e consolidado como pilar da proteção social, sem provocar qualquer
desequilíbrio fiscal relevante.
Esse
conjunto de dados ajuda a entender por que a falácia do “rombo fiscal” precisa
ignorar o contexto. O governo Lula pagou passivos represados, recompôs
políticas sociais, ampliou gastos em saúde, educação e assistência, preservou
reservas internacionais…
Sim,
ainda teve isso.
Ao
contrário do governo Bolsonaro, que queimou cerca de US$ 50 bilhões de nossas
reservas ao longo de seu mandato, Lula elevou o estoque delas de US$ 324
bilhões ao final de 2022 para US$ 358,23 em dezembro do ano passado, um aumento
de US$ 33 bilhões.
Os
desafios fiscais existem e são conhecidos, sobretudo na dinâmica previdenciária
e no custo dos juros da dívida pública. Nada disso, porém, autoriza chamar de
“rombo” um déficit primário inferior a meio ponto percentual do PIB, com
expectativas sólidas de melhora nos próximos anos.
• O DESAFIO FISCAL BRASILEIRO. Por Juliano
Giassi Goularti e Élida Graziane Pinto
A crise
fiscal brasileira não é um episódio conjuntural, mas a expressão prolongada de
um arranjo político-econômico que distribui de forma profundamente desigual os
custos e benefícios do Estado. Há décadas, a gestão das contas públicas é
capturada por grupos organizados em frações do capital financeiro, setores
empresariais dependentes de desonerações e grandes devedores do fisco. Esse
cenário político e econômico se torna ainda mais evidente quando observamos
como o orçamento público se estrutura e como suas decisões são tomadas.
Do
ponto de vista da economia política, o fundo público é uma arena de disputa
entre classes e frações de classe. No Brasil, essa disputa não ocorre em
condições simétricas. O capital financeiro, por meio da autonomia operacional
do Banco Central e do imperativo da política monetária restritiva, assegura a
reprodução de sua posição dominante mediante a transferência contínua de renda
via juros. O empresariado beneficiado por renúncias fiscais opera dentro do
Estado através de conselhos, comissões, frentes parlamentares e bancadas
temáticas, ocupando posições estratégicas que Nicos Poulantzas identifica como
pontos nodais da materialidade estatal, locais onde se travam as batalhas pela
orientação dos aparelhos econômicos. Já os grandes devedores do fisco utilizam
as contradições internas do Estado, em especial o sistema
jurídico-administrativo, para prolongar litígios e inviabilizar a cobrança
efetiva da dívida ativa, mostrando como diferentes aparelhos estatais podem
funcionar de modo divergente e fragmentado, mas sempre dentro de um horizonte
que preserva a dominância do capital.
É
justamente essa engrenagem, composta por incentivos regressivos, privilégios
fiscais e frágil cobrança tributária, que torna o desafio fiscal crônico e
impede que o Estado cumpra plenamente sua função redistributiva. No plano
federal, a soma da manutenção de juros elevados, dos regimes especiais de
tributação e dos créditos tributários inscritos em dívida ativa, soma R$ 4,58
trilhões, sendo R$ 581,5 bilhões em gastos tributários (2025), R$ 3,01 trilhões
em dívida ativa (2024) e R$ 984,8 bilhões em juros da dívida pública (2025),
revendo, de forma contundente, a arquitetura da captura do fundo público
brasileiro. Seguindo Poulantzas, os juros elevados, os gastos tributários
federais massivos e a perpetuação da dívida ativa não paga não são apenas
políticas econômicas: são mecanismos de classe institucionalizados.
Em
termos comparativos, a inibição da arrecadação federal, cujo estoque alcançou
R$ 3,592 trilhões no somatório de dívida ativa e renúncias fiscais, equivale a
cerca de 44% da dívida líquida do setor público (R$ 8,1 trilhões) e a 36,3% da
dívida bruta do governo geral (R$ 9,9 trilhões). Daí se explica a correlação
entre frágil gestão da receita pública e a assunção cada vez mais célere de
despesas financeiras, até porque a renda e a riqueza subtributadas encontram
remuneração segura e relativamente elevada nos juros que corrigem a dívida
pública.
O
resultado desse arranjo é um Estado, cuja capacidade fiscal está
permanentemente asfixiada por mecanismos que beneficiam grupos já altamente
concentradores de renda e riqueza. Esse padrão de funcionamento também ajuda a
explicar por que reformas estruturantes tão frequentemente fracassam no Brasil.
Não se trata apenas de dificuldades técnicas ou de falta de consenso político,
mas da própria configuração de poder inscrita na materialidade estatal. As
reformas tributárias, por exemplo, evitam enfrentar a regressividade do sistema
ou revisar os privilégios concedidos aos setores mais organizados da economia.
Da mesma forma, propostas de modernização da cobrança da dívida ativa ou de
revisão dos gastos tributários esbarram na capacidade de veto dessas frações de
classe que se beneficiam do status quo. A resistência à mudança, portanto, não
é acidental: ela é produzida pela própria estrutura do Estado enquanto
condensação das correlações de força no interior do bloco no poder.
É
ilustrativo desse conflito distributivo o seguinte diagnóstico empreendido no
voto do Ministro Vital do Rego, que relatou as Contas da Presidência da
República de 2023:
o
crescimento da renúncia tributária incidente sobre a previdência social e o não
pagamento de tributos previdenciários têm contribuído para o déficit do RGPS.
Desse modo, ouso dizer que revisitar ou promover nova reforma previdenciária
não reduzirá o déficit da previdência se não forem reduzidas a renúncia
tributária previdenciária e a inadimplência de pagamentos de tributos
previdenciários mediante atuação incisiva dos entes fiscalizadores.
Em
paralelo, a manutenção de juros elevados produz impactos macroeconômicos que
retroalimentam o próprio desequilíbrio fiscal. A política monetária restritiva
encarece o investimento, desestimula a atividade econômica e reduz a
arrecadação tributária, criando um círculo vicioso em que o Estado arrecada
menos e gasta mais com juros, ampliando sua dependência de cortes orçamentários
e de novas renúncias fiscais para setores pressionarem por competitividade
artificial. Assim, a austeridade não corrige desequilíbrios: ela os
intensifica. E essa intensificação, longe de ser um efeito colateral, constitui
parte do próprio funcionamento do Estado sob hegemonia financeira, na medida em
que legitima a narrativa de que “não há recursos” para políticas sociais, mas há
abundância de recursos para remunerar a dívida pública.
Os
números de R$ 581,5 bilhões em gastos tributários, R$ 984,8 bilhões em juros e
R$ 3,0102 trilhões em dívida ativa não são apenas estatísticas: são a expressão
material de um padrão estrutural de poder inscrito no Estado brasileiro e
revelam como frações dominantes do capital moldam, orientam a ação estatal. Ao
mesmo tempo em que o fundo público é apropriado por grupos altamente
organizados, o espaço fiscal para políticas distributivas se estreita,
aprofundando desigualdades já estruturais. Trata-se de um arranjo institucional
que, longe de ser neutro, opera seletivamente para garantir a reprodução
ampliada das posições de poder econômico, especialmente do capital financeiro e
dos grupos empresariais mais capazes de influenciar as engrenagens decisórias.
A crise fiscal, portanto, não é um dado técnico, nem resultado de
irresponsabilidade do gasto social; ela é expressão de uma disputa de classes
inscrita na própria lógica do Estado brasileiro.
Não
basta tornar o imposto progressivo, é preciso reverter a lógica de partilha do
fundo público, pois o problema fiscal brasileiro não se resume à forma como o
Estado arrecada, mas sobretudo a quem ele serve quando gasta. A progressividade
tributária, embora necessária, é insuficiente se o orçamento continuar
estruturado para garantir a reprodução do capital por meio dos juros elevados,
da renúncia fiscal sistemática e da permissividade com grandes devedores. Em
termos críticos, essa dinâmica revela que o Estado, ainda que dotado de
relativa autonomia, funciona como condensação material das relações de força
entre classes, orientando sua ação para assegurar as condições de acumulação.
Superar
esse quadro implica enfrentar não apenas diagnósticos contábeis, mas a própria
estrutura de poder que captura o orçamento, condição necessária para
reconstruir a função pública do fundo estatal. Em outras palavras, sem disputar
a forma como o fundo público é distribuído, a progressividade fiscal corre o
risco de ser apenas uma camada cosmética sobre um Estado que permanece
funcional à reprodução das desigualdades.
Fonte:
Brasil 247

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