quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Fabiana Moraes: De férias com o golpe

Janeiro: mês de férias, de renovação, de torcer por um tempo melhor.

Janeiro: mês de tentativa de golpes, de invasão de país, de sequestro de ditador, de massacres.

É foda constatar, mas nos últimos tempos parece que roubaram de vez o nosso desejoso “Feliz Ano Novo”. Aquele troço-sentimento-coisa que a gente, por mais clichê que seja, deseja de verdade e vem carregado de fé, de “força na peruca!”, de vontade real de amor e paz.

Mas, nos últimos anos, nem bem tiramos a roupa branca dividida em 3x no cartão de crédito e lá vem bomba: invasão do Capitólio nos EUA (2021); destruição da Praça dos Três Poderes no Brasil (2023); invasão e sequestro de Nicolás Maduro (e sua mulher, Cilia Flores, 2026); massacre de milhares de pessoas no Irã (também 2026).

Acompanhei todos estes eventos dentro do time de quem tem a sorte de estar de férias nesse começo de ano, quando há um sol para cada brasileira/o. É uma experiência meio doida e um bocado estranha: lá está você aproveitando um belíssimo dia à beira mar, embalada pelo citado troço-sentimento-coisa típico do Réveillon, quando no seu celular, na rádio e na televisão, começam a pipocar imagens de depredação, gritaria e mortes.

Costumo estar no litoral norte de Alagoas neste período de férias/começo de ano. Nesta temporada 2025/2026, com os EUA invadindo a Venezuela para sequestrar Maduro e Flores, percebi que já posso pedir música no Fantástico: foi a terceira vez que estava banhada de mar  quando precisei pausar a fantasia fugaz da tranquilidade para acompanhar tiro, porrada e bomba.

<><> 6 de Janeiro de 2021

Era ele de novo, Donald Trump, a prova cabal de que dinheiro (muito dinheiro) não dá educação nem racionalidade a ninguém. Foi justamente o presidente dos EUA quem inaugurou, na manhã do dia 6 de janeiro de 2021, esse período recente e tenebroso do reality que poderíamos  chamar de De Férias com o Golpe. Há cinco anos, vivíamos o fim do seu primeiro mandato quando ele realizou um comício chamado “Save America” no parque The Ellipse, próximo à Casa Branca. Ali, o fanfarrão que perdera as eleições para Joe Biden incentivou os apoiadores a marcharem até o Capitólio.

Como vocês sabem, não deu outra:  a sede do Congresso em Washington foi invadida por centenas de apoiadores-baderneiros, que furaram o bloqueio policial,  destruíram propriedade histórica, vandalizaram gabinetes e ameaçaram de morte congressistas que precisaram ser evacuados às pressas. Cinco pessoas morreram.

Naquele ano, com os pés sujos de areia do mar e cheirando a protetor solar, comecei a ver em looping as cenas nas redes sociais. Minha primeira e inesquecível constatação:  como levante de maioria branca é diferente de levante de maioria preta, né gente? Centenas de pessoas entraram no edifício enquanto eram apenas observadas pela segurança. Poucos meses antes, ali nos mesmos EUA, centenas de integrantes do Black Lives Matter foram recebidos com bombas de gás lacrimogêneo, enquanto protestavam nas ruas. Tem um texto sobre o privilégio de ser branco e depredador nesse evento aqui.

<><> 8 de Janeiro de 2023

Pois bem: dois anos depois daquele início de ano que, sem dúvidas, marca para além de simbolicamente o declínio do império americano (lê aqui), lá estava esta jornalista e professora voltando feliz de uma caminhada, pela manhã, na praia. Era 8 de janeiro e o mar estava maravilhoso. Quando cheguei em casa, o marido de olhos arregalados me perguntou: “você está acompanhando?”

Não, em nome de manter um pouco do meu juízo são, principalmente depois de tanta lapada na pandemia e de toneladas de trabalho e mensagens no zap, a minha prioridade não era checar o noticiário. Mas aí a onda de camisas amarelas e vidros quebrados se levantou de Brasília para alcançar todo o mapa brasileiro, incluindo os balneários ainda decorados com frases como “Feliz 2023”.

Caducaram cedíssimo, cedíssimo.

Os estranhos autodenominados patriotas – que adoram copiar as modinhas dos EUA – estouraram vidraças, destruíram obras de arte, bateram em pessoas, sentaram na cadeira da presidência do Supremo. Queriam um golpe de Estado. Queriam rasgar a Constituição e instaurar uma ditadura militar. Tinha até plano de assassinato de presidente, vice-presidente, ministro do Supremo correndo em salas refrigeradas de Brasília. Cafonas, truculentos e criminosos até o talo. Não conseguiram atingir o objetivo, mas a ferida segue aberta: tem peixe graúdo ainda sonhando com anistia.

Era janeiro, de novo. O mês em que a mal ajambrada democracia liberal ocidental quase caiu duas vezes, em dois continentes, com apenas dois anos de diferença.

<><> 3 de janeiro de 2026

Chega 2026 e Trump inacreditavelmente é novamente o presidente dos EUA. Antes de acordar no último dia 3 de janeiro, eu estava feliz de voltar ao mar. Mas lamentava também como a praia de  Japaratinga está sendo devorada pela mesma lógica que já deixou outros balneários brasileiros aos bagaços: extrativismo puro, acumulação sem limites, natureza como recurso, território como negócio. Os moradores locais trabalham nos resorts que ocuparam suas terras, servindo drinques para turistas que fotografam o “intocado”. O desmatamento é assustador, mas segue invisível para quem vem apenas passar o fim de semana. Quase nenhum (a) empresário (a) local investe em descarte correto do lixo. É como na lógica trumpista: drill, baby, drill.

Pois bem: dia 3 de janeiro, 2026, eu me preparava para colher as dezenas de cajus que nascem ao redor da casa alugada quando uma notificação chegou: Nicolás Maduro, o homem que também teimou em não reconhecer a derrota nas urnas (mas, ao contrário de Trump, conseguiu se manter no poder) foi detido e levado para Nova York. O pessoal que usa punhos de renda chama de captura, mas foi sequestro mesmo. O ditador venezuelano, acusado de crimes contra a humanidade, foi retirado à força de Caracas. Trinta e dois seguranças cubanos mortos, fato que foi pouco ou nada levantado pela imprensa brasileira.

Janeiro de novo. O mês da esperança, da renovação, do “agora vai”.

Janeiro, o mês das rupturas, das tentativas de reescrever a história pela força.

Fui até os poucos cajueiros que restam na região proferindo uma série de “puta que pariu” aleatórios e vindo profundamente da alma. Lá estava eu pausando novamente a fantasia fugaz de tranquilidade e tentando entender o quanto aquele óbvio atentado ao direito internacional iria repercutir aqui no Brasil, que faz fronteira com a Venezuela.

Puro suco de classe média (e jornalista) sofre: eu adoraria só pensar nos cajus, mas os EUA mataram dezenas de cubanos e inauguravam a era Trump 2.0. Eu adoraria só pensar na tabela das marés, mas, além da manobra do presidente dos EUA e suas ameaças imperialistas, tinha mais: no Irã, os protestos contra o regime teocrático e o Líder Supremo, aiatolá Ali Khamenei, iam escalando e as palavras “milhares” e “mortes” começaram a surgir com frequência nas telas.

Nos dias 8 e 9 de janeiro, cidades como Fardis (a 40 quilômetros de Teerã) viram suas ruas banhadas de sangue. São mais de 5 mil mortos, segundo registros oficiais das autoridades locais. Mas se falam também em mais de 16 mil mortos. Na Palestina destruída, foram 67 mil mortos em mais de dois anos de ataques de Israel. Trump – infelizmente, o bronzeado mais presente nos últimos verões – prepara-se para fazer da área mais um balneário à disposição dos EUA e seus aliados.

(…)

E cá estamos eu e vocês, de férias com os golpes e uma geopolítica que se lixa para nosso “feliz ano novo”; cá estamos nós com um sol em cada bolso, um calor desgraçado e a certeza de que o descanso é tanto um privilégio quanto uma quimera – assim como o reconhecimento da humanidade de gente como cubanos e palestinos.

Janeiro se torna pura contradição: é o mês dos desejos de paz, dos abraços apertados na virada, das promessas de um ano melhor. Mas é também o mês em que a violência política se fez espetacularizar nos últimos anos, como se o recomeço do calendário fosse uma espécie de  convite para que se tente romper com o jogo estabelecido (no caso do Irã, em um regime horrendo para as mulheres, torço que caia).

O mês já já termina e a gente volta da praia bronzeada, cheia de maresia e com a sensação de que teve uma pausa. Mas o mundo não parou (assim como nosso zap). O mundo nunca pára, e a gente sabe disso. Mas tentamos, pelo menos alguns dias, elaborar a alegria fugaz que, até então, era permitida nessas viradas de ano, de calendário, de desejos, de “agora vai”.

Janeiro, o mês que começa com fogos coloridos no céu.

Janeiro, o mês que se acostumou ao som das bombas.

•        Uma oração urgente para que Deus, Nossa Senhora, Oxalá e todos os caboclos da mata tenham misericórdia do Brasil

1. Que os autointitulados “homens do bem”, aqueles que atropelam e assassinam tendo a certeza da impunidade, sejam exemplarmente punidos: que as mortes de pessoas como o gari Laudemir de Souza , assassinado em agosto por um brucutu chamado Rene da Silva Nogueira, sejam lembradas não somente como tragédias, mas como pontos de partida para uma mudança social mais profunda, na qual deixemos de acreditar naqueles que se dizem “do bem” como disfarce, hipocrisia ou estratégia. Que não vejamos mais garis, entregadores, professoras etc,  sendo mortos sob a gramática da violência descontrolada de quem se propaga como bom e inocente.

2. Que a imprensa comercial, Jesus seja louvado, cesse de esconder a incompetência de nomes escolhidos por clubes restritos de investidores para liderar nosso país, como Tarcísio de Freitas, do Republicanos, governador de São Paulo. Na cobertura da Folha de S.Paulo, por exemplo, o auditor Artur Gomes da Silva Neto, acusado em agosto de liderar esquema bilionário de propina dentro da Secretaria da Fazenda, não apareceu nas manchetes sendo relacionado ao governador, a quem respondia. Por outro lado, continuamos a ver no mesmo jornal manchetes como “Lula dividiu palco com suspeitas de tráfico” (mas o troféu do ano vai para o Metrópoles: Justiça bloqueia Porsche do patrão de ex-nora de Lula. O Come Ananás tirou uma onda aqui).

3. Aproveitar essa oração dirigida ainda a todos os caboclos para lembrar que a segurança pública em estados governados pela direita, como SP e RJ, também está aos frangalhos. Há alguns dias, a jornalista Natuza Nery disse, no podcast O Assunto, uma ótima frase a respeito: “se a questão fosse a direita governando, o Rio de Janeiro seria uma Suíça”. Pois é. A dificuldade de a esquerda lidar com a segurança pública – e ela tem mesmo, vide a Bahia – não deve ser confundida com o fato de a direita ter um bom desempenho na mesma área. A maior chacina que tivemos em nossa história não livrou – e nenhuma chacina livrará – as cidades de facções criminosas que se escondem também na Faria Lima.

4. Oremos, Nossa Senhora, para que a xenofobia internalizada dentro do próprio Brasil e que se espalha muito animada nas redes sociais seja exposta sem filtro e sem punhos de renda, exatamente pelo nome que tem. Ela conta com o apoio desavergonhado de governadores (como Jorginho Melo, do PL de SC), prefeitos (como o de Florianópolis, Topázio Neto, do PSD) e vereadores (como Mateus Batista, da mesma cidade, do União Brasil). Qualquer pessoa que a comete deve responder judicialmente pelos atos discriminatórios, mas especialmente aqueles que usam a máquina pública para espalhar discriminação. Gente com palco, poder, estrutura e voto.

5. Oxalá, meu pai, me acuda aí com essa: 2026 é ano de eleição presidencial, então te rogo que nossos jornais e jornalistas façam a lição de casa e, na cobertura política, lembrem que foi em grande parte o voto vindo dos “grotões” que livrou o Brasil de uma cambada criminosa, com plano de assassinato no bolso e interessada em golpear o país. Nunca é demais repetir aos colegas que confundem ter dinheiro com civilidade: o Brasil profundo está no Vivendas da Barra.

6. Aliás, peço licença: falando em voto e Nordeste, eu não poderia deixar de mandar aquele alô gostoso para Silvinei Vasques, ex-chefe da Polícia Rodoviária Federal à frente das ações que impediram nordestinos de irem votar para presidente em 2022. O caro Silvinei (assim como o fraco de sinapse Filipe Garcia Martins Pereira, ex-assessor internacional da Presidência e outros golpistas) desfruta de um novo status social: condenado. As pombagiras brindam a graça alcançada.

7. Nossa Senhora, escutai a nossa prece: que o intelectualíssimo Francisco Bosco consiga ter mais acesso à internet e, assim, se informar melhor sobre o que se passa no país. O que ele entendeu como uma “epidemia” de feminicídios (porque casos terríveis foram mais midiatizados recentemente) é a “normalidade” nacional há tempos. Desde março, os números mostram que, já em 2024, o aumento da violência contra mulheres explodiu. Este ano, casos violentíssimos aconteceram recorrentemente: em agosto, três mulheres foram assassinadas à beira-mar, na Bahia. Em setembro, Alicia Valentina, de apenas 11 anos, foi espancada dentro da escola porque disse não a um menino. Morreu dias depois. Em outubro, uma mulher foi estuprada dentro de um posto da polícia rodoviária em Pernambuco – não era o primeiro caso. Este mês, a cabeça de uma mulher de 88 anos foi encontrada dentro de uma sacola plástica, em Lajedo, no mesmo estado. Se os homens e meninos estão sofrendo e em crise, as mulheres seguem sendo destruídas – arrancam-lhes pernas e cabeças – por serem mulheres.

8. Volto a pedir que o machismo e a misoginia sejam atacados de frente: nas escolas, dentro de nossos lares e nas redes sociais. Que os red pills e os perfis que se dizem “anti-feministas” sejam responsabilizados pela propagação de discurso de ódio. Que todas as mulheres — cis ou trans — encontrem proteção, respeito e espaço para prosperar sem medo.

9. Santa Rita de Cássia, que nos ajuda nas causas impossíveis: te peço que a inteligência artificial nos ajude a organizar nosso agora e nosso futuro, mas que nunca nos faça esquecer da nossa capacidade de raciocinar e decidir por nós mesmas. Que o uso da IA seja um apoio, e não uma substituição da nossa autonomia, já tão esculhambada pelos modelos oferecidos pelas gigantes da tecnologia, turbinadas com os nossos dados – e, para entender melhor esse assunto central para a democracia, recomendo o livro A Era do Capitalismo de Vigilância, de Shoshana Zuboff, e assistir a este debate sobre ele.

10. Que o Brasil (FINALMENTE), com um imposto de renda mais justo, caminhe para uma reforma tributária que taxe os super-ricos (e super salários) e redistribua a riqueza. Que a justiça fiscal não seja encarada como uma conversa de boteco, idealista ou de gente ingênua: este ano, o 0,1% mais rico do país aumentou ainda mais a própria riqueza. Mas ainda tem muita gente babaca acreditando que o real problema do país é o Bolsa Família.

11. Nessa mesma energia, oremos para que todas as deusas deem muita saúde, energia e amor a gente como Rick Azevedo (vereador do PSOL no Rio de Janeiro). Sem ele e o trabalho de pessoas como a deputada Erika Hilton, do PSOL de São Paulo, não teríamos chegado até aqui na discussão sobre o fim da escala 6×1: a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou este mês uma Proposta de Emenda à Constituição, PEC, que assegura dois dias de descanso remunerado por semana, preferencialmente aos sábados e domingos, e estabelece a redução gradual da jornada máxima de trabalho para 36 horas semanais. Para se tornar realidade, o texto ainda precisa passar pela aprovação no plenário do Senado, tramitar na Câmara dos Deputados e ser sancionado ou vetado pelo presidente da República. Senhor, lembrai de todas as pessoas recebendo um salário mínimo e exaustas nos ônibus lotados e escutai as nossas preces.

12. Rogamos, mãe Oxum, que o Mounjaro, o medicamento celebridade vendido como a mais cara das canetas de emagrecimento, fique mais barato. Assim, personagens da República brasileira, como o ilustre senador Davi Alcolumbre, do União Brasil do Amapá (com salário bruto de R$ 46.366,19) não terão que passar pelo constrangimento de negociar o remédio com um pessoal suspeito de ligação com o PCC. Fica meio chato, né, senador?

13. Que o padre Júlio Lancellotti, da paróquia de São Miguel Arcanjo, no bairro da Mooca, em São Paulo, possa distribuir o pão. Que o pastor evangélico Gabriel Miranda, do bairro do Coqueiral, no Recife, continue distribuindo suas sementes. Que o Pai Ivo, do Terreiro de Xambá, em Olinda, deixe de ser constrangido por movimentos de evangélicos radicais. Que Exu possa ser celebrado por seus fiéis sem o risco de serem processados judicialmente.

14. Que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, receba, em dobro e em vida, aquilo que proporcionou a milhares de imigrantes, boa parte deles sem qualquer antecedente criminal e separados de suas famílias. Que seu terrível ataque a pessoas assassinadas (o cineasta Rob Reiner e sua esposa, Michelle Singer) abale com bastante força a sua popularidade mesmo dentro de seu partido. Canalha.

15. Por fim, rogo a todos os senhores e a todas as senhoras que o próximo ano nos traga saúde, amor, resiliência, tesão e borogodó. Que a gente consiga uns trocados e ajude a manter o lote de excelentes veículos de jornalismo que se propagam pelo país: em ano eleitoral e com as big techs lucrando muito através da propagação de notícias falsas, o bicho vai, de novo, pegar. Em vez de somente reclamar da imprensa, que se cultive entre nós a possibilidade de fortalecer o jornalismo local e nacional. Saravá: assim seja  ✨✨✨✨

Feliz 2026, pessoal.

 

Fonte: The Intercept
 

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